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Entre memória e renovação, MPB atravessa gerações

 Entre memória e renovação, MPB atravessa gerações
4º Semestre Cultura Destaques Jornalismo Digital I

Entre memória e renovação, MPB atravessa gerações

by Millena Wessler 17 de outubro de 2026

Entre memórias afetivas, resistência histórica e novas sonoridades, o Dia Nacional da Música Popular Brasileira é comemorado através da sua própria reinvenção

Há músicas que parecem guardar o tempo. Basta ouvir os primeiros acordes de uma canção para que uma lembrança volte à tona: a voz de alguém querido, as tardes em família, um amor que ficou no passado ou uma época que já não existe da mesma forma. Algumas melodias atravessam décadas sem perder a capacidade de emocionar. Mais do que trilha sonora de recordações, a Música Popular Brasileira (MPB) carrega marcas da história e da cultura do país, ao mesmo tempo em que encontra novas formas de existir no presente.

Celebrado em 17 de outubro, o Dia Nacional da Música Popular Brasileira convida a olhar para essa trajetória e para as diferentes gerações que a mantêm viva. Entre as canções que marcaram a infância, as composições que expressaram momentos políticos e sociais, além das novas sonoridades que circulam nas plataformas digitais, a MPB segue em transformação sem abandonar as referências que ajudaram a construí-la.

Para o cantor joinvilense Edwin de Paula, essa relação começou dentro de casa, em meio aos discos do pai. Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Alceu Valença fizeram parte da trilha sonora de sua infância. A música, conta ele, era quase algo natural em sua rotina, até que, na adolescência, encontrou na coleção familiar um disco que mudaria sua maneira de enxergar a arte.

Era um álbum de Belchior, que ainda não conhecia. A descoberta fez com que a música deixasse de ser apenas parte do cotidiano e passasse a ocupar outro lugar em sua vida. “A poesia do Belchior mexeu comigo como nada antes havia mexido, e desde então o tomei como modelo e inspiração na poesia e na música”, relembra.

A experiência ajuda a ilustrar como o contato com artistas de outras gerações pode despertar novos interesses e influenciar trajetórias. Para Edwin, a MPB é uma das grandes riquezas culturais brasileiras justamente por sua diversidade e capacidade de transformação. “Um gênero plural, múltiplo, potente, influente. Uma força da nossa natureza que não pode se permitir ficar engessada”, define.

Música como memória e resistência

A relação entre música e memória vai além das experiências pessoais. Ao longo da história brasileira, canções também serviram para registrar acontecimentos, expressar insatisfações e transmitir mensagens em períodos nos quais a liberdade de expressão era limitada. Durante a ditadura militar, artistas recorreram à música para comunicar ideias que não podiam ser ditas abertamente, enquanto enfrentavam censura e perseguição.

Esse papel da arte na sociedade é um dos pontos destacados pelos professores de música e cantores Lelê Marchioli e Willian Moura. Para eles, a MPB revela a pluralidade cultural do país e permite compreender diferentes formas de viver, pensar e se relacionar. Na entrevista, a música é apresentada como uma forma de comunicação que pode manter ideias e experiências em circulação mesmo diante de tentativas de silenciamento.

“A música, a arte no geral, está neste lugar de comunicar, mesmo quando não se pode falar”, aponta Marchioli.

O contato com esse repertório também pode despertar o interesse pela história. Lelê Marchioli relata que começou a ouvir Elis Regina de maneira mais consciente por volta dos 11 ou 12 anos. A interpretação da cantora despertou a curiosidade sobre as canções e o contexto em que foram produzidas. A partir daí, a música se tornou uma porta de entrada para acontecimentos e discussões que nem sempre chegavam com a mesma profundidade à sala de aula.

Essa capacidade de conectar diferentes períodos ajuda a explicar por que canções antigas continuam encontrando espaço entre os jovens. Na avaliação dos professores, a música brasileira não se resume à imagem frequentemente associada à MPB, de uma voz acompanhada por violão. O repertório nacional reúne diferentes ritmos, influências e construções musicais, com síncopes e variações rítmicas que fazem parte de sua identidade.

A diversidade também aparece nas vozes que constroem a música contemporânea. Artistas como Anitta, Luedji Luna, Marina Sena e Kaê Gajajara representam diferentes caminhos de criação e expressão, enquanto ampliam a presença de mulheres e de outras perspectivas na produção musical brasileira. Para os professores, essas trajetórias ajudam a registrar questões do presente e a enfrentar silenciamentos que ultrapassam o campo artístico.

A música, portanto, não preserva apenas o passado, pois também documenta o tempo em que é criada. Cada geração encontra maneiras próprias de expressar suas experiências, incorporando referências anteriores e adicionando novas vozes à história cultural do país.

Entre influências e novas sonoridades

Essa relação entre o que já foi produzido e o que ainda está por vir também aparece no trabalho do produtor musical ZagouBeats. Sua formação na guitarra o aproximou de estilos brasileiros, como a Bossa Nova, e das construções harmônicas de artistas das décadas de 1950 e 1960. Mesmo em produções contemporâneas, essas referências continuam presentes.

Na avaliação do produtor, a influência da MPB ultrapassa os limites de um gênero musical específico. Elementos desenvolvidos por compositores brasileiros podem aparecer em trabalhos atuais, inclusive quando não são percebidos imediatamente pelo público. Como exemplo, ele cita Garota de Ipanema, de Tom Jobim, uma canção conhecida internacionalmente que apresenta uma construção harmônica complexa.

Para ZagouBeats, a criação musical é um processo contínuo: artistas recorrem ao que veio antes e transformam essas referências a partir de suas próprias experiências. A mistura entre elementos tradicionais e sonoridades atuais, nesse sentido, não representa um afastamento da música brasileira, mas uma maneira de mantê-la em movimento.

“Escutar MPB e filtrar os muitos elementos interessantes trazidos pelo estilo e filtrá-los com um olhar moderno serve para preservar e ao mesmo tempo inovar o vocabulário musical brasileiro”, explica.

As mudanças também envolvem as ferramentas disponíveis para produzir música. Computadores, programas de edição de áudio e tutoriais na internet facilitaram o acesso à composição, à gravação e à produção musical. Segundo o produtor, essa democratização permite que mais pessoas participem desses processos e tragam diferentes vivências para suas criações.

A circulação digital também modificou a relação dos jovens com repertórios de outras épocas. Nas redes sociais, canções antigas podem voltar a ganhar destaque por meio de vídeos, tendências e releituras. Edwin observa, por exemplo, a utilização da versão de “Jesus Cristo”, na voz de Maria Bethânia, em publicações de jovens. Para ele, esse encontro entre uma interpretação de outra época e as novas gerações cria oportunidades de aproximação entre públicos diferentes.

“Há uma beleza nisso, uma ponte orgânica que se constrói entre diferentes gerações”, afirma o cantor.

Os professores Lelê Marchioli e Willian Moura também percebem esse movimento. Eles citam o TikTok e as tendências digitais como caminhos para que artistas de décadas anteriores voltem a ser descobertos. Nomes como Arthur Verocai, Alcione e Milton Nascimento encontram novos ouvintes, inclusive quando aparecem em participações nas músicas de artistas mais jovens.

Para os professores, essas colaborações podem despertar a curiosidade de quem ainda não conhece a trajetória dos artistas convidados. Uma participação em uma música contemporânea, por exemplo, pode levar o ouvinte a procurar outras canções e descobrir a história de quem já influenciava a música brasileira muito antes de sua chegada.

A continuidade dessa relação também passa pelo ensino musical. Além de transmitir técnicas e conhecimentos, o contato com a música pode aproximar pessoas, estimular a expressão e fortalecer o sentimento de pertencimento. Os professores defendem que cantar e participar da cultura não devem ser vistos como privilégios de quem possui um talento considerado excepcional ou formação especializada. A música também se constrói no cotidiano, nas experiências coletivas e nas diferentes formas de expressão.

Essa dimensão reforça a ideia de que a música brasileira não é uma obra acabada, mas um processo de trocas. Como discutem os professores, a cultura recebe influências de diferentes lugares e também devolve novas criações ao mundo. A mistura de tradições europeias e africanas, entre tantas outras contribuições, faz parte dessa construção histórica.

Desafio de abrir espaço para novos artistas

Artistas se encontram para criar novos arranjos pensando na música brasileira. Foto: Millena Wessler, Arquivo Pessoal

Se as plataformas digitais ampliam as possibilidades de descobrir músicas, elas não resolvem todas as dificuldades de quem tenta viver da produção autoral. Para Edwin, artistas que desenvolvem trabalhos próprios e investem em composições cuidadosas ainda encontram obstáculos para conquistar visibilidade diante de nomes já consolidados e de uma indústria que nem sempre oferece espaço equivalente a diferentes propostas musicais.

O cantor recorda iniciativas que ajudaram a divulgar novos nomes da MPB, como a Musicoteca, que impulsionou artistas como Rubel, Cícero e Castello Branco no início da década de 2010. Na avaliação dele, projetos e plataformas capazes de apresentar novos trabalhos ao público são importantes para que a produção autoral encontre ouvintes.

“Não basta mais fazer música somente. É uma maré difícil de navegar”, afirma.

Em Joinville, Edwin destaca que há artistas produzindo e apresentando suas próprias músicas, mas que a divulgação continua sendo um desafio. A existência de novas canções, por si só, não garante que elas cheguem ao público. Por isso, ele defende que a valorização da música brasileira também depende das escolhas dos ouvintes.

Ouvir artistas que ainda não são conhecidos, comparecer a apresentações locais e compartilhar canções são atitudes que podem ajudar a ampliar o alcance desses trabalhos. O reconhecimento da produção musical também começa nas comunidades em que os artistas vivem e criam.

Para os professores, o ensino e os espaços de convivência musical contribuem para esse processo ao aproximar pessoas, incentivar a troca de repertórios e fortalecer a relação entre cultura e comunidade. Mais do que reproduzir técnicas, aprender música pode significar encontrar maneiras de se expressar e de se relacionar com os outros.

“A música é a arte de relacionar sons, né? E o nome já diz, relação, é a relação entre as pessoas”, diz Willian Moura.

Entre os discos que despertam lembranças, as composições que inspiram novas produções e as canções que encontram ouvintes nas redes sociais, a MPB continua se transformando. Seu repertório guarda experiências de outras épocas, mas não permanece preso a elas: cada nova interpretação e cada artista que incorpora essas referências acrescentam outros sentidos a uma história que segue sendo escrita.

Para Edwin, essa história também pode ser construída a partir da cena local. “A MPB tá viva em Joinville, acontecendo. Ajude-nos a colocar nossa cidade na história da Música Popular Brasileira, porque, entre nós, já estamos fazendo história.”

Você sabe por que o Dia da MPB é comemorado em 17 de outubro? A data homenageia Chiquinha Gonzaga, uma das pioneiras da música popular brasileira. Quer conhecer mais sobre sua história e contribuição para a música? Dê o play no áudio a seguir!

Nota de transparência: esta matéria contou com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT) na apuração dos fatos, assim como na revisão ortográfica e textual.

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Tags: Chiquinha Gonzaga Cultura Dia Nacional da Música Popular Brasileira Memórias MPB Música
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