Por Társila Elbert e Júlia de Almeida

É uma festa de aniversário, mas o aniversariante ainda não foi visto. Bolo e champagne estão servidos sobre a mesa retangular, apinhada de pessoas que se espremem à sua volta. Homens fortes, de feição parecida, seguram as tradicionais taças longas ainda cheias da bebida, enquanto são abordados pelas mulheres voluptuosas que irão esvaziá-las. Na ponta esquerda do cenário, uma mulher de cabelos lisos ouve sussurros galanteadores de um homem com a face escondida. Na ponta direita, uma mulher de cabelos crespos descuida da alça do seu vestido, que escorrega pelo braço e deixa à mostra o que já deve ter sido perdição e paraíso de quem chegou àquele lugar. A luxúria é palpável em todos os cantos da cena, da sala e, principalmente, da mesa, onde embaixo de bolo, champagne, toalha branca e madeira, um casal esconde-se dos olhos curiosos e engalfinha-se nu, com seus desejos e gemidos abafados pelo burburinho dos convidados. 

Os movimentos que parecem tão vivos, não são, e as vozes que parecem tão altas, não existem. No mundo real essa cena é estática, criada e decorada ricamente à mão, para ser exposta em uma parede sortuda.  A imagem, que poderia mesmo ser de uma festa de aniversário, é mais um dos quadros emblemáticos de Juarez Machado, o aniversariante faltante, que, assim como na pintura, desapareceu dos olhares do público desde o início da pandemia da Covid-19.

Juarez nasceu artista. O primeiro desenho registrado dele foi feito aos três anos de idade, quando o mundo vivia o auge da Segunda Guerra Mundial. O objeto? Um tanque de guerra rabiscado no canto de um jornal diário, provavelmente descartado mais cedo pelo pai. Ah, o pai. Juarez teve o pai que todo artista gostaria de ter. 

Primeiro desenho de Juarez Machado.
Foto de arquivo do Instituto Juarez Machado

João Machado era um colecionador de coisas e de causos. Como caixeiro viajante, sustentava as necessidades da casa; como escultor e fotógrafo, alimentava suas outras paixões. Pai dedicado, encontrou, na mesma distância que o afastava da esposa e dos filhos,  uma forma de estar presente: trazia na mala extra – montada só para a família – as bugigangas e experiências mais interessantes da viagem. Juarez e o irmão mais novo, Edson, adoravam o presente, e toda a saudade era perdoada quando se reuniam, após o jantar, para cear as histórias do pai.

Com a família completa, as noites eram sempre as mesmas. Após a refeição, a mesa que servia o jantar preparado pela mãe se transformava em uma estação de trabalho para o pai, onde suas melhores fotos e esculturas eram espalhadas. Leonora, a matriarca, contribuía para a exposição com o resultado do trabalho fora de casa, feito para complementar a renda da família. Confeccionava leques de seda impecavelmente detalhados, que pintava para a Companhia Hansen, atual Tigre.  Tanta atenção e estímulo só poderiam ter um resultado:  os dois filhos passaram a dividir, além do quarto, a inspiração pela arte. 

Apesar do mesmo amor, os irmãos seguiram carreiras diferentes. Juarez queria criar, Edson preferiu a curadoria – escolhas distintas na juventude, mas que se uniriam na vida adulta. “Juarez sempre foi muito generoso. Há uma afinidade e um respeito muito grande, desde muito tempo atrás. Nossos interesses pela arte foram se afunilando e isso criou uma parceria divertida e competente em nosso trabalho, que vai além da família”, conta Edson. 

Sem qualquer dúvida sobre seus objetivos, Juarez iniciou aos 19 anos os estudos na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, mudando-se para Curitiba. A decisão sobre o curso já estava tomada desde sua primeira experiência de trabalho. Ainda na adolescência, teve contato com a produção de materiais artísticos ao criar  rótulos de remédio, embalagens e cartazes no Laboratório Catarinense. 

A primeira mostra individual de Juarez aconteceu ainda no último ano de faculdade, na Galeria de Arte Cocaco, em Curitiba, com um tema conhecido da terra natal do artista: as bicicletas. Na ocasião, a obra “Operários do Itaum”, criada em 1960, levou o primeiro dos inúmeros prêmios que o joinvilense receberia ao longo de sua carreira.

Após o diploma, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu por 20 anos. Lá, contribuiu ativamente para o movimento cultural da cidade e tornou-se amigo de personalidades importantes para a dramaturgia brasileira, como Ary Fontoura, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Ziraldo e Fernanda Montenegro. Nesse período, explorou seu talento em lugares diferentes da arte, criando charges para grandes jornais e ilustrando capas de discos, cadernos e livros. Chegou até a produzir peças para Oscar Niemeyer e a atuar na televisão, quando estrelou um quadro de sucesso no Fantástico como mímico – ou, em sua própria definição, “desenhista de gestos”. A atração foi exibida até 1978.

Juarez Machado no programa Fantástico nos anos 70. Foto de arquivo do Instituto Juarez Machado

No trabalho que produz, o artista é meticuloso, motivo que o levou a criar seu principal ateliê em Paris, no bairro de Montmartre. O lugar também foi casa e inspiração para ninguém mais, ninguém menos, do que Picasso, Renoir e Edith Piaf. Várias de suas obras mais importantes foram concebidas na Rue des Abbesses, após a França acolher Juarez com o mesmo amor do que o Brasil.

A força da presença do artista é tanta que levou o cineasta Jean-Pierre Jeunet a replicar a mesma paleta de tons, característicos das obras do joinvilense, nas cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (2001), um clássico do cinema francês contemporâneo . Além das cores é possível perceber no filme, gravado também em Montmartre, quadros de Juarez decorando o quarto da protagonista.  

Sonhador como todo artista, Juarez sempre falou sobre a importância de levar arte a todos os lugares – algo que fez por onde passou, inclusive em sua cidade natal.

Em 2014, foi inaugurado em Joinville o Instituto Juarez Machado, uma pinacoteca para exposição de suas telas, esculturas e memórias de vida. Enganam-se os que acham que o instituto foi obra de ego ou idolatria própria. Não. A construção veio de uma promessa feita a si mesmo, logo após o diploma de ensino médio no Colégio Bom Jesus: trazer mais cultura a uma cidade fabril. Para o projeto, aliou seu trabalho com o do irmão, Edson, diretor artístico do espaço.  

Apesar das roupas impecavelmente passadas e do sapato sempre lustrado, o local escolhido para abrigar o instituto é a prova mestra de sua simplicidade: a casa dos Machado. A mesma cozinha onde sua mãe preparava o jantar, o mesmo quarto que os irmãos dividiam, a mesma porta que recebia o pai de volta em todas as viagens continuam lá. Agora, como lar exclusivo da arte do filho mais velho, administrado pelo filho mais novo. 

Neste ano, em meio à pandemia, Juarez completou sua octogésima volta ao sol. Não houve festa, não houve champagne, não houve bolo servido sob uma mesa retangular adornada com toalha branca e apinhada de pessoas à volta. 

O artista está recluso em uma fazenda no Rio de Janeiro, um local de difícil acesso e quase nenhum contato com o mundo externo. Ele só conversa com a família. Ninguém mais sabe o que Juarez está fazendo.

Quem sabe esteja criando, quem sabe esteja se reinventando, quem sabe esteja só tomando sol todas as tardes, sentado em uma varanda extensa e com uma taça de vinho na mão, sua companheira de longa data… Quem sabe. O que sabemos é que seu legado e sua história inspiraram e inspiram pessoas de todo o mundo e, para a nossa  sorte, podemos encontrá-lo muito perto, em cada um dos cantos do número 994 da rua Lages, no bairro América, em Joinville.

Juarez Machado. Foto Max Schwoelk
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