Família venezuelana luta por uma vida digna no Brasil

Com parentes passando necessidades no país de origem, mulheres batalham para conseguir dinheiro e ajudá-los. Milhares continuam a deixar a Venezuela em virtude da crise econômica. 

No dia 3 de dezembro de 2017, nascia em São Francisco do Sul a terceira filha de Geveglis Lameda, 35, a menina Katarina García. Se o destino fosse do jeito que a venezuelana sonhava, sua filha nasceria em uma cidade 4,5 mil quilômetros de onde deu à luz a Katarina.

Escassez de comida, falta de saúde básica e o mínimo de sossego para viver fizeram a zeladora deixar o país natal com suas outras duas filhas, Sarai García, 17, e Kimberly García, 8.

A criança vai demorar para entender os acontecimentos que acarretaram na vinda da família ao Brasil. Em setembro de 2015, a luta da família para viver na Venezuela terminou.

Sem muitas alternativas, Geveglis e as filhas arrumaram as malas com destino a um país que nos últimos meses expulsou mais de 1,2 milhão de venezuelanos só na cidade de Pacaraima, em Roraima, fronteira dos dois países. Porém, escolher o local perfeito não era uma opção em um momento tão doloroso.

Dos quase 32 milhões de habitantes, mais de três milhões saíram da Venezuela desde 2014, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), e este número tende a aumentar para mais de 5 milhões até o final de 2019.

No dia 23 de janeiro, o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, liderança da oposição, se autoproclamou “presidente interino”, sendo reconhecido nacionalmente por 50 chefes de Estado, como Brasil e Estados Unidos.

Quatro meses depois, Guaidó iniciou a fase final da sua tentativa de pôr fim ao governo de Nícolas Maduro. Os protestos do dia 30 de abril estavam marcados para o Dia dos Trabalhadores, mas ele adiantou a ofensiva.

A iniciativa foi derrotada pois Guaidó não tem o apoio da maioria dos militares, o exército venezuelano ainda está ao lado de Maduro.

A trajetória de Geveglis no Brasil havia apenas começado quando ela conseguiu um emprego como zeladora em uma escola de São Francisco do Sul. Trabalhando duro para trazer sustento à sua família, a venezuelana participou de uma cena que jamais esquecerá.

A mãe de um aluno questionava a instituição buscando entender o motivo de uma imigrante estar empregada com tantos brasileiros sem um carimbo na carteira de trabalho.

“Não sou imigrante, a minha nacionalidade é brasileira, sou casada com um brasileiro. Coloquei meu currículo e fui chamada, não tem nada a ver o pensamento daquela mãe”, relata.

A irmã de Geveglis, Shamary Yaneth García Lameda, 28 anos, também morava em Maracay, uma cidade de mais de 400 mil habitantes.

Em 2016, com a ascensão da crise chavista no país, ela teve uma doença visual que precisava de medicação contínua para tratamento, mas a situação no país estava crítica ao ponto de que ter duas refeições em um dia já era motivo de comemoração.

Shamary precisava de apoio médico, mas o acesso à saúde também era problemático. Como sua irmã já estava morando no Brasil, ela resolveu tentar a sorte no país em 2017.

Sanções pioram a situação

O professor de relações internacionais na Unisinos, Bruno Lima Rocha, destacou no artigo “Venezuela: a crise gerada pelos sucessivos bloqueios e sanções dos EUA” (06/04/2019), que as sanções são relacionadas ao terrorismo, tráfico de drogas, tráfico de pessoas, ações supostamente antidemocráticas, a violações de direitos humanos e a corrupção, relacionado a estatal petrolífera.

A arrecadação de impostos do governo venezuelano é 13% do PIB, no Brasil é 34% do PIB.
A primeira sanção ocorreu em virtude das preocupações dos EUA com a falta de cooperação venezuelana na guerra às drogas, em 2005.

Bruno ressaltou “que se há algo realmente elogioso nos governos chavistas, é o combate ao narcotráfico e a repressão aos crimes contra a economia popular”. As sanções econômicas tornaram a escassez de alimentos e insumos hospitalares muito mais grave.

Os protestos do dia 30 de abril foram divulgados por parte da imprensa como golpe, mas Juan Guaidó fracassou por não ter o apoio dos militares.

No dia 2 de maio, Maduro foi visto com centenas de soldados em uma base militar de Caracas, elogiou a lealdade do Exército e convocou os militares a se unirem em defesa do seu mandato.

São Francisco do Sul foi o destino escolhido por Geveglis porque seu marido é brasileiro, que trabalhava com fibra óptica fazendo um convênio entre Brasil e Venezuela.

Três anos após se conhecerem na cidade de Maracay, eles tiveram sua primeira filha, Kimberly, a segunda de Geveglis. O casal se distanciou na Venezuela assim que o trabalho do marido chegou ao fim.

Mas, ao chegar no Brasil, em 16 de setembro de 2015, ela conheceu a sogra e trouxe a filha para conhecer a avó paterna.

De acordo com o artigo 14 da Constituição brasileira, somente estrangeiros naturalizados que moram no Brasil há no mínimo quatro anos podem votar. Geveglis é a única dentre os familiares que possuem direito ao voto.

Votar em Jair Bolsonaro, um militar, assim como Hugo Chávez, ou votar no Partido dos Trabalhadores, que apoia o governo de Maduro? A escolha nas eleições de 2018 não foi nada fácil para a zeladora, mas ela acabou votando naquele que enxergava como uma via de escape em uma rodovia sem opção de seguir em frente: Jair Bolsonaro.

“Era ele ou o PT. Nós sabemos que o PT defende o Maduro e por isso está de acordo com o que está acontecendo na Venezuela”, destaca.

Não há nenhum registro que aponte para apoio de Fernando Haddad ao governo de Maduro. Porém, em maio, o PT soltou nota oficial dando apoio à manutenção de Maduro no poder.
Shamary cursou até o 5º ano de Administração.

 

No Brasil, não consegue estudar por causa da falta de certidão porque perdeu em um incêndio os documentos que estavam em sua residência. Seus estudos já não valem nada no país.

Apesar das dificuldades, Shamary precisou aprender a superá-las com ajuda de sua amiga, Elianny Rivera, 28 anos, que formada em psicopedagogia.

Na Venezuela, ela já trabalhava na área, mas no Brasil os baixos salários colocaram ela longe da profissão que ama. Seu marido chegou a trabalhar com o governo venezuelana.

“Caso não fizesse tudo que o governo ordenava, ele não podia conseguir benefícios, como uma casa e cesta básica”, disse.

Com duas filhas e já formada, Elianny não podia permanecer em seu país natal pois passava por muitas dificuldades. No dia 23 de março de 2019, Elianny decidiu se mudar para o Brasil graças ao apoio da amiga.

A historiadora Valdete Daufemback explica que o militarismo é inteiramente a representação do poder e é no aspecto militar que reinam o domínio das armas, do autoritarismo e da violência do Estado. “O Chávez foi um estadista do seu tempo”, afirma.

A assessora de imprensa do Centro de Direitos Humanos (CDH) Maria da Graça Bráz, Lizandra Carpes, destaca que os imigrantes contam com a própria sorte e a ajuda de amigos que vieram antes.

Não foram criadas políticas de acolhimento a imigrantes, e que por esta razão, fica nas mãos de Organizações Não Governamentais (ONGs) e outros movimentos fazerem os trabalhos.

O CDH tem por princípio a organização, formação e cobrança de políticas públicas para imigrantes. Lizandra dá apoio e assessoria para que os grupos que trabalham com a questão da imigração se organizem e promovam formações.

Sempre que é chamado, o Centro vai às instituições de ensino trabalhar o tema e cobrar do poder público políticas públicas, como já fez em audiências públicas.

Shamary acredita que muitas pessoas opinam sobre o que está acontecendo na Venezuela sem ter conhecimento do que realmente está havendo.

De acordo com ela, a mídia é culpada por não mostrar a verdade sobre o país. “Não vivi a hiperinflação como ela viveu, a crise como está agora, hoje em dia está muito pior”, ressalta.

Em agosto de 2018, cerca de dois mil brasileiros atacaram venezuelanos, queimando seus barracos e pertences e culminando com a saída de 1,2 milhão de venezuelanos do país.

Geveglis conta que o ataque era porque tinha muitos imigrantes roubando carnes e remédios, por isso ela não culpa as pessoas, alegando que o ato é uma forma de desespero. Porém, ela também destaca o lado dos venezuelanos.

“A gente não está migrando porque queremos, estamos migrando por necessidade. Não é passeio, e sim necessidade”, enfatiza.

As duas lamentaram que foram obrigadas a sair do país natal, mas sentem vontade de um dia ainda voltar a pisar em solo venezuelano. “A Venezuela é uma terra linda. Nós vivíamos perto do litoral”, lembra.

A mãe de Shamary, Flor Marina Ramírez, de 53, ficou solitária na Venezuela. Em meio a mais um apagão no país, um incêndio de grandes proporções atingiu a casa delas. No momento que as chamas queimavam os pertences da família, chorar foi a única coisa que Flor poderia fazer.

Enquanto ainda limpava as lágrimas, ela recebeu ajuda das filhas para ir ao Brasil. O incêndio foi no dia 7 de maio e ela veio para São Francisco do Sul em junho de 2017.

Incêndios, apagões, saques e confusões nas ruas venezuelanas foram divulgados na mídia.Dos 23 estados do país, 20 ficaram sem fornecimento de energia, afetando o fornecimento de água, transporte e serviços de telefonia e internet. A alimentação refrigerada estragou e pessoas morreram nas camas dos hospitais.

O governo de Maduro disse que o grande apagão de março foi sabotagem. O economista João Bertoli não descarta nenhuma hipótese. “Pode ter sido um acidente ou uma ação cibernética orquestrada. Os Estados Unidos tem como fazer isso”, acredita.

Elianny afirma que tem um dom para trabalhar com crianças, mas tem raiva de exercer sua profissão com um governo ineficiente como ela acredita ser o poder venezuelano.

“Não gosto de ir para escola e dar aulas a meninos com tanta decadência. Não podíamos sequer ir ao banheiro pois não tinha água. Nessas condições, não consigo trabalhar como docente e nem as crianças conseguem estudar”, lamenta.

Elianny diz que, em seu país natal, muitas mães não conseguem comprar material escolar para os filhos. A merenda consiste apenas em arroz com feijão, sendo que a qualidade do alimento deixa muitas crianças doentes. “Eu e outras mães preferimos não levar os filhos.”

Sarai García, 17 anos, acredita que no sistema de estudo venezuelano era mais complicado de tirar notas boas do que no Brasil. Ela relata que no seu país natal o governo sempre estava de olho em cada coisa que ela fazia, seja dentro ou fora da escola.

Outro ponto escolar que ela comenta é em relação aos uniformes, que são obrigatórios na Venezuela e opcionais em algumas instituições brasileiras.

“O único problema é que para eles [professores], os alunos são meio incapazes, deveriam acreditar mais no potencial dos alunos”, salienta.

Mesmo vivendo vários anos no Brasil, elas confessam que sempre vão ser consideradas estrangeiras. “Quando falam ‘você não é daqui’ a gente se sente excluída”, exemplifica Shamary.

Mesmo com tantas dificuldades que sofriam na Venezuela, elas ainda sonham em voltar para o país natal, mas para isso a situação precisa melhorar. Enquanto não acontece, elas tentam ser aceitas pelos brasileiros para não conviver com casos de preconceito.

Especialistas explicam a crise venezuelana

É o maior êxodo na história recente da América Latina, sendo que 2,4 milhões estão vivendo em países da América Latina e Caribe, segundo a agência ACNUR. Desde 2015, mais de 85 mil venezuelanos procuraram a Polícia Federal do Brasil para solicitar refúgio ou residência.

O professor da faculdade de direito da Universidade de São Paulo (USP), Alysson Mascaro, acredita que toda a crise social envolve um complexo de relações entre economia, política, ideologia e movimento de força.

Ele destaca que a economia do petróleo na Venezuela realizou uma dimensão geopolítica de repercussão mundial.

“Os EUA comandam uma ação notória de espoliação dos recursos petrolíferos, o que se soma ao combate ideológico ferrenho, local e internacional, ao bolivarianismo”, explica.

A correlação de forças internacionais não indica para uma intervenção militar justamente por causa da cobertura russa e chinesa, exceto se for um plano dos Estados Unidos.

Com a base de Alcântara entregue aos Estados Unidos, pode ser um plano da base ser uma porta de entrada à Venezuela. Para Valdete, a invasão da Venezuela pode significar uma porta para o domínio total dos EUA.

Segundo o João Bertoli, a Venezuela não é muito diferente do México, não é diferente do Brasil, nem dos outros países da América Latina. Explicou que aconteceu um agravo porque, além da crise econômica, a crise política se traduz num embargo que os EUA fazem a Venezuela.

Para Bertoli, a mídia guarda características da indústria cultural, e a indústria cultural tem como uma das características a tentativa de produzir consensos através da repetição. “Tanto é que eles repetem exaustivamente que o Maduro é um ditador”, explica.

O economista diz que a questão central da Venezuela é o petróleo, e que o papel da imprensa é manipular a opinião pública, ou seja, falam que Maduro é um ditador, omitindo informações justamente para a opinião pública não ter acesso.

Há 30 anos, a Venezuela enfrentou sua maior crise quando eclodiram confrontos entre a polícia e manifestantes, que marcaram os protestos contra o pacote neoliberal de Carlos Andrés Perez e o aumento das passagens de transporte público, em 1989.

O Caracazzo foi o início da queda do regime de Punto Fijo – um sistema político que perdurou na Venezuela até meados da vinda de Hugo Chávez, que eram três partidos e um mesmo programa.

Os partidos se revezavam no poder e praticamente administravam o rentismo petroleiro. Inicialmente eram três, mas logo um pulou fora por defender revolução cubana, e depois só ficaram dois.

O professor João afirmou que esse tempo todo eles insistiram na dependência do petróleo, e muito dessa dependência aconteceu porque a Venezuela foi isolada comercialmente.

Para João, o problema é que o país manteve durante muito tempo essa aliança com os EUA apenas, não se comunicava com outros países, criou uma dependência do petróleo.

Tem aquele ditado que o México fica muito longe de Deus e muito perto dos EUA. Para João, o mesmo vale para toda a América Latina.

Em parceria com o CDH, rodas de conversas nas escolas foram organizadas pelos professores da região. Existe o projeto “Imigrantes e refugiados-Desafios da casa comum”. A próxima oficina acontecerá nos dias 13 e 14 de setembro.

Texto: Gustavo Luzzani e Lucas Borba
Foto: Lucas Borba
Ilustração: Yan Nero
Conteúdo original do Primeira Pauta, edição 145 | Conteúdo produzido na disciplina de Jornal Laboratório, 7ª fase/2019

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