Negros correspondem a 34% dos alunos nas faculdades brasileiras

Mesmo com o avanço que a Lei de Cotas trouxe para as universidades brasileiras, a população negra ainda é minoria nas faculdades. Em 2016 eles eram 34% do total, segundo a Sinopse Estatística da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Neste ano, a Lei nº 12.711 completa seis anos de existência, mas ainda há luta contra a hegemonia branca nas salas de aula.

Estabelecido e comemorado a partir desde 2003, o dia da Consciência Negra foi sancionado apenas oito anos depois como lei nº 12.519 que celebra a importância da história afrodescendente no Brasil. Apesar de tanto tempo, ainda hoje, a data não é motivo de comemoração. No país, os negros continuam sendo os mais atingidos pela violência, desemprego e falta de representatividade, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Ministério Público do Trabalho. De acordo com o Atlas da Violência, disponibilizado através do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 2017, a população também corresponde a mais de 70% de chances de serem vítimas de homicídios.
O reflexo destes dados afeta diretamente a vida cotidiana, em que os obstáculos encontrados dentro da universidade são evidentes para os alunos. Estudante de Engenharia de Transporte e Logística na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), John Thomas Coelho, 22, diz que é necessário buscar representatividade nas salas de aula. “É raro vermos o negro bem na sociedade, ocupando cargos altos e de poder. Não somos bem representados no meio universitário, é muito difícil, por exemplo, ter um professor negro”, aponta.

A representatividade no ambiente acadêmico é essencial para se adquirir a igualdade racial em outros aspectos da sociedade, e ainda, desempenhando o papel das oportunidades educacionais na construção de uma sociedade justa e sem discriminação. Marco Antônio André, advogado, negro e membro atuante do Núcleo de Estudos AfroBrasileiros (NEAB) da Universidade Regional de Blumenau (Furb), acredita que existe uma dívida histórica que a escravidão deixou para a população negra. “Sabemos que o ideal seria a reparação financeira por tantas atrocidades, mas ainda vivemos em um Estado Racista”, critica. Para o advogado, apesar de falha em algumas características, as cotas acabam sendo uma forma de reparação necessária para a busca pela igualdade.

Porém, a existência de cotas está longe de ser a única medida para inserir o aluno na universidade. Rhuan Carlos Fernandes, licenciado em Educação Física e cursando História na Universidade da Região de Joinville (Univille), acredita que há muito a ser feito. “Falta diálogo, percepção, bolsas de estudo, moradia, restaurantes universitários, transporte… Essa estrutura que todo acadêmico negro passa certamente cria obstáculos maiores”, sugere.

 

Mulher, negra e estudante: as desigualdades de raça nas carreiras universitárias

Segundo o artigo “Mulheres brancas e negras na Universidade Federal de Mato Grosso”, de 2008, uma das marcas mais significativas do século XX nos países ocidentais foi o ingresso das mulheres nas universidades. No Brasil, elas já representam mais de 50% do total de matriculados nas universidades públicas federais. Entretanto, apesar da participação das mulheres no meio, ainda há um vazio quando se trata da mulher negra.

Sabrina Quariniri é jornalista, atuante em movimentos ativistas e negra. Para ela, a representatividade da mulher negra é importante para buscar a igualdade entre gêneros e racial. “É importante para entendermos que nosso lugar não é apenas nas cozinhas e nem sendo sexualizadas nos meios de comunicação”, ressalta.

Mesmo inserida no meio acadêmico, onde este tema é debatido e conhecido pelos estudantes, o racismo e machismo que rodeia a mulher negra são reconhecidos em atitudes que, quase despercebidas, ocorrem diariamente. “A abordagem de uma minoria me incomodava muito, principalmente pela sexualização da mulher negra contida em suas palavras e algumas “piadas” de mau gosto que eram ditas em sala de aula”, exemplifica. Quariniri ainda acredita que a intenção de ofensa poderia não estar contida na fala, mas é necessário se educar. “Acredito que, em pleno século XXI, já deu tempo de repensarmos certos ditados populares, gírias e piadas”, questiona.
Além de debater o assunto e fazê-lo pauta diária nas instituições, a jornalista cita a publicidade entre os meios que podem ser usados como combate ao racismo. “Acredito que existe uma falta de representatividade do negro tanto no coro estudantil quanto nas publicidades veiculadas pela instituição”, frisa. “Por mais que a maioria dos estudantes sejam brancos, há uma minoria negra que também quer se ver em comerciais de TV, outdoors e divulgações”.

Por: Rafaela França

Foto: Roger Caetano

Conteúdo original do Primeira Pauta Impresso, edição 143.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *