Especialistas sugerem alternativas ao transporte rodoviário

A crise gerada em torno da greve dos caminhoneiros traz à tona a questão da dependência das rodovias no Brasil. Poucos dias sem caminhões rodando nas autoestradas foram suficientes para que surgissem as primeiras imagens de prateleiras de supermercados vazias e filas de carros nos postos de gasolina. Aulas foram canceladas por falta de alimentação e hospitais tiveram que priorizar atendimentos. Especialistas sugerem que o cenário poderia ser diferente se houvesse investimento em outros modais.

Cerca de 65% de tudo o que é comercializado no país passa e depende das pistas de rodagem, conforme dados da Empresa de Planejamento e Logística S.A. (EPL). A explicação histórica vem da década de 1950, quando começaram as primeiras ideias de desenvolvimento do país, lideradas pelo então presidente Juscelino Kubistchek.

O ex-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Joinville (Ippuj) e doutor em planejamento urbano, Luiz Alberto de Souza, explica que existia uma visão de futuro, quando todos iriam ter um carro próprio e, assim, a sociedade teria liberdade.

“A grande crítica que podemos fazer é ao abandono das ferrovias e o não investimento em hidrovias, já que o país tem grandes rios navegáveis e que poderiam ser alternativas”, avalia Luiz. “Em Santa Catarina, por exemplo, o rio Itajaí-Açu é navegável e poderia levar produtos de Blumenau até os portos de Navegantes e Itajaí”, completa.

Mesmo com a chegada dos automóveis, países como Argentina, Espanha, Alemanha e Estados Unidos mantiveram a malha ferroviária para locomoção de transportes em longa distância, havendo uma modernização neste modal. Luiz Alberto compara dizendo que no Brasil, que hoje tem cerca de 30 mil quilômetros de linhas férreas, houve um abandono proposital para vender mais automóveis e caminhões.

Para ele, esse foi um dos motivos que acabou gerando essa dependência que nós temos hoje. “Mas elas (linhas de trem) ainda devem e podem ser recuperadas e alguns trechos novos podem ser implantados, como alternativas futuras”, comenta.

Fiesc defende construção das ferrovias da Integração e Litorânea

Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) indica que uma composição de trem com 100 vagões pode substituir 357 caminhões em trajetos de longo curso, reduzindo as emissões de dióxido de carbono. A entidade defende a construção das ferrovias da Integração e Litorânea e argumenta que ainda que ampliados, os eixos rodoviários de Santa Catarina, não terão a capacidade de absorver o aumento da população, das cidades, da atividade econômica, da movimentação portuária e do turismo.

O professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Cassiano Augusto Isler, que é engenheiro civil e doutor em engenharia de transportes, explica que mesmo que acontecesse investimento em ferrovias, o desabastecimento dificilmente seria resolvido sem o transporte rodoviário. “Para suprir a necessidade em uma crise como a de semana passada, invariavelmente a gente vai ter que passar pelo transporte rodoviário. Ao menos na distância mais curta, do centro de distribuição até o consumidor final”, explica Cassiano.

No entanto, o professor diz que a estrutura nacional seria menos prejudicada se houvesse “investimento sistemático, a médio e longo prazo” no transporte ferroviário. “O desgaste rodoviário vai ser menor, porque você tira os caminhões que têm um alto peso que danifica o pavimento e transfere para outro modo. Obviamente que isso tem um impacto na economia, na questão de empregos e na produção do país. Não dá para negligenciar a importância do transporte rodoviário, mas a gente viu que essa dependência total acaba sendo prejudicial”.

Uma das questões a ser considerada, diz o engenheiro, é financeiro. “Proporcionalmente, as ferrovias conseguem transportar muito mais cargas, em termos absolutos, do que os veículos rodoviários. Só que os custos de construção das ferrovias, em geral, são muito maiores. Para começar a operar uma ferrovia, você precisa de um investimento inicial muito mais alto do que o modo rodoviário”.

O transporte ferroviário, explica Cassiano, é mais viável para transportar cargas com densidade alta e baixo valor agregado. “O ideal seria conseguir variar mais os produtos que são transportados atualmente pelo modo ferroviário, que são as commodities”, argumenta.

Ele lembra que produtos como minério, soja e açúcar são bastante transportados por trens no Brasil. “Pra você ter uma lucratividade, você tem que vender uma quantidade muito grande”, acrescenta. Há vagões específicos para transporte de combustível líquido e os postos poderiam ser reabastecidos por trens, destaca Cassiano. É o que acontece em Bauru, no interior de São Paulo. Durante a greve, conforme reportagem do G1, moradores da região procuraram pelos postos da cidade que ainda tinham combustível.

Malha ferroviária de Joinville não é adequada para transporte de passageiros

Em Joinville, há uma malha de trem que passa pela cidade, mas não é adequada para o transporte de passageiros no cotidiano. Um dos motivos deve-se ao fato dos trilhos terem sentido Leste-Oeste, o que não é viável, visto que as maiores empresas concentram-se na região Norte e parte dos trabalhadores moram na zona Sul. “Portanto, para a existência de ferrovias, deveria haver estudos de Origem Pesquisa e Origem Destino que, vão retratar onde as pessoas estão e onde elas querem ir, avaliando por onde passaria este terminal ferroviário, examinando a necessidade e a capacidade do modal”, explica Luiz Alberto de Souza.

Para o futuro e otimização da logística, a ideia é de não transporte, diz Luiz. Tanto para transporte de passageiros como de cargas. Pois, quanto menos precisar se locomover melhor. “Buscamos, hoje em dia, o modelo de cidades compactas”, atesta. Porém, como muitas pessoas moram longe de seus locais de trabalho, a sugestão de Souza são os veículos leves sobre trilhos (VLT) ou até mesmo trens urbanos. Em casos de cidades médias (até 700 mil habitantes) podem ser implantados de corredores de ônibus bem estruturados, com ônibus articulados, com manutenção (BRT) e tarifas justas, além de ciclovias e calçadas adequadas para incentivar os pedestres e ciclistas.

As tecnologias também podem contribuir para este processo de deslocamentos. “Aplicativos de bancos online, caronas, transportes de curtas distâncias, faz parecer que esta geração não precise mais de carros, pois o modo de vida será diferente”, finaliza.

Reportagem: Alex Sander Magdyel e Leonardo Fernandes
Foto: Markito/Fiesc
Conteúdo original do Primeira Pauta Impresso, Edição 139

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