As garras de uma tradição joinvilense

Além de fazer parte da cultura joinvilense, os caranguejos também movimentam a economia e servem de renda extra para moradores da região

Engenheiro do mangue, o caranguejo-uçá tem papel essencial na vida desse ecossistema alagado. São responsáveis por levar nutrientes da serapilha – camada de resíduos de plantas e animais na superfície – para áreas mais profundas do manguezal através de suas tocas que podem chegar a 30 cm. Fora do lodo, este crustáceo tem impacto econômico e cultural para catadores, restaurantes e população de Joinville e Região. É raro algum passar dos 10 cm de largura. O corpo tem coloração marrom e garras arroxeadas, azuladas ou avermelhadas, depois de cozidos ganham o tom alaranjado. 

Recém retirado de sua toca, o macho se defende como pode

A tradição de preparar o caranguejo há décadas marca a vida de vários estabelecimentos e pessoas pela cidade. Mas o impacto do homem no habitat do animal é sentido principalmente pelos responsáveis pela cata, como é chamado o ato de pegar os caranguejos.

Na Praia da Vigorelli o movimento começa cedo, a primeira balsa sai às 6h em direção a Ilha de São Francisco

Clever de Magalhães, 41, é pescador e foi criado com o pé no mangue. Cata o uçá desde os 12 anos de idade na Praia da Vigorelli, onde foi criado.  “A gente está sentindo que está acabando a nossa Baía”, confessa sobre os impactos da pesca ilegal e a poluição que, segundo ele, a cada ano ficam pior. 

O mangue traz o sustento da família que tem com Mariane Bessa de Souza, 31. O casal e os dois filhos, uma de 13 e outro de 8, vivem na beira da Baía da Babitonga, ao lado da balsa que atravessa até a Ilha de São Francisco. Na Lanchonete da Mara, administrada pela família há 12 anos, o prato principal é o caranguejo-uçá, tirado da terra pelo próprio Clever e preparado por Mara. 

Nos primeiros da pandemia o estabelecimento teve funcionamento suspenso. Para garantir o sustento da família, Mara montou uma mercearia no local

Além de comercializar na lanchonete, Clever vende o animal vivo para aqueles que preferem preparar em casa, costuma cobrar vinte reais por dúzia. Entretanto, devido a captura fora de época, o número de caranguejo diminuiu e o seu tamanho também. 

De acordo com a portaria do Ibama n° 34/2003, é proibido fazer a captura em período de defeso, como é chamado o período de acasalamento e crescimento desses crustáceos. Eles costumam sair de suas tocas e correm pelo mangue a procura de um(a) parceiro(a). Por circularem na superfície, viram presas fáceis para irresponsáveis. 

Entre raízes emaranhadas ou na faixa de areia seca da praia os caranguejos cavam suas tocas

O pescador conta que muitos vivem dessa coleta, por isso não julga quem pega fora de época para fazer um “troco”. Mas lembra que há quem capture em grandes quantidades sem necessidade, pois têm outras ocupações e meios de se obter renda. Quando chega a época correta para pegar o animal, no estado é de dezembro até fevereiro, só sobra os miúdos e o bolso desses ribeirinhos acabam prejudicados. Clever conta que nem os pequenos crustáceos ficam para trás, o que também é ilegal. 

O Ibama prevê 6 cm como medida mínima dos cascos para o animal ser retirado da natureza, mas quase não há fiscalização. Ao ser questionada sobre o monitoramento das atividades de extração na Vigorelli, a Polícia Ambiental não retornou a reportagem.

A conhecida travessia que liga dois polos norte catarinenses: Joinville e São Francisco do Sul

O que fica é a degradação do ecossistema e o apagamento de uma cultura.

Chunchu

O banho pós cata é na mesma água que irriga o mangue

A espécie do caranguejo-uçá – vem do tupi u´sa (caranguejo) – tem duas subespécies: a Ucides cordatus occidentalis, presente da Califórnia, EUA, até o Peru; e a Ucides cordatus cordatus, que se estende da Flórida, EUA, até Santa Catarina, mais precisamente, Laguna.

Existem várias formas e instrumentos para tirar o crustáceo do lodo, entre elas estão: o laço, correndo e com o chunchu. O primeiro é bastante eficiente, consiste em prender na entrada/saída das tocas uma “rede”, quando o bicho sai, acaba preso na armadilha devido às suas garras graúdas. Depois basta recolher o animal. Embora seja vantajoso para o pescador, muitos não retiram os laços ou libertam os caranguejos pequenos, o que leva a um excesso de mortes da espécie. 

Clever é contra o método devido a irresponsabilidade de quem não libera as fêmeas. Por isso, defende que apenas pescadores pratiquem, quem é experiente consegue diferenciar o sexo do dono da toca só pela forma que o barro é tirado do solo para fazer o buraco. Existe outra portaria do Ibama que penaliza a coleta de fêmeas ovadas ou retirada das pinças do caranguejo vivo. Também pouco fiscalizada.

Outra forma é a corrida. Na lua cheia os crustáceos saem para se alimentar na superfície e no período da andada, para acasalar. Esses são os melhores cenários para pegar o animal com esse método. É um desafio que exige disposição para ficar coberto de lama, pois é preciso se jogar no chão rapidamente para alcançar os animais. 

Embora soe simples, é necessário conhecer bem os ciclos da espécie. Um dos motivos é a característica do caranguejo-uçá de trocar o casco para crescer, como consequência, fica leitoso por alguns meses. Nessa condição, pode causar indigestão se for consumido. 

Já o jeito preferido de Clever é com o instrumento feito de madeira, extraído do próprio mangue, o chunchu. O Ibama define como chunchu, “instrumento de madeira, em formato de clave, afilado na extremidade inferior, que serve como alargador das tocas”. Ele é só pode ser utilizado na parte mole do mangue. 

O chunchu serve também para auxiliar na caminhada pela lama

Para a captura, o braço deve ser inserido na toca, de forma que acompanhe o formato do túnel. Em seguida, o braço é retirado e feito um furo com o chunchu onde está o fim da toca. Novamente a mão entra e retira o uçá. Tudo isso dura cerca de 10 segundos para pescadores experientes como Clever.

Seja qual for a técnica, é preciso tomar medidas de proteção contra o sol e os maruins. Os mosquitos-do-mangue vivem em enxames em áreas molhadas, não é raro ver nuvens desses insetos no manguezal. A picada do maruim é extremamente dolorida e pode gerar reações alérgicas, por isso, o traje deve ser comprido. Nas mãos vão as luvas, no rosto muito protetor solar e um chapéu. E claro, as indispensáveis galochas.

Do saco para a panela

Os pratos são colocados para garantir que o cozimento seja uniforme em todas as peças

Da lama, os caranguejos vão para um saco usado para o transporte de legumes, o conhecido saco de batata. Ainda vivos chegam do Paraná e São Paulo ao Restaurante Caranguejo do Alemão, no bairro Floresta. Lá, eles são mortos e limpos com o vap, lavadora de alta pressão. Embora a força do jato seja o menor possível para não estragar o animal, é a melhor alternativa. Antigamente a limpeza era feita com pequenas escovas, conta Edson Roik, o Alemão. “Ficava horas para limpar meia dúzia.”

É na rua Tiradentes que os frutos do mar ganham um novo significado, tudo supervisionado pelo Alemão

Edson veio de Mafra há 20 anos e começou a trabalhar como garçom em outro tradicional restaurante que serve o crustáceo, o famoso Barbante, no bairro Glória. Lá ele aprendeu a preparar e decidiu abrir o próprio negócio.

Hoje, administra o restaurante com o filho e alguns funcionários. Alemão explica que não compra o animal de catadores de Joinville, pois são muito pequenos, o que acaba não sendo atrativo para o consumidor. Seus principais fornecedores são de Guaratuba, litoral do Paraná e do litoral de São Paulo. 

Ainda vivos, os bichos esperam ensacados o suspiro final
Pronto para degustação, o crustáceo ganha uma coloração alaranjada vibrante

Tratamento alternativo

O amor pelo prato pode vir de berço ou ser incorporado a partir de um tratamento de saúde. E ainda há um caso que une os dois. Rosalvo Lima Borba foi operado duas vezes em decorrência de um câncer no intestino e o caranguejo faz parte da sua rotina clínica. 

O elixir de Rosalvo sai da sacola direto para a bacia do mise en place (preparação dos alimentos, expressão francesa usada na gastronomia)

Desde a infância ele cata o caranguejo na Ilha de São Francisco do Sul. Ao completar cinco anos, sua mãe morreu no parto do 12° filho, que também não resistiu à operação. Ele e os outros 11 irmãos tomaram diferentes rumos. Rosalvo morou com a madrinha até completar seis anos, a idade mínima para entrar no Lar de Meninos João de Paula, em Joinville. Lá ficou até a vida adulta. Hoje, com 55 anos, tem uma família com Fernanda Silva, 43, com quem está casado há 20 anos.

A descoberta

No fim de 2018, Rosalvo decidiu fazer um check up para descobrir a origem dos maus estares que estava sofrendo. “Que susto, esse homem só tinha azia”, conta Fernanda, sobre o momento que o câncer do marido foi descoberto. O caso era grave, boa parte do estômago estava comprometido. Por isso, logo no começo de 2019 a cirurgia foi feita.

Sessenta e oito dias após a operação, Rosalvo ainda estava internado. No hospital, sofreu um infarto no baço que resultou em outra cirurgia. Teve que retirar o baço e o restante do estômago. 

Menos de um ano depois da cirurgia, Rosalvo está saudável e com o caranguejo em dia. Por não ter mais estômago, sua absorção da vitamina B12 ficou completamente comprometida. Seria necessário fazer reposição através de injeções, até porque a vitamina é essencial para o funcionamento do metabolismo e outras diversas funções do corpo. 

Não satisfeito com a ideia e amante do uçá, Rosalvo pesquisou e descobriu que a carne do crustáceo é repleta de Vitaminas do Complexo B. Era o que faltava para o amor se transformar em tratamento alternativo. “O que me fazia mal era não ter caranguejo”, brinca.

Fernanda conta que no começo ela e o filho, de 15 anos, se empolgaram. Toda semana Rosalvo prepara o prato para a família. Mas devido a frequência, que chega a ser com o intervalo de apenas um dia, os dois acabaram enjoando. Rosalvo não, ele comeria todo dia se pudesse.

Ela fica responsável pelo acompanhamento, normalmente saladas

Molho secreto 

A receita mais elaborada que a reportagem teve acesso é a de Rosalvo. Os ingredientes são tradicionais: cebola, tomate e temperos verdes. Mas ele tem um truque. Muitos não colocam sal no caranguejo antes da fervura, pois endurece a carne, dificultando na hora de comer. O paciente salga assim que os crustáceos vão para a panela e adiciona uma colher de azeite quando levantar fervura, assim a carne sai com facilidade, de acordo com ele. 

Em um piscar de olhos as carcaças já estão empilhadas ao lado da mesa

Outra característica é o molho especial para mergulhar a carne das garras na hora da fartura. Alguns dos ingredientes ele até conta, é o caso do alho, limão e cominho. O último item Rosalvo não conta: é tradição da família.

Ele se diverte ao contar as milhares de história vivas na sua memória

Fotos e reportagem: Isabel Lima.

5 thoughts on “As garras de uma tradição joinvilense

  1. Parabéns pela reportagem Isabela !
    Aprendi muito sobre este crustáceo e confesso que também aprecio muito o sabor desta iguaria. É uma tradição de família comer caranguejo no final de ano.

  2. Muito interessante a reportagem. Ela confirma o que já sabemos, a irresponsabilidade do homem para com a sustentabilidade da natureza e por outro lado os catadores da região lutando pelo seu sustento. Parabéns Isabel Lima.

Deixe uma resposta para Fabiano Lemos Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *