{"id":386,"date":"2018-06-07T15:34:21","date_gmt":"2018-06-07T18:34:21","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=386"},"modified":"2025-07-04T20:03:51","modified_gmt":"2025-07-04T23:03:51","slug":"midia-nao-explica-se-foi-greve-ou-locaute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2018\/06\/07\/midia-nao-explica-se-foi-greve-ou-locaute\/","title":{"rendered":"M\u00eddia n\u00e3o explica se foi greve ou locaute"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais de uma semana, a sociedade brasileira foi impactada por um movimento que come\u00e7ou a partir de entidades que articulam os motoristas de cargas aut\u00f4nomos (Abcam \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Caminhoneiros) e, em menos de tr\u00eas dias, j\u00e1 ocupava as principais rodovias do pa\u00eds. Um \u201cfurac\u00e3o rodovi\u00e1rio\u201d que deixou as principais empresas de jornalismo ref\u00e9ns de um \u00fanico enfoque: com pequenas varia\u00e7\u00f5es, a m\u00eddia hegem\u00f4nica brasileira tratou o fato como \u201cgreve\u201d, supondo que havia ali um t\u00edpico movimento de trabalhadores.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de fundo permanece em aberto: afinal, qual foi a for\u00e7a pol\u00edtica que, em poucos dias, teve o poder de paralisar o pa\u00eds? A julgar pelos principais jornais di\u00e1rios (O Globo, Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo) e o mais influente telejornal (Jornal Nacional\/TV Globo), a pergunta ainda carece de resposta \u00e0 altura do desafio jornal\u00edstico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ao longo da semana, a pauta da paralisa\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros e das empresas de carga foi tomando conta do cen\u00e1rio pol\u00edtico e se transformando num acontecimento de dimens\u00f5es nacionais, invadindo a vida dos cidad\u00e3os comuns que precisam de transporte coletivo, rem\u00e9dios, atendimento m\u00e9dico, alimenta\u00e7\u00e3o e outros g\u00eaneros de primeira necessidade.<\/p>\n<p>Com efeito, a hip\u00f3tese de locaute s\u00f3 chegou para valer cinco dias ap\u00f3s o in\u00edcio dos mais de 500 bloqueios na malha rodovi\u00e1ria nacional. E veio pelas m\u00e3os das jornalistas Raquel Landim, Thaiza Pauluze e Mariana Carneiro, da Folha de S. Paulo, que escreveram: \u201cDa frota regularizada de 1,76 milh\u00e3o de ve\u00edculos de carga que circulam no pa\u00eds, o caminhoneiro aut\u00f4nomo responde por pouco mais de um ter\u00e7o \u201337% do total, conforme dados da ANTT (Ag\u00eancia Nacional de Transporte Terrestre). Transportadoras privadas e cooperativas respondem por 62% do setor\u201d. N\u00e3o haveria possibilidade de o setor aut\u00f4nomo, por suas pr\u00f3prias pernas, bloquear as estradas e paralisar a economia nacional com essa for\u00e7a registrada. E foi justamente a rapidez que come\u00e7ou a despertar as primeiras suspeitas de pr\u00e1tica do crime de locaute das grandes transportadoras, que tamb\u00e9m reclamavam da pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobr\u00e1s.<\/p>\n<h3><strong>Resumo da \u00f3pera<\/strong><\/h3>\n<p>Um olhar comparativo entre Folha de S\u00e3o Paulo, O Estado de S\u00e3o Paulo e O Globo, tr\u00eas dos maiores di\u00e1rios do pa\u00eds, revela que prevaleceu o tom oficialesco, a falta de apura\u00e7\u00e3o, uma subavalia\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o que o movimento poderia alcan\u00e7ar (desinforma\u00e7\u00e3o estrutural), em 72 horas ap\u00f3s sua deflagra\u00e7\u00e3o, na manh\u00e3 de 21 de maio.<\/p>\n<p>Parte da cobertura tr\u00f4pega se deveu a dois fatores nas reda\u00e7\u00f5es: erro de avalia\u00e7\u00e3o editorial e aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es do movimento grevista. De um modo geral, jornalistas tamb\u00e9m n\u00e3o acreditaram que a amea\u00e7a de parar o pa\u00eds fosse se concretizar. Jornalistas t\u00eam que tomar decis\u00f5es a todo o momento e nem sempre \u00e9 f\u00e1cil determinar que fatos devem ter prioridade de cobertura sobre outros. Se as reda\u00e7\u00f5es tivessem percebido a calmaria que antecede a tempestade, talvez tivessem se preparado para a tormenta\u2026<\/p>\n<p>O segundo fator que fez a cobertura derrapar parece ter sido o fato de que os jornalistas ficaram fora do circuito das trocas de mensagens dos grevistas, andando \u00e0s cegas. \u00c9 claro que rep\u00f3rteres usam aplicativos como o WhatsApp e isso lhes d\u00e1 agilidade e rapidez, mas a natureza fechada dos grupos alija os jornalistas de muitas trocas de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas mais importantes di\u00e1rios do pa\u00eds, com dezenas de rep\u00f3rteres mobilizados nesta cobertura ficaram devendo algumas respostas \u00e0 sociedade: Qual foi a for\u00e7a pol\u00edtica que parou o pa\u00eds? Greve ou locaute?<\/p>\n<h3><strong>Cobertura do JN pega no tranco<\/strong><\/h3>\n<p>Dizer que a greve mobilizou batalh\u00f5es de rep\u00f3rteres \u00e9 lugar-comum, mas basta contabilizar a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os midi\u00e1ticos pelo tema para perceber como as reda\u00e7\u00f5es foram acordando sobressaltadas ao longo da semana. Para se ter uma ideia, apenas um dos telejornais da TV Globo dedicou mais de duas horas de material em seis dias de cobertura! E o Jornal Nacional n\u00e3o \u00e9 qualquer vitrine, mas o produto jornal\u00edstico de maior audi\u00eancia da emissora. Entre a segunda (21) e o s\u00e1bado (26), foram exibidas 34 mat\u00e9rias, resultando em 128 minutos e 45 segundos.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o da sexta (25) do Jornal Nacional, por exemplo, quase anunciou o fim do mundo e trouxe impressionantes onze mat\u00e9rias em mais de 40 minutos sobre a greve. Na edi\u00e7\u00e3o, Temer informou que for\u00e7as federais desobstruiriam as estradas, havia risco para o funcionamento de hospitais em diversas partes do pa\u00eds, e a Petrobras havia \u201cperdido R$ 50 bilh\u00f5es\u201d em valor no mercado. Rep\u00f3rteres mostravam os dramas pessoais de quem sa\u00eda \u00e0 ca\u00e7a de gasolina, e que 40 mil toneladas de carne deixavam de ser exportadas naqueles dias. Imagens registravam filas infinitas ocupando pistas no Rodoanel na capital paulista e o Congresso Nacional vazio, apesar das medidas anunciadas pelo governo.<\/p>\n<p>Apesar da alta octanagem pol\u00edtica de interesses diversos, da lentid\u00e3o do governo e seus aliados em contornar a crise, o JN ainda deu generosos tempos aos ministros e seus insistentes \u201cavan\u00e7os nas negocia\u00e7\u00f5es para normalizar a situa\u00e7\u00e3o\u201d. Em uma semana de cobertura, o assunto ganhou uma dimens\u00e3o de efetivo alarme social. O Jornal Nacional despejou a crise na sala dos brasileiros, mas n\u00e3o chegou a riscar um palito de f\u00f3sforo sequer na dire\u00e7\u00e3o do governo.<\/p>\n<p><em>Por Samuel Lima e Rog\u00e9rio Christofoletti, Professores de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisadores no objETHOS &#8211; Observat\u00f3rio da \u00c9tica Jornal\u00edstica. A vers\u00e3o completa est\u00e1 dispon\u00edvel no <a href=\"https:\/\/objethos.wordpress.com\/2018\/05\/28\/comentario-da-semana-midia-nao-explica-se-foi-greve-ou-locaute\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">site do Objethos<\/a>.<\/em><\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais de uma semana, a sociedade brasileira foi impactada por um movimento que come\u00e7ou a partir de entidades que articulam os motoristas de cargas aut\u00f4nomos (Abcam \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Caminhoneiros) e, em menos de tr\u00eas dias, j\u00e1 ocupava as principais rodovias do pa\u00eds. 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