OPINIÃO – Educação em tempos de pandemia: sobre privilégios, desigualdades e desafios para o futuro

A participação das tecnologias digitais na educação em todos os níveis não é nova. Desde o final do século XX vivenciamos sua entrada paulatina na vida escolar e universitária de diferentes formas e em distintos graus de intensidade. Tanto é verdade que a expressão “inclusão digital” veio, nas últimas duas décadas, para o centro do debate educacional tendo, como pano de fundo, o reconhecimento de que a entrada inevitável das tecnologias nos processos de aprendizagem não ficaria imune às desigualdades no acesso e no uso dos dispositivos tecnológicos por parte das crianças, jovens e adultos. E assim fomos presenciando a chegada de computadores nas escolas, a criação de laboratórios de informática e a inclusão de matérias voltadas à “inclusão digital” nos currículos escolares, a distribuição de tablets como política educacional em escolas públicas ou como estratégia de captação de estudantes em instituições privadas, a introdução de plataformas virtuais de aprendizagem no cotidiano de cursos presenciais, o uso de blogs, redes sociais e serviços de streamming em atividades didático-pedagógicas etc.

Paralelamente, vimos surgir o Ensino à Distância (EaD), que funciona com lógicas e regras bastante próprias e que, não sem controvérsias e questionamentos constantes, vem sendo reconhecido como modalidade de acesso a diferentes níveis de educação formal, principalmente no ensino técnico, superior e de pós-graduação. O fato é que, ainda que imersas num campo de constantes questionamentos e debates, as possibilidades e agências tecnológicas no campo educacional vêm sendo comumente tratadas como sinal de inovação e de compromisso com a atualidade. Em outras palavras, a “imagem” que fazemos de uma instituição atualizada e inovadora inclui, obrigatoriamente, as tecnologias digitais e tudo aquilo que a cerca.

O início do ano letivo de 2020 foi marcado, contudo, por um conjunto de contingências que está notadamente ressituando esse debate. A pandemia causada pelo novo coronavírus (Covid-19) e as medidas restritivas que visam conter o contágio e, consequentemente, evitar a exaustão dos sistemas de saúde, afetaram de modo especial o campo educacional, desde a educação infantil até o ensino superior e de pós-graduação. A despeito das particularidades na forma com que cada país e estado tem atuado na contenção do vírus, a suspensão de aulas presenciais seguida ou não da adoção de estratégias de ensino remoto é uma realidade que, atualmente, atravessa todos os contextos.

É indiscutível, afinal, que os ambientes escolares estão entre os mais vulneráveis ao contágio descontrolado e que os prejuízos pedagógicos, cognitivos e emocionais de um possível adoecimento massivo de estudantes e professores são tão ou mais danosos do que os prejuízos decorrentes da suspensão das aulas presenciais.

Mais uma vez, sobretudo no Brasil, as desigualdades sociais vêm para o centro do problema. De um lado, instituições públicas e privadas se veem diante do desafio de encontrar saídas para o cumprimento dos calendários e das diretrizes legais vigentes para cada nível de ensino, mantendo os vínculos dos estudantes com a escola e com a aprendizagem. Do outro lado, na medida em que o período de isolamento se prolonga fica mais e mais evidente que parcelas significativas da população brasileira, nas mais diferentes regiões, ficam excluídas do processo educacional sem que as instalações físicas da escola estejam disponíveis, sem a oferta de material didático, sem transporte público. Mais do que isso, a crise sanitária e social decorrente da pandemia coloca em cena a centralidade que a escola – e as instituições de ensino de modo geral – possui na vida das comunidades: para além do direito fundamental à educação, para muitos a escola garante, também, segurança alimentar através da merenda e se constitui como espaço de vínculos, de afetos e de apoio emocional. 

Diante disso, enquanto grande parte das instituições privadas se ajusta ao novo cenário, preservando os calendários escolares e acadêmicos e adotando – não sem dificuldades e alguns prejuízos – modalidades de ensino remoto, mantendo os estudantes em atividade, a maioria das instituições públicas já acumula atrasos e perdas significativas, apesar do esforço e empenho de gestores, professores e equipes administrativas. Neste último caso, são muitas as situações desenhadas, da paralisação completa à mobilização de professoras que estão levando pessoalmente – muitas vezes com recursos próprios, realizando longos trajetos e às custas da sua própria saúde – o material e as orientações necessárias para que crianças e jovens realizem as atividades escolares.

Do ponto de vista pedagógico não há consenso, tampouco, sobre quais são as melhores saídas e estratégias para mitigar os prejuízos da suspensão das aulas presenciais. Esse debate tem rendido, inclusive, uma série de estudos, reflexões e publicações que colocam novas questões sobre a participação das tecnologias digitais na educação e, no limite, sobre o próprio Ensino à Distância. O que até então era facilmente tratado como inovação, como símbolo de um alinhamento entre o campo educacional e as demandas do contemporâneo, agora é colocado em xeque na medida em que se evidenciam as desigualdades de acesso às tecnologias educacionais e, mais do que isso, na medida em que se torna mister compreender que inovar no campo educacional transcende em muito uma perspectiva instrumental, centrada apenas no uso e no acesso aos dispositivos tecnológicos.

O fato é que o “lado B” da incorporação de plataformas e ferramentas de ensino remoto por parte de algumas instituições no país – principalmente as particulares, como já dito – teve como consequência, também, a precarização do trabalho docente diante da necessidade de aquisição de novas habilidades e de repensar estratégias didáticas e avaliativas, além do trabalho dobrado das equipes pedagógicas num cenário de iminentes cortes salariais cogitados como efeito da crise. Tanto é verdade que proliferam-se pelas redes sociais memes e gifs que transpõem para a linguagem do humor a “tragédia” do professor no contexto da pandemia, que se vê obrigado a “virar” youtuber. O humor, neste caso, cumpre sua função de contra-narrativa quando nos provoca a crítica sobre a instrumentalização da tecnologia no campo educacional.

Não há como negar, é claro, as vantagens, a relevância e a urgência da participação efetiva das tecnologias digitais no campo educacional. Afinal, a sociedade contemporânea é tão profundamente marcada pelas tecnologias que praticamente não vemos mais distinção ou separação entre o que é da ordem do “social” e o que é da ordem da “técnica”. Hoje, podemos dizer, quase todo fenômeno ou processo social pode ser pensado numa perspectiva sociotécnica. Contudo, pensar em tecnologias educacionais significa reconhecer que a posse ou o acesso aos objetos tecnológicos – sejam eles plataformas, aplicativos ou aparelhos – é apenas uma parte de um fenômeno cuja compreensão se situa na praxis educacional, isto é, na mútua fecundação entre teoria e prática. 

Sem dúvida, estamos tratando de um cenário complexo e multifacetado que se desenhou diante de nós quase sem aviso prévio e que, portanto, torna-se avesso a qualquer tentativa de generalização. 

Parece claro, no entanto, que a forma como escolas públicas e privadas têm enfrentado essa pandemia revelam as profundas desigualdades que marcam o acesso à educação como direito fundamental. Por outro lado, a adoção de modalidades e estratégias de ensino remoto, embora revele privilégios de classes, não é garantia de sucesso (*). No lugar de certezas, o que temos neste momento é mais uma oportunidade de “abrir as veias” da educação brasileira pra pensar que a atitude corajosa da professora que leva materiais e instruções nas casas dos seus alunos – geralmente pobres e habitantes de regiões periféricas – pode ser tão inovadora quanto o esforço de repensar aulas e avaliações para os ambientes online.

Arrisco dizer que vivemos um momento liminar na educação, onde a suspensão de algumas estruturas, tradições e modus operandi abre um espaço estratégico para revermos projetos e políticas educacionais, o conceito de inovação e o papel da escola na vida comunitária. Afinal, temos ouvido constantemente que a “normalidade” é algo que essa pandemia parece ter nos tirado. É difícil, portanto, pensarmos num retorno das atividades escolares tendo como parâmetro o que fazíamos antes desse cenário. O “retorno” – seja onde e como for – se dará, quem sabe, segundo outros paradigmas que se encontram, agora, em fase de franco debate e construção. Eis o nosso desafio.

 

(*) Devo parte dessa reflexão ao Grupo de Coordenadores da Faculdade Ielusc que se constitui como espaço permanente de debate e problematização do cenário atual, visando a construção coletiva de estratégias e alternativas para essa crise sem precedentes. 

 

 

Foto de capa: Freepik

Imagem de apresentação da autora: Bruna Coelho

Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplina Jornal Laboratório II, 7ª fase/2020.

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