{"id":276,"date":"2018-06-06T20:05:21","date_gmt":"2018-06-06T23:05:21","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=276"},"modified":"2022-06-22T19:47:27","modified_gmt":"2022-06-22T22:47:27","slug":"entenda-a-diferenca-entre-greve-e-locaute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2018\/06\/06\/entenda-a-diferenca-entre-greve-e-locaute\/","title":{"rendered":"Paralisa\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros: greve ou locaute?"},"content":{"rendered":"<p>A paralisa\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros, que iniciou em 21 de maio, em v\u00e1rias estradas do Brasil, come\u00e7ou a ser apurada na quinta-feira, 24, como pr\u00e1tica de locaute, segundo o ministro da seguran\u00e7a p\u00fablica, Raul Jungmann. Locaute \u00e9 o termo utilizado quando patr\u00f5es decidem paralisar atividades das empresas em raz\u00e3o de interesses pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Segundo o artigo 17, da lei 7.783, a pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 permitida: \u201cFica vedada a paralisa\u00e7\u00e3o das atividades, por iniciativa do empregador, com o objetivo de frustrar negocia\u00e7\u00e3o ou dificultar o atendimento de reivindica\u00e7\u00f5es dos respectivos empregados\u201d. A legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente para os trabalhadores, que est\u00e3o amparados pelo artigo 9 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que permite que eles decidam sobre a oportunidade de exercer a greve e sobre os interesses que devam por meio dela defender.<\/p>\n<p>O cientista social Belini Meurer percebe que existiram algumas transportadoras envolvidas, j\u00e1 que elas tamb\u00e9m sairiam ganhando com as reivindica\u00e7\u00f5es da paralisa\u00e7\u00e3o. \u201cTem tamb\u00e9m o trabalhador s\u00e9rio, mas voc\u00ea percebe que tem infiltra\u00e7\u00e3o ali\u201d, explica. Belini afirma que, caso o pre\u00e7o do combust\u00edvel baixe, o valor do frete n\u00e3o ir\u00e1 mudar. Logo, se um empres\u00e1rio tem uma frota com 50 caminh\u00f5es, ele vai levar vantagem com isso. \u201cEnt\u00e3o o que aconteceu \u00e9 locaute, quando os empres\u00e1rios que param e for\u00e7am seus empregados a pararem\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 o economista e supervisor t\u00e9cnico do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos de Santa Catarina (Dieese-SC), Jos\u00e9 \u00c1lvaro de Lima Cardoso, acredita que o movimento foi aut\u00eantico e que n\u00e3o existiu locaute.<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio eu fiquei preocupado, achei que era uma movimenta\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios,. Mas depois cheguei a conclus\u00e3o de que o movimento teve um fato objetivo, que foi a pol\u00edtica do aumento do pre\u00e7o dos derivados praticado pela Petrobr\u00e1s\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ele afirma que foi um greve confusa, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 ideologicamente uma greve de esquerda ou dos trabalhadores, e existiram participantes de direita, pessoas pedindo interven\u00e7\u00e3o militar, etc. \u201cMas a base econ\u00f4mica do movimento \u00e9 real, o movimento se deu pela percep\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros de que suas margens de ganho estavam se perdendo em fun\u00e7\u00e3o desse momento, j\u00e1 que grande parte do custo do transporte \u00e9 o \u00f3leo diesel\u201d, explica o economista.<\/p>\n<p>Cardoso relata que a categoria dos caminhoneiros \u00e9 bastante diferenciada, pois existem os que trabalham como aut\u00f4nomos, os que s\u00e3o pequenos propriet\u00e1rios, que possuem um ou dois caminh\u00f5es, e os que trabalham para transportadoras. Ele explica que \u00e9 uma categoria que tende a se \u201cdividir\u201d, pois alguns t\u00eam a vis\u00e3o pol\u00edtica mais \u00e0 esquerda, outros mais \u00e0 direita. Apesar disso, segundo ele, o aumento de pre\u00e7os do diesel e o objetivo econ\u00f4mico levou ao processo de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO fato de ser um movimento que teve pessoas de direita e pedindo o golpe militar n\u00e3o tira o aspecto de ser um movimento aut\u00eantico de trabalhadores que s\u00e3o explorados e chegaram em um n\u00edvel que a \u2018\u00e1gua bateu no queixo\u2019 e decidiram parar os trabalhos\u201d, explica.<\/p>\n<p>A historiadora e soci\u00f3loga Valdete Daufemback analisa que a paralisa\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros lutou por quest\u00f5es mais pontuais e n\u00e3o por direitos trabalhistas, como sal\u00e1rio e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como normalmente acontece. \u201cFoi uma greve contra o imposto, n\u00e3o uma greve de empregado e patr\u00e3o. Focaram no termo locaute porque \u00e9 uma paralisa- \u00e7\u00e3o contra o governo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Valdete tamb\u00e9m afirma que a import\u00e2ncia que a m\u00eddia d\u00e1 para uma greve faz total diferen\u00e7a. Para ela, sempre existiram empres\u00e1rios que usam da instabilidade social para ganhar benef\u00edcios do Estado e aumentar seu lucro. O que chamou aten\u00e7\u00e3o agora \u00e9 que s\u00e3o empresas de transporte, ou seja , patr\u00f5es contra o Estado. A historiadora recorda de uma mobiliza\u00e7\u00e3o por causa da infla\u00e7\u00e3o, que aconteceu durante o governo de Jos\u00e9 Sarney, quando houve desabastecimento de carnes e derivados nos mercados, porque os empres\u00e1rios do agroneg\u00f3- cio estavam sonegando seus animais para o abate.<\/p>\n<p>Em 1986, a partir do Plano Cruzado, alegando pre\u00e7o defasado, eles \u201cseguravam\u201d os bois no pasto, para pressionar o governo, j\u00e1 que diziam n\u00e3o ter mais lucro nas vendas. \u201cIsso parece muito com o que aconteceu agora, um locaute, mas esse nome n\u00e3o aparecia assim\u201d, explica Valdete.<\/p>\n<p>A greve, no sentido da palavra, quando come\u00e7a a existir, \u00e9 uma especificidade da sociedade industrial, segundo a professora Valdete Daufemback. Na idade m\u00e9dia, segundo ela, realizavam motins, se mobilizavam e paravam. Depois da revolu- \u00e7\u00e3o industrial, os donos das empresas n\u00e3o eram mais \u201cdonos\u201d dos empregados, ent\u00e3o passaram a acontecer as greves por direitos trabalhistas, salariais, direito \u00e0 folga, etc. Ela explica que com o tempo os trabalhadores perceberam que necessitavam de uma representa\u00e7\u00e3o para essa luta, momento em que se iniciam os sindicatos, que depois se tornaram leg\u00edtimos. No Brasil, os sindicatos foram institu\u00eddos pelo governo Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Ela cita a greve de 1917, como a greve de maior express\u00e3o e maior n\u00famero de grevistas e de ades\u00e3o, considerando a quest\u00e3o populacional, j\u00e1 que n\u00e3o foi s\u00f3 o setor fabril que parou, mas tamb\u00e9m professores, alunos, advogados, todos que tinham v\u00ednculo empregat\u00edcio. As v\u00e1rias greves que aconteceram no ABC Paulista, de 1978 a 1980, tamb\u00e9m s\u00e3o citadas como importantes por Valdete, pois, al\u00e9m da quest\u00e3o trabalhista, tamb\u00e9m era uma greve pol\u00edtica, que pedia o fim do governo militar. \u201cNessa \u00e9poca todos apoiavam, n\u00e3o tinha essa quest\u00e3o de se manifestarem contra as greves, chamarem de vagabundos. As pessoas se tornaram mais individualistas agora\u201d, diz.<\/p>\n<p><em>Reportagem: Laura Bona Moll<br \/>\nFoto: Leonardo Fernandes<\/em><br \/>\n<strong>Conte\u00fado original do Primeira Pauta Impresso, Edi\u00e7\u00e3o 139<\/strong><\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A paralisa\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros, que iniciou em 21 de maio, em v\u00e1rias estradas do Brasil, come\u00e7ou a ser apurada na quinta-feira, 24, como pr\u00e1tica de locaute, segundo o ministro da seguran\u00e7a p\u00fablica, Raul Jungmann. Locaute \u00e9 o termo utilizado quando patr\u00f5es decidem paralisar atividades das empresas em raz\u00e3o de interesses pr\u00f3prios. 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