{"id":1439,"date":"2020-09-01T11:09:33","date_gmt":"2020-09-01T14:09:33","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=1439"},"modified":"2022-06-22T20:24:10","modified_gmt":"2022-06-22T23:24:10","slug":"novo-normal-expoe-problemas-sociais-ja-conhecidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2020\/09\/01\/novo-normal-expoe-problemas-sociais-ja-conhecidos\/","title":{"rendered":"\u201cNovo normal\u201dexp\u00f5e problemas sociais j\u00e1 conhecidos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Termos utilizados na tentativa de amenizar a gravidade da pandemia impactam diretamente na forma que a popula\u00e7\u00e3o lida com a situa\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Em 8 de agosto, o Brasil ultrapassou a marca de 100 mil mortes por covid-19, menos de cinco meses desde o an\u00fancio da suposta primeira v\u00edtima fatal da doen\u00e7a no pa\u00eds, em 17 de mar\u00e7o. Apesar do n\u00famero chocante em t\u00e3o pouco tempo e das mais de 1 mil mortes di\u00e1rias, as pessoas parecem estar anestesiadas. Termos como \u201cnovo normal\u201d s\u00e3o cada vez mais utilizados para descrever uma realidade dura e grave, que est\u00e1 bem longe da normalidade. Palavras que escondem por tr\u00e1s de significados literais um forte teor ideol\u00f3gico e negacionista.<\/p>\n<p>\u201cAs palavras n\u00e3o apenas comunicam. Elas constroem e destroem coisas tamb\u00e9m\u201d, afirma o professor e doutor em Lingu\u00edstica Alex de Britto Rodrigues. Ele explica que tudo o que falamos e escrevemos est\u00e1 ancorado a um contexto social de onde vem o significado. \u201cUm uso lingu\u00edstico pode, de modo consciente, amenizar alguma situa\u00e7\u00e3o, o que depende da compreens\u00e3o do contexto e do valor do que \u00e9 dito naquele contexto.\u201d<\/p>\n<p>Para a doutora em Antropologia Social Maria Elisa M\u00e1ximo, termos como \u201cnovo normal\u201d s\u00e3o criados e ditos como uma forma de normalizar tudo o que estamos vivendo. \u201cDe algum modo, se est\u00e1 tentando tirar o foco da dor que o momento gera para impulsionar outro tipo pensamento: o de tirar algo positivo da situa\u00e7\u00e3o\u201d, reflete Elisa. Ela refor\u00e7a que essa busca por ressignifica\u00e7\u00e3o \u00e9 algo natural, movida pela nossa pr\u00f3pria \u201cnecessidade de supera\u00e7\u00e3o\u201d, mas que tamb\u00e9m \u00e9 usada por movimentos estruturais de forma ideol\u00f3gica, no sentido de amenizar a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, de capitalizar e de fazer com que as pessoas continuem produzindo. As consequ\u00eancias desse movimento s\u00e3o o comodismo e, a j\u00e1 presente, banaliza\u00e7\u00e3o da morte.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga Gabriela Kunz Silveira afirma que o ser humano \u00e9 capaz de se acostumar com tudo, inclusive com a morte de centenas de pessoas diariamente. \u201cIsso \u00e9 da ordem do humano\u201d, explica ela. \u201cAs pessoas t\u00eam dificuldade em mudar o modelo de vida. Elas voltam \u00e0 l\u00f3gica anterior [de \u2018normalidade\u2019]\u201d, afirma Gabriela, que diz que encarar a realidade muitas vezes \u00e9 um processo dif\u00edcil para as pessoas. Mas quanto a banaliza\u00e7\u00e3o em si, a psic\u00f3loga acredita que isso tamb\u00e9m esteja ligado \u00e0 falta de pol\u00edticas p\u00fablicas que promovam a valoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do contexto sociocultural, o professor Alex afirma que o locutor fala de uma posi\u00e7\u00e3o social, ou seja, o impacto de uma fala est\u00e1 diretamente ligada ao poder de influ\u00eancia e de autoridade que a pessoa exerce dentro da sociedade. \u201cSe algum desconhecido, sem forma\u00e7\u00e3o, fala sobre vacinas, causa um impacto diferente de quando um especialista conhecido fala sobre o mesmo assunto\u201d, exemplifica o professor, que aponta haver exce\u00e7\u00f5es, em decorr\u00eancia dos contextos sociais.<\/p>\n<p>Isso nos leva a questionar o papel do atual presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro, ao chamar, em mais de uma ocasi\u00e3o, o coronav\u00edrus de \u201cgripezinha\u201d. \u201c\u2018Gripezinha\u2019 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma palavra\u201d, afirma Maria Elisa. \u201c\u00c9 uma express\u00e3o carregada de sentido e de valores j\u00e1 enraizados na nossa sociedade, muito ligados \u00e0 coragem e a uma ideia de masculinidade. Esses termos t\u00eam as fun\u00e7\u00f5es de diminuir a gravidade da doen\u00e7a, normalizar a situa\u00e7\u00e3o e de desinformar a popula\u00e7\u00e3o\u201d, conclui. Fun\u00e7\u00f5es que t\u00eam como finalidade, segundo a cientista social, isentar os poderes p\u00fablicos das suas responsabilidades.<\/p>\n<p>Quanto a um \u201cnovo normal\u201d, num sentido de mudan\u00e7as sociais em um futuro p\u00f3s-pandemia, a Maria Elisa diz que a sociedade est\u00e1 em uma \u201cconstante transforma\u00e7\u00e3o\u201d e que acontecimentos, como a pandemia, contribuem para esse processo. Por\u00e9m, ela n\u00e3o acredita que isso poderia ser chamado de um \u201cnovo normal\u201d, pois n\u00e3o h\u00e1 um \u201cvelho normal\u201d. \u201cAquilo que \u00e9 considerado normal hoje \u00e9 produto de uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social de muito tempo. E n\u00e3o resultado de apenas um fator, como a pandemia\u201d, explica ela.<\/p>\n<p>Para Gabriela, esse \u201cnovo normal\u201d j\u00e1 passou. A psic\u00f3loga concorda com Maria Elisa, quanto ao uso do termo estar relacionado a uma ruptura com um senso de antiga&nbsp; normalidade, mas ela questiona como isso se aplica no futuro. \u201cN\u00e3o sei se ap\u00f3s a pandemia, o autocuidado e a solidariedade v\u00e3o continuar sendo valores praticados. Pelo menos no nosso cen\u00e1rio atual, a gente j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea mais o respeito e o cuidado com o outro, que havia no in\u00edcio da pandemia.\u201d Ela diz que tenta ser otimista, mas que, de um ponto de vista psicol\u00f3gico, \u00e9 dif\u00edcil as pessoas mudarem comportamentos e h\u00e1bitos em um&nbsp; per\u00edodo de tempo t\u00e3o curto.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1445 size-large\" src=\"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Prancheta-11-683x1024.png\" alt=\"\" width=\"683\" height=\"1024\"><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<h4 style=\"text-align: left;\">\u00c9 tempo de se reinventar<\/h4>\n<p>Outra express\u00e3o da vez \u00e9 o velho e conhecido \u201ctempo de se reinventar\u201d. O termo, muito utilizado por influenciadores e empres\u00e1rios, ganhou um significado ainda mais incisivo e palp\u00e1vel devido ao contexto atual. \u201cEsse \u00e9 um termo que me parece um mandato\u201d, explica Gabriela. \u201c\u00c9 algo que n\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos acostumados desde antes da pandemia. Num sentido de que somos respons\u00e1veis individualmente por sermos pessoas bem-sucedidas e felizes.\u201d<\/p>\n<p>Para Gabriela, a sociedade tem uma vis\u00e3o muito individualista do que \u00e9 se reinventar. Uma vis\u00e3o muito ligada aos bens materiais, meritocr\u00e1tica e exigente. \u201cEsse \u2018tempo de se reinventar\u2019 coloca uma cobran\u00e7a e uma individualiza\u00e7\u00e3o, que faz com que as pessoas se sintam ainda mais culpadas e mais impotentes diante de uma situa\u00e7\u00e3o que vai muito al\u00e9m delas.\u201d&nbsp; Essa cobran\u00e7a, de acordo com a psic\u00f3loga, pode afetar as pessoas de forma muito negativa, inclusive na sa\u00fade mental. \u201cN\u00e3o posso afirmar com certeza, pois ainda n\u00e3o h\u00e1 estudos publicados neste sentido no momento, mas, sim, esses discursos ajudam, n\u00e3o exclusivamente, a formar o sofrimento mental.\u201d<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga considera que a ideia de se reinventar durante a pandemia, principalmente no contexto de isolamento social, \u00e9 sobre uma oportunidade de se descobrir, ter novas experi\u00eancias consigo mesmo, aproveitar o tempo com a fam\u00edlia e explorar a criatividade. Mas, devido \u00e0 toda complexidade do momento, nem todas as pessoas veem a situa\u00e7\u00e3o desta forma, e isso \u00e9 natural.<\/p>\n<h2>Mais que um simples n\u00famero<\/h2>\n<p>A pandemia do novo coronav\u00edrus mudou os planos do trocador de moldes Tiago Oliveira de Santiago, 31 anos. Ele \u00e9 um dos mais de 3,5 milh\u00f5es de brasileiros que t\u00eam ou tiveram a doen\u00e7a. Mesmo n\u00e3o tendo nenhum dos sintomas graves, Tiago conta que se sentiu muito apreensivo. \u201cEu tinha medo que o meu estado de sa\u00fade piorasse\u201d, confessa ele.<\/p>\n<p>Atualmente melhor, Tiago, que faz curso de Gest\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o, teve que lidar com mudan\u00e7as no hor\u00e1rio de trabalho, se adaptar \u00e0s aulas de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia e com a chegada de sua filha. \u201cEst\u00e1 sendo uma fase de adapta\u00e7\u00e3o. Toda mudan\u00e7a gera desconforto\u201d, conta o rapaz, que ap\u00f3s o per\u00edodo em casa, voltou a trabalhar, segundo ele, \u201ctomando todos os cuidados necess\u00e1rios\u201d. Santiago diz que est\u00e1 se sentindo muito ansioso durante este per\u00edodo. \u201cEu fico muito preocupado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia. Principalmente por ter uma beb\u00ea de quatro meses em casa\u201d, relata.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga Gabriela diz que esse mal estar \u00e9 algo natural dadas \u00e0s circunst\u00e2ncias de extrema incerteza. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o f\u00e1cil\u201d, afirma ela. \u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o de imin\u00eancia de morte, em que a gente n\u00e3o tem controle da situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Santiago encara a situa\u00e7\u00e3o com seriedade, pois \u201cs\u00e3o vidas que est\u00e3o sendo perdidas\u201d. Ele n\u00e3o acha que toda esta condi\u00e7\u00e3o pode ser chamada de normal ou \u201cnovo normal\u201d, porque vai de encontro a nossa cultura, mas acredita que a intera\u00e7\u00e3o digital mais intensificada, algo que ele considera positivo,&nbsp; permanecer\u00e1 ap\u00f3s a pandemia.<\/p>\n<p>Segundo dados do site Coronav\u00edrus Brasil, Tiago tamb\u00e9m faz parte dos mais de 2,5 milh\u00f5es de brasileiros que se recuperaram do v\u00edrus. N\u00famero que n\u00e3o invalida as mais de 110 mil mortes que ocorreram at\u00e9 o momento. A realidade de Tiago e a de in\u00fameras pessoas foram afetadas de diversas formas, direta e indiretamente, pela pandemia, desde novos h\u00e1bitos e o pr\u00f3prio isolamento ao desemprego e o luto. N\u00e3o h\u00e1 normalidade aqui.<\/p>\n<h4><span style=\"color: #993366;\">Alguns dados<\/span><\/h4>\n<p>Segundo dados da universidade estadunidense Johns Hopkins, os casos de covid-19 j\u00e1 s\u00e3o mais de 22,5 milh\u00f5es em todo o mundo. J\u00e1 o n\u00famero de mortes est\u00e1 em cerca de 790 mil. O Brasil continua em segundo no ranking, tanto em n\u00famero de casos, cerca de 3,5 milh\u00f5es, quanto de \u00f3bitos, pouco mais de 110 mil.<\/p>\n<p>Somando os n\u00fameros de \u00f3bitos mensais divulgados no Portal de Transpar\u00eancia do Registro Civil, entre janeiro e junho de 2020, houve 680.232 \u00f3bitos, 77.120 a mais, se comparado ao mesmo per\u00edodo de 2019, em que foram registrados 603.112.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Rep\u00f3rter: Pedro Novais<\/em><\/p>\n<p><em>Foto: Michael Dantas\/AFP<\/em><\/p>\n<p><em>Arte: Kevin Eduardo<\/em><\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Termos utilizados na tentativa de amenizar a gravidade da pandemia impactam diretamente na forma que a popula\u00e7\u00e3o lida com a situa\u00e7\u00e3o Em 8 de agosto, o Brasil ultrapassou a marca de 100 mil mortes por covid-19, menos de cinco meses desde o an\u00fancio da suposta primeira v\u00edtima fatal da doen\u00e7a no pa\u00eds, em 17 de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2492,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[332],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1439"}],"collection":[{"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1439"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1439\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2493,"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1439\/revisions\/2493"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2492"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1439"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1439"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1439"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}