Moda circular ganha destaque como modelo sustentável no Brasil

Apesar de ser um dos setores mais poluentes, iniciativas do ramo ajudam a transformar o futuro do meio ambiente

Reportagem: Mariana Murara

A crescente preocupação com o meio ambiente tem obrigado as pessoas a repensarem suas formas de consumo e o impacto de seus atos no planeta. A indústria, responsável por 20% da poluição da água no mundo, é um dos setores que ganha destaque com iniciativas com foco na sustentabilidade, como a moda circular.

A indústria têxtil, segundo a Organização das Nações Unidas do Meio Ambiente (ONU do Meio Ambiente), despeja cerca de 500 mil toneladas de resíduos nos oceanos por ano, além de responder por 10% da emissão de gases de efeito estufa, mais que os setores da aviação e do transporte marítimo juntos. A moda circular e  a sustentável são modelos que visam ajudar a melhorar esses dados alarmantes, fazendo com que as pessoas busquem consumir cada vez  menos e, se consumirem, fazerem isso de forma consciente.

Enquanto a sustentável se preocupa em usar métodos de produção que minimizem o impacto ambiental, a circular está baseada  na preocupação do consumidor com questões sociais e ambientais que envolvem a fabricação de peças em massa. Ela também frisa a observação do ciclo da natureza, no qual tudo é reaproveitado. É possível usar como base para esse modelo a frase “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, do cientista Antoine-Laurent de Lavoisier.

De acordo com a Fundação Ellen MacArthur, a essência principal da moda circular se baseia em três princípios básicos: eliminar resíduos e poluição, manter materiais em uso e regenerar sistemas naturais. Para isso, é necessário que as grandes empresas deste setor desenvolvam produtos que possam ser aproveitados em diferentes ciclos de produção.

Para Mariáh Cidral, especialista em tendências de moda, e Giovana Cornacchia, mestra em gestão de moda e luxo, só é possível mudar esta indústria da como uma das mais poluentes do mundo com a forma como as pessoas consomem, preferindo marcas que prezam pela responsabilidade ambiental e social. 

Giovana e Mariáh, proprietárias da Clémentine Paris | Foto: Divulgação/Clémentine Paris

Proprietárias da agência de tendências Clémentine Paris, ambas acreditam que a cadeia de produção sustentável só tende a evoluir. “Ainda estamos engatinhando para um mundo realmente sustentável, mas já vemos a ascensão de brechós e o consumo de novos recursos tecnológicos”, diz Mariáh. “Além disso, grandes conglomerados de moda já estão dirigindo seus esforços para uma cadeia de produção mais sustentável e transparente”, completa.

A moda circular é fortemente associada à economia circular. Só no Brasil, cerca de R$ 26 bilhões foram movimentados em 2018 neste mercado. Segundo um estudo feito pela Consultoria Euromonitor Internacional, é previsto que, até 2023, esse valor chegue a R$ 29 bilhões. 

Os consumidores deste tipo de modelo buscam produtos com materiais sustentáveis e de qualidade, além de uma maior durabilidade e atemporalidade. Este conceito vai na contramão do princípio do fast fashion, presente no comércio de moda como um sistema em que os produtos são fabricados, consumidos e descartados constantemente e com muita rapidez.

Apesar dos benefícios que o fast fashion traz ao mercado – como a geração de empregos, produtos com custo acessível e uma maior rentabilidade – deve-se olhar para este modelo com responsabilidade. Um dos maiores fatores prejudiciais deste sistema é o descarte exacerbado de roupas, motivado pelo anseio de estar sempre dentro das tendências. Com isso, as peças se tornam descartáveis, sendo jogadas fora em poucas semanas.

A quarentena durante a pandemia da Covid-19 ajudou a acelerar o pensamento da conscientização sobre os impactos do consumo desenfreado da população, deixando em evidência o movimento consciente e sustentável. “Estamos despertando como seres humanos, indivíduos e como sociedade. A moda é só um dos muitos aspectos em que nos tornamos mais conscientes”, afirmam Mariáh e Giovana.

A reutilização e novas formas de consumo sustentável já vem ganhando força no Brasil, com o famoso upcycling. Essa técnica reaproveita materiais já existentes e transforma peças que seriam rejeitadas em algo novo. Segundo a ONU do Meio Ambiente, cerca de US$ 500 bilhões ao ano são perdidos no descarte de roupas em aterros e lixões. De acordo com o mesmo estudo, 500 mil toneladas de resíduos são despejados nos oceanos por ano. 

Marca conhecida pela moda circular, a Ventana se tornou referência no mercado de upcycle brasileiro. De acordo com a proprietária, Gabrielle Rodrigues Pilotto, 31, o trabalho que ela faz na marca é relevante para quem se identifica com todo o movimento que acontece além das peças.

Gabrielle Pilotto, proprietária da marca Ventana | Foto: Arquivo Pessoal

A Ventana, há nove anos no mercado, começou como um brechó e foi se transformando na marca sustentável que é hoje. “Sempre gostei de moda mas de um jeito diferente. Teve uma época que comecei a me questionar sobre minha maneira de consumir, descobri os brechós e foi aí que começou minha relação com a moda sustentável”, conta. “Eu customizava roupas de brechó e minhas amigas começaram a gostar, vendi algumas coisas pra elas e as coisas foram acontecendo.”

Em junho deste ano, a Ventana criou peças para a coleção de inverno 2021 a partir de objetos de casa. Gabrielle, que participa de todo processo criativo da marca, transformou edredons, roupas de cama, jogos de mesa e cortinas em calças, vestidos e casacos. A coleção foi apresentada durante a São Paulo Fashion Week (SPFW) e contou com um fashion film, disponível no IGTV do Instagram da Ventana.

Para Gabrielle, o modelo circular e sustentável são pontos fortes para a sociedade e o futuro da moda, porém eles não devem caminhar sozinhos. “Por mais que reaproveitar uma roupa ou um material que está desuso seja muito melhor do que produzir uma nova peça, e obviamente é, a moda não vai mudar se a indústria seguir produzindo do jeito que produz, desperdiçando do jeito que desperdiça e não olhando para todas as camadas e pessoas que estão envolvidas no processo todo”, diz. 

Somente a indústria têxtil brasileira é responsável por gerar aproximadamente 175 mil toneladas de refugos  anualmente, conforme a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Uma das formas mais conhecidas de reaproveitamento de peças atualmente é o brechó, presente em todo o país. 

Brechós funcionam como modelo sustentável

Ampliar o tempo de vida de roupas já feitas e impulsionar a economia circular são os principais objetivos dos brechós hoje em dia. Segundo pesquisa feita pela GlobalData, em 2019, o comércio de produtos usados deve dobrar o tamanho do mercado do fast fashion até 2029

Débora Lorene, 30, é proprietária do brechó Ovelha Negra, que nasceu em meio à pandemia. Ela conta que esse momento foi de reflexão, já que sempre esteve inserida no mundo da moda e não consome roupas “novas” há no mínimo três anos. “Minha família trabalha com brechós há oito anos e sempre foi minha meta poder agregar neste trabalho. Foi o momento de refletir e perceber que eu tinha essa necessidade”, conta.

Ela começou a investir neste ramo em julho de 2020. Em setembro do mesmo ano ela inaugurou seu primeiro comércio físico. “Meu brechó possui curadoria, pois todo o meu garimpo é bruto. Todas as peças passam por vários processos até chegar ao consumidor”, diz. “Não costumo fazer personalização, pois ainda não achei tempo para isso, mas está nos planos.”

Espaço físico do brechó Ovelha Negra, no bairro Iririú, antes da inauguração | Foto: Arquivo Pessoal

Em comparação com 15 anos atrás, o número de vezes que uma roupa é utilizada até o seu descarte diminuiu 36%, de acordo com o relatório  “A New Textiles Economy: Redesigning Fashion’s Future” da Fundação Ellen MacArthur. O aumento da procura por brechós ajuda a mudar este número, fazendo com que cada vez mais peças de roupa tenham destinos diferentes do que o lixo todos os dias.

“A busca por brechó virou uma alternativa muito inteligente para o consumidor. Com certeza a procura é muito maior pois foi criada uma necessidade no cliente”, fala Débora. Para ela, os brechós trazem uma oportunidade enorme de melhora para a sociedade. “São muitas possibilidades do que antes era só uma roupa que não se usa mais. Cada peça é uma história e todo dia um novo tabu é quebrado”, diz.

Marcas já promovem inovações no mercado

Atualmente, grandes conglomerados de moda já dirigem seus esforços para uma cadeia de produção mais sustentável e transparente, como a marca italiana Gucci, que foi uma das pioneiras neste quesito. Em setembro de 2019, a marca anunciou que iria se tornar “carbon neutral” e iria compensar as emissões de gases de efeito estufa de suas operações e de suas cadeias de suprimentos. 

Stella McCartney, marca inglesa, é uma das mais conhecidas pelo cuidado com o meio ambiente. Ela foi a primeira a fechar parceria com a Bolt Threads, empresa de soluções de materiais, e usar o “não couro” ecológico Mylo, cultivado a partir do micélio de cogumelos. 

Outro exemplo é a Pangaia, empresa britânica, que lançou em abril deste ano a “Air Ink”, uma tinta preta à base de água produzida a partir da poluição do ar. Peças como camisetas, moletons e sacolas que utilizam essa tecnologia já estão à venda. 

Semana de programação ecológica do Brasil é destaque na América Latina

A primeira semana de moda da América Latina dedicada à indústria sustentável chegou à sua quinta edição neste ano. A Brasil Eco Fashion Week (BEFW) aconteceu entre os dias 24 e 30 de setembro no formato on-line. Neste ano, ela também realizou, de forma simultânea, a edição especial na Itália nos dias 24 e 25 durante a Milan Fashion Week (MFW).

A BEFW levou oito marcas convidadas para desfilar no Jardim Botânico de Brera, em Milão. Todas elas, Eneas Neto, Rico Bracco, KF Branding + Woolmay Mayden, Natural Cotton Color, Libertees, Catarina Mina, Helena Pontes e Dona Rufina, apresentaram-se com desfiles presenciais transmitidos ao vivo. A plataforma tomou essa iniciativa para posicionar os estilistas e as marcas no mercado internacional.

Desfile da marca Helena Pontes durante a Milan Fashion Week | Foto: Arquivo Pessoal

Fundada em 2017, a BEFW tornou-se referência na América Latina ao apresentar uma diversidade de matérias primas ecológicas para a indústria e promover diálogos sobre os processos têxteis. Entre 2017 e 2020, cerca de 150 marcas se reuniram no evento para o desenvolvimento de novos produtos.

Com o tema “Ecossistemas Globais”, a programação on-line deste ano contou com 24 painéis, 17 workshops práticos e 18 fashion films. Além disso, 66 marcas expuseram seus produtos no showroom digital da plataforma.

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