Artigo: Democracias morrem, mas deixam seus filhos e filhas

Sim, democracias morrem, mas sempre de morte matada, como definiu João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina.

Há duas formas conhecidas para se matar democracias. Uma delas é com golpes planejados nas entranhas do poder armado do Estado, com canhões e metralhadoras, como o fez Pinochet no Chile e os generais no Brasil, Argentina, Uruguai, Guatemala, Paraguai, Peru, República Dominicana, Gana, Nigéria, Grécia, Turquia, Tailândia e outras nações.

Outra forma de matar democracia, não é nova, mas está vigente nos tempos atuais, é quando a envenenam para que morra de-va-ga-ri-nho. O veneno deve produzir no sistema democrático uma reação auto imune, provocando uma luta da democracia contra si mesma. Os ingredientes do veneno são conhecidos: transformar políticos, partidos, imprensa, religiões, professores e pobres em inimigos da nação.

Quem envenena a democracia se coloca como salvador, tem o antídoto amargo necessário, mas como o veneno se dá no próprio seio da democracia, tal antídoto vai a voto popular. O importante é acabar com tudo e com todos que levaram a essa situação. Assim Hitler obteve 90% dos votos em 1933 para tornar-se führen da Alemanha, inclusive com votos dos Judeus.

A democracia no Brasil nunca chegou à maturidade, sempre morreu jovem. A última morte ocorreu com fuzis e baionetas, em 1964. Por mais de 20 anos seus filhos e filhas resistiram e ela ressurgiu. Assim mesmo, continuam os assassinatos de gente pobre, preta, e as torturas por “homens da lei”.

Neste 2018, ano em que a constituição completou 30 anos, a democracia está envenenada. Sentimentos de medo, típico de países que convivem com o terrorismo ou conviveram com o fascismo, já está no tecido social, e tendem a se agravar depois de 1o de janeiro. O inimaginável tornou-se real. Temos um defensor confesso de estupros e tortura como presidente da República, eleito pelo voto popular. Nunca um país chegou a tão baixa escala de valores.

Coube a nós, os filhos da democracia de nosso tempo, acolhermos os arrependidos, resistirmos e prepararmos a ofensiva civilizatória, contra a escuridão e a barbárie que se abaterá sobre todos, inclusive sobre quem escolheu o remédio para seus males, sem saber que estava tomando um veneno ainda pior.

Por: Marcio Cruz, educador popular, mestre em ciências sociais, consultor e pesquisador em políticas públicas.

Charge: Custódio

Conteúdo original do Primeira Pauta Impresso, edição 143.

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