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Mulheres transformam artesanato em uma forma de resistência

Muito além de combinar tecidos, cores e texturas, o artesanato é uma forma das mulheres se expressarem e se autoafirmarem em uma sociedade machista e patriarcal. O Primeira Pauta Digital conversou com três iniciativas que possuem um objetivo em comum: fazer as mulheres se sentirem empoderadas!

Bordados da Matilda

A Matilda é uma loja de bordados manuais formada pelas jornalistas Karoline Lopes e Marcela Güther. A marca foi criada no ano passado, a partir de uma ação para o Dia da Mulher. Na ocasião, o coletivo Mulheres em Luta estava organizando um ato para a data e Karoline sugeriu uma oficina gratuita. Ao contrário do que ela esperava, em vez de três ou quatro pessoas, apareceram 20.

Depois dessa experiência, Marcela e Karoline criaram um grupo sobre bordado no Facebook e oficializaram a criação da Matilda pouco tempo depois, em maio de 2017. O nome da loja faz referência ao filme de comédia estadunidense homônimo, dirigido por Danny DeVito e lançado em 1996.

As produções começaram com os tradicionais bastidores de madeira. Hoje, os bordados são aplicados em qualquer tipo de material: anéis, colares, brincos, bolsas, camisetas, almofadas e muito mais. A Matilda também faz experimentações com folhas naturais, fotografias e madeira.

O Primeira Pauta Digital conversou com a Karoline Lopes, uma das fundadoras da Matilda, sobre a proposta da loja e os planos para o futuro. Confira:

Vocês já pensavam na questão do empoderamento feminino quando criaram a Matilda?

Sim, toda a proposta da Matilda foi pensada para ressignificar o bordado. Quando pensamos em alguém bordando, temos em mente a avó ou a tia enfeitando panos de prato, por exemplo. Nosso objetivo é passar uma mensagem. Falar sobre feminismo, sobre o lugar da mulher na sociedade, sobre os nossos corpos e os espaços que ocupamos e queremos ocupar.

Porém, nós também somos uma empresa e precisamos de lucro para continuar. Observamos que os bordados mais “explícitos” faziam com que a marca fosse mal recebida nos eventos de Joinville, que tem um público bastante conservador. Por isso, também fazemos peças que são menos contestadoras, mais “suaves”, quando vamos vender em algum lugar da cidade que tenha esse perfil.

Como funcionam as atividades de vocês? Costumam se reunir na casa de alguém?

Como nós duas trabalhamos no mesmo local, costumamos organizar as coisas da marca nos intervalos que temos. A parte prática do ato de bordar depende muito dos eventos que participamos.

No ano passado, testamos os produtos em feiras e eventos. Assim, conseguimos definir o nosso público, que tipo de bordado sai e o que fica encalhado no estoque. Temos um calendário de eventos anual organizado, então, programamos os bordados que serão levados em cada um deles.

Além disso, aceitamos encomendas de pedidos – costumam chegar pelas redes sociais –, organizamos oficinas e damos aulas particulares.

Você se sente empoderada quando borda? O bordado, assim como outros trabalhos manuais, é frequentemente desvalorizado, associado à submissão feminina e à baixa produtividade…

Acredito que sim. O bordado é um meio de me empoderar. É a plataforma que eu uso hoje para disseminar as ideias em que eu acredito. Embora seja jornalista, acabo me expressando muito melhor com o bordado do que em palavras. E também é uma forma de empoderar outras mulheres.

Muitas chegam inseguras nas oficinas e não acreditam que vão conseguir bordar. As três horas que passamos juntas são uma forma de restabelecer a autoconfiança. É o meu jeito de falar “vai lá, acredita em você”.

Tem alguma oficina planejada para os próximos meses?

Por enquanto, as oficinas estão paradas. Estamos fazendo aulas particulares e nos preparando para o EPPA. Além de levar os produtos, durante o evento vamos fazer um bordado colaborativo. Quem passar pelo estande da Matilda vai poder contribuir. Também vamos participar de uma exposição durante a Feira do Livro e estamos finalizando os preparativos para a nossa primeira intervenção urbana nos muros de Joinville.

Para quem se interessou pelo trabalho das bordadeiras, pode fazer suas encomendas pelo Facebook, pelo Instagram ou pelo e-mail contatodamatilda@gmail.com.

Sempre Viva

O Sempre Viva é um grupo que promove o empreendedorismo feminino por meio da produção de artesanato e possibilita às mulheres uma fonte de renda extra. A iniciativa, existe no município há 11 anos e é desenvolvida através de uma parceria entre o Departamento de Design da Universidade da Região de Joinville (Univille) e a Secretaria de Assistência Social. As reuniões ocorrem às quintas na universidade.

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Parceria entre Univille e SAS ensina mulheres a costurar e empreender (Crédito: Jéssica Bett)

O projeto é destinado preferencialmente para mulheres que estiverem dentro do perfil do Cadastro Único de Assistência Social. As alunas que possuem renda familiar de até três salários mínimos ou meio salário mínimo por pessoa têm direito de receber vale-transporte.

O Sempre Viva é indicado para mulheres que estão iniciando o aprendizado sobre os trabalhos manuais. Lá elas aprendem noções básicas de costura, fazem moldes e participam de oficinas de empreendedorismo, gerenciamento, administração, marketing e vendas.

Após a iniciação, as mulheres estão habilitadas para participar do projeto Ame Viva, que aprofunda as técnicas aprendidas.

Ame Viva

O projeto Ame Viva é dividido em três subgrupos:

  1. Tiwa: Produzem mochilas a partir de lonas de sombrinhas.
  2. Red Carpet: Criam vestidos de festas utilizando sobras de tecidos.
  3. Aviva: Fazem bolsas e carteiras com tecidos ecologicamente corretos e restos de indústrias.

Luana Graf, acadêmica do curso de Design e Programação Visual, é bolsista do projeto e para ela a maior satisfação é quando as alunas conseguem obter uma renda extra através do artesanato. “Aqui elas aprendem desde o básico e aos poucos produzem itens novos. Algumas já conseguem ganhar dinheiro”, orgulha-se.

As aulas também ocorrem às quintas, das 14h às 17h, no Campus Universitário da Univille. Atualmente participam 40 alunas, com idade entre 40 a 50 anos. Algumas mulheres encaram o projeto como uma terapia. Este é o caso de Karin Krelling, 62, que frequenta o grupo há seis anos. “Quando meu marido morreu eu tive medo da solidão, mas aqui sempre me sinto tão bem acolhida que não perco um encontro”, conta.

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Karin Krelling é uma das participantes do Ame Viva. Ela frequenta o projeto há 6 anos (Crédito: Jéssica Bett)

A artesã relata que produz vários itens e que boa parte de sua renda é proveniente da venda. “Eu faço de tudo: crochê, tricô, patchwork… Além de costurar, eu ainda me divirto”, comenta.

As turmas do Ame Viva são anuais e, ao final do curso, cada participante recebe um certificado de conclusão. Por isso, é necessário ter no mínimo 70% de presença nas aulas.

Reportagem: Marília Oliveira e Jéssica Bett.

Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital. | Disciplina Jornalismo Digital, 5ª Fase/2018.

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