Transtornos alimentares estimulam a busca pelo emagrecimento excessivo

O estabelecimento do primeiro e, até o momento, único banco de cérebro dedicado à pesquisa em transtornos alimentares aconteceu em março deste ano em uma parceria da universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e da Fundação para Pesquisa e Educação em Transtornos Alimentares (FREED). O banco está localizado no Hospital McLean, instituição psiquiátrica de Massachusetts, nos EUA, e de acordo com o site oficial o objetivo é o avanço nos estudos sobre o assunto para encontrar as causas dos distúrbios e a evolução na busca por tratamentos.

No Brasil, cerca de 0,5% a 1% das mulheres sofrem de anorexia, 1% a 2%, de bulimia e a compulsão alimentar atinge aproximadamente 3% da população, os três distúrbios mais comuns, segundo a seção Equilíbrio e Saúde do jornal Folha de S.Paulo. A anorexia acontece quando a pessoa tem uma imagem distorcida de seu próprio corpo e se enxerga com excesso de peso quando na realidade apresenta baixo peso ou desnutrição. Com isso, ela deixa de comer para não engordar ou conta as calorias antes de cada refeição. Já a bulimia é caracterizada por episódios frequentes de compulsão alimentar, em que o indivíduo come exageradamente mesmo quando não sente fome e em seguida pratica comportamentos compensatórios como forçar o vômito, usar laxantes ou ficar sem comer.

A joinvilense Daiane Borgert, 20, começou a apresentar dificuldades em aceitar e gostar do seu corpo aos 16 anos. Ela pesava 90kg na época e se sentia mal por suas amigas serem sempre “magrinhas”, como ela mesma as definiu. Ainda cursando o ensino médio e sem trabalhar, a escola em que estudava entrou em greve e com o acúmulo de pressão psicológica ela acabou tendo depressão.

A quantidade de comida das refeições foi ficando menor a cada dia e quando Daiane almoçava praticamente não comia. Depois de um tempo a tudo isso somaram-se comportamentos compensatórios como forçar o vômito, característica da bulimia.

Um dia enquanto tomava banho a visão de Daiane escureceu. Ela conseguiu chegar até a porta do banheiro e desmaiou. Seus pais a tiraram do chão e devido à seriedade da situação a levaram ao médico. Desde esse episódio ela não teve mais problemas com a bulimia, porém desenvolveu anemia e até hoje, quando descuida de sua alimentação, fica pálida e tem momentos de tontura. Durante os cinco meses em que teve bulimia Daiane perdeu 30 kg.

De acordo com a nutricionista do Instituto Catarinense de Endocrinologia e Diabetes (ICED), Ana Paula Krieger, é preciso que haja um acompanhamento nutricional para trabalhar a qualidade de uma alimentação equilibrada em nutrientes essenciais para adquirir ou manter a saúde e prevenir as doenças de ordem metabólica. Um acompanhamento rotineiro para que a reeducação alimentar perdure para o resto da vida também é necessário  em alguns casos.

 

A mídia como influenciadora

Atualmente, grande parte da população tem acesso a algum veículo de comunicação, seja o rádio, os meios impressos, a televisão e principalmente a internet. É um universo rico em informações, conhecimento e entretenimento, mas também pode ser um canal de bullying, preconceito e não aceitação para aqueles que não se encaixam no que é imposto como beleza, devido a grande tendência que estes veículos têm para ditar regras e padrões.

Ao longo do tempo os padrões de beleza impostos pela sociedade foram se modificando. Hoje, o que temos como referência corresponde a um corpo cada vez mais magro e atlético. Segundo a psicóloga Tatiane Pedroso Yoshii, os indivíduos sentem-se pressionados a atender ao tal “padrão” de beleza, exaustivamente colocado pela mídia. Quando a pessoa não consegue corresponder a este padrão, passa a se sentir inferior e pouco atraente.

A busca por atingir o padrão de beleza faz com que a necessidade em controlar o peso vire uma forma de viver, que é rigorosamente seguida e respeitada. Com isso o indivíduo passa a desacreditar de si mesmo, passando a crer nesse padrão, na maioria das vezes, inalcançável. Essa pressão pode acabar gerando uma série de problemas emocionais, entre eles os distúrbios alimentares.

“Há uma necessidade de conscientização das pessoas a respeito desse assunto, em especial os jovens. Estes se encontram em fase transicional, em que há uma mudança e posterior estabilização da personalidade, momento delicado em que o sujeito fica mais suscetível a desencadear transtornos ou outras patologias”, alerta a psicóloga.

Em agosto deste ano uma marca de lingerie do Reino Unido lançou a campanha #MyBodyVictory (ou “minha vitoria do corpo”, em tradução para o português), incentivando mulheres a publicar fotos de calcinha e sutiã. Várias mulheres com diferentes biotipos aderiram à hashtag da campanha e postaram fotos contando nas legendas como venceram a vergonha e aprenderam a lidar com o próprio corpo, mostrando que é possível estar “fora do padrão” e mesmo assim se aceitar.

Por: Thalita Pires
Foto: Arquivo pessoal
Conteúdo original do Primeira Pauta Impresso, edição 143.

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