Mulheres ultrapassam homens no empreendedorismo, mas ainda ganham menos

Mulher ganha 79,5% do rendimento médio recebido pelo homem. Segundo o IBGE, existe  queda da razão do rendimento com o crescimento da idade

por Amanda Primo e Larissa Leite

As mulheres ganham menos que os homens, embora sejam maioria entre os trabalhadores com ensino superior, de acordo com os Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018. Atualmente, o número de mulheres empreendedoras no mercado de trabalho tem chamado a atenção. Uma pesquisa realizada pelo Empreendedorismo no Brasil divulgou dados de que 59% da população de mulheres são empreendedoras, enquanto entre os homens esse índice chega a 55%.

Entre 2012 e 2016, os dados indicam que as mulheres ganham 75% do recebido pelos homens, em uma relação de rendimento médio mensal de todos os trabalhos, por diferença de sexo. De acordo com o relatório, a mulher tem o rendimento médio mensal de R$ 1.764, enquanto homens recebem o valor de  R$ 2.306. Em contrapartida, a pesquisa de 2016 relata que mulheres frequentam mais a escola (73,5%), enquanto a frequência dos  homens é de 63,2%.

Atualmente a mulher tem tomado a frente do empreendedorismo no Brasil, segundo estatísticas de 2019, tornando-se a maioria no mercado de investimento. A pesquisa realizada pela Rede de Mulher Empreendedora mostra que as mulheres começam a empreender mais tarde comparado aos homens. Enquanto 41% deles começam entre 18 e 29 anos, 37% delas iniciam o negócio entre 30 e 39 anos, além de 37,5% delas terem concluído uma pós-graduação, apenas 15% deles concluíram. 

Evento mulheres empreendedoras da ACIJ [Foto: Larissa Leite]
“Comecei a trabalhar com mulheres depois que virei mãe. Como mãe,  optei por dar uma pausa na carreira para ficar com o meu filho”, afirmou Raquel Baldo, co-fundadora da rede Be Together, uma assessoria de carreira para mães e mulheres. Raquel conta que quando viu a dificuldade das mãe e mulheres para entrarem novamente no mercado de trabalho resolveu se tornar consultora e ajudar neste processo.

“De acordo com uma pesquisa da FGV, 50% das mães saem do mundo corporativo quando o filho completa um ano, seja por opção da empresa ou da própria mulher. Ao analisarmos o cenário de negócios, mais de 50% dos empreendedores são mulheres e 75% deste número se tornou empreendedora após se tornar mãe”, comentou Raquel. 

Segundo a co-fundadora da Be Together, as mulheres atualmente empreendem por três motivos: Quando é expulsa do mercado de trabalho (muitas são mandadas embora pois se tornaram mães), quando ela não se enxerga mais na mesma função depois de ter filho e no momento em que não consegue mais conciliar o mundo corporativo com a nova rotina.

Apesar do nível de escolaridade das mulheres ser maior, no mercado de trabalho elas se sentem menos confiantes que os homens quando iniciam seus negócios, são apenas 35% delas, contra 50% de homens. Esse é um dado relacionado a falta que a mulher tem em autoconfiança.

A pesquisa “Empreendedorismo no Brasil – um recorte de gênero” mostrou que há também diferenças importantes nos perfis dos negócios. Tanto mulheres quanto homens empreendem majoritariamente no setor de serviços – 54% e 61% respectivamente. Mas as mulheres possuem negócios menores e mais recentes.

Entre os negócios liderados por mulheres:

  • 61% começaram há menos de três anos
  • 50% faturam até R$2.500 por mês
  • 60% não tem funcionários e
  • 58% funcionam na própria residência.

 Já em relação aos negócios liderados por homens:

  • 51% começaram há menos de três anos
  • 38% faturam até R$2.500 por mês
  • 48% não tem funcionários e
  • 43% funcionam na própria residência.

Mulheres vencem barreiras contra desvalorização do serviço 

Na vida pública, em cargos que exigem tomada de decisões, a atuação da mulher ainda é rara. Na política a maioria dos cargos eletivos é ocupada por homens, e o primeiro envolvimento mais efetivo da mulher na política só deu ínicio a partir de 1932, quando Getúlio Vargas sancionou o decreto ao direito do voto para as mulheres. O papel social da mulher foi desenvolvido ao decorrer do tempo, o gênero feminino vem de raízes de desigualdade e exclusão, quando a mulher servia apenas para cuidar do lar e da família.

O termo é uma representação simbólica criado para identificar uma questão muito presente na sociedade. O teto de vidro se refere a dificuldade da ascensão da mulher em cargos de comando nas empresas. 

Durante a busca pela independência, a mulher tem feito um percurso de romper barreiras.  Fernanda Ritter, 27, formada em pedagogia e empresária da Libere-se, uma empresa que trabalha com o desenvolvimento e empoderamento feminino, comentou que “além da luta pela desigualdade de gênero a mulher ainda é objetificada. O assédio sexual e moral são situações que, infelizmente, muitas delas ainda passam no mercado de trabalho”. 

Fernanda ainda ressalta que percebe a sociedade muito machista. “As mulheres têm mais dificuldades para alcançar seus objetivos e ultrapassar as barreiras do julgamento”, complementou. 

Das mulheres que conseguem ultrapassar o teto de vidro por meio de seus esforços, sempre há relatos de superação e persistência, como o caso da delegada Tânia Harada. Em um evento na Associação Empresarial de Joinville (ACIJ) realizado pelo núcleo de Mulheres Empreendedoras, a delegada chefe Tânia Cristina Duarte Harada, 43, que atua na Delegacia Regional da Polícia Civil, compartilhou um pouco das suas dificuldades na atuação do cargo que ocupa.

Tânia está no comando da delegacia há dois anos e contou que não foi fácil chegar onde está atualmente.“As dificuldades aumentaram no momento em que entrei no posto de chefia, me sinto testada o tempo todo, minha autoridade é sempre questionada”, comentou.

Segundo a delegada, atualmente o número de mulheres em cargos da polícia assusta. Apenas 20% dos cargos da região de Santa Catarina são ocupados por mulheres, e de 27 delegados apenas três são mulheres. A delegada ainda comenta da dificuldade de credibilidade que as mulheres sofrem. “Em uma entrevista de emprego, comentaram que talvez eu não aguentaria o cargo. Sei que não passaria por essa situação se fosse um homem na profissão”, complementa Tânia.

Tânia diz que as mulheres precisam provar que são capazes de realizar qualquer serviço e estão prontas e preparadas. “Quando viram que eu dava conta, que não ia me desesperar na profissão, me deram credibilidade. Tive que provar que conseguia realizar meu serviço”, finalizou. 

Para Talia Alves Miranda, também não foi fácil ultrapassar o Teto de Vidro, mas com muito esforço ela chegou ao cargo de Gerente técnica da empresa EPLAN Brasil, desenvolvedora de softwares CAE, ou seja softwares para engenharia, desenvolvimento de projetos elétricos e automação industrial. Talia tem 30 anos, é formada em Mecatrônica e trabalha na empresa há 12 anos. Ela começou como consultora técnica, mas a dois anos gerencia uma equipe com seis técnicos homens. 

“Para conquistar meu espaço não foi fácil. A área industrial é dominada por homens, tive que  provar que sabia o que estava fazendo”, disse Talia. A reação dos clientes ao ver que ela estava a frente da equipe trazia situações que Talita tinha que lidar para conseguir prosseguir seu serviço. “Tive que me moldar muito para conseguir conquistar esse público, o preconceito é grande”, complementou a gerente. 

Hoje Talia diz que aprendeu a lidar com situações de testes, mas relata que nas primeiras pressões que sofreu, o primeiro pensamento era de não ser capaz para o serviço. “Já estive em situações de testes de clientes apenas para ver se realmente eu entendia do assunto. Tive que praticamente provar que conhecia do assunto, para então conquistar a confiança”, comentou. 

Segundo Talia em uma das entrevistas que fez, chegou a ouvir que não seria contratada pelo fato de ser mulher. “Só me chamaram para o processo seletivo para fazer números, mas nunca com interesse verdadeiro de contratar uma mulher para a função”, disse.

“Se fazemos o nosso trabalho com qualidade e eficiência, e mostramos o nosso valor, tudo muda. Existe diferença entre ser sensível e ser fraca, mulheres são muito fortes”, a gerente ainda completou dizendo que o preconceito pode acontecer em pequenas ações no local de trabalho, e as mulheres devem estar preparadas para agir com sabedoria.

Inserção da Mulher na Política 

A inserção da mulher na política é um processo que cresceu conforme o passar dos anos, o mercado para mulheres na política ainda é baixo comparado com a quantidade de homens na função. 

O grupo mulheres empreendedoras conversa sobre a questão da mulher na política [Foto: Larissa Leite]
O primeiro envolvimento mais efetivo da mulher na política só deu início a partir de 1932, quando Getúlio Vargas sancionou do decreto ao direito do voto para as mulheres. Mas na época, mulheres casadas só poderiam votar com a permissão esposo, e as viúvas e solteiras com renda própria podiam votar. Mesmo com a o decreto a lei ainda não era  igual para homens e mulheres, apenas em 1965 os direitos ao voto foram igualados aos gêneros.

Embora no Brasil as mulheres ainda não tivessem o direito ao voto, o país teve a primeira prefeita eleita no Rio Grande do Norte, em 1929. Luzia Alzira Teixeira Soriano assumiu a cidade de Lages, no estado potiguar e, com 32 anos foi considerada a primeira da América Latina. O posto de deputada federal foi dado a Carlota Pereira de Queirós, em 1934, médica e de família ligada aos grupos de mídia da capital paulista.

SOBRE A ENTREVISTADA: Tânia Eberhardt atuava como diretora do Hospital Regional Hans Dieter Schmidt até início do ano e se destacou como secretária de Estado da Saúde. Também participará das atividades a educadora Simone Schramm, sexta deputada estadual de Santa Catarina, também esteve frente à Secretaria de Estado da Educação.

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