{"id":1721,"date":"2020-12-10T19:44:32","date_gmt":"2020-12-10T22:44:32","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=1721"},"modified":"2025-07-04T19:50:24","modified_gmt":"2025-07-04T22:50:24","slug":"brasil-forma-mestres-e-doutores-para-o-desemprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2020\/12\/10\/brasil-forma-mestres-e-doutores-para-o-desemprego\/","title":{"rendered":"Brasil forma mestres e doutores para o desemprego"},"content":{"rendered":"\n<p>Ariele Silv\u00e9rio Cardoso terminou o bacharelado em Jornalismo na Faculdade Ielusc, em Joinville (SC) e foi direto para o mestrado. Apaixonada por antropologia social, ela descobriu o gosto pela pesquisa quando fazia a monografia. Hoje, por\u00e9m, est\u00e1 fora da academia.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade de Ariele reflete os n\u00fameros do pa\u00eds. Se o <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2020\/10\/30\/desemprego-no-brasil-sobe-para-144percent-em-agosto-diz-ibge.ghtml\">desemprego entre a popula\u00e7\u00e3o geral bate recordes hist\u00f3ricos atualmente<\/a> (fechando em 14,4%), a taxa de desemprego entre mestres e doutores \u00e9 ainda maior: 25% dos que ostentam o t\u00edtulo de doutor no curr\u00edculo est\u00e3o desempregados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre mestres, esse n\u00famero \u00e9 ainda maior: s\u00e3o 35% sem ocupa\u00e7\u00e3o formal. No mundo, essas taxas giram em torno de apenas 2%. O que resta para essa parcela \u00e9 sair da academia e buscar outras fontes de renda. Portanto, Ariele n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o ao se direcionar novamente para o mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, ela \u00e9 assessora de imprensa na Associa\u00e7\u00e3o de Munic\u00edpios do Nordeste de Santa Catarina (Amunesc) e s\u00f3cia da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunica\u00e7\u00e3o (Intercom), fazendo parte da banca avaliadora. Este \u00faltimo, por\u00e9m, n\u00e3o se trata de um servi\u00e7o remunerado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ariele reconhece que sair da faculdade sem nenhuma experi\u00eancia na \u00e1rea e ir direto para o mestrado pode ter dificultado o ingresso no mercado de trabalho. \u00c9 muito mais barato para uma empresa contratar um bacharel ou um especialista do que um mestre ou doutor. Isso leva muitos profissionais a ocultar seus t\u00edtulos no curr\u00edculo, para evitar a rejei\u00e7\u00e3o das empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ariele comenta que a populariza\u00e7\u00e3o do estudo acad\u00eamico, em conjunto com o sucateamento das universidades \u00e9 um agravante para a situa\u00e7\u00e3o. De fato, olhando para tr\u00e1s, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar uma linha at\u00e9 esse momento dif\u00edcil para aqueles que escolheram a carreira acad\u00eamica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1996 e 2015, houve aumento de 401% no n\u00famero de mestres e doutores, onda provocada pelo alto n\u00famero de oportunidades de acesso \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Um levantamento da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Dirigentes das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (Andifes) mostra que a quantidade de programas de mestrado e doutorado subiu de 714 em 1995 para 2.147 em 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse salto tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de entender: durante a d\u00e9cada de 2000 at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, o Brasil experimentou um boom da ci\u00eancia. Entre 1995 e 2002 foram criadas seis universidades federais, totalizando 45 em 2002. Entre 2003 e 2010, por\u00e9m, houve um salto: surgiram 14 novas universidades federais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, o in\u00edcio do s\u00e9culo 21 no Brasil representou grandes investimentos na educa\u00e7\u00e3o superior p\u00fablica. Entre 2011 e 2018, esse boom diminuiu: somente 6 novas universidades surgiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, a <a href=\"https:\/\/www.politize.com.br\/teto-de-gastos-publicos-infografico\/\">PEC do Teto de Gastos<\/a> congelou os investimentos em educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica no pa\u00eds. Ali\u00e1s, nem \u00e9 necess\u00e1rio voltar para 2016. O governo de Jair Bolsonaro come\u00e7ou seu primeiro ano, 2019, com cortes nas verbas de universidades p\u00fablicas e bolsas de mestrado e doutorado.<\/p>\n\n\n\n<p>Resumindo, o Brasil teve um aumento exponencial no investimento em ci\u00eancia na d\u00e9cada passada, mas nessa d\u00e9cada correu para o extremo oposto. Tudo isso combinado com um alto n\u00famero de profissionais que seguiram carreira acad\u00eamica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado? Milhares de mestres e doutores desempregados e com pouca perspectiva de carreira. O desemprego havia se estabilizado em 27% entre 2009 e 2014, mas aumentou para 30,7% em 2016, conforme o CGEE. A concorr\u00eancia, por\u00e9m, tende a crescer. O Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o tem como meta formar 25 mil novos doutores em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom o crescimento das ofertas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, o Brasil formou muito mais mestres e doutores do que tinha h\u00e1 20 anos. E essa redu\u00e7\u00e3o de vagas por causa do ensino a dist\u00e2ncia e a diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de vagas para mestres e doutores em universidades p\u00fablicas geram um problema\u201d afirma Matheus Sim\u00f5es Mello, doutor em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina<\/p>\n\n\n\n<p>Com Matheus, o destino foi mais gentil. Ele se formou em 2012 na gradua\u00e7\u00e3o e, desde ent\u00e3o, nunca ficou desempregado ou fora da academia. Na verdade, ele deu aulas na Faculdade Ielusc, onde se formou, assim que come\u00e7ou o mestrado. \u201cEu deixei sempre uma boa impress\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o onde estudei e trabalhei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deixei portas abertas, soube aproveitar, e dei sorte por ter aberto uma vaga justamente quando estava saindo do doutorado\u201d, conta Matheus. Para ele, tudo \u00e9 uma mistura de compet\u00eancia, sorte e coincid\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma dica que o Doutor em Jornalismo deixa \u00e9 a necessidade de projetar desde o in\u00edcio o que se pretende fazer depois de obter a titula\u00e7\u00e3o. Ele ainda ressalta que, com a ascens\u00e3o do EAD, o cen\u00e1rio fica ainda mais dif\u00edcil para os novos titulados. Durante a pandemia, v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es chegaram a reduzir o corpo docente pela metade. Com as aulas virtuais, \u00e9 poss\u00edvel reunir muito mais alunos em uma \u00fanica sala de aula ministrada por um \u00fanico professor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As demiss\u00f5es em massa de professores s\u00e3o cada vez mais comuns: segundo um levantamento do Sindicato dos Professores de S\u00e3o Paulo (Sinpro SP), 1.674 professores de faculdades particulares paulistas foram demitidos desde abril. Institui\u00e7\u00f5es como a Uninove, a Positivo e a Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) protagonizaram <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/09\/09\/universidades-particulares-demitem-professores-em-massa-e-lotam-salas-virtuais\">casos de demiss\u00e3o em massa<\/a>, com direito a professores sendo demitidos por pop-up e e-mail.<\/p>\n\n\n\n<p>O que resta aos profissionais \u00e9 buscar oportunidades fora da academia e \u201cbicos\u201d, como corre\u00e7\u00e3o de trabalhos acad\u00eamicos conforme normas da ABNT, substitui\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de professores etc.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda os que decidem fazer p\u00f3s-doutorado. Um p\u00f3s-doutorado n\u00e3o \u00e9 um t\u00edtulo\/n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Na verdade, trata-se de uma atividade de pesquisa que pode ser feita depois do doutorado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para sua realiza\u00e7\u00e3o, o profissional recebe uma bolsa, que serve para seu sustento. Hoje, no Brasil, uma bolsa de p\u00f3s-doutorado tem o valor de 3,3 mil reais por m\u00eas. Essa acaba sendo a fonte de renda de doutores como Josnei Di Carlo, doutor em Sociologia Pol\u00edtica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDeixei de fazer concursos porque n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de arcar com os custos\u201d, conta Josnei. Participar de concursos p\u00fablicos \u00e9 caro e invi\u00e1vel para muitos profissionais. Um concurso p\u00fablico dura uma semana ou at\u00e9 mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Caso o profissional esteja trabalhando, \u00e9 preciso se ausentar durante todo esse per\u00edodo, mas nem sempre o empregador d\u00e1 essa chance. Participar do concurso ainda envolve uma s\u00e9rie de outros gastos, como passagem de avi\u00e3o, hospedagem etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Josnei foi aprovado em dois processos seletivos, mas n\u00e3o foi chamado em nenhum dos dois. Ser aprovado em um processo seletivo n\u00e3o garante a convoca\u00e7\u00e3o para ocupar a vaga. Nesse cen\u00e1rio, o p\u00f3s-doutorado foi uma sa\u00edda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um p\u00f3s-doutorado, ficaria mais f\u00e1cil para Josnei arcar com os custos de um concurso, al\u00e9m da possibilidade de se ausentar das atividades de pesquisa durante o per\u00edodo do processo. O que ele n\u00e3o contava era com uma pandemia de Coronav\u00edrus devastando o mundo em 2020. Os concursos foram adiados, e Josnei segue no p\u00f3s-doutorado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele critica o fato de que a expans\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o se deu em conjunto com uma expans\u00e3o vertical do mercado de trabalho, e n\u00e3o horizontal. Ou seja, foram formados mais doutores para ocuparem postos de trabalho quase exclusivamente na educa\u00e7\u00e3o superior p\u00fablica, por conta da cria\u00e7\u00e3o de novas universidades e institutos. Por\u00e9m, n\u00e3o houve cria\u00e7\u00e3o de vagas para mestres e doutores em outros setores. \u201cO gargalo ia ficar evidente assim que diminu\u00edsse a cria\u00e7\u00e3o de novas universidades e institutos\u201d, opina ele.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Fuga de c\u00e9rebros<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/W7_s1hO9jQzHhWxvPRgOl8H8GVTuM_SjUZF6RxEESiTbhYar4cTfGcfc2mbenB4UKid3B1RCfsjTqf_vtp2mKCj_WE1C1W-4gI8F0exwcGLfuMJMK2vAGTSWfteVw495x_JWoMb7\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>imagem: unsplash<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Outro fen\u00f4meno que pode ser causado pela desvaloriza\u00e7\u00e3o do profissional da ci\u00eancia no Brasil \u00e9 a fuga de c\u00e9rebros. Esse \u00e9 o nome que se d\u00e1 ao \u00eaxodo de pessoas qualificadas, ou seja, quando esses mestres e doutores decidem sair do pa\u00eds e buscar oportunidades em pa\u00edses mais promissores. Isso acaba se tornando um problema para o Brasil, que se torna um pa\u00eds de pessoas com baixo n\u00edvel acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando a gente se sente desvalorizado, desprestigiado, e n\u00e3o h\u00e1 incentivos, essas pessoas acabam migrando\u201d, opina Matheus. Ele cita a ditadura militar como um mau exemplo hist\u00f3rico, e fala de Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente da rep\u00fablica era um soci\u00f3logo respeitado, mas teve que se exilar por motivos pol\u00edticos e foi dar aulas na Fran\u00e7a. \u201cDesprestigiar a ci\u00eancia \u00e9 dar um tiro no pr\u00f3prio p\u00e9\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel verificar dados exatos sobre fuga de c\u00e9rebros. Isso porque os mestres e doutores que deixam o pa\u00eds n\u00e3o utilizam bolsas das institui\u00e7\u00f5es brasileiras, como a Capes ou CNPq, mas de universidades e centros de pesquisa do exterior que os contratam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, no ranking de competitividade global de talentos criado pela Insead, uma das maiores escolas de administra\u00e7\u00e3o do mundo, o Brasil amarga o 80\u00ba lugar entre as 132 na\u00e7\u00f5es analisadas. Ou seja, o pa\u00eds demonstra grande dificuldade em formar, reter e atrair talentos. No item \u201cfuga de c\u00e9rebros\u201d, o pa\u00eds piora a cada ano, ocupando a 70\u00aa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O perfil no Twitter \u201c<a href=\"https:\/\/twitter.com\/diasporacientbr\">Di\u00e1spora Cient\u00edfica do Brasil<\/a>\u201d \u00e9 parte dessa tentativa. A iniciativa busca mapear os cientistas brasileiros que migraram para o exterior. O levantamento ainda est\u00e1 em andamento, mas, at\u00e9 agora (novembro de 2020)&nbsp; foram mapeados 1300 cientistas fora do pa\u00eds. A maioria (541) nos Estados Unidos, seguido pelo Reino Unido (164) e o Canad\u00e1 (108). Tamb\u00e9m foram mapeados 88 cientistas na Alemanha, 51 na Fran\u00e7a, 44 na Holanda, 43 na Austr\u00e1lia, 36 na Su\u00ed\u00e7a, 30 na It\u00e1lia, 25 na Irlanda, 25 em Portugal, 21 na Espanha e 18 na Su\u00e9cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ora, nada indica que a situa\u00e7\u00e3o do profissional da ci\u00eancia no Brasil ir\u00e1 melhorar em um futuro pr\u00f3ximo. Josnei opina sobre o tema: \u201cLevando em conta o grupo pol\u00edtico que chegou ao poder, a carreira acad\u00eamica j\u00e1 piorou. A tend\u00eancia, portanto, \u00e9 a vida acad\u00eamica se tornar invi\u00e1vel ou um privil\u00e9gio de classe. Somente quem tiver uma fam\u00edlia que possa arcar com os custos de um mestrado ou doutorado sem bolsa poder\u00e1 obter esses t\u00edtulos.\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem:<\/strong>&nbsp;Guilherme Martins Rosa<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conte\u00fado produzido para o Primeira Pauta Digital<\/strong>&nbsp;| Disciplinas de Jornal Laborat\u00f3rio I e Jornalismo Digital, 4\u00aa fase\/2020<\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ariele Silv\u00e9rio Cardoso terminou o bacharelado em Jornalismo na Faculdade Ielusc, em Joinville (SC) e foi direto para o mestrado. Apaixonada por antropologia social, ela descobriu o gosto pela pesquisa quando fazia a monografia. 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