{"id":899,"date":"2019-06-28T19:55:47","date_gmt":"2019-06-28T22:55:47","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/?p=899"},"modified":"2025-07-04T20:38:39","modified_gmt":"2025-07-04T23:38:39","slug":"memorias-de-uma-novica-rebelde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/primeirapauta.ielusc.br\/index.php\/2019\/06\/28\/memorias-de-uma-novica-rebelde\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de uma novi\u00e7a rebelde"},"content":{"rendered":"<p><em>A hist\u00f3ria da mulher que se casou com o comunismo<\/em><\/p>\n<p>\u2014 Quem voc\u00ea pensa que eu sou? \u2014 perguntou Herc\u00edlio.<\/p>\n<p>\u2014 Eu acho que tu \u00e9s o comunismo \u2014 respondeu L\u00facia, segura de sua afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por um momento, Herc\u00edlio quis correr at\u00e9 chegar em outro pa\u00eds. Mas sua intui\u00e7\u00e3o disse para ele ficar e ouvir o que a garota tinha para dizer. Sentia que podia confiar nela.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma longa conversa, tudo se conectou.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>L\u00facia Schatzmann \u00e9 ga\u00facha do interior e, como tal, n\u00e3o dispensa um bom chimarr\u00e3o no meio da manh\u00e3. Sentada na varanda de casa, em Balne\u00e1rio Barra do Sul, a poucos metros da praia, a mulher de 75 anos est\u00e1 sempre papeando. Suas hist\u00f3rias entret\u00e9m amigos, vizinhos, parentes, conhecidos e tamb\u00e9m desconhecidos.<\/p>\n<p>A escolha por morar pertinho do mar n\u00e3o foi acidental. \u201cEu gosto do mato, de conversar com os animais, at\u00e9 os insetos\u201d, conta. Isso explica as plantas a\u00e9reas penduradas na parede, os temperinhos em caixas de papel\u00e3o sobre um banco de madeira e um grande cachorro passeando pelo quintal.<\/p>\n<p>Quem olha para L\u00facia hoje, exibindo o rosto estampado com as marcas do tempo, n\u00e3o consegue nem imaginar as poucas e boas por que ela passou. Al\u00e9m de uma inf\u00e2ncia simples em Soledade, L\u00facia teve que lidar com uma adolesc\u00eancia marcada pela opress\u00e3o religiosa, a repress\u00e3o do regime militar e a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a, ajudava seu pai a levantar toras de madeira para abastecer uma serralheria. Entre uma viagem e outra, observava a desigualdade social: casebres contrastavam com luxuosas mans\u00f5es em sua cidade natal. Desde cedo, a garotinha rechonchuda de cabelos encaracolados j\u00e1 dava sinais de que seria uma mulher forte, daquelas que n\u00e3o t\u00eam medo de enfrentar nada nem ningu\u00e9m para defender suas ideias.<\/p>\n<p>Em uma tarde de s\u00e1bado, bateram \u00e0 porta da casa da fam\u00edlia Schenato duas freiras, que estavam em busca de mo\u00e7as jovens para lev\u00e1-las ao convento servir a Deus. Sob a promessa de que o prop\u00f3sito da Igreja era ajudar os pobres, L\u00facia, na \u00e9poca com 14 anos, aceitou o convite. Uma semana depois, ela e sua irm\u00e3 Eronita estavam partindo do interior de Lages rumo a Florian\u00f3polis.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo trabalhando na cozinha da Congrega\u00e7\u00e3o da Divina Provid\u00eancia, L\u00facia, agora chamada de irm\u00e3 Dulcemar, come\u00e7ou a estranhar e a questionar algumas coisas que aconteciam. \u201cCerta vez, um mendigo veio pedir comida na igreja e a madre superiora mandou eu dar a ele apenas os restos de comida. Enquanto isso, senhoras bem vestidas comiam os bolos que a gente preparava\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que incomodava a jovem L\u00facia eram as incessantes rezas durante a madrugada, para pedir que o pol\u00edtico Leonel Brizola e seu comunismo n\u00e3o avan\u00e7assem no Brasil. \u201cE viva o Brizola!\u201d, gritava a novi\u00e7a rebelde em meio \u00e0s rezas, mesmo sem saber direito o que era o tal do comunismo. Seu h\u00e1bito preto cobria quase todo o corpo, com exce\u00e7\u00e3o do rosto, deixando \u00e0 mostra apenas testa, bochechas, nariz, olhos, boca e queixo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que no convento n\u00e3o era permitido questionar nada. Por isso, L\u00facia era castigada com frequ\u00eancia, at\u00e9 que decidiu sair o mais r\u00e1pido poss\u00edvel dali. Conforme suas tentativas de fuga iam aumentando, a madre superiora ia piorando os castigos. Chegou ao ponto em que L\u00facia era transferida a cada tr\u00eas meses para um convento diferente.<\/p>\n<p>Chegaram ao absurdo de dizer para os pais de L\u00facia que sua filha havia morrido durante uma miss\u00e3o religiosa na \u00c1frica, enquanto na verdade ela estava em um convento no interior do Paran\u00e1. Percebendo a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, L\u00facia bolou uma nova estrat\u00e9gia. O plano era bom, s\u00f3 faltava colocar em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Meses depois, a ga\u00facha deixou para tr\u00e1s a carreira religiosa, depois de pedir socorro a um ex-padre que estava de passagem no col\u00e9gio em que ela estudava. Por meio dele, a garota finalmente conseguiu restabelecer a comunica\u00e7\u00e3o com os pais atrav\u00e9s de um telegrama e voltar para a casa da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a conturbada experi\u00eancia no convento, que serviu apenas para ati\u00e7ar a curiosidade da determinada L\u00facia, sua vida sofreu uma segunda grande mudan\u00e7a. Mesmo contra a vontade da filha, Odorico Schenato enviou o curr\u00edculo dela para a Papel Celulose Catarinense. Estava t\u00e3o determinado a conseguir o emprego que, mais tarde, ensinaria L\u00facia a aplicar inje\u00e7\u00f5es utilizando uma laranja. Dito e feito: L\u00facia foi a escolhida.<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o, bem de manh\u00e3zinha, L\u00facia e seu pai viajaram para Correia Pinto, a cerca de 30 quil\u00f4metros de Lages, onde estava localizada a f\u00e1brica da Papel Celulose Catarinense. Chegando ao setor pessoal para levar seus documentos, L\u00facia foi prontamente atendida por um tal de Herc\u00edlio. Um a um, ela foi entregando seus documentos: identidade, certid\u00e3o de nascimento, entre outros. Quando chegou a vez de passar suas fotos 3&#215;4, o atendente caiu na gargalhada.<\/p>\n<p>\u2014 Gente, olha aqui um urubuzinho! \u2014 exclamou Herc\u00edlio. L\u00facia queria matar aquele homem desaforado que ousava zombar da sua foto com o h\u00e1bito preto do convento.<\/p>\n<p>Os dias passaram e o petulante Herc\u00edlio acabou se transformando em um grande galanteador. Ele estendia a m\u00e3o para L\u00facia subir no \u00f4nibus, sentava-se ao lado dela para conversar e a presenteava com chocolates. Quem n\u00e3o gostava muito disso era Domingos, irm\u00e3o de L\u00facia e secret\u00e1rio pessoal de um dos \u201cchef\u00f5es\u201d da Papel Celulose Catarinense. Domingos nutria algumas desconfian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao amigo da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Certo dia, Herc\u00edlio mandou entregar um bilhete para L\u00facia.<\/p>\n<p>\u2014 Estou \u00e0 procura de uma mulher que seja a minha companheira de luta e de trabalho. E eu simpatizo muito contigo. Quer namorar comigo?<\/p>\n<p>Apesar do mist\u00e9rio que envolvia a vida de Herc\u00edlio, L\u00facia sentia que estava a um passo de descobrir o que era o comunismo que tanto a intrigava, desde que deixou o convento. Como n\u00e3o era de correr, aceitou o pedido de namoro. Mais tarde, ela descobriria que Herc\u00edlio Linhares Figueiredo era na verdade Edgar Schatzmann, natural de Joinville, que estava foragido da pol\u00edcia por ser comunista.<\/p>\n<p>E foi assim que os dois resolveram se casar. Era um belo pretexto para conseguir fugir sem que os pais de L\u00facia soubessem. Ao inv\u00e9s de irem para Porto Alegre, onde supostamente moravam os pais de Herc\u00edlio, foram para Itaja\u00ed. Em pleno 6 de janeiro, Dia de Reis, L\u00facia dava seu segundo sim para Edgar e se tornava a senhora Schatzmann.<\/p>\n<p>Dava-se in\u00edcio a uma longa uni\u00e3o, que enfrentou sempre firme os dolorosos anos da ditadura e permanece s\u00f3lida at\u00e9 hoje, quase cinquenta anos depois. Se, no passado, Edgar, que na verdade era Herc\u00edlio, tinha d\u00favidas se podia ou n\u00e3o confiar em L\u00facia, o presente mostra que ele n\u00e3o poderia ter tomado melhor decis\u00e3o quando decidiu abrir o jogo sobre sua verdadeira identidade. Sua intui\u00e7\u00e3o estava certa.<\/p>\n<p>Apesar da uni\u00e3o est\u00e1vel, que gerou duas filhas, atualmente Edgar e L\u00facia moram em casas separadas, prova de que o amor supera a dist\u00e2ncia. Enquanto ele tem seus projetos em Joinville, L\u00facia toca sua vida do jeito que ela sempre quis: sentada \u00e0 varanda com um chimarr\u00e3o na m\u00e3o, papeando com as pessoas, os animaizinhos e as plantas.<\/p>\n<p>Perfil: Mar\u00edlia Oliveira<br \/>\nFoto: Arquivo Pessoal\/L\u00facia Schatzmann<\/p>\n<p><strong>Vers\u00e3o completa do perfil publicado no Primeira Pauta Impresso, Edi\u00e7\u00e3o 145<\/strong> | Disciplina: Jornal Laborat\u00f3rio, 7\u00aa fase\/2019.<\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da mulher que se casou com o comunismo \u2014 Quem voc\u00ea pensa que eu sou? \u2014 perguntou Herc\u00edlio. \u2014 Eu acho que tu \u00e9s o comunismo \u2014 respondeu L\u00facia, segura de sua afirma\u00e7\u00e3o. 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