O fim de uma era: eleições 2020 encerram a gestão Udo Döhler

Aos 78 anos, o político e empresário deixa a gestão de Joinville após dois mandatos marcados por altos e baixos

Após oito anos como prefeito de Joinville, as eleições municipais 2020 assinam o fim da gestão Udo Döhler na cidade. A administração foi marcada por pequenas implementações processuais, grandes obras  iniciadas e não finalizadas, alguns setores esquecidos e a falta de comunicação com a população.

Udo Döhler, que é advogado e empresário do ramo têxtil, estreou na política em 2011,  filiando-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Até então, Udo já havia sido presidente da Associação Empresarial de Joinville (Acij) por cinco vezes. Em 2012, disputou a prefeitura de Joinville, sendo eleito com 54,65% dos votos. E em 2016,  foi reeleito, desta vez com 55,6% dos votos.

Enquanto gestor, Udo conseguiu alguns feitos, como a substituição das secretarias regionais pelas subprefeituras – presente no primeiro plano de governo, mas colocada em prática só no fim do segundo mandato -, a ampliação do Hospital Municipal São José, investimentos na área da saúde e educação e a modernização de processos administrativos dentro da prefeitura, como consultas de documentações, licitações e ouvidoria de forma virtual, mais simples e acessível.

Entretanto, a ausência de diálogo com a população, a falta de investimento no setor cultural, uma dívida de cerca de R$ 1 bilhão com o Instituto de Previdência Social dos Servidores Públicos do Município de Joinville ( Ipreville) e, principalmente, problemas de infraestrutura e mobilidade urbana na cidade se sobressaíram durante os dois mandatos.

Para o candidato a prefeito de Joinville pelo MDB, Fernando Krelling, que tem o apoio de Udo nas atuais eleições, Döhler foi um prefeito responsável com a economia  e deixará um ótimo legado na saúde e educação da cidade. “Sem dúvidas, a habilidade como empresário o ajudou a recuperar as contas públicas, que estavam no vermelho”, destaca. Krelling ainda cita a revitalização das unidades básicas de saúde, a reforma e ampliação do São José e os feitos na educação, como o aumento do número de vagas na educação infantil e as altas notas  no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Os pontos levantados por Krelling vão ao encontro da opinião do ex-colega de partido Rodrigo Fachini, atualmente vereador pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) na Câmara de Joinville e escolhido para ser vice do candidato a prefeito pelo Partido Social Democrático (PSD), Darci de Matos. Fachini chama a atenção para a boa administração, que “primou pelo bom uso do dinheiro público”, o que ele afirma ser uma obrigação, mas que nos últimos anos passou a ser uma “virtude política”, fazendo alusão aos inúmeros escândalos de corrupção na política brasileira investigados na última década e atualmente.

Já Nelson Coelho, ex-vice de Udo, que deixou a gestão em 2019, e que atualmente é candidato à prefeitura pelo partido Patriota, aponta como um feito positivo a sistematização dos processos dentro da prefeitura. “Se observarmos em 2013, não tínhamos nem uma gestão financeira do município, era uma planilha de Excel, então esse é um ganho importante.”

Como pontos negativos, Coelho ressalta a adoção de uma “política tradicional” que abre mão de investimentos, fazendo com que a cidade fique “parada no tempo”. “Colocou-se o conceito de uma Joinville 30, que é elitista, higienista, excludente e que separa os que ganham mais dos que ganham menos.” Já Fachini destaca negativamente a indisposição da gestão para com os menos favorecidos e o distanciamento das bases do partido.

Um ponto citado e muito percebido é a falta de comunicação de Udo com a população. O prefeito optou por uma postura reservada quanto a sua vida pessoal e até mesmo pública. Durante esses anos, não foram raros os memes satirizando os sumiços do prefeito. Fachini diz que a fórmula pode funcionar em uma empresa, mas não para a gestão de uma cidade. “O distanciamento do povo foi nítido e só foi piorando”, afirma. Coelho comenta que o prefeito não pode ser apenas aquele que vai administrar as finanças do município, e que para isso existe o secretário da Fazenda. “O prefeito é um ator político que vai conversar com os mais variados setores. Ele precisa ter uma comunicação clara, franca e transparente, e ser o embaixador da cidade”, conclui.

Já no quesito infraestrutura e mobilidade urbana, o doutor em História e mestre em Sociologia Política Eliton Felipe de Souza acredita que provavelmente “Udo tenha sido o responsável pelo maior estelionato eleitoral da história de Joinville”, se referindo à Ponte Joinville, que faria ligação entre as zonas Sul e Leste da cidade. A construção, que segue sem uma licença ambiental e, consequentemente, sem data para abertura de licitação, seria a principal marca da administração de Udo, prevista no plano de governo do primeiro mandato e com conclusão ainda em 2015. “A atual gestão foi eleita por duas vezes prometendo a construção e ela não saiu do papel”, pontua. 

Muito pelo contrário, a principal marca da administração de Udo em mobilidade e infraestrutura é a obra do Rio Mathias, que consiste na implantação de microdrenagens que combateriam os recorrentes alagamentos no centro da cidade. As obras, que se iniciaram em 2014 e não tem previsão de término, atrapalham o trânsito na região central e sobretudo o comércio local. Os comerciantes  já fizeram protestos por conta do atraso das obras relatando que, por causa da poeira, lama e o mau cheiro de esgoto, perderam clientes e, consequentemente, tiveram queda nos faturamentos dos comércios. Hoje em dia, nas ruas por onde a obra já passou, como por exemplo a rua Jerônimo Coelho, é possível observar inúmeros imóveis comerciais vazios e com placas de aluguel.

Krelling chama a condução das obras do Rio Mathias de “terrível”, a classificando como principal problema da gestão Udo Döhler. Coelho considera as obras uma “decisão equivocada, que começou errada e terminou errada”.

Ainda dentro deste tema, uma das principais promessas de Udo ainda em 2012 e motivo de piadas nos anos seguintes foi a meta de asfaltar 300 quilômetros de ruas nos quatro anos do primeiro mandato. A proposta ficou distante de ser cumprida, sendo que em 2014, segundo dados da Secretaria de Comunicação de Joinville (Secom), só havia sido asfaltado pouco mais de 7 mil metros. No plano de governo do segundo mandato, não foi nem mesmo incluída estimativa de quilometragem, sendo abordado plano de pavimentação comunitária e o recapeamento dos principais eixos viários. “Uma cidade desenvolvida como Joinville não pode continuar com 700 quilômetros de ruas sem asfalto”, declara Krelling.

Outro setor que sentiu a gestão Udo Döhler de forma negativa foi o cultural. “Todas as ações de governo realizadas foram prejudiciais à cultura”, declara o presidente do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC), Anderson Dresch, que classifica Udo como o pior prefeito de Joinville nos 25 anos que mora no município. Anderson relata problemas, como a falta de investimento na infraestrutura dos centros culturais e teatros de Joinville. “Os palcos de toda a cidade estão acabados.” E também o não funcionamento do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), que é uma ferramenta da prefeitura, prevista por lei 5372/05, que serve para fomentar a cultura local, e fazer com que os projetos artísticos e culturais aconteçam, por meio de financiamentos. Recentemente, artistas e instituições culturais da cidade moveram uma ação contra o município pedindo mudanças no Simdec. Segundo Anderson, novos editais não são realizados ou são realizados de modo incompleto desde 2017.

A influência de Luiz Henrique da Silveira

Apesar dos problemas, Udo foi eleito duas vezes. Krelling, considerado seu sucessor, é um nome forte nas atuais eleições; seu ex-vice, Rodrigo Coelho, foi cotado para candidatura a prefeito nas eleições 2020; e seu atual vice, Nelson Coelho é candidato à prefeitura. Porém, o sociólogo Eliton não acredita na força dessa influência nas eleições municipais deste ano. Traçando um paralelo com antigos líderes executivos locais, ele diz que as alianças de Udo com Rodrigo e Nelson não renderam grandes possibilidades para os dois políticos em 2020.

Para Eliton, os dois mandatos de Udo devem muito à influência do já falecido Luiz Henrique da Silveira – grande político catarinense, com trajetória que inclui cargos como prefeito de Joinville,  governador do estado de Santa Catarina e a presidência nacional do MDB. “A influência do antigo mandatário da cidade fica evidente quando analisamos a figura do então empresário Udo Döhler”, comenta Souza. “Uma figura sem nenhum carisma, que nunca havia sido candidato a cargos públicos na cidade, e que tinha no histórico da própria empresa processos por maus tratos de funcionárias mulheres.” Como exemplo do tamanho da influência de Luiz Henrique, o historiador cita as camisas com estampas em homenagem ao político usadas por militantes do MDB  nas atuais eleições, cinco anos após a morte dele.

A teoria do cientista social se confirma quando Fachini conta, em tom saudoso, que se sentia muito à vontade no “MDB de Luiz Henrique”. Porém, ele relata que já nos primeiros anos da gestão Udo, ele havia sentido um “clima ruim” para os emedebistas da cidade. Fachini ainda afirma ter sido boicotado por Udo, após insistir na sua candidatura à Câmara de Vereadores, em 2016. “Fiquei cada vez mais isolado, adotei um tom cada vez mais crítico e, finalmente, me filiei ao PSDB, onde tenho encontrado um ótimo ambiente”, conclui.

Ao longo desses oito anos, muita coisa aconteceu no cenário político nacional, como a queda do Partido dos Trabalhadores (PT) e a ascensão do conservadorismo e do movimento bolsonarista  no país. Tudo isso refletiu em Joinville, que, em 2018, rendeu mais de 70% dos votos ao Bolsonaro, então candidato pelo PSL (Partido Social Liberal), no primeiro turno das eleições presidenciais. No mesmo ano, os joinvilenses também renderam cerca de 39% de votos ao Carlos Moisés, candidato a governador estadual também pelo PSL, desbancando Mauro Mariani do MDB, partido tradicional na cidade. Apesar do cenário, Udo se manteve em uma posição estável durante todo o mandato, permanecendo distante o suficiente  da imagem de Bolsonaro para não ser rotulado como bolsonarista, nem como opositor a ele. “Algo difícil de realizar em meio ao momento de polarização política do país”, reconhece Eliton. Ele conclui que esse feito, atrelado ao apoio da imprensa joinvilense, “lhe garantiu a saída da prefeitura com a mesma imagem que a campanha eleitoral de 2012 o pintou: ‘O homem das mãos limpas’.” 

Contrariamente, Nelson Coelho critica a posição de “centrão” adotada por Udo, e diz ter pensado que o partido “faria um esforço para ajudar a  gestão do Brasil”. “Quando o presidente Bolsonaro foi eleito, achei que o partido tinha entendido qual era a mensagem das ruas”, declara ele, que completa dizendo que esse foi um dos fatores que o levaram a sair do partido.

Em nota, a prefeitura não rebateu as críticas e não justificou os erros apontados. Em vez disso, preferiu reforçar os feitos na educação e saúde, como a ampliação de vagas para educação infantil, o uso de tablets em aula, a criação de espaços para aulas de robótica e a reforma e ampliação do Hospital Municipal São José. Também destacou o respeito com o dinheiro público e o controle rigoroso da gestão quanto à corrupção e a implantação do Serviço Eletrônico de Informação (SEI), que agilizou os processos administrativos. Outro ponto citado foi as melhorias na pavimentação das ruas, que está abaixo da meta do próprio plano de governo, e a iniciação das obras da Ponte Joinville para 2021, o que ficaria para a próxima gestão.

Reportagem: Pedro Novais 
Foto: Kevin Eduardo
Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplina Jornal Laboratório I, 4ª fase/2020.

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