{"id":895,"date":"2019-06-28T21:17:38","date_gmt":"2019-06-29T00:17:38","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=895"},"modified":"2022-06-22T20:19:04","modified_gmt":"2022-06-22T23:19:04","slug":"papel-da-imprensa-em-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2019\/06\/28\/papel-da-imprensa-em-risco\/","title":{"rendered":"Papel da imprensa em risco"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-991\" src=\"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Bolsonaro.png\" alt=\"\" width=\"1077\" height=\"791\"><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Faca de dois gumes<\/h3>\n<p>As trajet\u00f3rias do <strong>jornalismo<\/strong> e do <strong>poder pol\u00edtico<\/strong> s\u00e3o confundidas, entrela\u00e7adas e simultaneamente contaminadas. Dinheiro compra m\u00e1quinas de escrever e computadores, c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas e celulares. E d\u00e1 tamb\u00e9m insumos ao poder e \u00e0 visibilidade, sejam de personalidades ou de pautas. A rela\u00e7\u00e3o entre imprensa e poder pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 novidade, mas a quest\u00e3o \u00e9 que, assim como em todo relacionamento, se h\u00e1 conflitos, \u201cdiscutir a rela\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p>O professor <strong>Mauro C\u00e9sar Silveira<\/strong>, graduado em Jornalismo Gr\u00e1fico e Audiovisual e doutor em Hist\u00f3ria, contextualiza que o exerc\u00edcio do jornalismo nasceu nos \u00e2mbitos do poder. Pol\u00edtica e jornalismo andaram de m\u00e3os dadas por tanto tempo que a uni\u00e3o virou n\u00f3 e suas origens tornaram-se uma s\u00f3 coisa. Dos trechos de di\u00e1rios imperiais em jornais como <em>Di\u00e1rio de Pernambuco<\/em> (1823) e <em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em> (1827) at\u00e9 ao dinheiro oficial para financiamento de jornais em escala industrial. Jornalismo precisa de insumos para noticiar, mas o meio pol\u00edtico achou, nessa brecha, mais uma forma de controlar a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No primeiro dia de 2019, jornalistas sentiram na pele os reflexos de uma briga de bastidores, ou seja, do cen\u00e1rio eleitoral. <strong>M\u00f4nica Bergamo<\/strong> e os demais profissionais presentes na cobertura da posse presidencial experimentaram \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/monicabergamo\/2019\/01\/um-dia-de-cao.shtml\">um dia de c\u00e3o<\/a>\u201d. Jornalistas n\u00e3o tiveram acesso livre ao sal\u00e3o nobre do <strong>Pal\u00e1cio do Planalto<\/strong>, onde o presidente subiu a rampa, deu posse aos seus ministros e recebeu cumprimentos de autoridades internacionais. Os fot\u00f3grafos n\u00e3o deveriam erguer suas m\u00e1quinas, pois qualquer movimento suspeito poderia levar um atirador de elite a abater o \u201calvo\u201d. No sentido literal, perigoso, e numa leitura mais profunda, a evid\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o declaradamente conflituosa.<\/p>\n<p>Flashes de outros momentos ocuparam espa\u00e7o no relato da jornalista publicado no dia primeiro de janeiro em sua coluna online na <strong>Folha de S. Paulo<\/strong>. Paridade que instiga quem presenciou diferentes posses e vislumbrou possibilidades de uma conviv\u00eancia est\u00e1vel ou ao menos sem amea\u00e7ar fot\u00f3grafos. \u201cNa posse de <strong>Lula<\/strong>, em 2003, rep\u00f3rteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de <strong>Fernando Henrique Cardoso<\/strong>, misturando-se entre a equipe rec\u00e9m-empossada e a que deixava o governo. Um dos rep\u00f3rteres lembrava, no \u00f4nibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de seguran\u00e7a. A colunista chegou a entrar em salas privadas com o ent\u00e3o vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de <strong>Dilma Rousseff<\/strong>, em 2014\u201d, escreveu a jornalista.<\/p>\n<p>Em poucos caracteres, M\u00f4nica evidenciava a pequena fatia de amenidade e o restante do bolo sabor autoritarismo e o mesmo comportamento indelicado permanece firme e forte. No dia 16 de maio, em uma passagem por Dallas, Bolsonaro foi homenageado como \u201cpersonalidade do ano pela C\u00e2mara do Com\u00e9rcio Brasil &#8211; Estados Unidos\u201d. Mas, a \u00edndole \u201cadmir\u00e1vel\u201d nos neg\u00f3cios n\u00e3o \u00e9 a mesma para a imprensa. Em uma coletiva ainda nesta viagem, o presidente sugeriu a uma rep\u00f3rter da Folha de S. Paulo para voltar a uma \u201cfaculdade que preste\u201d e fazer \u201cum bom jornalismo\u201d. A profissional havia questionado o presidente sobre o perfil das universidades brasileiras mencionadas por ele como figuras importantes na pesquisa acad\u00eamica do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ecos da austeridade<\/strong><br \/>\nA rotina de insultos, agress\u00f5es e amea\u00e7as que agora fazem parte do protocolo para exerc\u00edcio do jornalismo reverbera do centro do Planalto at\u00e9 nas prefeituras. O <strong>radialista Ilton Santos<\/strong>, que coordena o \u201c\u00c9 de Lascar\u201d, programa da r\u00e1dio comunit\u00e1ria <em>Liberdade FM<\/em> de Morrinhos (CE), recebe amea\u00e7as desde 2017. O programa traz reivindica\u00e7\u00f5es e discute temas relacionados \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em maio deste ano, durante a reabertura do Hospital Municipal de Morrinhos, o ex&#8211;prefeito <strong>Airton Bruno (PSDB)<\/strong> dirigiu as seguintes palavras ao trabalho do radialista: \u201cUm dia eu posso topar ele no meio da rua e a\u00ed eu quero saber a chibata que vai dar. Vai dar chibata. J\u00e1 n\u00e3o deu por causa do Carlos Bruno (filho do ex-prefeito), que pegou no bra\u00e7o e me disse \u2018papai, n\u00e3o fa\u00e7a isso\u2019, mas eu n\u00e3o estou mais suportando. Aqueles dentes dele ser\u00e3o substitu\u00eddos. Eu estou aborrecido com esse cara. Pra mim, esse cara, eu tenho que dar um jeito nele\u201d.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o foi a primeira vez que Ilton <a href=\"https:\/\/www.abraji.org.br\/noticias\/radialista-do-ceara-volta-a-receber-ameacas-de-morte\">foi amea\u00e7ado<\/a>. No dia 13 de abril de 2018, enquanto noticiava os problemas decorrentes de uma enchente no munic\u00edpio, a secret\u00e1ria de a\u00e7\u00e3o governamental, Aimee Peixoto Bruno, entrou no est\u00fadio acompanhada de um homem. A secret\u00e1ria, filha do atual prefeito <strong>Carlos Bruno (PSDB)<\/strong>, acusou Santos de estar mentindo e exigiu que os equipamentos da r\u00e1dio fossem desligados. Ap\u00f3s a recusa do radialista, ela deixou o pr\u00e9dio. No mesmo dia, Santos recebeu mensagens dizendo para \u201ctomar cuidado com sua vida\u201d.<\/p>\n<p>O status de figura representativa dos pol\u00edticos n\u00e3o \u00e9 mero discurso. O comportamento hostil por parte de l\u00edderes ecoa at\u00e9 seguidores e\/ou eleitores. No dia 6 de maio deste ano, o carro da equipe de reportagem da TV Vit\u00f3ria, afiliada da Rede Record, <a href=\"https:\/\/fenaj.org.br\/ataque-a-equipe-da-tv-vitoria-e-atentado-a-democracia\/\">foi incendiado<\/a> na Avenida Marechal Campos, na cidade de Maru\u00edpe, em Vit\u00f3ria. A rep\u00f3rter Talita Carvalho e o cinegrafista Willian Obrien estavam na Delegacia Patrimonial da Pol\u00edcia Civil na Avenida Marechal Campos e o carro estava estacionado em uma rua lateral. Talita ouviu de testemunhas que tr\u00eas indiv\u00edduos colocaram explosivos debaixo do carro e sa\u00edram correndo e rindo. O fogo logo se espalhou e destruiu objetos pessoais e documentos.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2>Os fins justificam os conflitos<\/h2>\n<p>Em 1532, o ineditismo alcan\u00e7ava a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a moral crist\u00e3 com o livro O Pr\u00edncipe, de Nicolau Maquiavel. Benedetto Croce, fil\u00f3sofo, historiador e pol\u00edtico resumiu a filosofia de Maquiavel: \u201ca pol\u00edtica n\u00e3o se faz com \u00e1gua-benta\u201d. O livro evidencia duas \u00e9ticas: a crist\u00e3, \u201c\u00fatil para salvar a alma. E a pol\u00edtica, \u00fatil para salvar o Estado (ser mal quando necess\u00e1rio, mentir quando a situa\u00e7\u00e3o exigir, parecer bom e piedoso)\u201d.*<\/p>\n<p>Ainda temos vislumbres da filosofia do s\u00e9culo XVI, em que neg\u00f3cios e interesses s\u00e3o, na maioria das vezes, subs\u00eddios para conflitos. O professor <strong>Mauro C\u00e9sar Silveira<\/strong>, graduado em Jornalismo e doutor em Hist\u00f3ria, confirma a rela\u00e7\u00e3o de altos e baixos. Mauro C\u00e9sar contextualiza que o exerc\u00edcio do jornalismo nasceu nos \u00e2mbitos do poder e seu primeiro ponto foi ainda na decis\u00e3o em qual data comemoraria o Dia da Imprensa. No dia 10 de setembro de 1808, na primeira circula\u00e7\u00e3o da <em>Gazeta do Rio de Janeiro<\/em>, um peri\u00f3dico da corte portuguesa, se instituiu o <strong>Dia da Imprensa<\/strong>. Sob a prote\u00e7\u00e3o de D. Jo\u00e3o VI, as publica\u00e7\u00f5es tinham alicerces estritamente oficiais. Embora a imprensa j\u00e1 tivesse nascido oficialmente no Brasil no dia 13 de maio, com a cria\u00e7\u00e3o da Imprensa R\u00e9gia, seu in\u00edcio foi marcado pela primeira edi\u00e7\u00e3o do peri\u00f3dico.<\/p>\n<p>Ao publicar no dia 1\u00ba de junho, o primeiro exemplar do <em>Correio Braziliense<\/em>, <strong>Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa<\/strong>, fundador do Correio, iniciou as publica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m em 1808, mas era um jornal clandestino. S\u00f3 em 1999 foi oficialmente reconhecido esse fato, e, por meio da lei 9831\/99, criada pelo deputado Nelson Marchezan e sancionada pelo governo <strong>FHC<\/strong>, fixou a mudan\u00e7a do Dia da Imprensa para 1\u00ba de junho.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-959\" src=\"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Infogr\u00e1fico.png\" alt=\"\" width=\"791\" height=\"1077\"><\/p>\n<p>O professor Mauro C\u00e9sar destaca que ainda no per\u00edodo Imperial, datando entre 1821 e 1823, os jornais foram palco de disputa pol\u00edtica. Armados com dinheiro, financiavam os ve\u00edculos com o objetivo de ascender no meio oficial de poder. \u201cA quest\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que, quando existem as oscila\u00e7\u00f5es entre meios de comunica\u00e7\u00e3o e pol\u00edticos, quem sofre as consequ\u00eancias \u00e9 o p\u00fablico consumidor\u201d, reflete. Alguns nomes como <strong>Jos\u00e9 da Silva Lisboa<\/strong>, <strong>Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrade e Silv<\/strong>a e<strong> Jo\u00e3o Batista de Queiroz<\/strong> s\u00e3o os que se lan\u00e7aram na carreira de falsos filantropos dedicados \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda depois da independ\u00eancia, com partes dos di\u00e1rios imperiais transcritos em jornais como <em>Di\u00e1rio de Pernambuco<\/em> (1823) e <em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em> (1827), somadas as edi\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es de pol\u00edticos nas publica\u00e7\u00f5es do peri\u00f3dico, a profiss\u00e3o do jornalismo era sentenciada \u00e0s algemas do poder pol\u00edtico. A partir desse momento, confundia-se a hist\u00f3ria do jornalismo com a do poder. Exemplo foi Francisco Otaviano, bacharel em Direito pela USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) e atuava tamb\u00e9m como jornalista. Em 1847, era diretor do Jornal do Com\u00e9rcio e Correio Mercantil. Dividia as reda\u00e7\u00f5es com o gabinete de secret\u00e1rio do Instituto da Ordem dos Advogados, cargo que exerceu por nove anos; foi tamb\u00e9m deputado geral em 1852 e senador em 1867. Como jornalista, apoiou as campanhas do Partido Liberal e tomou parte na elabora\u00e7\u00e3o da Lei do Ventre Livre, em 1871.<\/p>\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo XX, os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de escala industrial, os jornais de maiores tiragens tinham dificuldades t\u00e9cnicas, ou seja, poucos e n\u00e3o suficientes equipamentos. Por isso, a verba pol\u00edtica se travestiu de apoio e comprou insumos e poder. A partir desse dinheiro oficial, os jornais cresceram, mas nas r\u00e9deas dos seus \u201cpatrocinadores\u201d. O controle de informa\u00e7\u00f5es e pautas ficou ainda maior nos anos 30, quando ainda se mantinha esse custeio. Por\u00e9m, com um adendo: a publicidade. Os an\u00fancios tamb\u00e9m tinham for\u00e7a nas reda\u00e7\u00f5es. O jornalista e professor Mauro C\u00e9sar afirma que na maioria dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, essas tradi\u00e7\u00f5es de financiamentos permanecem at\u00e9 hoje, E quando h\u00e1 diverg\u00eancias do provedor e subsidi\u00e1rio, o sangue da luta respinga nos consumidores.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/cdn.knightlab.com\/libs\/timeline3\/latest\/embed\/index.html?source=1yow68Aag-4Pjjw8LzSMrCgQBvohCcN_FId3vt6PhYWQ&amp;font=Default&amp;lang=en&amp;initial_zoom=2&amp;height=650\" width=\"100%\" height=\"650\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h2>Belos, retra\u00eddos e persistentes<\/h2>\n<p>O ranking da RSF (<strong>Rep\u00f3rteres Sem Fronteiras<\/strong>) avalia a situa\u00e7\u00e3o do jornalismo anualmente em 180 pa\u00edses e territ\u00f3rios. Esse acompanhamento revela as consequ\u00eancias da inimizade contra os jornalistas, em muitos pa\u00edses, propagada por lideran\u00e7as pol\u00edticas; todo esse ciclo resultou em atos de viol\u00eancia graves e frequentes. Apenas 24% dos pa\u00edses e territ\u00f3rios mapeados pela iniciativa t\u00eam uma situa\u00e7\u00e3o considerada \u201cboa\u201d ou \u201crelativamente boa\u201d. No ano passado, a porcentagem era de 26%.<\/p>\n<p>O Brasil ocupa atualmente a cent\u00e9sima quinta posi\u00e7\u00e3o do ranking (descendo tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao ano passado). A imprensa \u00e9 alvo de hostilidade desde a campanha eleitoral. A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou mais de 120 agress\u00f5es a comunicadores em contextos pol\u00edtico-partid\u00e1rio e eleitoral em 2018. As agress\u00f5es s\u00e3o tanto f\u00edsicas quanto em meios digitais. Foram 64 ocorr\u00eancias de ass\u00e9dio online contra jornalistas durante a cobertura das elei\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de 59 v\u00edtimas de atentados f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Da raposa herdamos o sentido astuto, engenhoso e tamb\u00e9m a aten\u00e7\u00e3o ao nosso redor. E quando somos perseguidos pelos ca\u00e7adores? Na realidade mais pr\u00f3xima, estes vestem terno, gravata, o seu reino \u00e9 o Planalto e sua arma \u00e9 o poder. O jornalista e doutor em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m presidente da Comiss\u00e3o de \u00c9tica do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, <strong>Rog\u00e9rio Christofoletti<\/strong>, pondera sobre os dois lados da rela\u00e7\u00e3o nada amistosa, destacando o trivial lembrete de que o Planalto n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de seguir um c\u00f3digo de \u00e9tica do jornalismo, mas, poderia agir com impessoalidade, equil\u00edbrio e sensatez. \u201cO povo tem direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, e os jornalistas s\u00e3o os profissionais que trabalham para satisfazer esse direito. Assim, o Planalto deveria oferecer as condi\u00e7\u00f5es de acesso dos jornalistas \u00e0s informa\u00e7\u00f5es\u201d, justifica.<\/p>\n<p>Mesmo que a transpar\u00eancia seja o acesso legal \u00e0s informa\u00e7\u00f5es, assim como nas grandes utopias, essa \u201cnitidez\u201d n\u00e3o \u00e9 efetiva. Para reverter esse movimento de contrariedade \u00e0 clareza, o jornalista assinala que os profissionais da comunica\u00e7\u00e3o deveriam relatar o que acontece. \u201c\u00c9 praxe uma lua-de-mel entre a imprensa e o governo nos primeiros meses. Desta vez, n\u00e3o. O jornalismo deveria morder os calcanhares do poder. Felizmente, isso j\u00e1 vem acontecendo\u201d, completa. Ele avalia que o tratamento aos jornalistas na posse do presidente <strong>Bolsonaro<\/strong>, por exemplo, foi apenas uma reduzida amostra de como o relacionamento entre o governo e rep\u00f3rteres n\u00e3o ser\u00e1 \u201caf\u00e1vel e sereno\u201d. O cen\u00e1rio da ca\u00e7a, nesse momento, \u00e9 conveniente. O jornalista analisa a postura de Jair Bolsonaro e seus parlamentares: \u201cEra para ser uma festa e n\u00e3o se deve destratar ningu\u00e9m numa festa, ainda mais quem vai noticiar o evento\u201d.<\/p>\n<p>Selecionamos tr\u00eas momentos da hist\u00f3ria brasileira em que houve tens\u00e3o entre a imprensa e o poder pol\u00edtico. Os trechos foram retirados do livro &#8220;Not\u00edcias do Planalto&#8221;, de&nbsp;Mario Sergio Conti e em <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/bolsonaro-critica-imprensa-diz-que-reporter-deveria-entrar-de-novo-numa-faculdade-que-preste-23670952\">pesquisas<\/a>&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/pt.org.br\/dilma-a-imprensa-internacional-apoio-da-midia-brasileira-ao-golpe-foi-total\/\">online<\/a>:<\/em><\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/v291JRtn_xA\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h3>Populariza\u00e7\u00e3o de redes sociais produz efeito na rela\u00e7\u00e3o entre jornalistas e p\u00fablico<\/h3>\n<p>Um estudo realizado pela Diretoria de An\u00e1lise de Pol\u00edticas P\u00fablicas da <strong>Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV DAPP) <\/strong>mostra que entre 18 de setembro e 2 de outubro de 2018 foram postados 945,3 mil tu\u00edtes que abordaram a cobertura da imprensa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. Os coment\u00e1rios partidaristas, ideol\u00f3gicos, que criticam o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o de jornalista e os de \u00f3dio &#8211; um compilado de todos esses tipos, dispostos no Twitter, Facebook e Instagram remontam o cen\u00e1rio de uma roda viva; mas num ambiente e contexto diferentes, onde ningu\u00e9m sai \u00edntegro e muito menos inocentado.<\/p>\n<p>Rog\u00e9rio Christofoletti aponta que esse comportamento do p\u00fablico \u00e9, at\u00e9 certo ponto, positivo, pois os consumidores podem fazer queixas relevante ao jornalismo e aos jornalistas. Para ele, a expans\u00e3o desses meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas amplia as vozes comuns, mas tamb\u00e9m permite viabilizar uma efetiva comunica\u00e7\u00e3o entre consumidores e jornalistas. \u201cO p\u00fablico precisa ser agressivo e violento? Claro que n\u00e3o. A melhor forma n\u00e3o \u00e9 essa. A melhor forma me parece ser dialogar com franqueza e respeito. Muita franqueza ajuda a apresentar os pontos de vista sem melindres, o que ajuda a lembrar que do outro lado da conversa tem gente, tem pessoas que podem estar querendo acertar, mas n\u00e3o andam acertando\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p><em>\u201cA cria\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o dessas redes permite que mais gente se expresse, inclusive, que se queixem mais, que cobrem, corrijam eventuais erros e tudo o mais. Os jornalistas sempre foram cobrados por seus p\u00fablicos: ora por n\u00e3o fazerem bem o seu trabalho, ora porque estavam fazendo seu trabalho e isso contrariava interesses particulares. H\u00e1 trinta anos, as pessoas mandavam cartas aos jornais e \u00e0s revistas. Telefonavam para as emissoras de r\u00e1dio e TV. Elas reclamavam, mas ficavam dependentes dos pr\u00f3prios jornalistas de tornar p\u00fablicas aquelas queixas. Se o editor de opini\u00e3o de um jornal n\u00e3o quisesse publicar as suas cartas contra o jornal, ele n\u00e3o publicava, e a maioria das pessoas ficava sem saber que havia protestos. Com a cria\u00e7\u00e3o de canais alternativos de comunica\u00e7\u00e3o, isso pode ser enfim contornado\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Pela posi\u00e7\u00e3o de combate e constante ceticismo, Rog\u00e9rio afirma que comprometimento com a veracidade e os direitos humanos j\u00e1 \u00e9 um avan\u00e7o na discuss\u00e3o. \u201cPrecisamos de coragem, tenacidade, responsabilidade e n\u00e3o podemos renunciar \u00e0 liberdade de imprensa e ao exerc\u00edcio cr\u00edtico. Governos passam. Podem at\u00e9 se estender por muito tempo, mas passam. O jornalismo precisa se manter para al\u00e9m dos governos porque o objetivo do jornalismo \u00e9 atender ao p\u00fablico, ao cidad\u00e3o, ao sujeito\u201d.<\/p>\n<p>O jornalista Mauro C\u00e9sar afirma que a ideologia pode influenciar na quest\u00e3o no consumo. Trazendo a situa\u00e7\u00e3o para dois tempos diferentes, o professor cita a mudan\u00e7a de abordagem nas pautas e textos da Veja, criada por Mino Carta em 1968 para seu atual vi\u00e9s. Ainda pondera que nessa rela\u00e7\u00e3o o consumidor entra num importante lugar de avaliador e, por isso, o jornal se adequa ao que o p\u00fablico quer ler. \u201cA revista era censurada naquela \u00e9poca, mas mudou muito ao longo do tempo. A quest\u00e3o \u00e9 que a ideologia de quem est\u00e1 no poder \u00e9 a mesma de quem n\u00e3o est\u00e1 no poder. O p\u00fablico quer v\u00ea-la estampada nos meios de comunica\u00e7\u00e3o\u201d, conclui.<\/p>\n<h4>As vozes da resist\u00eancia e experi\u00eancia<\/h4>\n<p><strong>Izani Mustaf\u00e1<\/strong>, doutora em comunica\u00e7\u00e3o social, atuou como assessora de comunica\u00e7\u00e3o e trabalhou na campanha do presidente Lula e da presidente Dilma. De acordo com a jornalista, o objetivo era sempre divulgar pontos positivos mas sempre com fatos reais. \u201cMesmo na assessoria de comunica\u00e7\u00e3o, temos que produzir conte\u00fado \u00e9tico, que tenha sido realmente realizado\u201d. Os melhores momentos, segundo ela, aconteciam quando conseguiam fazer com que os candidatos conversassem abertamente com a imprensa e com as pessoas. A parte negativa geralmente envolvia os ataques contra os candidatos, quando, por exemplo, opositores levantam quest\u00f5es que n\u00e3o eram verdadeiras.<br \/>\n\u201cEu acredito que a rela\u00e7\u00e3o da imprensa com o governo na gest\u00e3o do PT foi bem saud\u00e1vel\u201d, comenta. Apesar disso, reclama sobre as r\u00e1dios de Joinville, em espec\u00edfico: \u201celas tinham apresentadores, n\u00e3o eram jornalistas. Eram radialistas que n\u00e3o tinham uma postura \u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-968\" src=\"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Lula.png\" alt=\"\" width=\"638\" height=\"528\"><\/p>\n<p><strong>Conte\u00fado produzido na disciplina Jornal Laborat\u00f3rio, 7\u00aa Fase\/2019<\/strong><br \/>\n<em>Reportagem: Helena Bosse<\/em><\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Faca de dois gumes As trajet\u00f3rias do jornalismo e do poder pol\u00edtico s\u00e3o confundidas, entrela\u00e7adas e simultaneamente contaminadas. Dinheiro compra m\u00e1quinas de escrever e computadores, c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas e celulares. E d\u00e1 tamb\u00e9m insumos ao poder e \u00e0 visibilidade, sejam de personalidades ou de pautas. 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