Mulheres buscam ampliar representatividade dentro da política joinvilense

Mesmo que 51,92% do eleitorado de Joinville seja formado por mulheres, as eleições municipais de 2020 contarão com apenas 32,3% de candidatas. No total, são 582 candidatos, 158 a mais do que nas eleições municipais de 2016. O número de mulheres concorrendo às eleições também aumentou. São 188 mulheres concorrendo aos cargos, um aumento de 55. O aumento mais significativo é o de concorrentes à prefeitura. Na última eleição, apenas duas candidatas a vice e nenhuma para prefeita. Neste ano, são cinco para vice e duas para o cargo máximo das eleições municipais. A porcentagem de candidatas corresponde a pouco mais que o mínimo exigido pela lei de cotas de participação feminina para as candidaturas ao poder legislativo.

O eleitorado de Joinville tem 403.526 pessoas, sendo 209.503 do sexo feminino. Na faixa etária, o maior número está no de mulheres entre 45 a 59 anos, 56.584 no total. Apenas entre as idades de 16 a 20 anos a maioria é do sexo masculino, somente 242 a mais. No grau de instrução, mulheres com o ensino médio completo são o maior número, totalizando 71.262.

Nas eleições de 2016, somente duas mulheres foram eleitas, Ana Rita (PROS) e Tânia Larson (SD), ambas vereadoras, com 3509 e 2455 votos respectivamente. Iracema do Retalho (PSB) também assumiu o cargo de vereadora, porém foi eleita como suplente, quando recebeu 3307 votos. Pastora Léia (PSD) foi a mulher mais votada para vereadora, com 4191 votos, porém ficou apenas como suplente por conta de sua coligação. As três vereadoras tentam a reeleição, todas por partidos diferentes da última eleição. Ana Rita pelo Cidadania, Iracema pelo PSDB e Tânia pelo PSL.

Diferente das vereadoras, as duas candidatas a vice não foram eleitas. Receberam 42.058 votos (13,65%) a candidata a vice Delegada Marilisa (PSDB) e candidato a prefeito Marco Tebaldi. Com menos votos, Cynthia Pinto da Luz (PSOL), vice de Ivan Rocha, recebeu 3058 votos (1%). Ambas não passaram para o 2º turno.

As candidatas à prefeitura

Tânia Eberhardt (Cidadania) é uma das duas candidatas à prefeitura. Para Tânia, o esforço por ser mulher tem que ser dobrado, além de ter de provar competência a cada instante. “É como se os feitos positivos das realizações das mulheres não gerassem memória, e por isso precisam ser reafirmados. Essa é uma posição condicionada culturalmente, mas que estamos mudando pouco a pouco”, comenta. Eberhardt completa que com a candidatura dela, a mulher ganha um protagonismo. Segundo Eberhardt, isso não facilita o trabalho em busca de votos, mas estimula outras mulheres para entrarem nessa luta.

No plano de governo de Tânia, a palavra mulher é citada duas vezes. A primeira, em uma proposta para ampliar as vagas da educação integral para crianças de 0 a 3 anos, na qual “mulheres trabalhadoras de famílias em condição de vulnerabilidade social” serão priorizadas. A segunda proposta é ligada à agricultura, que visa fortalecer e valorizar o empreendedorismo do jovem e da mulher rural.

No debate dos candidatos a prefeito, realizado pelos alunos da sexta fase de Jornalismo da Faculdade Ielusc, a candidata citou os 40 anos de vida pública dedicados à Joinville. “Nesse momento difícil que a cidade vive, nós precisamos de um olhar mais fraterno. Quem conhece o caminho, sabe a solução do caminhar”, completou.

Eberhardt já foi vereadora duas vezes pelo PMDB, eleita nos anos de 2004 e 2008. Em 2006, candidatou-se à deputada estadual, porém não foi eleita. Também não conseguiu a reeleição como vereadora em 2012, ficando apenas como suplente.

Nas redes sociais, a candidata publicou um vídeo sobre mulheres na política. No vídeo, disponível no Instagram e Facebook, são citadas algumas chefes de estado como “exemplo de gestão”, e ao final que, seguindo o mesmo receituário, Tânia acabou com a crise da saúde em Joinville. Além de duas vezes vereadora, Eberhardt foi secretária estadual de saúde e diretora do Hospital Regional Hans Dieter Schmidt.

Mayara Colzani (PSOL) é a outra candidata a prefeita. É a terceira eleição da carreira política. Em 2016 e 2018, tentou a candidatura para vereadora e deputada estadual, respectivamente, porém não foi eleita. Mayara é, há mais de 10 anos, socialista e militante da Esquerda Marxista, que é uma corrente do partido, além de se denominar como candidata contra o sistema. Ela é a única dos 15 candidatos à prefeitura que não possui bens listados no TSE, além de não utilizar o fundo eleitoral para a campanha.

A candidata afirma que não tem diferença em seu discurso por ser mulher, mas que é necessário combater qualquer tipo de preconceito. Com relação ao público eleitor, acredita que os votos podem vir de todos que se identificarem com aquilo que ela defende. “Continuaremos combatendo o mal do machismo pela raiz, denunciando as mazelas do capitalismo e na luta por uma sociedade sem opressões e um governo dos trabalhadores, pela revolução socialista”, completa Mayara.

O plano de governo de Colzani tem a palavra mulher citada uma vez. A candidata diz que estará na linha de frente contra o racismo, a opressão das mulheres e todas outras opressões. As ideias de Mayara são contra a repressão e criminalização de movimentos sociais. No debate dos candidatos a prefeito, ela reafirmou sobre o apoio aos direitos dos trabalhadores e da juventude.

Segundo a professora Valdete Daufemback, mestra em História Cultural, a lei de cotas de participação feminina é importante para o aumento no número de mulheres na política, porém, pode ser uma estratégia de partidos para conseguir votos, tendo em vista que é comum haver candidatas laranjas. “Não considero esse pequeno aumento algo a ser comemorado, pois estamos aquém das possibilidades que poderíamos chegar”, completa.

Valdete não considera uma grande vitória ter duas mulheres para concorrer à vaga no poder executivo, levando em conta a quantidade de eleitoras no município. “O discurso da meritocracia tem feito valer o resultado nas urnas em favor de uma minoria, geralmente homens, brancos, detentores de capital sociopolítico e econômico”, afirma. Segundo Daufemback, fica difícil uma mulher candidata à prefeitura ser eleita com um discurso ou pautas de governo voltadas à coletividade e às minorias. Na disputa das eleições, o mesmo discurso machista e hierárquico disciplinar da sociedade é assumido pelas candidatas.

Candidatas à reeleição como vereadora 

Desde a primeira legislação, em 1947, somente 12 mulheres foram eleitas para a Câmara de Vereadores. Iracema Bento é a décima segunda. De lá pra cá, foram 18 legislações e nenhuma vereadora tornou-se presidente da casa legislativa de Joinville. A professora Valdete afirma que a campanha eleitoral deveria ser um momento oportuno para refletir sobre as condições de desigualdades sociais e de oportunidade de trabalho para as mulheres. Conforme afirma Daufemback, “as pessoas não querem reflexão, querem certezas, promessas, encantamentos para sonhar com uma vida que está fora de seu alcance pelas honras da meritocracia.”

Ana Rita da Frada (Cidadania) vai para a segunda eleição de sua carreira política. A primeira foi a de 2016, quando foi eleita vereadora de Joinville. Tânia Larson (PSL) está em sua terceira eleição, tendo sido eleita vereadora em 2016. Concorreu à deputada estadual em 2018, porém ficou como suplente. Nas redes sociais, o foco de ambas candidatas é da causa animal.

A empresária Iracema Bento (PSDB), conhecida como Iracema do Retalho, disputará a terceira eleição para vereadora de Joinville. Em 2012, pelo PDT, e 2016 pelo PSB, ela ficou como suplente. Em 4 de fevereiro de 2019, assumiu a vaga de vereadora que era de Rodrigo Coelho, eleito deputado federal nas eleições de 2018. Em vídeo publicado nas redes sociais, Iracema cita a luta pela segurança e bem-estar das mulheres, e a luta contra a violência doméstica.

“Mesmo que vemos uma mínima taxa de mulheres ganhando espaço na política a cada eleição, ainda os números são poucos”, comenta a vereadora. A candidata à reeleição afirma que mulheres precisam de estratégias diferentes e mais atrativas, quando comparadas com campanhas de homens. “Isso é uma questão indiscutível, porque hoje sabemos o quanto são desiguais os direitos de homens e mulheres em tantas esferas da sociedade, sobretudo na vida profissional”, disse Iracema.

O enfoque dos discursos de homens e mulheres também é diferente e a vereadora fala sobre o foco do discurso dela: “as mulheres precisam defender sua classe e gênero, lutar pelos direitos da mãe, da trabalhadora, da violentada, da excluída, da imigrante, da menina que entra na sala de aula para aprender que ela tem capacidade de ser alguém vocacionada para representar um povo, seja na vida pública ou como transformadora social”.

Com relação ao público dela, Iracema tem certeza que a maioria são mulheres. Ela afirma com base nos dados das redes sociais, já que a candidata tem aproximadamente 5 mil seguidores no Facebook e também no Instagram. “Esses números são comprovados, principalmente, pelas relações pessoais que cultivo há mais de 50 anos morando em Joinville” completa.

Segundo a mestra em História Cultural, em eleições passadas tiveram candidatas que defendiam direitos das mulheres e das minorias, mas dificilmente, defensoras desses direitos são eleitas. Não é por isso que mulheres devem se render aos discursos usuais. “É preciso criar uma cultura de resistência e de informação quanto à autonomia feminina no pensar e agir em defesa da vida, dos direitos, da justiça social, da igualdade étnico-racial”, afirma. Ela espera que esta iniciativa de resistência ajude a desenvolver a autonomia feminina e uma sociedade mais igualitária e justa.

Uma candidatura coletiva e feminina

O Coletivo Juntas (PT) concorrerá pela primeira vez às eleições para vereadoras. A ideia é de um mandato coletivo, composto pelas covereadoras Iraci Seefeldt, Maria Ivonete Peixer, Mônica Almeida, Patrícia da Silva e Valéria Nunes, que é a candidata registrada no TRE. Apesar de Valéria ser a candidata registrada, nas redes sociais ela não é colocada em destaque como vereadora, e sim o Coletivo Juntas com todas as covereadoras. Segundo o coletivo, quanto mais vozes, mais representação. 

O coletivo nasceu há dois anos, originado de um movimento denominado Coletivo Juntas por Joinville. Em estados como São Paulo, com a Bancada Ativista, e em Pernambuco, com o Juntas, coletivos como esse já foram eleitos. Em Santa Catarina, é uma novidade nessas eleições. O Coletivo Juntas por Joinville é o único coletivo político feminino do estado. “Os coletivos nascem com uma ideia de unir forças para trabalhar uma nova forma de representação política”, comenta a candidata à covereadora Maria Ivonete. Os coletivos tentam dialogar que não é preciso fazer a política sempre de forma hierárquica.

As propostas do grupo são voltadas para a luta pela garantia dos direitos sociais, empoderamento feminino e pelo bem-estar da população. Uma das premissas é de emancipar as mulheres para que elas assumam lugares de empoderamento na sociedade. Outro foco é uma política de enfrentamento à violência contra a mulher. “Um dos papéis de um vereador, é de ser um grande mobilizador social. Nós somos o ouvido e a boca da população, precisamos trazer isso para o gabinete”, comentou Maria.

“Como a população de Joinville é muito tradicional e não tem o hábito de ouvir os partidos de esquerda, nós optamos pelo coletivo por ter uma união de mulheres”, comenta Maria Ivonete sobre a estratégia do coletivo. Existe uma dificuldade no enfrentamento ao machismo, na sociedade e dentro do próprio partido, até mesmo nos de esquerda.

“Do ponto de vista antropológico, a mulher tem mais empatia com a sociedade e com os temas sociais”, explica Maria Ivonete. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2018, 45% dos lares brasileiros eram sustentados por mulheres. Para Maria, as mulheres passam a ter um compromisso maior com a sociedade, principalmente, em relação à saúde, à educação, ao cuidado com as pessoas e ao lazer. “Por uma questão social, a mulher tende à uma visão política mais humanizada”, completa.

O Coletivo Juntas está fazendo uma campanha para que as mulheres, que formam 52% do eleitorado joinvilense, votem em mulheres. Para Maria Ivonete, a candidatura não vem sendo discutida por uma questão de gênero, mas sim uma discussão para mulheres competentes e que tenham história em setores sociais.

Reportagem: Fred Romano
Foto: Nadine Quandt
Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplina Jornal Laboratório I, 4ª fase/2020.

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