Pesquisa aponta que heroínas têm mais chances de serem hipersexualizadas

Um importante instituto americano realizou uma pesquisa que  revela os estereótipos ligados à representação feminina usado pela indústria cinematográfica internacional. A pesquisa analisou os filmes de maior bilheteria nos países mais lucrativos, incluindo, o Brasil e notou que aqui, quando as mulheres aparecem, têm quatro vezes mais chances de serem expostas de uma forma sexual, com roupas curtas e decotadas, corpos com cintura fina e peitos grandes.

A pesquisa realizada pelo Instituto Geena Davis sobre Gênero na Mídia, com o apoio da ONU Mulheres e da Fundação Rockefeller realizado zado pela Dra. Stacy L. Smith e sua equipe de pesquisa da Escola de Comunicação Annenberg de Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia, também aponta que em filmes com a classificação indicativa livre, as mulheres aparecem três vezes menos do que os homens. Dos filmes analisados entre 2006 e 2009, nenhuma das personagens estavam nos campos da medicina, da ciência, da lei ou da política. Os números mostram, ainda, que nesses filmes 80,5% dos trabalhadores eram homens.

“Eu nunca me vi sendo representada pela Mulher Maravilha. O máximo que eu sentia era tristeza porque nunca seria igual a ela: sarada e maravilhosa”, comenta a feminista militante, Maria Carolinie Cardoso. A economista que participa do Coletivo Histéricas, criado em 2014 por alunas de graduação da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) comenta que o uniforme das personagens geralmente preza pela exibição e não pela praticidade. Isso é apenas um reflexo do mundo construído pelos autores.

“A Arlequina, personagem do filme Esquadrão Suicida, por exemplo, luta contra o mal, igual aos outros companheiros de encenação, mas é a única que tem um microshorts, uma micro blusa e saltos. Quem usa saltos para lutar contra o mal?”, acrescenta a militante. Ao exibir heroínas e vilãs com corpo cheio de curvas, cintura fina, quadril e seios perfeitamente arredondados, sustentados por um par de pernas compridas e de contornos delicados, criamos uma personagem que só serve para o deleite masculino. Para Maria, às mulheres, tanto nos quadrinhos, quanto nas telas, fixam padrões de belezas a serem seguidos e consumidos.

A primeira história em quadrinhos que retratou uma personagem feminina com superpoderes nasceu em 1936, pelo artista George Brenner. Após isso, surgiram outros quadrinhos como o Super-Homem e o Capitão América, entretanto, as mulheres continuavam sendo coadjuvantes. Assim, foi criada a Mulher Maravilha, em 1941, na oitava edição da revista All Star Comics, e essa personagem não nasceu por acaso. A Mulher Maravilha surgiu com o propósito de atrair leitores para as histórias em quadrinhos e dar conta de uma demanda até então ignorada pelas grandes editoras. As curvas eram discretas, a roupa um pouco maior, mas isso não deu visibilidade para os quadrinhos. A maior parte do público consumidor, ainda era masculino, então foi preciso que os editores apelassem para a sensualidade.

Nos anos 40, conhecidos como a “era de ouro dos quadrinhos” – que seguiu até os anos 1950 – a figura feminina tinham apenas dois papéis: ou faziam as protagonistas – e aí não escapavam de trajes justíssimos, curtos e decotados e cenas de luta com poses eróticas – ou as coadjuvantes. Nestes casos, eram as moças frágeis, culpadas por colocar os mocinhos em perigo e, claro, não menos sexys.

Contudo, depois da Mulher Maravilha surgiram diversas super-heroínas no mundo, como por exemplo a Zatanna, em 1964, a Miss Marvel, em 1968 e a SuperGirl, em 1984 e mesmo assim, a forma como a mulher era retratada nas histórias não mudou. Elas sempre aparecem de uma forma redutora, como se fossem mocinhas desamparadas. Já as vilãs tentam seduzir os heróis, com roupas e posições que destacam mais ainda seus “atributos”.

Não é por acaso que a maioria, com algumas exceções, das personagens sexualizadas foram desenhadas por homens. Mesmo hoje, com mais mulheres na produção de desenhos de personagem, a proporção continua crescendo. Natalia Rubio, formada em desenho de animação pela Faculdade Belas Artes de São Paulo, aponta que as quadrinistas fogem deste estereótipo das heroínas americanas. “Muitas das minhas amigas que são quadrinistas não consomem esses tipos de quadrinhos, pois eles não nos representam e não representam a verdadeira mulher. Além de ser raro uma mulher sexualizar outra  mulher”, diz.

Por: Bruna Milany

Ilustração: Glee Chan

Conteúdo original do Primeira Pauta Impresso, edição 143.

 

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