{"id":301,"date":"2018-06-06T20:10:29","date_gmt":"2018-06-06T23:10:29","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=301"},"modified":"2022-06-22T19:47:42","modified_gmt":"2022-06-22T22:47:42","slug":"manifestantes-comentam-rotina-e-avaliam-conquistas-da-greve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2018\/06\/06\/manifestantes-comentam-rotina-e-avaliam-conquistas-da-greve\/","title":{"rendered":"Caminhoneiros paralisados em Joinville avaliam conquistas da greve"},"content":{"rendered":"<p>No quil\u00f4metro 25 da BR-101, pr\u00f3ximo ao Posto Rudnick, em Joinville, faixas em postes, uma longa tenda branca, pessoas reunidas e caminh\u00f5es parados: ponto de greve dos caminhoneiros. Mobilizados nacionalmente, trabalhadores do transporte paralisaram os servi\u00e7os para reivindicar pautas referentes ao diesel, ped\u00e1gio, frete, entre outros temas. Homens de diferentes cidades, ao redor de seus ve\u00edculos, explicam porque optaram pela paralisa\u00e7\u00e3o, como se organizaram, a rotina grevista e o resultado da mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caminhoneiro aut\u00f4nomo Paulo Cezar Ritter, joinvilense, 46 anos, diz que carrega todo o tipo de transporte em seu ve\u00edculo e conta que entrou na greve por causa do pre\u00e7o dos combust\u00edveis. Al\u00e9m disso, a pauta do frete tamb\u00e9m \u00e9 motivo de reivindica\u00e7\u00e3o para ele. \u201cHoje, saio do local com um pre\u00e7o de combust\u00edvel e ao chegar no destino, ap\u00f3s at\u00e9 quatro ou cinco dias na estrada, o \u00f3leo j\u00e1 subiu quatro vezes. Tem viagem que quase fico no preju\u00edzo\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>J\u00e1 o caminhoneiro Anselmo Pereira, 38 anos, transporta embalagens e \u00e9 funcion\u00e1rio de empresa privada. Aderiu a greve pela pauta inicial: os altos pre\u00e7os do diesel. Paulista, passou dez dias na greve. Emocionado e com semblante exausto, diz que apesar do apoio, sua esposa e filhos est\u00e3o em S\u00e3o Paulo chorando de saudades e preocupa\u00e7\u00e3o. Morador de Joinville durante a paralisa\u00e7\u00e3o, conta que a recep\u00e7\u00e3o em terras catarinenses foi positiva. \u201cPara mim, que sou de outra cidade, encontrei pessoas muito receptivas, os caminhoneiros, fam\u00edlias, apoiadores\u2026 o que vi aqui foi impressionante\u201d, destaca. A empresa que Anselmo trabalha n\u00e3o sabia que ele estava participando da paralisa\u00e7\u00e3o. Quando soube, apoiou. Por\u00e9m, no d\u00e9cimo dia ordenou que voltasse. \u201cEra para eu ir ter ido embora hoje (30), se eu n\u00e3o for com o caminh\u00e3o, eles v\u00e3o pagar uma passagem de \u00f4nibus pra mim amanh\u00e3 (31). O dono da empresa n\u00e3o quer que eu fique mais\u201d, explica.<\/p>\n<p>Os dois afirmam que nenhum grupo pol\u00edtico participa da greve e que a maioria dos grevistas s\u00e3o trabalhadores aut\u00f4nomos. \u201cN\u00e3o existe l\u00edder, se chegar algu\u00e9m aqui, nos reunimos e todos decidem. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem grupos pol\u00edticos e nem pol\u00edticos. Falam que tem empresa por tr\u00e1s, mas n\u00e3o tem\u201d, exclamam. Cleiton Vargas*, de Joinville, 40 anos, sendo 23 anos vividos como caminhoneiro aut\u00f4nomo, estava na greve e explica que, em cada regi\u00e3o de Santa Catarina, quatro ou cinco caminhoneiros aut\u00f4nomos foram se comunicando sobre a greve. Em Joinville, os grevistas tinham di\u00e1logo com Barra Velha, Guaramirim, Mafra, alguns locais do Rio Grande do Sul e Paran\u00e1.<\/p>\n<figure id=\"attachment_313\" aria-describedby=\"caption-attachment-313\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-313\" src=\"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Posto-Rudnick.jpeg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"640\"><figcaption id=\"caption-attachment-313\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Posto Rudnick<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ele afirma que h\u00e1 tr\u00eas meses o governo federal recebeu documentos com as reivindica\u00e7\u00f5es, que a princ\u00edpio envolviam o congelamento do pre\u00e7o do diesel por, no m\u00ednimo, de seis meses a um ano, uma tabela de ped\u00e1gio do eixo suspenso com o ve\u00edculo sem carga e uma tabela m\u00ednima de frete. Por\u00e9m, sem resposta. Em abril, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Transportadores Aut\u00f4nomos (CNTA) enviou outra carta, mas novamente n\u00e3o foram atendidos. No dia 21 de maio, era iniciada a greve em Joinville. Cleiton critica a postura do presidente Michel Temer ao falar que na reuni\u00e3o com os sindicatos do transporte, o \u201cChor\u00e3o\u201d, porta- -voz dos caminhoneiros aut\u00f4- nomos, n\u00e3o foi convidado.<\/p>\n<p>Para ele, a mobiliza\u00e7\u00e3o foi al\u00e9m do esperado. \u201cA nossa ideia era que na quinta (23) ou sexta-feira (24), o governo aceitasse nossas pautas e a paralisa\u00e7\u00e3o acabasse. A greve tomou uma propor\u00e7\u00e3o que n\u00f3s n\u00e3o imagin\u00e1vamos\u201d, revela. O apoio da popula\u00e7\u00e3o foi visto como surpresa, \u201cA popula- \u00e7\u00e3o nunca tinha nos apoiado\u201d, conta. Durante os dez dias de paralisa\u00e7\u00e3o, os caminhoneiros foram apoiados por diferentes grupos e pessoas. Paulo e Anselmo destacam que receberam alimentos e mantimentos da popula\u00e7\u00e3o. No local, havia cozinha e churrasqueira para preparar o caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o e janta. Todos os dias os grevistas receberam doa\u00e7\u00f5es. \u201cTemos um caminh\u00e3o cheio de alimentos que foram doados\u201d, falam apontando para os ve\u00edculos que est\u00e3o pr\u00f3xima de onde os familiares est\u00e3o acampados. Entre os apoiadores, os gerentes-gerais do posto Rudnick. Para Paulo, o apoio da empresa foi \u201ccem por cento\u201d. \u201cAjudaram muito. Nos deixaram usar o banheiro, doaram comidas e at\u00e9 os funcion\u00e1rios do posto recolheram nossos lixos\u201d, conta.<\/p>\n<h3><strong>Mobiliza\u00e7\u00e3o popular trouxe nova agenda de reivindica\u00e7\u00f5es e desviou foco<\/strong><\/h3>\n<p>O apoio popular trouxe novas pautas aos grevistas. \u201cN\u00f3s, caminhoneiros, nunca falamos em \u2018Fora, Temer\u2019 ou \u2018interven\u00e7\u00e3o militar\u2019. S\u00f3 que entraram pessoas no meio pedindo isso e a popula\u00e7\u00e3o foi abra\u00e7ando outras coisas\u201d, lamenta um deles. Os temas n\u00e3o eram consenso nem entre os caminhoneiros. Para Cleiton, essas pautas foram colocadas por pessoas que n\u00e3o estavam na greve. \u201cOs objetivos dos caminhoneiros aut\u00f4nomos nunca foram esses. N\u00e3o estamos nem a\u00ed para isso\u201d, afirma.<\/p>\n<p>J\u00e1 para Paulo e Anselmo, s\u00f3 o Ex\u00e9rcito pode salvar o pa\u00eds. Segundo eles, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o aguenta mais o governo de Michel Temer e v\u00ea a interven\u00e7\u00e3o militar como sa\u00edda. Os dois viram com bons olhos o apoio dos intervencionistas no local. \u201cN\u00f3s n\u00e3o vemos a interven\u00e7\u00e3o militar como pauta pol\u00edtica, \u00e9 o povo que t\u00e1 pedindo\u201d, dizem. J\u00e1 Cleiton, diz que a maioria dos caminhoneiros n\u00e3o concorda com a pauta dos militares no poder. \u201cDe 100% dos motoristas aut\u00f4nomos que estavam aqui, 20% ou 30% compraram essa ideia. Alguns foram nos atos em apoio aos caminhoneiros, viram as faixas de interven\u00e7\u00e3o militar e se deixaram levar\u201d, acredita.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, entre os grevistas, h\u00e1 um consenso: a nega\u00e7\u00e3o a sindicatos, grupos e partidos pol\u00edticos de esquerda. Cleiton \u00e9 direto, pensa que h\u00e1 raz\u00f5es para os grupos que defendem a volta dos anos de chumbo terem mais aceita\u00e7\u00e3o. \u201cOs movimentos sociais ou sindicatos levantam bandeiras de partido, a interven\u00e7\u00e3o militar veio pela popula\u00e7\u00e3o\u201d, fala. J\u00e1 Paulo, acredita que \u201csindicatos s\u00f3 querem saber de lucro e que nos pontos de greve s\u00f3 tinham bandeira do Brasil, n\u00e3o de pol\u00edticos. Se tivesse, seria arrancado e jogado fora\u201d, exclama.<\/p>\n<p>No dia 30 de maio, quando os notici\u00e1rios indicavam que a greve dos caminhoneiros estava prestes a acabar, o jovem Bruno Tamanini, de 23 anos, defendia a resist\u00eancia. Caminhoneiro como o pai, ele participou da greve desde o primeiro dia \u201csem arredar o p\u00e9\u201d do ponto de paralisa\u00e7\u00e3o da BR-101, em Joinville. Bruno disse que as entidades que firmaram acordo com o governo federal n\u00e3o representavam sua classe. \u201cO \u00fanico que est\u00e1 representando mesmo \u00e9 um caminhoneiro, que \u00e9 o tal do Chor\u00e3o. O resto n\u00e3o \u00e9 representante, \u00e9 s\u00f3 sindicato vendido\u201d, afirmou. Ele explica que a greve foi organizada pelo WhatsApp e que os caminhoneiros fizeram um trabalho de convencimento nas rodovias. \u201cMuitos n\u00e3o queriam ficar por causa da saudade da fam\u00edlia. Fomos l\u00e1 e conversamos. Infelizmente, nosso pa\u00eds est\u00e1 muito mal governado. N\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00e3o\u201d, desabafou o caminhoneiro.<\/p>\n<p>Na profiss\u00e3o h\u00e1 quatro anos, Bruno diz que s\u00f3 n\u00e3o conheceu ainda Amazonas, Roraima e o Acre. O bom de ser caminhoneiro, conta ele, s\u00e3o as viagens, as novas amizades e o companheirismo entre os trabalhadores. \u201c\u00c9 \u00f3leo diesel na veia\u201d, diz Bruno, sobre sua paix\u00e3o pela profiss\u00e3o. O of\u00edcio, no entanto, tem seus percal\u00e7os. A saudade da fam\u00edlia pesa. Ele conta que chega a ficar 40 dias longe de casa. Tanto tempo assim na estrada fica mais dif\u00edcil quando as condi\u00e7\u00f5es nos postos que recebem os caminhoneiros n\u00e3o s\u00e3o boas. Ele tamb\u00e9m cita o risco que caminhoneiros t\u00eam de serem assaltados.<\/p>\n<p>Sobre a greve, Bruno criticou a <a href=\"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/2018\/06\/07\/midia-nao-explica-se-foi-greve-ou-locaute\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>cobertura da imprensa<\/strong><\/a>. Disse que s\u00f3 uma emissora de televis\u00e3o esteve no local conversando com os manifestantes. \u201cN\u00e3o tiveram partidos aqui no meio. Isso aqui \u00e9 um movimento dos caminhoneiros\u201d, explica. Bruno \u00e9 a favor de uma interven\u00e7\u00e3o militar para fazer \u201cuma limpa no Congresso\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Interven\u00e7\u00e3o militar<\/strong><\/h3>\n<p>Os pedidos de interven\u00e7\u00e3o militar durante a greve dos caminhoneiros trouxe <a href=\"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/2018\/06\/07\/intervencao-militar-e-a-solucao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>diferentes vis\u00f5es sobre o per\u00edodo ditatorial<\/strong><\/a> que aconteceu entre 1964 e 1985. A pauta era apoiada pelo caminhoneiro Juliano da Silva, 30 anos, dono de uma transportadora. A reputa\u00e7\u00e3o dos militares com os caminhoneiros grevistas, no entanto, j\u00e1 n\u00e3o era a mesma depois de alguns dias de paralisa\u00e7\u00e3o e pedidos de interven\u00e7\u00e3o. \u201cAgora eu vi que o Ex\u00e9rcito s\u00f3 serve para a marcha de sete de setembro mesmo\u201d, disse Juliano. Para ele, os militares deveriam apoiar a popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o governo. Joinvilense, Juliano come\u00e7ou na profiss\u00e3o de caminhoneiro h\u00e1 oito anos, mas atualmente dedica a maior parte do tempo fora da estrada, administrando sua empresa que conta com van, caminh\u00e3o e funcion\u00e1- rios terceirizados.<\/p>\n<p>No final da tarde de quarta-feira, 30, ap\u00f3s o Ex\u00e9rcito e a Pol\u00edcia Federal (PF) irem dois dias seguidos desmobilizar a paralisa\u00e7\u00e3o, poucos caminh\u00f5es e pessoas ainda permaneciam no ponto de greve. Entre tudo que aconteceu nesta greve, nada parecia irritar mais os caminhoneiros que as filas nos postos. Os grevistas acreditam que o movimento perdeu for\u00e7a com a popula\u00e7\u00e3o formando grandes filas assim que a greve iniciou e sempre que um posto de combust\u00edvel era reabastecido. Cansados, os caminhoneiros lamentaram que a vit\u00f3ria n\u00e3o foi completa. \u201cO resultado da luta n\u00e3o foi o que n\u00f3s esper\u00e1vamos\u201d, lamenta Anselmo. Cleiton pensa parecido. \u201cNossa parte n\u00f3s j\u00e1 conseguimos. N\u00e3o foi satisfat\u00f3ria, mas conseguimos\u201d, diz. Para ele, por\u00e9m, o sentimento \u00e9 tamb\u00e9m de orgulho. \u201cSa\u00edmos de cabe\u00e7a de erguida. Agora meu filho pode falar que tem pai caminhoneiro e se orgulhar disso\u201d, finaliza.<\/p>\n<p><em>Reportagem: Alex Sander Magdyel e Lucas Koehler<br \/>\nFoto: Alex Sander Magdyel<\/em><br \/>\n<strong>Conte\u00fado original do Primeira Pauta Impresso, Edi\u00e7\u00e3o 139<\/strong><\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No quil\u00f4metro 25 da BR-101, pr\u00f3ximo ao Posto Rudnick, em Joinville, faixas em postes, uma longa tenda branca, pessoas reunidas e caminh\u00f5es parados: ponto de greve dos caminhoneiros. Mobilizados nacionalmente, trabalhadores do transporte paralisaram os servi\u00e7os para reivindicar pautas referentes ao diesel, ped\u00e1gio, frete, entre outros temas. 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