{"id":1970,"date":"2021-06-18T16:17:47","date_gmt":"2021-06-18T19:17:47","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=1970"},"modified":"2022-06-22T19:47:52","modified_gmt":"2022-06-22T22:47:52","slug":"seria-esse-o-fim-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2021\/06\/18\/seria-esse-o-fim-do-cinema\/","title":{"rendered":"Seria esse o fim do cinema?"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ano de <em>2020 apresentou uma alta de 145% no n\u00famero de assinaturas de servi\u00e7os de streaming<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Por Heloisa Krzeminski<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o seu surgimento no s\u00e9culo XIX, o cinema passou por diversos desafios que colocaram sua exist\u00eancia em amea\u00e7a, mas sempre encontrou uma forma de se reerguer. Na crise de 1929, os filmes se tornaram uma forma de escapismo em meio a Depress\u00e3o. O movimento foi desestabilizado com o surgimento das TVs nos anos 50, mas se adaptou para conquistar seu espa\u00e7o novamente. Mas qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o disso com as novas tecnologias de distribui\u00e7\u00e3o de filmes, os <em>streamings<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p>Plataformas como Netflix, Globoplay, Disney+ e Amazon Prime est\u00e3o presentes na vida de 73,5% dos brasileiros, conforme mostra uma pesquisa realizada pela divis\u00e3o de M\u00eddia da Nielsen Brasil em parceria com a Toluna, em 2020. Com a pandemia, esses servi\u00e7os t\u00eam se tornado um fen\u00f4meno crescente com cada vez mais qualidade e variedade de conte\u00fado, sendo capazes at\u00e9 mesmo de competir no Oscar.<\/p>\n\n\n\n<p>Cineastas como Steven Spielberg e Christopher Nolan j\u00e1 deram entrevistas afirmando acreditar que esses novos servi\u00e7os amea\u00e7am a atividade das telonas, mas existem respostas controversas neste meio. Para o roteirista e diretor cinematogr\u00e1fico Anderson Dresch, os streamings n\u00e3o v\u00e3o matar a s\u00e9tima arte j\u00e1 que a experi\u00eancia do cinema n\u00e3o tem como se repetir em casa da mesma forma. O cineasta compara esta situa\u00e7\u00e3o com os restaurantes. \u201c\u00c9 a mesma coisa que falar que n\u00e3o vai mais ter restaurante, todo mundo vai comer em casa\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Vincent Sesering, jornalista e cin\u00e9filo, sem qualquer crise ou presen\u00e7a dos <em>streamings<\/em>, a maneira como as distribuidoras e exibidoras operam sempre tende a inclinar para o lado mais lucrativo, dando destaque aos <em>blockbusters<\/em> e filmes infantis. Portanto, os <em>streamings<\/em> podem fazer com que o consumidor opte por n\u00e3o assistir a todos os filmes que est\u00e3o em cartaz e aguardar para assistir em casa por quest\u00e3o de variedade. \u201cN\u00e3o mata o cinema. Embora v\u00e1 tornando isso uma atividade cada vez mais de nicho\u201d, opinou.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o de Brian Hagemann, mestre em comunica\u00e7\u00e3o e coordenador do curso de Cinema e Audiovisual na Univille, o cinema \u00e9 imortal, afinal j\u00e1 sobreviveu a muitas crises, entre elas a televis\u00e3o, as locadoras de VHS e DVD e a pirataria. \u201cMas claro, dentro de cada desafio imposto, o cinema sobrevive se adaptando \u00e0s novas tecnologias e mercados\u201d, completou. Para ele, o que est\u00e1 amea\u00e7ado \u00e9 a variedade do conte\u00fado dispon\u00edvel nas salas de cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>O surgimento de novas plataformas se tornou uma tend\u00eancia mundial e possibilitou uma variedade imensur\u00e1vel de conte\u00fados exclusivos dispon\u00edvel para todos que podem pagar por ela. Apesar disso, todas essas novas possibilidades tamb\u00e9m possuem seus contras.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Brian Hagemann, o grande problema \u00e9 que com muitos servi\u00e7os de streaming \u00e9 dif\u00edcil para o consumidor acompanhar tudo, j\u00e1 que fica caro mant\u00ea-los todos. \u201cO ideal \u00e9 que os servi\u00e7os de assinatura unificassem <em>streamings <\/em>e barateassem para o consumidor\u201d, considerou.<\/p>\n\n\n\n<p>Vincent Sesering comparou os streamings com as locadoras para ilustrar a desvantagem da grande variedade de plataformas. Segundo ele, nas locadoras os filmes se amontoavam ao longo dos anos e existiam diversas op\u00e7\u00f5es de filmes de todos os pa\u00edses e de todas as \u00e9pocas, diferente do que acontece nos <em>streamings<\/em>, que se limitam aos lan\u00e7amentos e filmes de no m\u00e1ximo 30 anos. \u201cMuita gente hoje v\u00ea filmes da d\u00e9cada de 80 e 90 e enxerga isso como cl\u00e1ssicos antiqu\u00edssimos. Ignorando a\u00ed 100 anos de filmes que vieram antes disso e todo um planeta al\u00e9m dos EUA\u201d, criticou.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pirataria<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos epis\u00f3dios de pirataria mais conhecidos no Brasil foi o vazamento de <em>Tropa de Elite<\/em>, em 2007. De acordo com a empresa Nagra\/Kudelski Group, em 2020 o Brasil foi o pa\u00eds com o maior consumo de pirataria online no mundo. A ind\u00fastria do cinema luta contra essa atividade desde o avan\u00e7o das tecnologias e do surgimento da Internet. \u201cA pirataria \u00e9 inevit\u00e1vel, visto que nem todos podem pagar por todo o conte\u00fado que deseja\u201d, disse Brian. De acordo com ele, a pirataria digital \u00e9 mais atrativa por ter uma qualidade semelhante ao produto original.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de seus malef\u00edcios aos trabalhos independentes, Vincent se considera um entusiasta da pirataria, pois h\u00e1 muitos anos \u00e9 o lugar ideal para consumo do cinema cl\u00e1ssico e alternativo. \u201cN\u00e3o existe neste momento, por exemplo, uma maneira de se assistir <em>As Vinhas da Ira<\/em>, do John Ford, de 1940, que n\u00e3o seja ilegalmente baixando o filme ou indo atr\u00e1s de um DVD antigo\u201d, explicou. Para o cin\u00e9filo, a pirataria contribui mundialmente com a distribui\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos que n\u00e3o est\u00e3o nos <em>streamings <\/em>e que s\u00e3o dif\u00edceis de encontrar em m\u00eddia f\u00edsica, como o filme brasileiro <em>A Falecida<\/em>. \u201cA pirataria sempre vai existir. E eu tor\u00e7o para continuar. Porque ela faz muitas vezes um trabalho de preserva\u00e7\u00e3o que empresas e Estado n\u00e3o conseguem fazer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Cl\u00e1ssicos do cinema<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Filmes como 2<em>001 &#8211; Uma Odisseia no Espa\u00e7<\/em>o (1968), <em>O Poderoso Chef\u00e3o<\/em> (1972) e <em>O Iluminado <\/em>(1980) marcaram sua \u00e9poca de lan\u00e7amento de tal forma que possuem relev\u00e2ncia at\u00e9 hoje. S\u00e3o muitos os cl\u00e1ssicos respons\u00e1veis por importantes tend\u00eancias e marcos do cinema que retratam comportamentos e tempos diversos. Para Vincent, a defini\u00e7\u00e3o de cl\u00e1ssico est\u00e1 intrinsecamente relacionada com o tempo. \u201c\u00c9 uma obra que perdura, que marca uma \u00e9poca ou que, vista em perspectiva, reflete esse tempo\u201d, disse. Nesse sentido, os impactos podem ser definidos pela quest\u00e3o de revolucionar a linguagem do cinema ou pelo impacto cultural. Por pior que sejam em outros aspectos. <em>O Nascimento de uma Na\u00e7\u00e3o<\/em>, de David. W. Griffith \u00e9 um exemplo. \u201cUm filme escancaradamente racista e conden\u00e1vel de muitas maneiras e que glorifica a Ku Klux Klan\u201d, contou o jornalista. Apesar disso, \u00e9 considerado um cl\u00e1ssico por ter utilizado pela primeira vez no cinema recursos como montagem paralela (mostrar dois eventos na tela acontecendo simultaneamente) e contar uma hist\u00f3ria de forma complexa do ponto de vista da est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Brian, o requisito que um filme precisa ter para ser considerado um cl\u00e1ssico \u00e9 ter o sucesso comercial aliado a aclama\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica, n\u00e3o ter necessariamente grande bilheteria, mas ser reconhecido e ganhar pr\u00eamios importantes da ind\u00fastria. Por esse motivo \u00e9 poss\u00edvel arriscar t\u00edtulos recentes que sejam considerados cl\u00e1ssicos no futuro, como <em>Mad Max: A Estrada da F\u00faria<\/em> (2015), <em>Parasita <\/em>(2019), <em>Corra!<\/em> (2017), entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Se tratando de <em>streaming<\/em>, Vincent e Brian acreditam que podem existir produ\u00e7\u00f5es deste meio que se tornem cl\u00e1ssicos no futuro. Para Brian, assistir na TV pode n\u00e3o ter o mesmo impacto que no cinema, \u201cmas as produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas originais dos streamings ainda s\u00e3o um fen\u00f4meno recente, e s\u00f3 o tempo vai dizer quais entrar\u00e3o no pante\u00e3o dos cl\u00e1ssicos\u201d, concluiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos citaram o filme <em>O Irland\u00eas<\/em>, produ\u00e7\u00e3o da Netflix, como um exemplo de potencial cl\u00e1ssico dos streamings. \u201cSer um cl\u00e1ssico ou n\u00e3o, ou uma obra prima, pra mim independe da plataforma de lan\u00e7amento\u201d, defendeu Vincent.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o de Anderson Dresch \u00e9 divergente. O cineasta acredita que o <em>streaming<\/em> n\u00e3o tem o mesmo glamour do cinema e que consequentemente \u00e9 complicado surgirem cl\u00e1ssicos dele. \u201cAquilo que est\u00e1 no <em>streaming<\/em> \u00e9 muito passageiro, \u00e9 um filme que voc\u00ea assiste e passa para o pr\u00f3ximo\u201d, explicou.Independentemente das opini\u00f5es que se formaram desde o surgimento do primeiro servi\u00e7o de <em>streaming<\/em>, \u00e9 incontest\u00e1vel que o cinema se tornou uma das artes mais relevantes que existem. Todo o imagin\u00e1rio constru\u00eddo desde o s\u00e9culo XIX sobre o ato de ir assistir aos lan\u00e7amentos resultou nas 176 milh\u00f5es de vezes que os brasileiros foram ao cinema em 2019 conforme dados do Observat\u00f3rio Brasileiro do Cinema e do Audiovisual. Portanto, a resposta para a t\u00e3o pol\u00eamica pergunta sobre a morte da s\u00e9tima arte \u00e9 n\u00e3o, ela n\u00e3o ir\u00e1 morrer, mas isso n\u00e3o significa que continuar\u00e1 a mesma para sempre. O que resta aos f\u00e3s e a ind\u00fastria \u00e9 se adaptar \u00e0s novas tend\u00eancias cinematogr\u00e1ficas, assim como tem feito h\u00e1 mais de 100 anos.<\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano de 2020 apresentou uma alta de 145% no n\u00famero de assinaturas de servi\u00e7os de streaming Por Heloisa Krzeminski Desde o seu surgimento no s\u00e9culo XIX, o cinema passou por diversos desafios que colocaram sua exist\u00eancia em amea\u00e7a, mas sempre encontrou uma forma de se reerguer. 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