Mortes de pessoas trans no Brasil aumentam em 47%

Com uma média de 15,1 casos ao mês, em 2020 tivemos uma pessoa trans assassinada a cada 48h

Cento e vinte e quatro mulheres trans foram mortas em 2019. Neste ano, até o mês de outubro, 151 pessoas que foram assassinadas expressavam o gênero feminino, sejam travestis ou mulheres trans, 48 mortes a mais se comparado ao mesmo período do ano anterior. Os dados são da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA) e não refletem precisamente a realidade da violência transfóbica no país, uma vez que a metodologia de trabalho utilizada pela organização possui limitações, capturando apenas aquilo que de alguma maneira se torna visível. 

Assim, é provável que os números reais sejam superiores principalmente observando que o Estado não registra e divulga dados sobre o assassinato de pessoas LGBTQI+. O próprio boletim da Antra explica que os dados fazem  parte do mapeamento anual da violência contra pessoas trans, feito a partir de notícias publicadas nas mídias, redes sociais, grupos de WhatsApp e parceiros/aliados que reconhecem a importância desse trabalho. A Antra é uma rede nacional que articula em todo o Brasil instituições que desenvolvem ações para promoção da cidadania da população de travestis e transexuais, fundada no ano de 2000, na Cidade de Porto Alegre.

Informações: Dossiê: Assassinatos e Violência Contra Travestis e Transexuais Brasileiras Em 2019 (ANTRA); Boletim 5-2020 – Assassinatos Antra

Mariana Franco, discente de Serviço Social na UFSC foi candidata a vereadora nas eleições municipais de Florianópolis, relata que a violência sempre a cerca: “Desde que eu saio de dentro de casa eu recebo preconceito, na rua, no ônibus, no banco, no shopping. A violência vem de várias formas, seja ela moral, com xingamentos na rua; seja o não reconhecimento da minha identidade”. Franco conta que nunca sofreu agressão física, mas já sofreu violência sexual.

Mariana também compartilha os dois casos de preconceito que mais marcaram. Um deles foi quando estava jantando com um amigo em um restaurante de Florianópolis e o garçom perguntou se ela era trabalhadora sexual, pois, caso fosse, deveria se retirar do local que era um ambiente familiar. O segundo caso aconteceu em um aeroporto, quando foi impedida de entrar no avião, pois a companhia a acusou de falsidade ideológica por não aceitarem o nome social dela.

“Todas as pessoas trans que eu conheci na minha adolescência estão mortas”, exclama Mariana ao recordar do início de sua transição. Ela também compartilhou que participou de um encontro Sul brasileiro de pessoas trans, que ocorreu em 2017 no Rio Grande do Sul, e metade das mais de cem participantes que estiveram presentes não estão mais vivas atualmente. 

A psicanalista e escritora Bruna Morsch relata que mesmo vivendo de forma mais estável, com um lugar de privilégio por sua profissão e posição social, ainda vive com medo. Ela nunca sai de sua casa desacompanhada, desde uma balada até as atividades mais simples. Até mesmo na ida ao parque para seu hobbie de patinação.

No Brasil, a expectativa de vida das mulheres trans é de 35 anos, menos da metade da expectativa de vida média nacional de 75 anos. De acordo com o dossiê de 2019 da Antra, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans, seguido por México e Estados Unidos. E é no país que mais mata pessoas trans que há o maior público consumidor de pornografia trans de acordo com estatísticas do site RedTube (em inglês). 

Informações: Dossiê: Assassinatos e Violência Contra Travestis e Transexuais Brasileiras Em 2019 (ANTRA)

Para Bruna, a morte de pessoas trans está diretamente relacionada aos estigmas fetichistas presentes na cultura brasileira. Os dados sobre o consumo de pornografia trans são uma  evidência disto. “Esses homens que matam as pessoas trans, estão tentando matar seu próprio desejo reprimido”, observa a psicanalista. 

A vivência de Letícia Borecki, atendente de call center e estudante de Publicidade e Propaganda, não é muito diferente da descrição de Mariana e Bruna. Borecki cita os exemplos de preconceito mais comuns, como uma ida ao banheiro feminino. Relata como algumas mulheres falam alto entre si com o intuito de que ela escute e se sinta acuada,  já outras cochicham frases como “meu deus, o mundo está perdido mesmo”. Letícia diz que, no fim das contas, poucas falam diretamente para ela e o preconceito geralmente está relacionado à religiosidade.

Felizmente Letícia não sofreu nenhuma violência física, mas conhece muitas pessoas trans que já sofreram. Uma história de uma mulher trans que tinha toda a documentação com nome social e que recusou que um policial homem a revistasse. O policial lhe deu um tapa no rosto e disse “homem nasce homem e mulher nasce mulher”, e que ele iria revista-la da forma como quisesse. Para Borecki, esse acontecimento é um acontecimento que lhe marcou muito: “Temos medo não apenas da criminalidade, mas também das pessoas que atuam na esfera pública”.

Mercado de trabalho não é receptivo 

Mariana mesmo antes da transição já tinha medo de como seria sua presença no mercado de trabalho. Ela conta que conhece outras pessoas trans que encontram dificuldades para conseguir empregos e acabam se tornando trabalhadoras sexuais. A experiência de Letícia também é envolta no medo. Ela não sabia se iria perder o emprego após começar a transição, felizmente ela continuou empregada. A atendente de call center acredita que conseguiu manter seu emprego por sua competência e que já chegou a indicar outras pessoas trans, mas que estas nunca foram contratadas. 

Morsch conta que apesar de ter profissionais incríveis ao lado teve muitas experiências difíceis, como ir para congressos de psicanálise e psicologia e ver profissionais usando da psicologia como pretexto para poder justificar o seu próprio preconceito. “Já me frustrei em ter que assistir profissionais da ciência e da psicologia colocando a transexualidade à beira da loucura, isso é muito preocupante e gera muitas barreiras para uma pessoa que quer transicionar”, detalha a psicanalista.

Candidaturas trans no Brasil

Por outro lado, em 2018, no primeiro pleito no país a aceitar o uso do nome social de acordo com a Resolução nº 23.609/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Antra conseguiu mapear um total de 53 candidaturas de pessoas trans. A maioria das candidatas faziam parte de uma candidatura coletiva. Uma deputada estadual foi eleita por São Paulo: Érica Malunguinho da Silva, do PSOL, sendo a primeira pessoa trans a conseguir uma vaga na Assembleia Legislativa Paulista.

Já neste ano, a ANTRA conseguiu mapear em 25 estados, 294 candidaturas, dentre essas, 30 foram eleitas em sete estados do Brasil. Foram 16 candidaturas pela esquerda (6 PSOL, 4 PT, 4 PDT, 1 PV e 1 PSB), 11 pelo centro (1 PTB, 1 DEM, 2 PODE, 1 PROS, 1 AV, 4 MDB e 1 PSDB) e três pela direita (1 REP, 1 PL e 1 DC). Foram eleitos dois homens trans e as demais travestis e mulheres trans. Sete candidatas foram as mais votadas em suas cidades (Linda Brasil, Dandara, Tieta Melo, Lorim de Valéria, Duda Salabert, Titia Chiba e Paullete Blue).

Reportagem: Rafaela Sant’Anna

Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplinas de Jornal Laboratório I e Jornalismo Digital, 4ª fase/2020

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