Dress code impacta nas escolhas dos jovens para carreira de trabalho

Regras de vestuário não combinam com os valores dos jovens millennials, nova geração a entrar no mercado de trabalho

O desemprego entre os jovens brasileiros é uma chaga aberta que só vem piorando com o passar dos anos. Se em 2015 alcançava 600 mil pessoas na faixa etária de 18 a 24 anos, 2018 fechou com mais de 1,76 milhões de jovens nesta condição, segundo a Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-Contínua) do IBGE. Em um cenário cada vez mais inóspito para a inserção do jovem no mercado de trabalho, a estudante de Direito, Gabriela Brandenburg, foge da estatística.

O dia da acadêmica começa bem antes das 10h, horário que ela deve chegar no estágio. Já nas primeiras horas da manhã, Gabriela toma um banho, se maquia, penteia os cabelos, escolhe o que vai usar entre as peças formais no seu guarda roupa, coloca os brincos e calça os saltos. Às 09h30 sai de casa para chegar a tempo num escritório de advocacia tradicional de Joinville, onde ela estagia até às 17h30. A faculdade fica a 15 minutos de distância a pé, mas dependendo do clima, Gabriela chama um Uber. A jornada só termina às 23h, quando Gabriela chega em casa depois de ficar 13 horas fora.

Gabriela Brandenburg, acadêmica de Direito e estagiária em Direito Empresarial. (Créditos: Catherine Kuehl)

Beatriz Mendes da Silva, acadêmica de Comércio Exterior, também é estagiária, porém na área de Relações Institucionais em uma multinacional brasileira. Ela, por outro lado, não segue nenhuma regra de vestuário. O dress code é um manual de sugestões de como os funcionários devem se vestir para o trabalho. “No meu estágio, não é explícito, mas acho que implícito tem. Por ser uma área corporativa espera-se que as pessoas, que estagiam e são efetivas, se vistam de uma maneira mais formal”, comenta. De início, a estudante tentou se adequar aos parâmetros de vestuário da empresa, mas percebeu que delimitar o uso de certas roupas devido à uma regra organizacional era um empecilho para ela visto que dialoga com a sua personalidade. “Como um corte de cabelo ou tatuagem, é a forma que eu quero que as pessoas me vejam. Tenho que me sentir confortável e que estou conseguindo passar o que eu sou na essência”, cita.

No ambiente de trabalho de Gabriela tem uma regra de vestuário bem definida. No escritório é imprescindível o uso de roupa social e salto alto para as mulheres. “Dizer que amo parece estranho, mas gosto bastante. Nunca fui a menina que ama usar jeans e tênis”, ressalta.

Segundo Vitor da Cunha Torres, advogado especialista em relações trabalhistas e sindicais, não são todos os escritórios de advocacia na cidade que exigem dress code. A prática é mais comum para os advogados que têm contato direto com o cliente, ou participam de atos solenes, como nos ministérios ou em audiências. “O dress code é usado para manter um parâmetro e ter um critério objetivo de como as pessoas vão representar o escritório”, explica.

Vitor da Cunha Torres, advogado especializado em Relações Trabalhistas e Sindicais. (Crédito: Catherine Kuehl)

Para o advogado, impor vestimenta vai contra os valores da geração que entra agora no mercado de trabalho, como diversidade, inclusão e respeito às diferenças. “Uma empresa interferir diretamente nisso não é algo que cai muito bem, principalmente na cabeça do pessoal que entra agora no mercado de trabalho“. De acordo com Torres, a roupa é um reflexo de gostos pessoais.  

Vitor alega que a empresa querer estabelecer um padrão de vestimenta invade a privacidade do colaborador. “Primeiro que anula a liberdade da pessoa em escolher a vestimenta“, critica. “Segundo que é impor uma cultura que muitas vezes não é dela“. O advogado alerta para o mal-estar e dano moral causados pela imposição de dress code para uma pessoa que muitas vezes não vem daquela realidade.

Beatriz destaca que se tivesse um dress code rigoroso na empresa que trabalha provavelmente afetaria seus resultados. “Chegaria um momento que estaria trabalhando com aquela roupa que eu não iria estar feliz de usar”, admite. “Se eu não estiver bem com ela pode interferir no meu humor e isso pode lá na frente, no fim do ciclo, acarretar no meu trabalho.”

Beatriz Mendes da Silva, acadêmica de Comércio Exterior e estagiária em Relações Institucionais. (Crédito: Catherine Kuehl)

Comportamento dos millennials é influenciado pelo dress code, aponta especialista

Se as empresas investirem em um dress code maleável para os colaboradores quem ganha é a própria organização. Segundo a designer de moda e consultora de imagem, Mariê Souza Ribeiro, a geração Y está vindo para mudar a percepção de trabalho e o código de vestimenta possui relação com o desempenho dos jovens.

A designer entende a uniformização que as empresas impõem e acrescenta que há uma preocupação com a imagem do negócio, mas destaca que este ato aflige a liberdade de expressão dos jovens. “É uma geração muito mais empreendedora que corre atrás muito por si só. Talvez seja por isso que eles sentem esse incômodo de ter que estar uniformizados e iguais”, defende.

De acordo com a designer, há meios de driblar a padronização de vestuário. “Qualquer coisa faz a diferença: um sapato que uma pessoa tá usando, o dobrar a manga da camisa, um cinto, isso já basta para passar uma informação sua mesmo usando o mesmo uniforme que o outro.”

Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital. | Disciplina Jornalismo Digital II, 5ª fase/2019

Reportagem: Catherine Kuehl e Roger Gustavo Caetano

 

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