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Com maior número de feminicídios no estado, Joinville segue sem delegacia da mulher 24 horas

 Com maior número de feminicídios no estado, Joinville segue sem delegacia da mulher 24 horas
Placa na entrada da unidade em Joinville ainda mantém a grafia "DPCAMI", nomenclatura anterior à reorganização da delegacia especializada. Foto: Ana Dorneles
4º Semestre Destaques Joinville e região Jornalismo Digital I Política Segurança

Com maior número de feminicídios no estado, Joinville segue sem delegacia da mulher 24 horas

by Ana Dorneles 4 de setembro de 2026

Maior cidade de Santa Catarina restringe acolhimento especializado a apenas sete horas por dia e enfrenta ação judicial do Ministério Público com risco de multa ao Estado

Três anos após a aprovação da Lei Federal nº 14.541/2023, que determinou o funcionamento de delegacias 24 horas para o atendimento especializado a mulheres no país, Joinville ainda restringe esse direito básico a um turno reduzido.

Na maior cidade de Santa Catarina, a segurança feminina divide a estrutura da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) com a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente e ao Idoso (DPCAI), funcionando apenas de segunda a sexta-feira, das 12h às 19h. Fora dessa janela de apenas sete horas, o atendimento se encerra. As vítimas ficam desamparadas justamente nas madrugadas, finais de semana e feriados, momento em que os casos de violência explodem. Sem um local especializado, a única opção que resta é procurar a Central de Plantão Policial (CPP) e esperar a vez em meio à rotina comum de flagrantes de rua e acidentes.

MPSC Obteve Condenação do Governo do Estado na Justiça

Para cobrar o cumprimento da legislação federal em Joinville, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) obteve na Justiça, em 2 de julho de 2025, a condenação do governo do Estado.

2 de Julho de 2025

Condenação na Justiça

Sentença do MPSC determina a implantação do plantão 24 horas na delegacia especializada em até 18 meses.

Recurso do Estado

Tentativa de Repasse de Culpa

O Executivo estadual tentou transferir a responsabilidade ao município, mas a Justiça rejeitou a tese, reafirmando ser dever exclusivo do Estado contratar policiais e estruturar a delegacia.

2026

Reestruturação Parcial

A Polícia Civil desmembra atendimentos e ajusta o horário presencial das 13h-19h para 12h-19h, classificando a medida como “fase inicial de aprimoramento”.

Janeiro de 2027

Prazo Limite

Data final estipulada pela Justiça para o plantão 24h funcionar plenamente, sob pena de multa diária ao Estado.

Sobre o cumprimento do prazo, a Polícia Civil alegou ter desmembrado a antiga DPCAMI em 2026 para separar os atendimentos. Com a mudança, o prédio do Bucarein passou a abrigar exclusivamente a Deam e a DPCAI no acolhimento de vítimas, enquanto a Delegacia Especializada do Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle) foi transferida para o bairro Boa Vista. A instituição informou ainda que designou uma delegada dedicada à Deam, manteve a Sala Lilás na CPP e a Delegacia Virtual. No entanto, a versão do Estado sobre essas alternativas é contestada na ação do MPSC.

“A estrutura da Sala Lilás na CPP não passa de uma sala de espera pintada na cor que leva o nome do projeto, sem qualquer estrutura de atendimento especializado.”

Ricardo Paladino, Promotor de Justiça do MPSC

Fachada de prédio branco de dois andares da Delegacia da Mulher em Joinville, com entrada decorada por grafite colorido com corações e pincéis.
Prédio da DPCAMI de Joinville, responsável pelo atendimento e registro de ocorrências de violência contra a mulher na cidade. Foto: Ana Dorneles

A urgência desse socorro noturno é uma questão de sobrevivência

Sem uma estrutura que interrompa o ciclo de violência no primeiro sinal de socorro, o agressor age com sensação de impunidade. O resultado é a escalada de agressões dentro de casa, ambiente onde ocorreram 76,4% dos feminicídios no estado (marca que subiu para 90,9% em 2024). Nesses episódios, o agressor recorre na maioria das vezes a armas brancas (47,7%) ou de fogo (22,9%).

O Mapa do Feminicídio em Santa Catarina (2020-2024), divulgado pelo MPSC, mostra que duas em cada três mulheres mortas violentamente no estado são vítimas de feminicídio (66,4%). Joinville lidera essa estatística com 20 mortes.

Os dados estatísticos do MPSC explicam a urgência do atendimento noturno:

Ocorrências por período

Manhã
18,2%
Tarde
18,8%
Noite
30,1%
Madrugada
26,2%
Desconhecido
6,5%
051015202530
Porcentagem (%)

Ocorrências por dia de semana

Segunda-feira
19,4%
Terça-feira
8,6%
Quarta-feira
16,6%
Quinta-feira
11,0%
Sexta-feira
15,5%
Sábado
17,6%
Domingo
16,1%
051015202530
Porcentagem (%)

Alta Demanda na Justiça e o Abismo Institucional

Dados do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) revelam que a comarca de Joinville concedeu 1.626 Medidas Protetivas de Urgência em 2025. Até meados de agosto de 2026, o número já alcançava 1.026 ordens judiciais expedidas, representando uma média superior a quatro pedidos deferidos por dia na cidade.

Para a advogada Ana Paula Nunes, atuante na defesa de mulheres vítimas de violência, a falta da delegacia 24 horas expõe a urgência de uma rede de apoio estruturada e eficiente:

“A violência não tem horário e a mulher não pode esperar o dia amanhecer para denunciar. A mulher que rompe o ciclo se vê sem amparo e sem ter para onde ir. Uma ajuda financeira para o aluguel e a articulação da rede de fato é o que dá condiçõesreais para ela sair da situação de violência.”

Ana Paula Nunes, advogada

Ela defende que a proteção deve ir além do registro da ocorrência policial, englobando serviços integrados em um só local, como apoio para inserção no mercado de trabalho, acesso a creches, medidas protetivas ágeis e auxílio-aluguel.

Duas décadas após a aprovação da Lei Maria da Penha, a batalha do MPSC para impor o plantão 24h expõe um grave abismo institucional em Santa Catarina. Na prática, a maior cidade do estado segue descumprindo a legislação federal ao privar as vítimas do acesso ininterrupto a policiais capacitadas, ambiente reservado e acolhimento multidisciplinar 24 horas por dia.

Canais de Apoio e Denúncia

Ligue 180
WhatsApp de Denúncias Polícia Civil: (48) 98844-0083
Ocupação Elvira Boni: (47) 99632-2008
Delegacia Virtual de SC

Nota de Transparência: Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como suporte para organização de dados, revisão e apoio à redação, sob integral supervisão e responsabilidade editorial da autora.

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Tags: Delegacia da Mulher feminicídio Joinville Lei Maria da Penha MPSC Polícia Civil SC santa catarina
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