Brasil forma mestres e doutores para o desemprego

Ariele Silvério Cardoso terminou o bacharelado em Jornalismo na Faculdade Ielusc, em Joinville (SC) e foi direto para o mestrado. Apaixonada por antropologia social, ela descobriu o gosto pela pesquisa quando fazia a monografia. Hoje, porém, está fora da academia.

A realidade de Ariele reflete os números do país. Se o desemprego entre a população geral bate recordes históricos atualmente (fechando em 14,4%), a taxa de desemprego entre mestres e doutores é ainda maior: 25% dos que ostentam o título de doutor no currículo estão desempregados. 

Entre mestres, esse número é ainda maior: são 35% sem ocupação formal. No mundo, essas taxas giram em torno de apenas 2%. O que resta para essa parcela é sair da academia e buscar outras fontes de renda. Portanto, Ariele não é exceção ao se direcionar novamente para o mercado.

Hoje, ela é assessora de imprensa na Associação de Municípios do Nordeste de Santa Catarina (Amunesc) e sócia da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), fazendo parte da banca avaliadora. Este último, porém, não se trata de um serviço remunerado.

Ariele reconhece que sair da faculdade sem nenhuma experiência na área e ir direto para o mestrado pode ter dificultado o ingresso no mercado de trabalho. É muito mais barato para uma empresa contratar um bacharel ou um especialista do que um mestre ou doutor. Isso leva muitos profissionais a ocultar seus títulos no currículo, para evitar a rejeição das empresas.

Ariele comenta que a popularização do estudo acadêmico, em conjunto com o sucateamento das universidades é um agravante para a situação. De fato, olhando para trás, é possível traçar uma linha até esse momento difícil para aqueles que escolheram a carreira acadêmica. 

Entre 1996 e 2015, houve aumento de 401% no número de mestres e doutores, onda provocada pelo alto número de oportunidades de acesso à pós-graduação. Um levantamento da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) mostra que a quantidade de programas de mestrado e doutorado subiu de 714 em 1995 para 2.147 em 2015.

Esse salto também não é difícil de entender: durante a década de 2000 até o início da década de 2010, o Brasil experimentou um boom da ciência. Entre 1995 e 2002 foram criadas seis universidades federais, totalizando 45 em 2002. Entre 2003 e 2010, porém, houve um salto: surgiram 14 novas universidades federais. 

Ou seja, o início do século 21 no Brasil representou grandes investimentos na educação superior pública. Entre 2011 e 2018, esse boom diminuiu: somente 6 novas universidades surgiram.

Em 2016, a PEC do Teto de Gastos congelou os investimentos em educação pública no país. Aliás, nem é necessário voltar para 2016. O governo de Jair Bolsonaro começou seu primeiro ano, 2019, com cortes nas verbas de universidades públicas e bolsas de mestrado e doutorado.

Resumindo, o Brasil teve um aumento exponencial no investimento em ciência na década passada, mas nessa década correu para o extremo oposto. Tudo isso combinado com um alto número de profissionais que seguiram carreira acadêmica. 

O resultado? Milhares de mestres e doutores desempregados e com pouca perspectiva de carreira. O desemprego havia se estabilizado em 27% entre 2009 e 2014, mas aumentou para 30,7% em 2016, conforme o CGEE. A concorrência, porém, tende a crescer. O Plano Nacional de Educação tem como meta formar 25 mil novos doutores em 2020.

“Com o crescimento das ofertas de pós-graduação, o Brasil formou muito mais mestres e doutores do que tinha há 20 anos. E essa redução de vagas por causa do ensino a distância e a diminuição drástica de vagas para mestres e doutores em universidades públicas geram um problema” afirma Matheus Simões Mello, doutor em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina

Com Matheus, o destino foi mais gentil. Ele se formou em 2012 na graduação e, desde então, nunca ficou desempregado ou fora da academia. Na verdade, ele deu aulas na Faculdade Ielusc, onde se formou, assim que começou o mestrado. “Eu deixei sempre uma boa impressão na instituição onde estudei e trabalhei. 

Deixei portas abertas, soube aproveitar, e dei sorte por ter aberto uma vaga justamente quando estava saindo do doutorado”, conta Matheus. Para ele, tudo é uma mistura de competência, sorte e coincidências.

Uma dica que o Doutor em Jornalismo deixa é a necessidade de projetar desde o início o que se pretende fazer depois de obter a titulação. Ele ainda ressalta que, com a ascensão do EAD, o cenário fica ainda mais difícil para os novos titulados. Durante a pandemia, várias instituições chegaram a reduzir o corpo docente pela metade. Com as aulas virtuais, é possível reunir muito mais alunos em uma única sala de aula ministrada por um único professor. 

As demissões em massa de professores são cada vez mais comuns: segundo um levantamento do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro SP), 1.674 professores de faculdades particulares paulistas foram demitidos desde abril. Instituições como a Uninove, a Positivo e a Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) protagonizaram casos de demissão em massa, com direito a professores sendo demitidos por pop-up e e-mail.

O que resta aos profissionais é buscar oportunidades fora da academia e “bicos”, como correção de trabalhos acadêmicos conforme normas da ABNT, substituição temporária de professores etc.

Há ainda os que decidem fazer pós-doutorado. Um pós-doutorado não é um título/nível de formação acadêmica. Na verdade, trata-se de uma atividade de pesquisa que pode ser feita depois do doutorado. 

Para sua realização, o profissional recebe uma bolsa, que serve para seu sustento. Hoje, no Brasil, uma bolsa de pós-doutorado tem o valor de 3,3 mil reais por mês. Essa acaba sendo a fonte de renda de doutores como Josnei Di Carlo, doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“Deixei de fazer concursos porque não tinha condições de arcar com os custos”, conta Josnei. Participar de concursos públicos é caro e inviável para muitos profissionais. Um concurso público dura uma semana ou até mais. 

Caso o profissional esteja trabalhando, é preciso se ausentar durante todo esse período, mas nem sempre o empregador dá essa chance. Participar do concurso ainda envolve uma série de outros gastos, como passagem de avião, hospedagem etc.

Josnei foi aprovado em dois processos seletivos, mas não foi chamado em nenhum dos dois. Ser aprovado em um processo seletivo não garante a convocação para ocupar a vaga. Nesse cenário, o pós-doutorado foi uma saída. 

Em um pós-doutorado, ficaria mais fácil para Josnei arcar com os custos de um concurso, além da possibilidade de se ausentar das atividades de pesquisa durante o período do processo. O que ele não contava era com uma pandemia de Coronavírus devastando o mundo em 2020. Os concursos foram adiados, e Josnei segue no pós-doutorado. 

Ele critica o fato de que a expansão da pós-graduação se deu em conjunto com uma expansão vertical do mercado de trabalho, e não horizontal. Ou seja, foram formados mais doutores para ocuparem postos de trabalho quase exclusivamente na educação superior pública, por conta da criação de novas universidades e institutos. Porém, não houve criação de vagas para mestres e doutores em outros setores. “O gargalo ia ficar evidente assim que diminuísse a criação de novas universidades e institutos”, opina ele.

Fuga de cérebros

imagem: unsplash

Outro fenômeno que pode ser causado pela desvalorização do profissional da ciência no Brasil é a fuga de cérebros. Esse é o nome que se dá ao êxodo de pessoas qualificadas, ou seja, quando esses mestres e doutores decidem sair do país e buscar oportunidades em países mais promissores. Isso acaba se tornando um problema para o Brasil, que se torna um país de pessoas com baixo nível acadêmico.

“Quando a gente se sente desvalorizado, desprestigiado, e não há incentivos, essas pessoas acabam migrando”, opina Matheus. Ele cita a ditadura militar como um mau exemplo histórico, e fala de Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente da república era um sociólogo respeitado, mas teve que se exilar por motivos políticos e foi dar aulas na França. “Desprestigiar a ciência é dar um tiro no próprio pé”, conclui.

Hoje, não é possível verificar dados exatos sobre fuga de cérebros. Isso porque os mestres e doutores que deixam o país não utilizam bolsas das instituições brasileiras, como a Capes ou CNPq, mas de universidades e centros de pesquisa do exterior que os contratam. 

Entretanto, no ranking de competitividade global de talentos criado pela Insead, uma das maiores escolas de administração do mundo, o Brasil amarga o 80º lugar entre as 132 nações analisadas. Ou seja, o país demonstra grande dificuldade em formar, reter e atrair talentos. No item “fuga de cérebros”, o país piora a cada ano, ocupando a 70ª posição.

O perfil no Twitter “Diáspora Científica do Brasil” é parte dessa tentativa. A iniciativa busca mapear os cientistas brasileiros que migraram para o exterior. O levantamento ainda está em andamento, mas, até agora (novembro de 2020)  foram mapeados 1300 cientistas fora do país. A maioria (541) nos Estados Unidos, seguido pelo Reino Unido (164) e o Canadá (108). Também foram mapeados 88 cientistas na Alemanha, 51 na França, 44 na Holanda, 43 na Austrália, 36 na Suíça, 30 na Itália, 25 na Irlanda, 25 em Portugal, 21 na Espanha e 18 na Suécia.

Por ora, nada indica que a situação do profissional da ciência no Brasil irá melhorar em um futuro próximo. Josnei opina sobre o tema: “Levando em conta o grupo político que chegou ao poder, a carreira acadêmica já piorou. A tendência, portanto, é a vida acadêmica se tornar inviável ou um privilégio de classe. Somente quem tiver uma família que possa arcar com os custos de um mestrado ou doutorado sem bolsa poderá obter esses títulos.”, conclui.

Reportagem: Guilherme Martins Rosa

Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplinas de Jornal Laboratório I e Jornalismo Digital, 4ª fase/2020

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