Entregadores na pandemia

Aplicativos de entrega dominam o mercado durante a pandemia

O aumento da demanda por entregas levou o setor a um novo patamar e causou ainda mais polêmicas trabalhistas

Até outubro deste ano, a pandemia do novo coronavírus já deixou 13,5 milhões de brasileiros desempregados, um aumento de 13,6% em relação ao mês de setembro. Considerando que o auxílio emergencial chegou a ser a única fonte de renda de aproximadamente quatro milhões de famílias, os aplicativos de serviços – a maioria com a premissa de nenhum vínculo trabalhista – passaram a atrair uma parcela significativa da população desempregada.

Desde março, quando foi decretado estado de pandemia no Brasil, o número de entregadores de aplicativo aumentou 20%, segundo o Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas Intermunicipal do Estado de São Paulo. Esse crescimento no número de pessoas trabalhando com entrega veio da promessa de independência e menos vínculos trabalhistas, mas também do aumento exponencial da demanda por entregas. 

Fonte: Infogram

Uma pesquisa da Mobills aponta que entre março e maio o número de pedidos de delivery em aplicativos como IFood, Rappi e Uber Eats, marcas que dominam o setor, aumentou 94,67%. Em fevereiro, quando a quarentena foi decretada, houve uma pequena queda no número de pedidos, 16,98%, devido à incerteza financeira que muitos sentiram. De março em diante, no entanto, o número aumentou de forma consistente pelo resto do ano.

No entanto, com mais pessoas entregando e ainda mais pessoas pedindo, essas plataformas passaram a custear menos seus serviços. Para suprir a demanda de entregas, mais motoboys e ciclistas se cadastraram nos apps, o que automaticamente elevou o valor a ser pago pelas plataformas de serviços. 

O entregador

Pesquisa divulgada pelo Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Cesit – Unicamp) aponta que antes da pandemia, 47,4% dos entregadores declararam rendimento semanal de até R$ 520,00 (o que corresponderia a aproximadamente R$ 2.080,00 mensais). Desta parcela, 17,8% declararam remuneração de até R$ 260,00 por semana (aproximadamente, R$ 1.040,00 mensais). Durante a pandemia, o número de entregadores que ganham até R$ 260,00 cresceu 34,4%.

Para Nanderson Fernandes, ex-gerente de uma cervejaria em Joinville, a história foi outra. Diferente do que relata a pesquisa, seu rendimento aumentou depois que a pandemia começou. “Antes não tocava muito o app. Não tínhamos muitas solicitações. Mas com as pessoas em casa melhorou bastante. O aplicativo passou a tocar cinco vezes mais. Tinha dia que era impossível ficar parado. O rendimento aumentou, as gorjetas online aumentaram e o aplicativo pagava uma taxa redobrada para os entregadores.”

Para manter o rendimento de antes da pandemia, a maioria dos entregadores passou a realizar jornadas de trabalho mais longas. A pesquisa aponta que a porcentagem daqueles que trabalharam nove horas por dia foi de 57% para 62% durante a pandemia, mais da metade cumprindo expediente nos sete dias da semana. Como consequência, as pessoas que trabalham com essas plataformas passaram mais tempo na rua, expostos ao coronavírus.

No começo da pandemia, as empresas publicaram medidas de segurança que deveriam ser seguidas pelos entregadores, além de disponibilizar máscaras e álcool 70%. Nanderson conta como os principais apps de entrega colaboraram para evitar o contágio. “A Uber Eats tinha descontos em médicos se nós fossemos nível platina, ouro ou diamante. Cada um deles tinham um significado, como desconto na gasolina. Tocava mais corrida, melhorava o score”. Já o Ifood fez com que os entregadores passassem por uma rota obrigatória toda semana, onde podiam retirar o álcool gel e pacotes de máscaras. Entre os principais atrativos dessas empresas está a grande quantidade de convênios com consultórios médicos, lojas de eletrodomésticos e até instituições de ensino, tudo isso dependendo do score, ou nível, do entregador.

Em abril, o iFood conseguiu fazer com que a liminar que determinava que várias medidas que garantiam segurança financeira e de saúde para os entregadores fosse derrubada. Entre elas constava que os aplicativos deveriam pagar o valor de um salário mínimo (R$ 1.045,00 na época) para aqueles que estivessem afastados do trabalho, seja por contaminação ou por alguma pessoa próxima que tivesse contraído o coronavírus. Segundo a empresa, o custo de pagar os entregadores como a liminar previa seria de aproximadamente R$150 milhões.

Dóris Ribeiro Prina, desembargadora que derrubou a liminar, justificou a decisão com o fato de que o vínculo entre a plataforma e os entregadores não é caracterizado pela CLT. “Os colaboradores do iFood podem ou não fazer uso da referida ferramenta, de acordo com seus interesses” disse, ao explicar que o usuário não tem nenhum compromisso com as empresas. Na mesma época, o iFood criou dois fundos de apoio aos entregadores, ambos no valor de R$ 1 milhão. O primeiro é destinado aos colaboradores afastados das ruas por serem parte de grupos de risco, ou seja, idosos ou pessoas com doenças que as tornam mais propensas a se contaminar. Já o segundo foi passado àqueles que foram diagnosticados com coronavírus e que precisaram cumprir quarentena por 14 dias. 

De abril a junho deste ano, houve um aumento no número de protestos organizados pelos entregadores das plataformas, reivindicando principalmente mais transparência das empresas quanto ao ajuste das taxas e investimento em equipamentos de segurança para os usuários. Em abril, entregadores de São Paulo fizeram uma paralisação, exigindo que os aplicativos fornecessem equipamentos de segurança contra o coronavírus. Só então o iFood passou a distribuir máscaras e álcool gel gratuitamente aos usuários.

Fonte: Band News/Youtube

Apesar das polêmicas trabalhistas derivadas desse tipo de serviço, que já existiam antes mesmo da pandemia, as empresas iFood, Uber Eats e Rappi  ajudaram a manter a economia brasileira de pé. A Rappi, que trabalha com entrega de vários itens além de comida, informou que as operações no Brasil cresceram três vezes a partir de março em relação aos meses anteriores. Para donos de negócios, o setor de delivery foi um salva-vidas.

A sobrevivência dos estabelecimentos pelo delivery

Sendo assim, esses aplicativos foram responsáveis por impedir que muitos estabelecimentos alimentícios fossem à falência. Em agosto, o Sebrae publicou que 7% de bares e restaurantes foram obrigados a encerrar negócios durante a pandemia pela perda total faturamento. Apenas 4,5% dos entrevistados alegou aumento no rendimento do estabelecimento. Todas possuíam ou adquiriram o serviço de delivery.

O número de estabelecimentos alimentícios cadastrados em aplicativos de entrega aumentou 30% desde o começo da pandemia. O iFood informou que, em quatro meses, 40 mil novos cadastros de bares e restaurantes foram registrados na plataforma.

Fonte: Ifood

Com esses aplicativos crescendo ainda mais no mercado durante a pandemia, muitos viram uma oportunidade. Kaio Santos trabalha no setor bancário e este ano abriu a Texano Smoked Burger, uma hamburgueria que funciona somente por delivery. “Quando falamos em delivery, estamos falando de uma forma otimizada de atender a clientela, tanto na questão de investimentos reduzidos e também de custos e despesas reduzidas, o que se torna algo atrativo para alguém que está iniciando no ramo”, explica. Ele também acredita que o atendimento por delivery ajuda na consolidação da marca e a conquistar uma clientela fiel por meio de promoções, combos e atrativos. Mais para frente, ele pretende abrir uma sede para fazer o atendimento presencial.

Segundo Kaio, 40% da receita do Texano Burger é obtida apenas pelo iFood, o resto deriva das redes sociais em que a hamburgueria faz anúncios. No entanto, com a flexibilização das medidas de segurança, muitos bares e restaurantes de Joinville voltaram a funcionar e, consequentemente, a recuperar seu rendimento. Para ele, isso significou uma queda no número de pedidos. Sendo assim, as plataformas de entrega podem se tornar um mercado incerto para os donos de estabelecimentos, como nem todos sendo capazes de manter o rendimento positivo durante o resto da pandemia.

Por isso, muitos negócios buscam investir em novas formas de manter lucro, mesmo fora dos aplicativos de entrega. O Combray, um restaurante que não trabalhava com entregas antes da pandemia, criou um novo serviço. O consumidor recebe os ingredientes com as instruções e prepara o prato em casa. Edson Nunes, maitre do restaurante, conta que a decisão de não se cadastrar em nenhum aplicativo de entrega veio, principalmente, do objetivo de criar um diferencial. 

Por operar fora das plataformas de entrega, a receita do Combray não subiu tanto durante a pandemia. Mas, pelo mesmo motivo, o novo serviço promete gerar lucro por mais tempo, mesmo depois que bares e restaurantes abrirem completamente. “O restaurante está acima da expectativa. Graças aos nossos cuidados com o distanciamento e a higiene, estamos tendo um rendimento muito bom. Nosso novo serviço está dando bons resultados, nossa lucratividade não é tão grande, mas aceitável”, conta Edson. “Tendo em vista o marketing que esse serviço nos trás continuaremos, mas mudaremos algumas coisas. No futuro teremos novidades.”

Para Edson, o serviço de entrega também ajuda a manter a marca não apenas economicamente, mas dentre a clientela fiel que, antes da quarentena, frequentava o estabelecimento constantemente. “Foi uma forma que encontramos de mostrar que estamos vivos e bem, pois muitos outros do nosso ramo adormeceram e perderam clientes e caíram no esquecimento, pois quem é visto é lembrado certo?”. Ele reforça que as incertezas sempre existiram e que o mercado é um jogo de apostas. “Acreditamos no melhor por vir e vamos seguindo, temos famílias que dependem do nosso sucesso (nossos funcionários) e se pararmos de arriscar, de tentar, eles também perdem. Sendo assim, vamos seguindo.”

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