Baixa cobertura vacinal contra a poliomielite em Joinville reflete problema nacional de imunização

Campanhas vacinais, como as da Multivacinação e a da própria Poliomielite, vêm perdendo força no país nos últimos anos

Mesmo estendida por mais duas semanas, a Campanha de vacinação contra a Poliomielite não atingiu a meta de cobertura em Joinville pelo segundo ano consecutivo. Até o dia 11 de novembro, o município cumpriu apenas 63,73% da meta, ainda restando 10.293 crianças não vacinadas. A Tríplice Viral também segue em baixa, mesmo após o surto de sarampo vivenciado em 2019.

As Campanhas Nacionais de Multivacinação e contra a Poliomielite encerraram no dia 30 de outubro, mas devido à baixa procura, o governo de Santa Catarina decidiu por ampliar o prazo até o dia 13 de novembro. Apesar da medida, o estado, assim como Joinville, permanece com a cobertura vacinal abaixo do esperado, sendo que apenas 73,18% do público alvo foram vacinados. O cenário se repete em outros estados, como é o caso do Distrito Federal e São Paulo, onde cerca de 1 milhão de crianças ainda não tomaram a vacina.

A poliomielite, também chamada de pólio ou paralisia infantil, é uma doença infecciosa viral transmitida de pessoa para pessoa, podendo causar paralisia ou até mesmo a morte. Em 1994, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deu ao Brasil o certificado de erradicação da doença, graças à vacina. O último caso oficial no país foi em 1989. Entretanto, o vírus ainda circula em alguns países, como é o caso do Afeganistão e do Paquistão, o que faz com que exista o risco de acontecer casos importados.

De acordo com dados do Datasus, de 2000 a 2018, a média da cobertura vacinal contra a poliomielite em Joinville foi de 98,71%. Em 2019, foi de 63,49%, sendo esta a primeira vez, em 21 anos, que o município não atingiu a meta. 

Apesar de um pouco mais instável, esse mesmo padrão também acontece com a cobertura da Tríplice Viral na cidade. A média entre 2000 e 2018 é de 99,87%, e 69,74% em 2019. A Tríplice Viral protege contra o sarampo, rubéola e caxumba. A primeira dose é geralmente aplicada em crianças entre os 9 e 15 meses de idade e a segunda dose entre os 15 meses e 6 anos de idade.

Cobertura vacinal da Poliomielite e Tríplice Viral tiveram queda brusca em 2019. - Dados: Datasus (2000-2019) - Imagem: Pedro Novais
Cobertura vacinal da Poliomielite e Tríplice Viral tiveram queda brusca em 2019. – Dados: Datasus (2000-2019) – Imagem: Pedro Novais

Coincidentemente, em 2019, Santa Catarina passou por um surto de sarampo. Segundo o Dive-SC, o estado registrou 288 casos da doença no ano passado. Destes, 129 foram de Joinville, que liderou em número de casos. Neste ano, o surto de sarampo permaneceu ativo até o dia 4 de abril, com 110 casos confirmados. Mesmo após o término do surto, as ações de vigilância do sarampo continuam ativas em todo o estado, sendo que até o final de agosto foram investigados e descartados outros 305 casos, conforme protocolos confirmados pelo Ministério da Saúde (MS).

Em escala nacional, segundo relatório da OMS em parceria com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), a cobertura vacinal contra o sarampo foi de 95%. Entretanto, o relatório aponta que, no mesmo ano, cerca de 207,5 mil pessoas tenham morrido da doença, e que o sarampo atingiu o maior número de casos em 23 anos.

Problemas na saúde públicas aliados à falta de conhecimento e discursos vazios resultam na baixa cobertura vacinal

Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil não atingiu a meta em nenhuma vacina prevista no calendário de 2019. Foi a primeira vez desde 1994 que o país alcança esse preocupante feito.

Quanto às razões para a queda, que vem ocorrendo de forma gradual na última década, especialistas não têm uma resposta exata, mas apontam alguns fatores. O mais especulado é justamente a eficácia das campanhas no final do século passado. “Hoje, como a doença desapareceu, os pais que foram beneficiados pela vacina e que por isso não conviveram com a doença, muitas vezes não percebem a importância da imunização”, afirmou a ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI), Carla Domingues, em entrevista sobre o assunto para a revista Consensus,  um dos principais veículos de comunicação social do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Ainda de acordo com Carla, outro fator seria o descolamento da Atenção Primária de Saúde (APS) das demais demandas prevalentes dentro do modelo de serviço de saúde atual, faltando uma integração contínua entre prevenção, vigilância e promoção desses serviços. Ou seja, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) deveriam promover o acompanhamento da saúde das comunidades, e não apenas atender à demanda voluntária e momentânea. 

O PNI vem trabalhando para resolver este problema, de modo que, com a ajuda dos governos estaduais e secretarias de saúde dos municípios, possam acompanhar caso a caso, de forma individual e mais detalhada, por meio de um sistema ainda em desenvolvimento. Este processo de mudança também tem contribuído para as quedas nas coberturas vacinais.

No entanto, a historiadora e cientista social Valdete Daufemback chama atenção para a redução de investimentos nas campanhas de vacinação, a partir da aprovação da Emenda Constitucional nº 95 pelo governo Temer, em 2016, que alterou a Constituição Federal de 1988, congelando por 20 anos a aplicação de recursos à saúde e educação. “Com isso, muitas das famílias não tiveram a possibilidade de obterem informação sobre a vacinação”, destaca. “Então foi uma somatória de acontecimentos para que houvesse essa baixa na vacinação, contando ainda, que no presente, o Presidente da República não tem incentivado a população a aderirem às campanhas.”

Apesar das razões técnicas, há também questões sociais envolvidas no problema. “Não podemos ignorar que o negacionismo das doenças, disseminado, inclusive, por pessoas influentes nos meios de comunicação, não tenham responsabilidade nesta questão”, diz a cientista social. “Houve um discurso irresponsável sobre ‘malefícios’ das vacinas, que se propagou pelas redes sociais, legitimando certa desconfiança que grupos de pessoas nutriam referente aos efeitos da vacinação”, completa ela. Por pessoas influentes, pode-se citar o autoproclamado filósofo e guru bolsonarista Olavo de Carvalho, que dentre muitas de seus discursos, sem nenhuma base científica, está a contrariedade à prática da vacinação.

Desde o início das campanhas de vacinação, há registro de pessoas contra o uso das vacinas. Porém, os discursos antivacina se tornaram mais fortes após um estudo do médico britânico Andrew Wakefield, publicado na revista Lancet, em 1998, relacionar a  Tríplice Viral com autismo.

Mais tarde, o estudo foi comprovado como fraude, a revista Lancet se retratou e o retirou de seus arquivos. Mesmo assim, o autismo continua sendo um dos principais argumentos utilizados por pessoas que falam em nome dos atuais movimentos antivacinas em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos, onde o movimento tem grande força.
Em 2018, uma escola estadunidense foi centro do maior surto de catapora em décadas no país, tendo 36 crianças diagnosticadas. Na época, dos 152 alunos matriculados no jardim de infância da escola, que fica localizada na Carolina do Norte, 110 não foram vacinados. A principal alegação dos pais era por motivo religioso.

Grupo antivacina protesta contra vacinas e confinamento em resposta à pandemia da Covid-19, na Califórnia, Estados Unidos, em junho de 2020. - Foto: Mark Ralston / AFP
Grupo antivacina protesta contra vacinas e confinamento em resposta à pandemia da Covid-19, na Califórnia, Estados Unidos, em junho de 2020. – Foto: Mark Ralston / AFP

No Brasil, recentemente, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) manteve decisão que reconhece a obrigação dos pais em vacinarem seus filhos. Outro caso semelhante aconteceu em São Paulo, onde ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) negou pedido que afastava possível obrigatoriedade da vacina contra o novo coronavírus. “Não precisaríamos de obrigação para a vacinação se o Brasil, enquanto Estado, tivesse comprometimento para com a população, quanto ao direito à educação, à politização e ao conhecimento científico”, opina Daufemback.

Afinal, o que é a vacina? 

A vacina é uma importante, e a mais eficaz, forma de prevenção contra doenças. Seu uso consiste na introdução do agente infeccioso – atenuado ou morto -, ou substâncias que esses agentes produzem, no corpo de uma pessoa, fazendo com que o sistema imunológico produza anticorpos e células de memória. Deste modo, a vacina garante que, quando o agente causador da doença infecta o corpo dessa pessoa, seu sistema imunológico já esteja preparado para responder de maneira rápida, antes mesmo do surgimento dos sintomas.

A primeira vacina surgiu no século XVIII, a partir dos estudos e observações do  médico inglês Edward Jenner. Em 1798, Jenner utilizou uma enfermidade de gado, chamada de cowpox, para criar uma vacina contra varíola, doença viral extremamente grave que causou milhares de mortes ao longo da história da humanidade. O último caso da doença foi diagnosticado em 1977, após intensas campanhas de vacinação ao longo da década. Em 1980, a OMS declarou o vírus como erradicado, sendo a primeira e única doença contagiosa eliminada mundialmente até hoje.

A vacina em solo brasileiro

No Brasil, a primeira vacina, contra a varíola, foi trazida em 1804 pelo militar e político brasileiro Marquês de Barbacena, que também foi a primeira pessoa a tomar a dose no país. Entretanto, foi só no século XX que começou se popularizar em solo nacional.

Nos anos de 1900 e 1901, foram criados o Instituto Soroterápico do Rio de Janeiro, com direção de Oswaldo Cruz – futura Fiocruz- e em São Paulo, surgia o Instituto Serumtherápico, comandado por Vital Brazil – que viria a ser o atual Instituto Butantan -, ambos importantes para o desenvolvimento de estudos referentes a vacinas e soros no país. 

“O Instituto Butantan tem uma parcela substancial de importância na produção de vacinas, distribuídas pelo SUS (Sistema único de Saúde), à disposição da sociedade”, conta a historiadora Valdete Daufemback. “No Brasil, não é possível abordar este tema sem falar do trabalho do médico Oswaldo Cruz e sua luta para a vacinação da população, inicialmente, contra a varíola, o que gerou uma revolta na Capital do País, em 1904”, completa ela, se referindo à Revolta da Vacina.

Em 1904, o Rio de janeiro sofria, entre outros problemas, com uma epidemia de varíola, por conta da falta de saneamento básico na cidade. Neste contexto, o então presidente, Rodrigues Alves, juntamente com o médico e sanitarista, Oswaldo Cruz – que na época exercia um cargo equivalente ao que é o Ministro da Saúde hoje – tomaram diversas medidas, dentre elas, a imposição da Lei da Vacina Obrigatória.

A obrigatoriedade da vacinação somada à falta de informação sobre a eficácia e segurança das vacinas causaram grande pavor na população, que chegou a espalhar boatos de que a campanha era só uma desculpa para autoridades tocarem nas partes íntimas das mulheres. Esse movimento ficou conhecido como a Revolta da Vacina. 

Várias pessoas saíram às ruas em protesto. Grandes confrontos entre a população e as forças da polícia e exército aconteceram no Rio de Janeiro, entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904. De acordo com o Centro Cultural do Ministério da Saúde, o conflito deixou um saldo de 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, dos quais 461 foram deportados para o Acre. Essa semana de tensão tornou-se o maior motim da história do Rio de Janeiro.

Charge da revista O Malho, de 1904, representa o caos da Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro.
Charge da revista O Malho, de 1904, representa o caos da Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro.

A historiadora conta que durante todo século XX, no Brasil, as campanhas de vacinação para prevenir doenças tiveram um desenvolvimento gradativamente efetivo. Em 1925 foi introduzida a vacina BCG no Brasil, que segue sendo utilizada até hoje em recém nascidos, a fim de proteger contra formas graves de tuberculose. 

Pulando para a década de 1960 e 1970, são criadas e realizadas as primeiras campanhas vacinais, como as contra a poliomielite, varíola, sarampo e meningite. Em 1973, foi criado o PNI, com o objetivo de controlar ou erradicar doenças infecto-contagiosas e imunopreviníveis. No mesmo ano, o país recebeu certificação internacional da erradicação da varíola. Em 1977, foram definidas as vacinas obrigatórias para menores de um ano de idade em todo o Brasil e foi aprovado o modelo de Caderneta de Vacinações.

Nas décadas seguintes, outras campanhas surgiram, enquanto as já existentes foram intensificadas. Em 1994 a poliomielite também foi erradicada em solo brasileiro. Mas antes, em 1988, era criado, pela Constituição Brasileira, o SUS, fundamental para as grandes coberturas vacinais conquistadas pelo país ao longo desses anos – o que vem mudando nos últimos tempos. “Foi com a criação do SUS que a vacinação em massa se tornou obrigatória, especialmente para as crianças, visando a erradicação de certas doenças”, explica Daufemback.

Reportagem: Pedro Novais 
Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplina Jornalismo Digital I, 4ª fase/2020.

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