Ginástica rítmica enfrenta desafios para ampliar acesso ao esporte
Custos da modalidade dificultam a permanência de atletas, enquanto iniciativas de incentivo buscam ampliar as oportunidades para meninas de diferentes realidades socioeconômicas.
A Associação de Ginástica Rítmica Desportiva de Joinville (Agrdj) conquistou o terceiro lugar na classificação geral da modalidade na 25ª edição da Olimpíada Estudantil Catarinense (Olesc). A equipe também conquistou medalhas nas provas de trio e conjunto de cinco bolas, além de premiações individuais.
Apesar dos resultados nas competições, a ginástica rítmica enfrenta desafios relacionados ao acesso e à permanência no esporte. A modalidade exige uma rotina intensa de treinamentos e investimentos em equipamentos, figurinos, deslocamentos e participação em competições. Os custos podem dificultar a continuidade de atletas cujas famílias não têm condições financeiras de arcar com todas as despesas.
A coordenadora e educadora física Vanessa Gualberto Hagemann destaca que a condição financeira das famílias influencia diretamente a participação das meninas na modalidade.
“A gente sabe que existem meninas com condição financeira e que os pais conseguem manter na modalidade, mas não é a realidade de todo mundo”, afirma.
Para auxiliar na permanência das atletas, a Agrdj conta com patrocínios, doações e iniciativas de incentivo esportivo. Entre elas, está a Bolsa Atleta, que, segundo a coordenadora, contribui para que as ginastas contempladas tenham condições de continuar treinando e participando de competições.
Vanessa ressalta a importância do auxílio financeiro para as meninas que enfrentam dificuldades para custear a prática esportiva.
“As ginastas conseguem esse auxílio da Bolsa Atleta, que é uma ajuda bem bacana e bem importante para as alunas que não conseguem se manter no esporte por falta de recurso financeiro”, comenta.
Além dos resultados nas competições, a ginástica rítmica também contribui para a formação pessoal das atletas. Júlia Dancoski, de 12 anos, que conquistou títulos na Olesc nas provas individual e de maças, relata como a modalidade influencia seu desenvolvimento.
“A ginástica me ensina a ser mais madura, principalmente nas viagens, e o esporte ensina a ter disciplina também”, conta a atleta.
A experiência das ginastas mostra que a prática esportiva envolve mais do que medalhas e resultados. Para que mais meninas tenham a oportunidade de desenvolver suas habilidades, é necessário ampliar as condições de acesso e permanência, especialmente para aquelas que enfrentam dificuldades financeiras.

(foto: Kethlyn Mariano/Primeira Pauta)
Entre treinos e conquistas: o caminho até a Seleção Brasileira
Aos 18 anos, Ana Luiza Franceschi de Souza, atleta Agrdj, soma 13 anos de dedicação à ginástica rítmica. Ao longo da trajetória, participou de competições estaduais, nacionais e internacionais e conquistou títulos importantes na modalidade. “A ginástica me ensinou a ter disciplina, responsabilidade, além de me aproximar de pessoas incríveis”, conta a atleta.
Em 2023, Ana Luiza foi convocada pela primeira vez para a Seleção Brasileira Júnior. No mesmo ano, participou do Campeonato Pan-Americano Júnior, realizado em Guadalajara, no México, onde conquistou três medalhas de ouro nas provas de Group All-Around, cinco bolas e cinco cordas.
Em maio de 2025, a ginasta estreou na categoria adulta em uma etapa da Copa do Mundo de Ginástica Rítmica. No mesmo ano, também conquistou o título de campeã brasileira, com medalhas de ouro nas provas de All-Around, cinco fitas e série mista.
Para Ana Luiza, os aprendizados proporcionados pela ginástica ultrapassam os resultados esportivos. A disciplina e a responsabilidade desenvolvidas ao longo dos treinos e das competições também fazem parte de sua formação pessoal.
(fotos: compartilhadas pela atleta)
O desafio de tornar o esporte acessível
A inclusão no esporte envolve mais do que a oportunidade de iniciar uma modalidade. Também depende das condições necessárias para que os atletas consigam continuar praticando e desenvolvendo suas habilidades.
O professor do Departamento de Educação Física e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Fábio Zoboli, destaca a importância das políticas públicas para ampliar o acesso ao esporte, independentemente das condições financeiras dos praticantes.
“O acesso ao esporte deve ser uma política pública. As condições socioeconômicas não deveriam ser um impedimento para a prática esportiva, porque é um direito constitucional”, afirma.
Fábio Zoboli, pesquisador
Na ginástica rítmica, os gastos com equipamentos, figurinos, treinamentos e viagens para competições podem dificultar a permanência de meninas de famílias com menos recursos financeiros. Nesse contexto, iniciativas de incentivo esportivo podem contribuir para ampliar as oportunidades de participação e reduzir as barreiras econômicas enfrentadas pelas atletas.
Zoboli também chama a atenção para a responsabilidade do poder público na construção de políticas que considerem as necessidades sociais da população. Para o pesquisador, a ampliação do acesso ao esporte exige consciência política e atenção às decisões que influenciam as oportunidades oferecidas à sociedade.
“Precisamos de consciência política, inclusive sobre a importância de representantes que pensem no lado social”, destaca.
Ampliar o acesso ao esporte exige, portanto, condições que permitam não apenas o ingresso em uma modalidade, mas também a continuidade da prática. Garantir essas oportunidades é fundamental para que crianças e adolescentes de diferentes realidades socioeconômicas possam desenvolver suas habilidades e participar do esporte.

( Foto: Kethlyn Mariano/Primeira Pauta)
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