{"id":1755,"date":"2020-12-14T20:08:24","date_gmt":"2020-12-14T23:08:24","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=1755"},"modified":"2022-06-29T21:37:31","modified_gmt":"2022-06-30T00:37:31","slug":"mortes-de-pessoas-trans-no-brasil-aumentam-em-47","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2020\/12\/14\/mortes-de-pessoas-trans-no-brasil-aumentam-em-47\/","title":{"rendered":"Mortes de pessoas trans no Brasil aumentam em 47%"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Com uma m\u00e9dia de 15,1 casos ao m\u00eas, em 2020 tivemos uma pessoa trans assassinada a cada 48h<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Cento e vinte e quatro mulheres trans foram mortas em 2019. Neste ano, at\u00e9 o m\u00eas de outubro, 151 pessoas que foram assassinadas expressavam o g\u00eanero feminino, sejam travestis ou mulheres trans, 48 mortes a mais se comparado ao mesmo per\u00edodo do ano anterior. Os dados s\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA) e n\u00e3o refletem precisamente a realidade da viol\u00eancia transf\u00f3bica no pa\u00eds, uma vez que a metodologia de trabalho utilizada pela organiza\u00e7\u00e3o possui limita\u00e7\u00f5es, capturando apenas aquilo que de alguma maneira se torna vis\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, \u00e9 prov\u00e1vel que os n\u00fameros reais sejam superiores principalmente observando que o Estado n\u00e3o registra e divulga dados sobre o assassinato de pessoas LGBTQI+. O pr\u00f3prio boletim da Antra explica que os dados fazem&nbsp; parte do mapeamento anual da viol\u00eancia contra pessoas trans, feito a partir de not\u00edcias publicadas nas m\u00eddias, redes sociais, grupos de WhatsApp e parceiros\/aliados que reconhecem a import\u00e2ncia desse trabalho. A Antra \u00e9 uma rede nacional que articula em todo o Brasil institui\u00e7\u00f5es que desenvolvem a\u00e7\u00f5es para promo\u00e7\u00e3o da cidadania da popula\u00e7\u00e3o de travestis e transexuais, fundada no ano de 2000, na Cidade de Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/MyPb8JqPr5R0rz3gUfgf_ijpc7bvudRDJdlIm66kVQAbcZBN3OQuNQk7-uZFgrJ88FGjSubwS-LuS35boYRxtgmIpq4zYe9Gmm4vhOTDTbe_q1KJTBCeE1ZmXnX3kcy83rg-jIkv\" alt=\"\"\/><figcaption>Informa\u00e7\u00f5es: Dossi\u00ea: Assassinatos e Viol\u00eancia Contra Travestis e Transexuais Brasileiras Em 2019 (ANTRA); Boletim 5-2020 \u2013 Assassinatos Antra<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mariana Franco, discente de Servi\u00e7o Social na UFSC foi candidata a vereadora nas elei\u00e7\u00f5es municipais de Florian\u00f3polis, relata que a viol\u00eancia sempre a cerca: \u201cDesde que eu saio de dentro de casa eu recebo preconceito, na rua, no \u00f4nibus, no banco, no shopping. A viol\u00eancia vem de v\u00e1rias formas, seja ela moral, com xingamentos na rua; seja o n\u00e3o reconhecimento da minha identidade\u201d. Franco conta que nunca sofreu agress\u00e3o f\u00edsica, mas j\u00e1 sofreu viol\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Mariana tamb\u00e9m compartilha os dois casos de preconceito que mais marcaram. Um deles foi quando estava jantando com um amigo em um restaurante de Florian\u00f3polis e o gar\u00e7om perguntou se ela era trabalhadora sexual, pois, caso fosse, deveria se retirar do local que era um ambiente familiar. O segundo caso aconteceu em um aeroporto, quando foi impedida de entrar no avi\u00e3o, pois a companhia a acusou de falsidade ideol\u00f3gica por n\u00e3o aceitarem o nome social dela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTodas as pessoas trans que eu conheci na minha adolesc\u00eancia est\u00e3o mortas\u201d, exclama Mariana ao recordar do in\u00edcio de sua transi\u00e7\u00e3o. Ela tamb\u00e9m compartilhou que participou de um encontro Sul brasileiro de pessoas trans, que ocorreu em 2017 no Rio Grande do Sul, e metade das mais de cem participantes que estiveram presentes n\u00e3o est\u00e3o mais vivas atualmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A psicanalista e escritora Bruna Morsch relata que mesmo vivendo de forma mais est\u00e1vel, com um lugar de privil\u00e9gio por sua profiss\u00e3o e posi\u00e7\u00e3o social, ainda vive com medo. Ela nunca sai de sua casa desacompanhada, desde uma balada at\u00e9 as atividades mais simples. At\u00e9 mesmo na ida ao parque para seu hobbie de patina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a expectativa de vida das mulheres trans \u00e9 de 35 anos, menos da metade da expectativa de vida m\u00e9dia nacional de 75 anos. De acordo com o <a href=\"https:\/\/antrabrasil.files.wordpress.com\/2020\/01\/dossic3aa-dos-assassinatos-e-da-violc3aancia-contra-pessoas-trans-em-2019.pdf\">dossi\u00ea<\/a> de 2019 da Antra, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata pessoas trans, seguido por M\u00e9xico e Estados Unidos. E \u00e9 no pa\u00eds que mais mata pessoas trans que h\u00e1 o maior p\u00fablico consumidor de pornografia trans de acordo com estat\u00edsticas do site <a href=\"http:\/\/blog.redtube.com\/2016\/06\/trans-porn-in-brazil\/\">RedTube<\/a> (em ingl\u00eas).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/FxYGUWnwconIgbfTDyAvmZR_v_zi74WHsznA9FDaV-M64gmAExHZEZxv1O2ODecGd4BOdJyRqpL6cSh8TOHndtvG5QOlvjo5PvztbhYel_fR0CPB3lwLZ0BkYN7DOIQuvq-L2zM1\" alt=\"\"\/><figcaption>Informa\u00e7\u00f5es: Dossi\u00ea: Assassinatos e Viol\u00eancia Contra Travestis e Transexuais Brasileiras Em 2019 (ANTRA)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Bruna, a morte de pessoas trans est\u00e1 diretamente relacionada aos estigmas fetichistas presentes na cultura brasileira. Os dados sobre o consumo de pornografia trans s\u00e3o uma&nbsp; evid\u00eancia disto. \u201cEsses homens que matam as pessoas trans, est\u00e3o tentando matar seu pr\u00f3prio desejo reprimido\u201d, observa a psicanalista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A viv\u00eancia de Let\u00edcia Borecki, atendente de call center e estudante de Publicidade e Propaganda, n\u00e3o \u00e9 muito diferente da descri\u00e7\u00e3o de Mariana e Bruna. Borecki cita os exemplos de preconceito mais comuns, como uma ida ao banheiro feminino. Relata como algumas mulheres falam alto entre si com o intuito de que ela escute e se sinta acuada,&nbsp; j\u00e1 outras cochicham frases como \u201cmeu deus, o mundo est\u00e1 perdido mesmo\u201d. Let\u00edcia diz que, no fim das contas, poucas falam diretamente para ela e o preconceito geralmente est\u00e1 relacionado \u00e0 religiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente Let\u00edcia n\u00e3o sofreu nenhuma viol\u00eancia f\u00edsica, mas conhece muitas pessoas trans que j\u00e1 sofreram. Uma hist\u00f3ria de uma mulher trans que tinha toda a documenta\u00e7\u00e3o com nome social e que recusou que um policial homem a revistasse. O policial lhe deu um tapa no rosto e disse \u201chomem nasce homem e mulher nasce mulher\u201d, e que ele iria revista-la da forma como quisesse. Para Borecki, esse acontecimento \u00e9 um acontecimento que lhe marcou muito: \u201cTemos medo n\u00e3o apenas da criminalidade, mas tamb\u00e9m das pessoas que atuam na esfera p\u00fablica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mercado de trabalho n\u00e3o \u00e9 receptivo<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mariana mesmo antes da transi\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha medo de como seria sua presen\u00e7a no mercado de trabalho. Ela conta que conhece outras pessoas trans que encontram dificuldades para conseguir empregos e acabam se tornando trabalhadoras sexuais. A experi\u00eancia de Let\u00edcia tamb\u00e9m \u00e9 envolta no medo. Ela n\u00e3o sabia se iria perder o emprego ap\u00f3s come\u00e7ar a transi\u00e7\u00e3o, felizmente ela continuou empregada. A atendente de call center acredita que conseguiu manter seu emprego por sua compet\u00eancia e que j\u00e1 chegou a indicar outras pessoas trans, mas que estas nunca foram contratadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Morsch conta que apesar de ter profissionais incr\u00edveis ao lado teve muitas experi\u00eancias dif\u00edceis, como ir para congressos de psican\u00e1lise e psicologia e ver profissionais usando da psicologia como pretexto para poder justificar o seu pr\u00f3prio preconceito. \u201cJ\u00e1 me frustrei em ter que assistir profissionais da ci\u00eancia e da psicologia colocando a transexualidade \u00e0 beira da loucura, isso \u00e9 muito preocupante e gera muitas barreiras para uma pessoa que quer transicionar\u201d, detalha a psicanalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Candidaturas trans no Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, em 2018, no primeiro pleito no pa\u00eds a aceitar o uso do nome social de acordo com a Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 23.609\/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Antra conseguiu mapear um total de 53 candidaturas de pessoas trans. A maioria das candidatas faziam parte de uma candidatura coletiva. Uma deputada estadual foi eleita por S\u00e3o Paulo: \u00c9rica Malunguinho da Silva, do PSOL, sendo a primeira pessoa trans a conseguir uma vaga na Assembleia Legislativa Paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 neste ano, a ANTRA conseguiu mapear em 25 estados, 294 candidaturas, dentre essas, 30 foram eleitas em sete estados do Brasil. Foram 16 candidaturas pela esquerda (6 PSOL, 4 PT, 4 PDT, 1 PV e 1 PSB), 11 pelo centro (1 PTB, 1 DEM, 2 PODE, 1 PROS, 1 AV, 4 MDB e 1 PSDB) e tr\u00eas pela direita (1 REP, 1 PL e 1 DC). Foram eleitos dois homens trans e as demais travestis e mulheres trans. Sete candidatas foram as mais votadas em suas cidades (Linda Brasil, Dandara, Tieta Melo, Lorim de Val\u00e9ria, Duda Salabert, Titia Chiba e Paullete Blue).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem:<\/strong>&nbsp;Rafaela Sant&#8217;Anna<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conte\u00fado produzido para o Primeira Pauta Digital<\/strong>&nbsp;| Disciplinas de Jornal Laborat\u00f3rio I e Jornalismo Digital, 4\u00aa fase\/2020<\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma m\u00e9dia de 15,1 casos ao m\u00eas, em 2020 tivemos uma pessoa trans assassinada a cada 48h Cento e vinte e quatro mulheres trans foram mortas em 2019. 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