Ameaça silenciosa: câncer bucal é mais frequente do que se imagina

“Quando cheguei no médico, o bom dia dele foi um bom dia diferente”, relembra Marta Maria Silva Mateus, 54, diagnosticada com câncer bucal em outubro de 2003. Tudo começou com uma afta na língua e após três tipos de tratamentos e medicações, Marta fez uma biópsia que constatou a enfermidade. A cidade de Curitiba foi a escolhida por ela para tratar da doença. Vinda do Nordeste, Marta chegou na capital paranaense para se tratar e em março de 2004 realizou a cirurgia para a retirada do câncer. Além da boca, a retirada dos nódulos também aconteceu na garganta. A cirurgia durou cerca de seis horas e uma equipe de aproximadamente 15 médicos esteve no centro cirúrgico, entre eles, alunos da Universidade Católica do Paraná.

O câncer bucal afeta lábios, bochechas, céu da boca, língua e toda a cavidade oral. A língua é o local mais comum em que o câncer se desenvolve. Conforme dados do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), a estimativa de novos casos é de 14.700, sendo 11.200 homens e 3.500 mulheres em 2018. O número de mortes em 2013 foi de 5.401, sendo 4.223 homens e 1.178 mulheres.

Segundo o otorrinolaringologista Agnaldo José Graciano, 50, o diagnóstico precoce evita grandes sequelas e a chance de cura se torna maior. “Qualquer lesão precisa ser investigada o mais breve possível”, alerta. Feridas na boca não podem ser ignoradas e não devem ter duração maior que 15 dias. Dor, desconforto e sensação de algo estranho no revestimento oral podem ser os primeiros sintomas apresentados pela doença. Nestes casos, é importante procurar um profissional para diagnosticar qualquer tipo de lesão suspeita e evitar sempre a automedicação, pois medicações podem mascarar sintomas sem resolver problemas.

O fator de risco mais conhecido para esse tipo de câncer é o tabagismo e faixa etária principal é 50 anos de idade, sendo mais comum em homens. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 90% das pessoas diagnosticados com o câncer de boca eram fumantes. O hábito de ingerir bebidas alcoólicas  funciona como um fator que propicia, mas não é um fator de risco isolado. O risco maior é para quem fuma e bebe, esses precisam estar atentos e se possível, devem fazer visitas periódicas no dentista.

Getúlio Mokfa, 73, fumou durante 45 anos e depois de seis anos sem o uso do tabaco, foi diagnosticado com o câncer bucal em março de 2008. Queimação na gengiva e dificuldade no falar foram os primeiros sintomas que Getúlio identificou. Para aliviar a dor, ele fazia uso de um produto indicado por um farmacêutico. Após a biópsia, Mokfa optou em não fazer a cirurgia e iniciou o seu tratamento com quimioterapia e mais tarde, radioterapia. “Eu voltava das sessões sem apetite e cansado. Depois da primeira sessão, fui parar no pronto socorro”, relata. Durante o tratamento com a radioterapia, Getúlio ficou com muitas feridas em carne viva na região do pescoço e emagreceu 12kg. “Pedi pra Deus não me deixar morrer de fome, comia polenta com leite cerca de quatro vezes por dia”, relembra.

De acordo Graciano, o câncer de boca também atinge pessoas que não fumam e não ingerem bebidas alcoólicas. A doença pode se desenvolver em pessoas entre 30 e 40 anos de idade. As causas podem ser a má higiene oral, traumas recorrentes a mordidas na bochecha durante o sono ou como um hábito, traumas crônicos e fatores genéticos.

O antes e depois do tratamento

Um grande obstáculo enfrentado pelos pacientes e familiares até a cura da doença é se manter esperançosos. Jaqueline Mokfa, 39, acompanhou o pai durante todo o tratamento e revela ter vivido meses de muito sofrimento e medo. “Nossos pais são nossos super-heróis. Ver nosso herói fraco, nos faz ter medo de enfraquecer” afirma. Muito ligada ao pai, Jaqueline temeu perder o seu melhor amigo.

Getúlio se aposentou após a doença e durante seis meses não sentiu o gosto da comida. Atualmente visita o seu médico uma vez por ano.

Durante o pós-operatório, Marta teve excesso de salivação, precisou fazer uso de sonda e traqueostomia, mas afirma ser uma pessoa melhor após ter vencido o câncer. “Estou aqui hoje não porque eu sou melhor, mas porque Deus tinha um propósito para a minha vida”, acrescenta.

Segundo Graciano, para certificar que o tumor não vai voltar a noção de cura na oncologia é de no mínimo cinco anos, mas existem pacientes que fazem um acompanhamento durante mais tempo.

Por: Sara Lins
Foto: Freepik
Conteúdo original do Primeira Pauta Impresso, edição 143.

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