Mulheres motoristas da Uber enfrentam obstáculos diante de uma sociedade machista

Apesar de possuir uma grande quantidade de condutores, dados revelam números pequenos referente ao sexo feminino

O Brasil se tornou o segundo maior mercado da Uber no mundo. Segundo os últimos dados divulgados pela empresa em 2019, o país faturou US$ 959 milhões em 2018, tendo mais de 600 mil motoristas parceiros e 22 milhões de usuários. Os dados também apontam que as mulheres ainda são minoria nesse mercado de trabalho, representando apenas 6% dos 600 mil motoristas cadastrados no país.

Évilin Matos Campos é mestranda em Ciências da Comunicação e pesquisadora assistente do projeto Fairwork Brasil ― uma pesquisa-ação interdisciplinar, com pesquisadores de comunicação, sociologia, administração, psicologia e direito, que entrevista trabalhadores de plataformas digitais para acompanhar as suas condições de trabalho, como garantias oferecidas e remuneração. Évilin acredita que isso seja reflexo de uma intersecção de gênero e classe. 

“Em geral, as famílias têm um veículo e normalmente o dono legal deste carro é o homem. Então, para ter um instrumento de trabalho, a mulher precisa alugar ou comprar, o que se torna um empecilho para ela iniciar na profissão”, explica. Segundo ela, a Uber deveria prover benefícios como um todo, desde remuneração à segurança dos motoristas em geral. “Isso que torna o trabalho atrativo e as pessoas precisam ingressar neste trabalho sabendo que haverá o mínimo de segurança social.”

Esse número pequeno de mulheres na Uber mostra também que apesar de terem conquistado muitos direitos durante as últimas décadas e terem assumido cargos altos em empresas e em outros ramos, ainda há pouco espaço para elas na profissão de motorista.

Para Évilin, essa questão tem várias camadas. A primeira: precisa haver mais mulheres com carro próprio. A segunda: os benefícios precisam ser atrativos para que as mulheres queiram trabalhar com o aplicativo. E a terceira: incentivo social para que todas as mulheres dirijam e se sintam aceitas na plataforma. “Muitas mulheres relatam que os grupos de WhatsApps são machistas e têm homossociabilidade masculina, que é quando os homens favorecem outros homens”, explica. Isso acontece também devido há uma desvalorização da mulher em funções trabalhistas consideradas “exclusivas” para homens.

“A solução vem através de anos de manifestações sociais de caráter histórico”, afirma a médica psiquiatra Flávia Tanaka de Oliveira Gschwendtner. Flávia acredita que não há uma resposta simples para esta questão. Isso depende de diversos fatores, como a melhoria das condições de trabalho, medidas educativas e preventivas para o combate de violência contra a mulher, políticas públicas para maior assistência à mulher no mercado de trabalho, incentivo às empresas para políticas internas de combate ao machismo e penas mais rígidas no sistema penal para agressores. “Então, desbravar o novo exige coragem, determinação e o reconhecimento que haverá percalços no caminho.”

Desafios no trabalho

Ketlin troca de carro para trabalhar como Uber.
Foto: Concessionária Ford Dimas.

“Gostaria de poder trabalhar até mais tarde, mas o perigo hoje no horário noturno é muito grande, então evito”, desabafa a motorista Ketlin Streit, de 24 anos. Ketlin é chef de cozinha, mas por conta do salário decidiu mudar de profissão. Ela conta que está há dois meses como Uber, trabalhando das 6h às 23h, até no máximo meia-noite. 

Para ela, poder escolher seu próprio horário de trabalho e a parceria entre os motoristas são uma das vantagens de trabalhar na plataforma. “No começo, senti insegurança e medo por não saber quem estava entrando no carro, agora me sinto mais segura. Hoje, 90% dos passageiros são pessoas do bem, mas mesmo assim, sempre tem que ficar atenta”, aconselha.

Assédio, preconceito, falta de segurança, piadinhas de mau gosto. Esses são alguns dos desafios e receios que mulheres são obrigadas a enfrentar diariamente por conta da profissão de motorista. São por essas dificuldades que, geralmente, as mulheres se sentem mais inseguras e com medo diante do volante. 

Para a psicóloga Geise Linhares da Silva é normal o ser humano ter receio e insegurança diante de situações novas e desafiadoras, mas quando se trata disso referente à situações perigosas que acontecem frequentemente e sem uma medida de proteção, pode aumentar de proporção, atuando de forma prejudicial à saúde. “A pessoa pode vir a ficar em um estado de alerta constante e ter problemas com transtornos de estresse, ansiedade, pânico, entre outros”, previne.

“Já tive passageiros homens no carro que fizeram piadinhas por eu ser mulher. Já ouvi várias vezes: ‘Nossa, você dirige muito bem para uma mulher’”, relata a motorista Leda Maria Veber, de 37 anos. Leda é bióloga, trabalhava como professora desde 2018, mas atualmente trabalha como motorista de aplicativo. 

“As vantagens são várias, principalmente, escolher o seu horário e dias de trabalho. Além de conhecer pessoas e histórias novas todos os dias”, conta. Ela decidiu trabalhar somente durante o dia, pelo horário ser mais variável e por causa da segurança. “Me senti insegura quando comecei a trabalhar, principalmente, porque quando comecei, morava em uma cidade maior. Aqui em São Bento, me sinto bem segura.”

Segundo Évilin, a mulher continua sendo mulher onde quer que ela esteja. Por isso, os preconceitos de gênero não são anulados quando a mulher está no volante, enquanto dona do carro, condutora e qualquer outra posição de poder que o trabalho como motorista de aplicativo lhe proporcione. 

A pesquisadora acredita que o aplicativo tem como oferecer algumas seguranças às motoristas mulheres, como: gravar áudio da corrida (já sendo possível na Uber) e denunciar alguma conduta sexista ou assédio por parte do passageiro. “Mesmo que esses recursos existam, o que já é importante, eles são uma tentativa de proteger, mas uma tentativa não é necessariamente uma segurança real”, afirma.

Rosenilda decidiu trabalhar como Uber depois de enfrentar uma crise econômica.
Foto: Arquivo Pessoal.

A motorista Rosenilda dos Santos Travasso, de 38 anos, está nessa profissão há um ano e quatro meses, e conta que se sente mais segura, pois trabalha somente para mulheres, crianças, idosos e casais (quando conhece ou há indicações). 

“Optei por trabalhar com essa modalidade justamente para que eu tivesse segurança e não passasse por situações constrangedoras e de perigo”, explica. Ela era vendedora autônoma, mas resolveu mudar de área por conta da crise econômica. Atualmente, trabalha das 6h às 19h, podendo se estender nos dias de pagamento e sexta-feiras até às 20h ou 21h. “Permaneci, pois gostei de trabalhar nesta área, devido ao horário flexível e estar dentro das preferências da minha área, que é estar com pessoas e ter liberdade.”

Geise conta que é recomendado às motoristas de aplicativos manter contato com outras mulheres motoristas profissionais, criando uma rede de proteção uma à outra e sempre que houver um comportamento suspeito, denunciar o perfil da pessoa no aplicativo. Para ela, também há outras maneiras de lidar com todas essas situações desagradáveis, como: buscar o empoderamento, buscar ser ouvida, fazer reclamações, lutar por justiça, se fazer presente na política e nos mais diversos poderes da sociedade. 

“A prevenção ainda é a solução, é dialogar com a sociedade e com as próprias mulheres, encorajando-as a denunciar cada ato”, frisa.

Jornada tripla

Sair para trabalhar de manhã cedo, voltar para casa, fazer trabalho doméstico e cuidar dos filhos é uma tarefa árdua e cansativa. Muitas mulheres passam por isso quando trabalham fora e tendem a mostrar um grande esgotamento físico e mental pela pressão sofrida diariamente. 

“Vivendo em um piloto automático, estas mulheres sobrecarregadas não conseguem desfrutar do momento presente e portanto, com pouca qualidade de vida”, acredita Flávia. Para Ketlin, essa jornada é muito difícil, já que precisa se dividir entre o trabalho e a casa. “Vivo na rua em torno de 16 horas por dia, tento tirar um dia para poder me organizar”, avalia. Já Leda conta que consegue conciliar as duas funções juntas. “Costumo fazer horários fixos de trabalho com poucas variações.”

“Podemos identificar cada vez mais mulheres ansiosas, estressadas, com vulnerabilidade para depressão, transtornos ansiosos, consumo nocivo de bebida alcoólica e síndrome de burn out”, esclarece a médica psiquiátrica. De acordo com Flávia, as mulheres não têm mais tanto tempo e energia mental para gerir a vida pessoal, saúde física, casamento e relacionamentos em geral, laços familiares e outras áreas fundamentais de vidas. “O impacto deste estilo de vida nas relações familiares e sociais é óbvio: aumento do número de conflitos por falta de tempo de qualidade para fortalecimento de vínculos”, aponta.

Para Geise, é preciso ter atitudes de autocuidado para fazer a diferença na saúde da mulher, como: uma boa alimentação, atividades de lazer e exercícios físicos, manter uma rotina de sono saudável, manter bons relacionamentos com amigos e familiares, fazer exames médicos preventivos e buscar ajuda psicológica.

Remuneração

As condições de remunerações dos motoristas Uber dependem muito de diversas questões: número de horas trabalhadas por dia; período do dia trabalhado; distância das corridas; entre outros. Segundo Évilin, a divisão de gênero, como mulheres ganharem menos, não se aderem à Uber, pois os trabalhadores são números na empresa. 

“Um motorista homem não vai receber mais chamadas por ser homem, nem uma mulher vai ser menos requisitada por ser mulher, o que define isso é a nota que eles têm”, explica.

“Acredito que em qualquer área existam desafios e dificuldades”, afirma Rosenilda. Ela conta que, no início, pensou em desistir, pois havia dias em que o dinheiro que entrava, só dava para abastecer o carro. Mas, hoje, ela consegue tirar um bom salário que atende suas expectativas. “Com o tempo fui vencendo a inexperiência e tudo fluiu. Claro que tudo depende do desempenho e dos sacrifícios.”

Évilin acredita que o que pode afetar na remuneração é o tempo que as mulheres dirigem durante o dia, que pode ser menor por conta da tripla jornada de trabalho. “O que podemos fazer é usar aplicativos voltados somente para mulheres, mas isso não exime o aplicativo de fornecer remunerações melhores para os trabalhadores como um todo.”

Gilvane trabalha desde março de 2019 como Uber.
Foto: Arquivo pessoal.

O tamanho das cidades também prejudica na remuneração, pois envolve a situação da demanda de usuários e a distância das corridas. Normalmente, as cidades menores não possuem tanta procura por parte das pessoas e, consequentemente, influencia nas corridas e rendimentos das motoristas. 

É o caso da aposentada e motorista Gilvane Wischral, de 52 anos, que está como Uber desde março de 2019. Ela menciona que não vê muitos benefícios como motorista de Uber, pois a cidade onde trabalha é pequena. “Torço para que melhore. Eu trabalho como Uber porque adoro dirigir e fazer amizades.”

Uber lança plataforma “Elas na direção” no Brasil

A empresa Uber, em parceria com a Rede Mulher Empreendedora, criou a plataforma “Elas na direção”, para incentivar e fortalecer mais mulheres a se tornarem motoristas parceiras da empresa no país. A plataforma tem como principal propósito contribuir para que essas mulheres consigam ter novas alternativas de renda e, assim, conquistar seus objetivos, independência pessoal e financeira.

“Elas na direção” contará com a ferramenta “U-Elas” que permitirá às motoristas mulheres parceiras ter a opção de receber somente chamadas de passageiras mulheres. Além disso, elas também contarão com parcerias no aluguel de veículos e vendas de produtos durante as corridas, cursos presenciais e on-line sobre empoderamento pessoal e econômico, e atendimento presencial exclusivo nos Espaços Uber das cidades da condutora.

O projeto começou a circular em formato experimental em outubro de 2019, inicialmente para três cidades: Campinas, Curitiba e Fortaleza. Em março deste ano, foi anunciada a expansão para Brasília, Belo Horizonte, Goiânia, Manaus, Recife e Salvador. A ferramenta U-Elas está disponível para todas as motoristas Uber do país desde o dia 8 de dezembro.

Reportagem: Aline Cristiane dos Santos
Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplinas de Jornal Laboratório I e Jornalismo Digital, 4ª fase/2020

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