Os personagens que compõem a cidade da dança

De bailarinos a empreendedores, Joinville se tornou uma referência no mercado nacional da dança 

Por Gabriele Abatti

Joinville conquistou o título de Capital Nacional da Dança devido ao esforço de cada um dos personagens dessa arte, que iniciam no mundo dos ritmos desde criança.  Isabela Luisa, de 9 anos, começou a apresentar as características de uma bailarina desde os três anos. “Nas apresentações das escolas, como dia das mães, dos pais, Páscoa, ela sempre se destacava”, compartilha Carolina Simone de Souza de Oliveira, mãe de Isabela. 

Logo que Carolina percebeu os dons da filha, colocou-a em uma escola de dança para se desenvolver. Isa, como gosta de ser chamada, conta que o que mais ama fazer é subir nos palcos e se apresentar para um grande público. “Quando eu crescer quero virar bailarina e me apresentar várias vezes.”

A pequena dançarina foi acompanhada pela mesma professora desde o início de sua trajetória artística. Eliane Lemos, coreógrafa de Isa, declara que consegue perceber em todas as aulas a evolução na concentração e ritmo de sua aluna. “Eu percebo um crescimento absurdo, principalmente na consciência corporal dela. Os comandos nas aulas ela corresponde melhor”, enfatizou a professora. 

Ansiedade nas competições de dança 

Os ensaios para uma competição iniciam-se cerca de 10 meses antes da data da apresentação. Para realizar a inscrição no Festival de Dança de Joinville é necessário enviar um vídeo com a prévia da coreografia que o dançarino ou o grupo pretende apresentar. Mesmo sem a certeza de que irão participar, já se iniciam os trabalhos de muitos ensaios pela frente. 

São ensaiados os detalhes mínimos até os mais importantes. Como, por exemplo, o movimento que as mãos irão fazer no final da apresentação em ritmo de música ou até mesmo o figurino, elementos que irão compor todo o conjunto da obra. 

Outra preocupação que ronda os estúdios de dança são as questões psicológicas de cada participante. Não importa se é primeira vez ou até mesmo a décima participação, cada momento se torna único e muito marcante. A ansiedade toma conta de todos os envolvidos, desde dançarinos e coreógrafos e até mesmo os familiares. 

A psicóloga Camila Paola Baier destaca a importância do acompanhamento emocional de cada participante, principalmente antes dos ensaios começarem. “Qualquer tipo de pressão  psicológica, seja ela de família ou até nos testes que participamos, estamos submetidos a uma pressão, que faz com que fiquemos mais cansados, estressados, ansiosos, entre outros.” A profissional enfatiza que para os casos mais recorrentes de crises de ansiedade é necessário o acompanhamento de um profissional da área para analisar caso por caso. 

O professor Paulo Roberto diz que em todas as aulas as conversas com os alunos se tornam fundamentais. Fazer com que cada dançarino entenda sobre o ato de ganhar ou perder ajuda no combate contra a ansiedade e na preparação para uma apresentação. “Sempre passamos aos alunos a importância de participar e dar o melhor de si, isso já vale para toda a carreira de dançarino”, finalizou. 

Dança como terapia 

Abertura Intercom 2018 com o grupo de dança especial (Foto: Luiza Martin da Rosa)

O mundo da dança exige muita persistência e dedicação. Outra jovem que nunca desistiu dos sonhos foi Beatriz Peres de Oliveira. Aos 10 anos, foi diagnosticada com câncer no cerebelo, o que a fez perder os principais movimentos do corpo. A chegada da doença foi um choque para toda a família. Fabiane Peres, a mãe de Beatriz, conta que no momento em que descobriram ficaram sem chão. “Nós nunca imaginamos que iria acontecer com a gente né”, relembra Fabiane.

Os familiares hoje contam dos momentos com muita emoção. Cada apresentação de Beatriz é considerada uma vitória. A dança ajudou a bailarina a evoluir na fisioterapia, nos movimentos do corpo, e até mesmo na coordenação motora. 

A psicóloga Maria Aparecida de Freitas sempre trabalhou com as artes em suas terapias. A especialista explica sobre a importância para diversas ações do corpo e da mente, não só para pessoas com deficiência física ou mental, como também para todos os familiares. “A criança em seu desenvolvimento já busca o ritmo, a expressão de si. Hoje em dia qualquer criança que tem a necessidade de explodir em emoção, já começam a ser diagnosticadas precocemente.” 

Maria ressalta que a participação de todos os envolvidos é fundamental para uma terapia eficiente. “A música é essencial para o desenvolvimento da criança, elas necessitam se expressar de alguma forma. Se eu pudesse falar para todos os pais, pediria para que pudessem usar a expressão corporal no seu dia a dia, para todas as pessoas”, finalizou. 

Beatriz usou e abusou da música em todas as suas terapias. Mas, além de bailarina, também tinha um sonho de lançar o próprio livro infantil. Alguns anos se passaram, e ela conseguiu conquistar mais um título: de Escritora. 

Mercado da dança em Joinville

A capital nacional da dança enfrenta grandes desafios na pandemia do coronavírus, com eventos parados e festivais cancelados. As danças foram para as telas dos celulares e se adaptaram a um novo formato digital. Mas as dificuldades do mercado na cidade não são de agora. Os dançarinos enfrentam problemas para dar continuidade aos seus sonhos em Joinville, afinal as opções são poucas: sair da cidade ou abrir um novo negócio no ramo. 

Bianca Thaís decidiu abrir a própria escola de ballet. Formada na Escola do Teatro Bolshoi, abriu sua primeira turma após três anos tentando inovar no mercado de trabalho. “No começo foi difícil, recebi muita ajuda dos meus pais que acreditaram no meu sonho junto comigo. Não ganhei apenas alunos, e sim pequenas e grandes amigas”, detalhou a bailarina. Bianca iniciou as aulas com alunas muito jovens, e já expandiu para diversas idades. 

Além de criar o próprio estúdio de dança, o mercado em Joinville também dá possibilidades de agir com criatividade. O município abriga hoje a primeira fábrica de pole dance do sul do Brasil. Gladson Pazinho Maranho é o responsável de perceber esse desfoque no mercado joinvilense, após sentir a necessidade de matéria-prima em seu estúdio de pilates. “Eu sofri muito preconceito quando comecei, por ser uma modalidade denominada sensual, mas isso serviu para me fortalecer ainda mais.” 

O empreendedor explica que o pole dance expandiu muito nos últimos anos, e fez com que as vendas para fora do Brasil dobrassem. “Na pandemia encontramos um novo público. Além dos estúdios de dança, hoje nosso público alvo se tornou os próprios dançarinos, que querem uma barra em casa”, disse o diretor técnico e engenheiro da fábrica, Pedro Lafaiete Schmitt.

Empreendedores e bailarinos vivem na incerteza em 2021. Os profissionais do ramo permanecem ansiosos para a próxima edição do Festival, afinal é um dos principais eventos que movimentam o  mercado dessa arte. 

Ely Diniz, presidente do Instituto Festival de Dança Joinville (IFDJ), explica o quanto o festival movimenta a economia da cidade. “Para parte de hotelaria, turismo da cidade, é o que chamamos de alta temporada. Nós temos a feira da sapatilha, que compõe os principais fabricantes de produtos de dança do país, que vem para cá, e consideram o festival de dança como a principal mola propulsora de venda durante todo o ano.”

Devido à pandemia, o 38º Festival de Dança de Joinville será realizado em outubro de 2021. As inscrições permanecem abertas até meados de agosto, quando forem selecionados os grupos. Em nota, o IFDJ anunciou que serão seguidas medidas sanitárias e criado um Grupo de Trabalho, coordenado pela Secretaria Municipal de Saúde, com a participação da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. 

O Festival de Dança não é apenas um encontro de artistas, como dito no início de sua história, mas se tornou também referência e renda para muitas pessoas. O momento é atípico, mas a garra de professores, empresários, dançarinos e instituições que prezam pela arte mantêm as raízes da dança vivas em Joinville e em todo o mundo. 

Apresentação do Bolshoi na abertura do Intercom 2018 (Foto: Luiza Martin da Rosa)

Como Joinville se tornou a Capital Nacional da Dança

Foi em 1983 que Joinville deu os primeiros passos no mundo da dança. Tudo começou com a ideia de juntar bailarinos de diversos cantos do país para trocarem experiências. Carlos Tafur, o então coordenador da Escola Municipal de Ballet de Joinville (EMB), teve a ideia de fazer um intercâmbio de bailarinos, com eventos e atividades simultâneas, da realização de mostras até cursos, oficinas e ações para a discussão de temas relacionados à dança. 

Albertina Tuma, gestora da Casa da Cultura na época, sonhou mais alto e propôs um festival de dança na cidade. “Um sonho transformado em realidade, o maior festival de dança do país, em uma época em que Santa Catarina enfrentava uma grande enchente”, relembrou. 

Os aeroportos estavam fechados e as estradas interditadas, mas nenhum obstáculo impediu os integrantes dos grupos de dança de persistirem em seus sonhos. Já no primeiro festival, 40 dos 47 inscritos compareceram, totalizando 400 bailarinos vindos de diversos lugares do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Espírito Santo. Infelizmente, devido ao temporal que atingiu diversas cidades, os gaúchos e as equipes de Florianópolis não conseguiram participar. Entretanto, não faltou competição para novos grupos conhecerem o que se transformaria no maior festival de dança do Brasil.

No primeiro dia do evento, a Sociedade Harmonia Lyra se tornou  palco para as apresentações, e, mesmo com todas as adversidades, o local lotou até as principais ruas do centro de Joinville.

A partir dali, o festival cresceu em números e apresentações. “A feira da sapatilha, gincana cultural, concurso de biquíni, entre outras atrações que contribuíram muito para todo esse sucesso”, explicou Tuma. Em 1998 foi criada a Feira da Sapatilha, hoje considerada a maior do setor no país, com a participação dos principais fabricantes nacionais de artigos de ballet. 

Após 15 anos de sua primeira edição, o Festival de Dança de Joinville ganha palcos maiores com o Centreventos Cau Hansen. O novo espaço tem a capacidade de abrigar cerca de 4,5 mil espectadores, com camarotes, arquibancada e espaço para lanchar. 

Chegada da Escola do Teatro Bolshoi do Brasil

A virada de um novo século marcou a inauguração da primeira filial da Escola do Teatro Bolshoi da Rússia em Joinville. Em 1996 a escola fez uma turnê pelo Brasil e participou do evento em Joinville. Após a apresentação, o grupo do Bolshoi recebeu o convite de Luiz Henrique da Silveira, prefeito do município na época,  para jantar em sua casa. 

Após algumas conversas, o prefeito descobriu o desejo da Escola de ter uma filial no Brasil, onde ofereceu a cidade para sediar a Escola do Teatro Bolshoi do Brasil. “Dentre todas as capitais, que algumas também tiveram interesse, ele foi o único prefeito que saiu daqui e foi até Moscou, e se comprometeu a manter essa Escola”, declarou Célia Campos, diretora administrativa do Bolshoi. No dia 15 de março de 2000, foi inaugurada a única filial da Escola do Teatro Bolshoi da Rússia no Brasil. 

Joinville como Capital Nacional da Dança 

Em 2005 o Festival de Dança foi parar no Guiness Book como o maior do mundo. Com a marca que ultrapassa 4,5 mil dançarinos de todo o país e do mundo, 140 grupos amadores e profissionais, com uma assistência de mais de 200 mil pessoas a cada ano. A citação está no capítulo Festivais e Tradições – O mundo moderno: “O Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina, Brasil, é o maior do mundo.” 

“A Harmonia Lyra estava lotada, deu até um medo de desabar tudo, pois tinham muitas pessoas na galeria”, declarou Lucienne da Costa, de 62 anos, telespectadora do primeiro Festival. A aposentada conta que foi algo inusitado na cidade, pois até então não havia nada parecido. “Todas as apresentações eram muito coloridas, muito vibrantes.” 

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