{"id":316,"date":"2018-06-05T20:10:21","date_gmt":"2018-06-05T23:10:21","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=316"},"modified":"2022-06-29T21:39:37","modified_gmt":"2022-06-30T00:39:37","slug":"prostituicao-vivida-na-pele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2018\/06\/05\/prostituicao-vivida-na-pele\/","title":{"rendered":"Prostitui\u00e7\u00e3o vivida na pele"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais de 40 milh\u00f5es de pessoas vivem em situa\u00e7\u00e3o de prostitui\u00e7\u00e3o no mundo. A explora\u00e7\u00e3o sexual movimenta mais de nove bilh\u00f5es de d\u00f3lares, perdendo apenas para o mercado da arma e do tr\u00e1fico. Cerca de dois mil pontos de explora\u00e7\u00e3o sexual est\u00e3o espalhados pelo Brasil. Quase 20% dos munic\u00edpios vivem essa realidade. O pa\u00eds com maior explora\u00e7\u00e3o sexual na Am\u00e9rica Latina \u00e9 o nosso. Cerca de 75% dessas pessoas s\u00e3o mulheres entre 13 e 25 anos. E 90% delas est\u00e3o ligadas a cafet\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esses dados, apresentados dessa forma, n\u00e3o parecem trazer novidade alguma em rela\u00e7\u00e3o a profiss\u00e3o mais antiga do mundo. A prostitui\u00e7\u00e3o acompanha o desenvolvimento dos povos h\u00e1 s\u00e9culos e, at\u00e9 hoje, falar sobre isso ainda parece crime. Assim como Marcelo Canellas apontou que o Brasil que come n\u00e3o enxerga o Brasil faminto, quem n\u00e3o se prostitui, n\u00e3o v\u00ea a prostitui\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De cabelos lisos e longos, a m\u00e3e de duas meninas j\u00e1 viveu na pele a necessidade de se virar sozinha no mundo. Yasmin Pereira* se prostituiu por cerca de sete anos, entre os 16 e 23. Hoje, anos depois de viver essa realidade, ela conta em detalhes momentos que nunca vai esquecer. O brilho no olhar revela o orgulho &nbsp;por ter \u201csuperado\u201d a prostitui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que ela garante que n\u00e3o deseja que ningu\u00e9m viva essa realidade. \u201cEu entrei na prostitui\u00e7\u00e3o porque sai muito cedo de casa, morava de favor com uma amiga, mas s\u00f3 t\u00ednhamos arroz e \u00e1gua na geladeira, n\u00e3o tinha o que fazer, procurei diversos empregos e n\u00e3o consegui\u201d, explica. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A menina, na \u00e9poca, precisou sair da casa da m\u00e3e por desentendimentos e, no anseio de ter uma vida mais c\u00f4moda, ela descobriu uma ag\u00eancia de modelo. No come\u00e7o, era como um emprego normal, de fotos e presen\u00e7a em eventos, mas aos poucos a situa\u00e7\u00e3o foi mudando. \u201cNum dos eventos que a gente fez, a dona da ag\u00eancia nos confessou que os clientes que contratavam a gente para os eventos tamb\u00e9m queriam sair com as meninas.\u201d Quando descobriu, a sensa\u00e7\u00e3o foi de espanto e nega\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ao repensar sua realidade, Yasmin aceitou a proposta. \u201cO pai da minha amiga era alco\u00f3latra, batia nela na minha frente e n\u00e3o nos restou outra sa\u00edda, passamos muita fome, a beb\u00ea da minha amiga n\u00e3o tinha leite e ao pensar que chegar\u00edamos em casa e n\u00e3o ia ter nada, nos deixamos iludir pela dona da ag\u00eancia\u201d, relembra. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diferente da prostitui\u00e7\u00e3o de rua ou de boate, Yasmin, na \u00e9poca, saia apenas com dois clientes fixo. Eles bancavam apartamento, carro e o conforto da menina. Nesse meio tempo, outras oportunidades surgiram, como a mudan\u00e7a para uma cidade maior, para trabalhar numa boate de luxo no Rio Grande do Sul. Com passagens pagas e a garantia da mulher de que a realidade seria diferente, Yasmin e a amiga se mudaram. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">T\u00edpica cena de novela das nove, quando chegaram l\u00e1, perceberam que n\u00e3o era nada do que havia sido prometido. A garota ficou chocada com o contraste entre o luxo e a mis\u00e9ria do local. A boate era frequentada pelos mais ricos e poderosos da cidade, de jogador de futebol a juiz, por\u00e9m, a casa que abrigava as meninas recebeu o apelido de Carandiru. O quarto sem janela e pouco espa\u00e7o, n\u00e3o tinha tranca e seguran\u00e7a para prote\u00e7\u00e3o dos objetos pessoais de cada garota ali. Al\u00e9m disso, todos os custos iniciais para chegar a grande metr\u00f3pole estavam anotados, esperando programas que os pagassem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Numa bola de neve sem fim, as d\u00edvidas iam crescendo, as exig\u00eancias e a pris\u00e3o onde viviam tamb\u00e9m. Yasmin podia morar no lugar, mas pagava cada refei\u00e7\u00e3o, gasto com sal\u00e3o de beleza &#8211; onde ia acompanhada de seguran\u00e7a para n\u00e3o fugir &#8211; e todas as outras necessidades, como roupas que a dona do local exigia. Cada programa, que custava em m\u00e9dia 500 reais (ou mais), era dividido meio a meio, uma parte para a dona e outra para a prostituta, mas no final, tudo ia para o bolso da dona, que aproveitava o dinheiro para ir \u201cquitando\u201d a d\u00edvida das garotas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Yasmin pensou que aquilo nunca teria fim, mas aos poucos foi encontrando alternativas para se livrar da pris\u00e3o que vivia. Para cada cliente que conseguia e sentia confian\u00e7a, relatava o caso de explora\u00e7\u00e3o e pedia um dinheiro por fora. Juntou dinheiro, escondeu da mulher e decidiu dar um basta naquela situa\u00e7\u00e3o. Denunciar n\u00e3o podia porque o principal juiz da cidade era o cliente vip do local, mas pegou suas malas e pediu para ir embora reencontrar a fam\u00edlia. Com o dinheiro que guardou, pagou sua d\u00edvida e da amiga e procurou um lugar mais calmo e pequeno.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim que chegou em Santa Catarina, come\u00e7ou a morar com o pai e ir em busca de emprego. Mas al\u00e9m de todas as dificuldades, o preconceito precisava ser vencido. J\u00e1 m\u00e3e de uma filha e sem estudos, ningu\u00e9m abriu portas para ela. \u201cAs pessoas olham com aquele olhar carregado de preconceito, \u2018n\u00e3o, isso a\u00ed era da zona, n\u00e3o vou arrumar emprego\u2019, assim ficamos sem op\u00e7\u00e3o.\u201d Com uma filha para criar e sem querer ver a pequena passando necessidades, a m\u00e3e trabalhava \u00e0 noite como prostituta, enquanto uma bab\u00e1 cuidava da nen\u00e9m no hotel. Durante o dia, passeava com a menina pela cidade, chegava 19h30 e tinha que voltar para sua realidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E entre tantas hist\u00f3rias, na cidade de interior, a menina trabalhava de forma mais \u201clivre\u201d, podia sair do local durante o dia, recebia a quantia de dinheiro combinada com a dona e conseguia bancar uma realidade melhor para a pequena filha. \u201cEssa \u00faltima vez que trabalhei assim era numa boate, ent\u00e3o os caras nos pagavam bebidas e conversavam, se quisessem algo a mais, era pago a parte tamb\u00e9m. Os programas duravam no m\u00e1ximo uma hora e tinham vezes que eu s\u00f3 ficava concentrada no rel\u00f3gio, querendo que o tempo passasse o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, depois corria para tomar banho e me limpar.\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas vezes os programas aconteciam com sorrisos e outras com l\u00e1grimas. Beijo na boca, segundo a ex-garota de programa, era mais \u00edntimo que sexo. \u201cSexo \u00e9 mec\u00e2nico, no beijo tinha risco de se apaixonar, ent\u00e3o era muito raro acontecer.\u201d Ela viveu como prostituta nessa cidade por mais ou menos um ano, depois conheceu seu marido, largou a prostitui\u00e7\u00e3o e seguiu sua vida. \u201cVendo isso de fora, consigo dizer que \u00e9 uma perda de tempo, mas entendo, porque \u00e9 um dinheiro f\u00e1cil, eu come\u00e7ava uma noite com 150 reais e terminava com mil, onde eu ia ganhar todo esse dinheiro aqui fora?\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje ela conversa com as cunhadas, sobrinhas e filhas sobre o assunto. Se orgulha de ver todas seguindo outro caminho, tendo oportunidades que ela n\u00e3o teve. Ainda quer voltar a estudar e recuperar o tempo que acredita ter perdido. Aconselha diariamente a irm\u00e3, Ana Pereira*, que vive em situa\u00e7\u00e3o de prostitui\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na mesma boate em que a irm\u00e3 trabalhou h\u00e1 mais de sete anos, Ana a frequenta diariamente e realiza programas. Ela possui uma defici\u00eancia auditiva e de fala e at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguiu encontrar um emprego formal que a aceite. Quando completou 18 anos, amigos a convenceram de que ir para a boate poderia ser uma forma de divers\u00e3o. \u201cNum primeiro momento eu ficava l\u00e1, observando e bebendo \u00e0s vezes. Depois os caras come\u00e7aram a chegar em mim e vi ali uma oportunidade de conseguir me manter.\u201d Assim como a irm\u00e3 mais velha, a garota relata momentos da profiss\u00e3o que a vida escolheu para ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0s vezes sai da cidade pequena, passa tr\u00eas ou quatro semanas fora em locais maiores, consegue um dinheiro mais r\u00e1pido e retorna para sua origem. Gosta da onde mora, mesmo rodeada de olhares que a julgam diariamente, que n\u00e3o enxergam a pessoa por tr\u00e1s da menina de programa, que veem com maldade e fazem coment\u00e1rios preconceituosos. \u201cEu vejo como as pessoas me olham com nojo, sinto isso quando estou andando na rua, mas n\u00e3o ligo.\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os valores, a casa, a dona do local e algumas meninas continuam as mesmas da \u00e9poca em que Yasmin ainda trabalhava l\u00e1. Hoje, ela conhece a realidade atrav\u00e9s de Ana, que relata ser um ambiente carregado de inveja e competi\u00e7\u00e3o. \u201cEu j\u00e1 briguei e fui amea\u00e7ada l\u00e1 dentro, j\u00e1 vieram com uma faca pra cima de mim, isso entre as mulheres, tem muita competi\u00e7\u00e3o, \u00e9 cada uma defendendo seu territ\u00f3rio\u201d, explica Ana. Ela conta que preferia n\u00e3o estar nessa realidade, mas ainda n\u00e3o encontrou alternativa para conseguir sair da prostitui\u00e7\u00e3o. A profiss\u00e3o, mesmo reconhecida como uma ocupa\u00e7\u00e3o legal no Brasil, ainda n\u00e3o d\u00e1 direitos a quem a exerce. <\/span><\/p>\n<p><b>Projeto de lei deseja regulamentar profiss\u00e3o<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O projeto de lei 4.211\/12 (PL) que visa regulamentar a atividades das profissionais do sexo segue parado na C\u00e2mara dos Deputados desde 2013, um ano ap\u00f3s ser apresentado na Casa. O \u00faltimo despacho ocorreu em maio do mesmo ano e a atual situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de espera pela<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> cria\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o tempor\u00e1ria para analis\u00e1-lo. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">No Brasil, a prostitui\u00e7\u00e3o est\u00e1 no rol de ocupa\u00e7\u00f5es da Classifica\u00e7\u00e3o Brasileira de Ocupa\u00e7\u00f5es (CBO) desde 2002, por\u00e9m, sem a regulamenta\u00e7\u00e3o da lei que permite o livre exerc\u00edcio da profiss\u00e3o, as prostitutas n\u00e3o podem usufruir de direitos trabalhistas e previdenci\u00e1rios, por exemplo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O deputado federal Jean Wylls, do PSOL\/RJ, apresentou o projeto em 2012 com o objetivo de possibilitar \u00e0s profissionais mais direitos e dignidade em rela\u00e7\u00e3o a prostitui\u00e7\u00e3o, por\u00e9m divide opini\u00f5es desde ent\u00e3o. Na justificativa, anexada junto ao projeto de lei, ele afirma que \u201ca proposta caminha no sentido da efetiva\u00e7\u00e3o da dignidade humana para acabar com uma hipocrisia que priva pessoas de direitos elementares, a exemplo das quest\u00f5es previdenci\u00e1rias e do acesso \u00e0 Justi\u00e7a para garantir o recebimento do pagamento\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, o projeto levanta quest\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o sexual e casas de prostitui\u00e7\u00f5es. Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro caso, a pr\u00e1tica \u00e9 proibida e ocorre quando h\u00e1 apropria\u00e7\u00e3o de 50% ou mais da renda da prostituta, o n\u00e3o pagamento do servi\u00e7o contratado e a realiza\u00e7\u00e3o de trabalho a for\u00e7a mediante a grave amea\u00e7a ou viol\u00eancia. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s casas de prostitui\u00e7\u00e3o, que hoje s\u00e3o ilegais no Brasil, o projeto visa permitir o funcionamento, desde que nela n\u00e3o exer\u00e7am qualquer tipo de explora\u00e7\u00e3o sexual. O PL ainda traz como ponto necess\u00e1rio \u00e0 aposentadoria especial aos profissionais do sexo que <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">tiverem trabalhado em condi\u00e7\u00f5es especiais que prejudiquem a sa\u00fade ou a integridade f\u00edsica<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> h\u00e1 25 anos, nos termos do artigo 57 da Lei 8.213\/91. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para Cynthia Maria Pinto da Luz, advogada do Centro de Direitos Humanos Maria da Gra\u00e7a Br\u00e1z de Joinville, n\u00e3o cabe somente discutir a viabilidade do projeto de lei, mas sim levantar o debate de que o corpo da mulher n\u00e3o seja um objeto para ganhar dinheiro. \u201cA mulher pode fazer o que ela quiser com o corpo dela, mas sabemos que a grande maioria acaba comercializando o sexo pela falta de dinheiro, do desemprego, da desqualifica\u00e7\u00e3o e das dificuldades que ela tem para viver\u201d, argumenta. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A advogada acredita que n\u00e3o ser\u00e1 um projeto de lei que v\u00e1 resolver o problema da objetifica\u00e7\u00e3o do corpo feminino, mas que deve-se lutar por uma sociedade justa e sem exclus\u00e3o social. \u201cSe a mulher quiser ter rela\u00e7\u00f5es sexuais de forma permanente e cont\u00ednua com quem ela quiser, isso \u00e9 um direito dela, mas a prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai se resolver com a regulamenta\u00e7\u00e3o, seria melhor lutarmos para modificar a sociedade, onde mulheres tenham direito ao trabalho igual aos homens, ganhando o mesmo pelo mesmo trabalho desenvolvido, com direito \u00e0 creche, e tantas outras condi\u00e7\u00f5es.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ativista feminista J\u00e9ssica Michels tamb\u00e9m n\u00e3o concordava com o projeto de lei, por\u00e9m, h\u00e1 dois anos conheceu o putativismo, que \u00e9 o ativismo das mulheres prostitutas. \u201cConhecer essa realidade me fez ter mais empatia sobre a causa e repensar meu posicionamento perante o projeto de lei, apesar de ainda encontrar alguns problemas no texto apresentado pelo Jean.\u201d Ela acredita que a prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 algo muito prec\u00e1rio e merece aten\u00e7\u00e3o, mas ser contra o projeto n\u00e3o vai alterar essa realidade. \u201cEnquanto a gente n\u00e3o conseguir resolver essas quest\u00f5es de g\u00eanero que nos aprisionam, devemos garantir os direitos b\u00e1sicos para essas trabalhadoras sexuais que est\u00e3o na rua, local que n\u00e3o garante seguran\u00e7a nenhuma para elas.\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 Karoline Pereira dos Santos, tamb\u00e9m ativista feminista, \u00e9 contra o projeto de lei, pois acredita que a prostitui\u00e7\u00e3o come\u00e7a desde cedo e regulamentar a profiss\u00e3o para maiores de 18 anos n\u00e3o iria resolver o problema. \u201cExistem diversos casos de abuso, v\u00e1rias mulheres e transexuais morrem, ent\u00e3o essa proposta n\u00e3o deveria nem ser cogitada como lei, j\u00e1 que \u00e9 um sistema de explora\u00e7\u00e3o e de estupro muito grande.\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Divulgada pelo Nexo e publicada na revista cient\u00edfica \u201cWorld Development\u201d no come\u00e7o de 2013, a pesquisa \u201cA legaliza\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o aumenta o tr\u00e1fico de pessoas?\u201d analisou o caso de 150 pa\u00edses e concluiu que \u201cpa\u00edses onde a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 legal t\u00eam uma quantidade maior de tr\u00e1fico humano reportada\u201d. Yasmin Pereira acredita que, num mundo sem oportunidades para as profissionais do sexo, seria importante dar direitos e o m\u00ednimo de dignidade a essas pessoas. J\u00e1 sua irm\u00e3, Ana Pereira, acha que, com a regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o, o n\u00famero de prostitutas pode crescer, j\u00e1 que serviria de incentivo para as profissionais. Mas os problemas da prostitui\u00e7\u00e3o ultrapassam a fronteira profissional, atingindo diretamente a sa\u00fade das mulheres. <\/span><\/p>\n<p><b>Sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 preocupa\u00e7\u00e3o entre prostitutas e munic\u00edpio de Joinville&nbsp;<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De acordo com dados divulgados em 2013 pelo jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, a cada dez pessoas soropositivos, v\u00edrus que causa a Aids, uma \u00e9 prostituta. As doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis s\u00e3o parte das preocupa\u00e7\u00f5es das pessoas que se prostituem, j\u00e1 que o risco se torna maior nessa realidade. Uma pesquisa realizada por uma equipe de Enfermagem da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) de 2013 aponta que cerca de 92% das mulheres profissionais do sexo tem conhecimento sobre o HIV. Dessas, cerca de 80% sabia informar a pesquisa que o uso de preservativo durante as rela\u00e7\u00f5es sexuais protege da infec\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em Joinville, a Prefeitura Municipal informou que n\u00e3o possui registros e dados sobre essa popula\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, na unidade de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade e Centro de Aconselhamento e Testagem (CTA), existe distribui\u00e7\u00e3o de preservativo e exames que podem ser feitos para preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis (DSTs). A sanitarista e diretora do Centro de Direitos Humanos Maria da Gra\u00e7a Br\u00e1s (CDH) T\u00e2nia Maria Crescencio acredita que falta um diagn\u00f3stico por parte do servi\u00e7o p\u00fablico da cidade nessa \u00e1rea, pois isso facilitaria a atua\u00e7\u00e3o dos servidores com o p\u00fablico-alvo. \u201cAcredito que muitas atua\u00e7\u00f5es deveriam mudar, \u00e0s vezes chega-se nesse p\u00fablico com um olhar sanit\u00e1rio, de querer enquadrar essa popula\u00e7\u00e3o e isso espanta.\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A especialista acredita que a cultura joinvilense pesa na hora de falar sobre sexo e DSTs. \u201cTemos uma vis\u00e3o de que educa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade sexual deve ser algo micro, muitas vezes quase escondida e isso dificulta o pr\u00f3prio trabalho, porque n\u00e3o falar sobre isso nos leva a atuar em casos mais graves e complicados, e n\u00e3o na preven\u00e7\u00e3o.\u201d As nossas personagens, Yasmin e Ana Pereira, que relataram suas hist\u00f3rias na prostitui\u00e7\u00e3o, afirmaram nunca ter feito sexo sem camisinha enquanto trabalhavam. \u201cEu sempre me preocupei muito com isso e me cuidava, mas \u00e9 claro que existem mulheres que n\u00e3o usam e n\u00e3o sabem o risco que est\u00e3o passando\u201d, explica Yasmin. Elas contam ainda que todo m\u00eas uma agente de sa\u00fade vai \u00e0 boate, para levar preservativos e realizar conversas e exames preventivos.<\/span><\/p>\n<p><strong><em>Por: Maria Luiza Parisotto<\/em><\/strong><\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de 40 milh\u00f5es de pessoas vivem em situa\u00e7\u00e3o de prostitui\u00e7\u00e3o no mundo. A explora\u00e7\u00e3o sexual movimenta mais de nove bilh\u00f5es de d\u00f3lares, perdendo apenas para o mercado da arma e do tr\u00e1fico. Cerca de dois mil pontos de explora\u00e7\u00e3o sexual est\u00e3o espalhados pelo Brasil. Quase 20% dos munic\u00edpios vivem essa realidade. 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