Golpes digitais se intensificam no fim do ano e exigem atenção dos consumidores em Joinville
Com chegada da Black Friday e pagamento do 13º salário, criminosos exploram urgência e vínculos afetivos para aplicar fraudes
A chegada do fim de ano e o pagamento do 13º salário provocam um aumento expressivo nas transações financeiras no Brasil. No entanto, o período promocional de Black Friday e festas natalinas também atrai criminosos virtuais. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em julho de 2026, Santa Catarina lidera o ranking nacional com a maior taxa de estelionatos virtuais do país: são mais de 75 mil casos registrados (uma taxa de 917,3 ocorrências por 100 mil habitantes, quase quatro vezes superior à média brasileira).
Em nível nacional, o relatório Consumer Pulse da TransUnion, divulgado em dezembro de 2024, revela que 73% dos brasileiros temem ser vítimas de fraudes digitais durante as compras de fim de ano. Na semana da Black Friday, a criação de anúncios falsos em redes sociais e buscadores chega a disparar 147%, segundo a Serasa Experian, coincidindo justamente com a data limite de pagamento da primeira parcela do 13º salário. Além disso, a pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) aponta que o “golpe do WhatsApp” (falso parente solicitando dinheiro) é a segunda fraude mais frequente no país, afetando cerca de 34% das vítimas de tentativas de golpe.
Diante dessa onda de e-commerces clonados e links patrocinados falsos, a gerente do Procon de Joinville, Cristina Regina Casas Furtado Berger, faz um alerta direto aos consumidores sobre as armadilhas virtuais:
“Às vezes, a primeira loja que aparece na pesquisa do Google não é a loja oficial, é uma loja patrocinada […]. O fato de não ter o ‘.com.br’ já chama atenção porque muitas vezes não é um site confiável. Por mais que a Black Friday tenha descontos muito bons, milagre não existe. Se o preço está muito abaixo do comum ou diz ‘é só hoje’, desconfie. A forma mais segura de você comprar é através do aplicativo oficial da loja” — Cristina Regina Casas Furtado Berger, gerente do Procon de Joinville.
O Procon ressalta que, se o pagamento for realizado via Pix para um CNPJ de terceiros ou CPF sem endereço físico válido, o órgão municipal fica impossibilitado de notificar a empresa, orientando o encaminhamento do caso para a Delegacia Especializada em Golpes Virtuais da Polícia Civil. Além disso, nas compras presenciais em lojas físicas de Joinville, o órgão esclarece que não existe obrigação legal de troca por mero arrependimento ou insatisfação com o produto, ficando o prazo sujeito à política interna de cada estabelecimento.
A armadilha no WhatsApp
A aplicação prática dessas estatísticas é vista na história de Nadir Maria Caprini, de 62 anos, moradora do bairro Paranaguamirim em Joinville. Logo após ter quitado uma das parcelas do seu imóvel, ela recebeu uma ligação e mensagens no WhatsApp com a foto e a voz simulada de sua filha, pedindo R$ 1,8 mil com urgência, pois precisava pagar uma pêndencia financeira até o fim do dia. Por não dominar a ferramenta Pix no celular, Nadir pediu ajuda do seu sobrinho para fazer a transferência. Pouco depois, o criminoso solicitou mais R$ 500 por mensagem. Foi durante a tentativa de realizar essa segunda operação que o sistema de segurança do banco bloqueou a transação. O bloqueio levou o sobrinho a sugerir uma ligação para o número original da filha, que atendeu e negou ter feito qualquer pedido. “Na hora eu vi que era golpe e fiquei desesperada, porque era o dinheiro das minhas contas”, relembra Nadir.
Ao perceber a fraude, a Nadir foi imediatamente até a agência bancária, acompanhada de parentes, para dar início aos procedimentos formais de contestação. Após cerca de dez dias de tratativas e análise interna da instituição, o valor integral de R$ 1,8 mil foi reavido e devolvido à conta da vítima. A experiência serviu como um aprendizado de autodefesa, tempos depois, ao receber a ligação de um falso advogado cobrando R$ 800 para liberar valores de um processo judicial, Nadir contatou sua advogada real, desmascarou a fraude e impediu um novo prejuízo. “Agora estou esperta, ninguém mais me engana”, diz.
A psicologia e a neurociência por trás da fraude
A razão pela qual pessoas atentas e instruídas também caem no “golpe do falso filho” é explicada pela psicóloga clínica Isabele Fernandes, que atua na área de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A profissional detalha que ser vítima dessa engenharia social não é sinal de ingenuidade, mas sim o resultado de uma reação biológica automatizada do cérebro para proteger indivíduos com quem se possui forte vínculo afetivo. “Pessoas esclarecidas também caem porque o cérebro dispara uma resposta biológica de sobrevivência para proteger quem amamos”, explica a psicóloga.
Segundo Isabele, ao ouvir que um filho está sob suposta ameaça ou urgência, o cérebro ativa a amígdala e deflagra o eixo HPA (hipotálamo, hipófise e adrenal), liberando hormônios do estresse como o cortisol e a adrenalina. Essa inundação hormonal eleva os batimentos cardíacos e coloca o organismo em estado de “luta ou fuga”. Como consequência fisiológica dessa reação, o córtex pré-frontal, área responsável pela tomada de decisões racionais, clareza mental e análise crítica, fica temporariamente inibido. “Os criminosos se aproveitam dessa urgência para que a vítima não tenha tempo de raciocinar”, aponta a especialista.
Para desarmar essa armadilha biológica, a psicóloga orienta a adoção da pausa consciente: interromper a comunicação imediatamente ao receber pedidos urgentes de dinheiro, permitindo que o organismo retome o controle racional antes de checar as informações pelos canais oficiais. “A forma de prevenir é fazer uma pausa consciente: desligar o telefone por alguns minutos, baixar o nível de cortisol e checar a informação com calma”, orienta Isabele Fernandes.
📌 Serviço/ Guia prático prático
Passos para proteger suas contas e evitar fraudes:
• Aplique a pausa consciente: Ao receber chamadas ou mensagens exigindo Pix imediato, interrompa o contato. Dê a si mesmo alguns minutos para retomar o controle racional antes de acessar o aplicativo do banco.
• Confirme a identidade por outro canal: Ligue diretamente para o número tradicional do seu familiar ou do profissional (como seu advogado ou gerente de banco) antes de realizar qualquer pagamento. Nunca use o número enviado na mensagem suspeita.
• Confira os dados do destinatário: Na tela do Pix ou transferência, verifique o nome completo e o CPF/CNPJ. Desconfie de pagamentos direcionados a intermediadores genéricos ou pessoas físicas desconhecidas.
• Utilize aplicativos oficiais: Faça compras e movimentações diretamente nos aplicativos oficiais das instituições financeiras e lojas, evitando clicar em links de anúncios patrocinados.
• Agilidade em caso de fraude: Se for vítima de estelionato, contate a central do seu banco na mesma hora para solicitar o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix e registre o Boletim de Ocorrência na polícia.
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📞 Canais de apoio e denúncia em Joinville
• Procon de Joinville (CAC): Rua Doutor João Colin, 2719 – Bairro Santo Antônio | Atendimento: 151 ou (47) 3481-5240 | WhatsApp: (47) 98815-3195.
• Delegacia de Combate a Estelionatos (DCE Joinville): Rua Blumenau, 2103 – Bairro América | Telefone: (47) 3481-2309.
• Polícia Civil de SC: Disque Denúncia 181 | WhatsApp Denúncias: (48) 98844-0083.
Nota de transparência: ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio na revisão textual, organização da estrutura e adequação do conteúdo para busca. A apuração, seleção das informações, entrevistas, checagem e produção da reportagem foram realizadas pela autora.