A observação de aves tem ganhado espaço em Joinville e atraído cada vez mais apaixonados pela prática, que buscam o contato com a natureza, registram espécies e fortalecem o conhecimento sobre a fauna local.
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11 DE DEZEMBRO DE 2025
C onexão com a natureza. Isso sempre fez parte da vida de Rosi Rocha, que há 19 anos deixou a cidade litorânea do sul do estado de Santa Catarina, Imbituba, para viver na movimentada e industrial Joinville. Ela e seu esposo, acostumados com cidade pequena e calma, não conseguiram se adaptar ao movimento de um grande município, por isso, decidiram se afastar cada vez mais e procuraram lugares mais tranquilos e próximos da natureza. Primeiro na Estrada da Ilha, no distrito de Pirabeiraba. Depois, ainda mais distantes, no Quiriri, região rural de Joinville. Na chácara que mora, apesar de formada em gestão comercial há mais de 10 anos, hoje não atua mais na profissão; seus dias são dedicados ao cuidado da casa e dos animais, como os 19 cachorros que ela resgatou, além de cavalos, marrecos, gatos e “tudo o que você imagina, tem aqui”, segundo ela.
Desde que morava em frente à praia, já gostava de observar animais, como as baleias-francas e as garças, comuns no litoral. Ao mudar-se para o interior de Joinville, contudo, Rosi criou um grande comedouro e passou a focar mais nas aves, que naturalmente foram aparecendo no quintal de casa. “Quiriri é um paraíso. Eu sempre tive esse contato com a natureza e fui apaixonada por aves. Gosto de ficar observando a rotina delas, parar pra observar desde a época, como a de agora, em que estão atrás de parceiros, tem os ninhos, os filhotinhos… é incrível.”
Deixar a profissão foi uma escolha difícil, mas a rotina vale a pena. Segundo ela, por volta das sete da manhã, se ela demora a colocar alimento no comedouro, os pássaros chegam a bater no vidro da janela. “É incrível, eles acabam se acostumando. Todos os dias tem comida pra eles”, conta.
Como o lugar em que ela mora é em meio às árvores, ao verde e ao silêncio, acaba se tornando um destino natural para as aves da região. E foi ali, no quintal de casa, que Rosi começou a não só observar, mas também fotografar os pássaros. “A minha câmera já fica montada e pronta. Enquanto eu vou fazendo as coisas de casa, se vejo ou ouço um pássaro diferente, já corro pra dentro de casa e fotografo pela janela mesmo”, relata.
Com o tempo, esse hábito ganhou profundidade e função. Hoje, a atividade continua sendo um hobby, mas também faz parte de um esforço maior de ciência cidadã. Rosi alimenta seus registros no WeBird, plataforma mundial que reúne observações feitas por pessoas comuns e pesquisadores. Ali, cada foto e cada avistamento que ela insere ajuda a mapear a distribuição das espécies na região. “Tem muita ave que não é avistada há muito tempo, então alimentar essas páginas faz diferença”, avalia.
A observação de aves, antes apenas prazerosa, tornou-se também terapêutica. “Eu tenho ansiedade, ajuda bastante, porque é uma coisa em que eu consigo focar. Você aprende a ouvir os sons diferentes das aves. Eu tenho que ficar um tempo ali, vendo a rotina da ave, no silêncio, então tudo isso vai ajudando. Tem vezes que eu fico 30 ou 40 minutos pra tirar foto de apenas uma ave, então tem que ser bem paciente. Eu vou trabalhando muito isso, e é bem terapêutico, muito bom. É algo que faz a diferença.”
A mudança radical do urbano para o Quiriri transformou não apenas a rotina, mas também a forma como ela lida com o próprio ritmo.
Entre tantas cenas registradas ao longo dos anos, algumas experiências se tornaram marcantes. Foi em casa, no próprio quintal, que ela presenciou pela primeira vez o processo completo da construção de ninhos, desde o carregamento dos materiais, feito por aves minúsculas com força desproporcional ao tamanho, até a alimentação dos filhotes recém-nascidos. O caso do jacu, uma ave grande e imponente, ficou guardado na memória: “Tu vê o nascimento deles, bem pequenos, e depois eles enormes. É bem bacana. Tem a parte triste, tu vê muita morte também, mas é mágico todo o processo do nascimento.”



A partir da convivência com as aves, novos vínculos foram surgindo. Uma das vizinhas, Débora Jung, integrante do Clube de Observadores de Aves (COA), a convidou para participar do WeBird e das “passarinhadas” — encontros de observadores da região. Aos poucos, Rosi se envolveu com o grupo, tornou-se voluntária e passou a atuar também na área de comunicação do clube. “Todos os membros do COA são voluntários. Não é só tirar foto. Tem os projetos sociais, as ações com comunidades…” A integração com o coletivo ampliou a rede, os aprendizados e o sentido da prática.
A fotografia, que começou de forma intuitiva, ganhou técnica com o tempo. Primeiro, uma câmera pequena que já não dava conta da distância das aves. Depois, o presente do marido: uma câmera profissional, que exigiu um curso e muitas horas de experimentação. Os conhecimentos foram se acumulando com pesquisas, troca entre colegas e participação em grupos como o Observa Santa Catarina, de onde vieram amizades, dicas e identificação colaborativa de espécies. As redes sociais, no entanto, nunca foram prioridade, até que uma amiga insistiu para que ela criasse uma página. Surgiu, então, o “Quintal de Casa”, nome que reflete exatamente de onde vieram 90% das fotos: o pequeno mundo ao redor da própria janela.
Quando tenta resumir o que a observação de aves representa em sua vida, Rosi não hesita: paz. A palavra é dita com tranquilidade, como quem sente aquilo que descreve. “Desconecta. Desliga de tudo. Só você e aqueles barulhinhos… parece que está em outro mundo.” Nas passarinhadas, essa sensação se multiplica: entrar no mato, seguir o som das aves, caminhar entre folhas e troncos como quem atravessa uma fronteira invisível. “Indico muito que as pessoas façam. A observação de aves basta observar. Não precisa câmera, binóculos… é só estar ali. É fantástico.”
O caminho até o Rio do Júlio começou muito antes de Alexandre Reichel pisar pela primeira vez no território onde hoje ergue seu projeto de vida. Filho de família italiana do interior de São Paulo, criado entre vinhedos, mata e histórias contadas pelo avô, ele cresceu com a natureza como referência de mundo. Formou-se engenheiro agrônomo em Piracicaba, na tradicional Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), e desde cedo se aproximou de temas como agroecologia, sistemas agroflorestais e apicultura. Mas não imaginava que todo esse percurso o conduziria, anos depois, à pequena comunidade rural de Joinville, e às aves.
A propriedade onde vive pertenceu ao avô, que nos anos 1960 comprou a área de antigos donos da Malharia Centauro, comandada por Henrique Meyer — nome hoje estampado em uma rua central de Joinville. Por décadas, o local foi uma fazenda de gado leiteiro. Após a morte do avô, a área passou por divisões entre herdeiros até que, em certo momento, a parte destinada à mãe de Alexandre precisava de cuidado e alguém de confiança. Ele aceitou o desafio e encontrou ali uma oportunidade rara para criar algo próprio.
Chegou, ainda recém-formado, a uma casa abandonada cercada apenas por pastagens. Com o clima úmido, a geada no inverno e a vegetação densa da Mata Atlântica, tudo era diferente do interior paulista. “Eu precisava entender esse lugar”, lembra. Começou restaurando a antiga casa de madeira, depois plantou as primeiras espécies adaptadas ao ambiente. As agroflorestas vieram em seguida, acompanhadas de abelhas, erva-mate, cúrcuma, frutas nativas e inúmeras plantas que juntas formam o que ele chama de “floresta de comida”. Ao longo dos anos, tornou-se referência local no manejo agroecológico e na recuperação de áreas de mata ciliar, especialmente às margens do Rio do Júlio, que nasce dentro da floresta e ali encontra sua primeira área aberta.
A casa grande, de dois andares, estrutura histórica e imersa na paisagem, virou também pousada. Segundo ele, a casa era muito grande para viver sozinho. Então hóspedes de vários lugares chegam para descansar, viver o ambiente rural e, mais recentemente, observar pássaros. Essa vertente do turismo nasceu quase por acaso. Há cerca de dois anos, a Associação de Turismo Rural de Joinville (Aterj), da qual Alexandre já fazia parte, apresentou a propriedade ao Clube de Observadores de Aves (COA). Na época, o COA ainda não era formalizado, mas já reunia entusiastas e guias. Luiz Alves e Vinicius Ferreira — hoje guia oficial — visitaram o local, e depois disso foram instalaram comedouros para a chegada dos pássaros com mais facilidade.
“Foi amor à primeira vista”, resume Alexandre. A paisagem encaixava perfeitamente com o olhar atento dos observadores. A partir daí, as aves deixaram de ser apenas presença constante na propriedade e se tornaram parte essencial do projeto. Atualmente, mais de 230 espécies diferentes já foram registradas ali, um número impressionante para uma área de 14 hectares. Tucanos, pica-paus, jacus, beija-flores, gaviões, saíras, tiribas, tiês e espécies raras circulam diariamente entre árvores frutíferas, agroflorestas, cursos d’água e áreas de mata preservada.
A relação de Alexandre com as aves, porém, não nasceu com a chegada dos observadores. Vem de muito antes. Ele conta que cresceu entre quadros pintados pelo avô, alguns retratando pássaros que, por anos, ele acreditou serem imaginários, até descobrir, já adulto, que eram pica-paus reais, exatamente como estavam no quadro. “Essas coisas já estavam em mim”, diz. Mas foi ao assumir a propriedade e viver cercado pela biodiversidade que algo despertou de vez: o desejo de identificar espécies, entender comportamentos, conhecer o habitat de cada ave. A observação ganhou força quando ele passou a fotografar, inicialmente para registrar as plantas das agroflorestas. Depois vieram os pássaros, e a atenção mudou de escala. Hoje, observa com rigor científico, mas com encantamento de criança. É comum que, enquanto trabalha na propriedade, se distraia ao ouvir um canto diferente e pare para observar.
Dentre tantas histórias, a mais recente aconteceu longe dali, num manguezal no Pará. Em visita ao pai, Alexandre passou horas com a água na cintura, atolado até os joelhos na lama, observando caranguejos saírem dos buracos. A luz forte, o silêncio do mangue e a paciência do momento prepararam o cenário para algo inesperado: um martim-pescador pousou ao lado dele e começou a pescar. Depois, acompanhou Alexandre por um trecho do mangue, mergulhando, voltando e se exibindo a poucos metros de distância. “Eu sempre fui vidrado, porque aqui (em Joinville) é difícil de eu conseguir ver assim”, conta.
O martim-pescador voltou a cruzar seu caminho no dia seguinte, já em casa. Ao atravessar o rio com o cachorro, viu o pássaro mergulhar ao lado dele, dar a volta e subir de volta ao galho. “Nunca tinha acontecido isso aqui. Foi uma coisa bem legal, que acabou marcando”, diz. Não tirou foto — e não precisava. “Às vezes, a maior experiência não está na câmera, está naquele momento que ninguém entende, porque foi você que viveu. Essa é a primeira vez que estou contando isso.” E ainda complementa: “é isso que eu quero que as pessoas também possam experimentar aqui na propriedade.”
Para ele, a observação de aves pode ser terapêutica, mas depende da forma como cada pessoa vive. Na própria rotina, alterna momentos de grupo e momentos de silêncio absoluto, em que prefere ficar sozinho, imóvel, deixando o ambiente revelar seus habitantes. São nesses instantes que a natureza o atravessa com mais força: “É ali que você enxerga o hábito das aves, o que comem, como se comportam. Ali acontecem as interações.”
Entre hóspedes, voluntários de vários países, guias, pesquisadores e famílias que chegam pela curiosidade, Alexandre enxerga seu papel mais amplo: conectar pessoas à natureza que muitas vezes passa despercebida. Acredita que a observação é uma oportunidade para devolver às crianças e claro, aos adultos, uma relação perdida com o ambiente natural. E insiste na importância da arborização urbana, da preservação e do uso de espécies nativas para que as cidades tenham mais vida, sombra e, claro, mais pássaros.
Para o futuro, planeja criar um “jardim dos beija-flores”, atraindo diferentes espécies da Mata Atlântica para a frente da casa. Pretende também continuar expandindo o turismo de observação, não apenas como renda, mas como ferramenta de preservação. Alexandre levantou o questionamento de por que o produtor vai derrubar a floresta, se ganha com ela em pé, a partir da visitação para conhecer a fauna e a flora? “Ele pensa duas vezes antes de derrubar”, diz.
Nada disso seria possível sem a sensibilidade que o próprio ambiente desperta nele e nas pessoas que passam por ali. “A observação atrai quem tem essa sensibilidade”, afirma. E, ao mesmo tempo, transforma quem ainda não tem.
Os sons de aves da região, logo abaixo, não substituem a experiência real, mas trazem um pedacinho do encanto que é observar e se deixar envolver pelo ambiente ao redor
As histórias de Rosi e Alexandre mostram como a observação de aves ultrapassa o simples ato de registrar espécies. Para compreender por que essa atividade produz efeitos emocionais tão evidentes, o psicólogo Vinícius Corrêa, pós-graduado em logoterapia e análise existencial, explica como a prática se relaciona com os caminhos do sentido da vida descritos por Viktor Frankl.
Segundo Corrêa, a experiência que os dois relatam tem ligação direta com os três valores pelos quais, de acordo com Frankl, encontramos sentido: os atitudinais, os vivenciais e os criativos. Ele observa que, nesse caso, os valores atitudinais — relacionados à forma como lidamos com o sofrimento — “não se aplicam muito bem”. Mas os vivenciais e criativos aparecem de forma clara nos relatos dos observadores.
O psicólogo explica que os valores vivenciais dizem respeito ao que a pessoa experimenta: “É tudo aquilo que a gente vivencia, seja no encontro com uma pessoa que a gente ama, uma pessoa que a gente gosta ou conhecendo uma pessoa nova.” Segundo ele, esse valor também envolve o contato com “o bom, o belo e o verdadeiro”, como a natureza, a arte e a música. Para Corrêa, tanto Rosi quanto Alexandre encontram sentido justamente por terem essa habilidade de contemplar a natureza, o que há por trás dela e “se permitir fazer parte desse quadro”. Esse sentido não é um sentido único para a vida, mas que cada momento, cada situação traz um sentido diferente.
Já os valores criativos — ligados àquilo que se produz ou ao trabalho que se realiza — também aparecem na trajetória dos dois. No caso de Rosi, o psicólogo destaca que, a partir da vivência com a natureza e com as aves, ela desenvolveu carinho pelos animais, com um trabalho de cuidado com bichos perdidos. “Esse trabalho dá também sentido para a vida dela”, afirma. Vinícius ressalta ainda a autotranscendência, conceito central da logoterapia, que envolve a capacidade de se colocar à disposição do outro. “É isso que ela faz, ela dedica a vida dela em função de outros seres”, diz, ao dedicar parte da vida ao cuidado de cavalos, cães, aves e outros animais. Esse é o valor criativo.
Sobre Alexandre, o psicólogo aponta que ele vivencia tanto o valor vivencial quanto o criativo. Ele observa que Alexandre encontra sentido na natureza e também na arte, especialmente na relação com o quadro do avô — uma memória que se torna ponto de encontro entre passado e presente. E explica que a experiência criativa aparece quando ele transforma esse vínculo em trabalho, ao criar a pousada: “Esse trabalho permite a outras pessoas terem a mesma experiência que ele”, afirma.
Corrêa observa que, para ambos, esses elementos não são o único fator de sentido na vida, mas possuem força emocional capaz de oferecer equilíbrio, aprendizado e até cura. A prática também pode ter efeito terapêutico — não no sentido tradicional de terapia, como ele frisa, mas pelo fato de que, na logoterapia, “a terapia em si é caminhar para o sentido”. Assim, qualquer atividade que traga sentido tem potencial de cura e o poder de dar ânimo à vida
Ele exemplifica com o hábito de Alexandre de ficar em silêncio, aguardando as aves: um momento de contemplação que organiza pensamentos e emoções. Sobre Rosi, lembra que ela própria conecta a observação de aves ao manejo da ansiedade, usando o contato com os animais e com a chácara como recurso de bem-estar. “A experiência concreta é o que leva à cura”, ressalta o psicólogo, afirmando que práticas como essa podem ter sido determinantes em algum momento da vida dos dois, mesmo que eles não mencionem diretamente.
Por fim, de acordo com o psicólogo Vinícius Corrêa, a observação de aves é terapêutica porque “traz cura”, ainda que a pessoa não esteja adoecida. A experiência de presença, silêncio e contemplação, junto ao contato com a beleza da natureza, pode oferecer reorganização emocional e favorecer a descoberta de sentidos que sustentam a vida cotidiana.
Quando a curiosidade de quem observa começa a se aprofundar, é comum que surja o desejo de compartilhar descobertas e aprender com outras pessoas. Em Joinville, esse movimento coletivo ganhou forma com o COA, que nasceu justamente para acolher e orientar quem queria entender melhor o mundo das aves.
A história do COA, (Clube de Observadores de Aves) de Joinville, começou quando moradores da cidade passaram a procurar o biólogo Alexandre Grose em busca de alguém que os guiasse nas primeiras experiências de observação. Ele já tinha livros, artigos e trabalhos técnicos publicados e, por isso, era frequentemente procurado por pessoas que queriam aprender mais sobre as aves da região.
A iniciativa ganhou forma em 2012, quando o grupo decidiu oficializar as atividades. Desde o início, a intenção era criar um espaço de encontro que tirasse as pessoas da rotina, aproximando-as da natureza e ampliando o conhecimento sobre a fauna local. A prática já tinha força em outros países, como a tradicional Bird Fair de Londres, mas ainda era pouco conhecida em Joinville. Ao longo dos anos, o COA passou por momentos de maior e menor atividade, especialmente durante a pandemia, mas hoje vive um período de expansão.
Alexandre Grose, presidente do COA explica que a missão central do grupo é cuidar dos ambientes naturais por meio da observação das aves. Para que elas permaneçam em vida livre, é preciso manter áreas preservadas, e o clube atua diretamente nesse processo. As ações incluem mutirões de limpeza, apoio a projetos de educação ambiental, produção de conteúdos informativos e participação em conselhos municipais que discutem o uso do território. O grupo também busca cobrar melhorias e proteger áreas naturais da cidade, além de incentivar a criação de novos parques e reservas.
Desde 2012, o crescimento é visível. O grupo de WhatsApp já reúne mais de cem participantes e, nos últimos anos, o COA recebeu apoio da Prefeitura por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, que reconhece a observação de aves como um segmento importante do turismo. O clube produziu materiais, ampliou as saídas de observações e realizou recentemente um festival com mais de seiscentas pessoas inscritas. O aumento do interesse público contribuiu para que mais áreas fossem exploradas e mostrou o potencial de Joinville como destino para observadores.
As passarinhadas, que são as saídas para observar aves, acontecem mensalmente e incluem atividades abertas ao público. Há grupos específicos, como o Elas Passarinham, voltado para mulheres, e o Todos Passarinham, com encontros em diferentes pontos da cidade. Também existem passarinhadas mais elaboradas, que acontecem fora do município e dependem de adesão. O calendário de atividades fixas já está definido e novas saídas para outras regiões estão sendo organizadas.
Entre os eventos realizados ao longo do ano, o Festival de Aves se tornou o principal. Além dele, o COA participa de iniciativas como a Semana Lixo Zero, ações do Comar e atividades da associação Menino Caranguejo. Em 2024, o clube realizou o primeiro concurso de fotografia de aves, que atraiu mais de 100 inscritos e grande participação do público. O resultado foi apresentado durante o festival e o grupo ainda avalia se a próxima edição terá abrangência nacional ou manterá o foco regional.
Joinville já contabiliza 490 espécies de aves registradas e a expectativa é alcançar o número de 500 em breve. O município reúne cerca de 75% das espécies de Santa Catarina e está entre as cidades mais ricas do país em diversidade de aves. Algumas delas são raras ou difíceis de observar, como o Guará, a coruja-preta, a maria-catarinense, a bicudinha-do-brejo e a saíra-sapucaia. Alexandre comenta que a presença dessas espécies motiva observadores de outras cidades a visitar Joinville.
Para ele, a observação de aves provoca um forte impacto na sensibilização ambiental. Muitas pessoas imaginam que existem poucas espécies na região, mas se surpreendem ao descobrir a diversidade local. Com o tempo, desenvolvem um olhar mais atento para a vegetação e para a fauna como um todo. Quando percebem que o Brasil é o país mais biodiverso do planeta, passam a compreender e valorizar a importância da preservação, disse o biólogo, presidente do COA. Poderíamos destacar essa fala dele, né?
A relação de Alexandre com as aves vem da formação em Biologia. Desde a graduação ele se interessou pelo tema e seguiu carreira acadêmica na área, com mestrado, doutorado e pós-doutorado. Uma das suas espécies favoritas é o Guará, que estudou durante cinco anos. A coloração vermelha, que depende da alimentação baseada em caranguejo, e o comportamento de viver em colônias tornam a espécie marcante. Segundo ele, é uma ave belíssima e especial.
Para quem nunca participou de uma observação, Alexandre afirma que é possível começar pela própria casa. Colocar uma fruta no quintal ou na sacada já atrai algumas espécies e a curiosidade costuma crescer a partir daí. Ele comenta que a região é rica e convida quem tiver interesse a acompanhar as atividades do COA nas redes sociais.
Luiz Alves, fotógrafo de aves, começou sua trajetória em 2020, durante a pandemia. Com a maioria dos lugares fechados e a necessidade de permanecer próximo de casa, começou a pesquisar atividades relacionadas à fotografia. Foi então que descobriu o Coama (Clube dos Observadores de Aves da Mata Atlântica). Curiosamente, a sede do local ficava a menos de um quilômetro de sua residência. Na primeira visita, ficou maravilhado ao ver pássaros que, mesmo hoje sabendo que são comuns, ele nem imaginava que existiam. A diversidade e comportamentos o encantaram profundamente. Desde aquele momento, percebeu que esse seria um caminho sem volta!
A partir de então, começou a explorar novos locais em busca de aves, iniciando uma “caçada” (no bom sentido) para registrar e fotografar as espécies, criando sua lista pessoal. Hoje, ele e sua esposa, que também se juntou nas aventuras, além de familiares, ficam encantados ao descobrir aves diferentes que antes passavam despercebidas em suas propriedades.
“Cada observador de aves tem seu estilo”, conta. “Existem câmeras compactas com zoom de longo alcance, e outros modelos que seriam o corpo+lente. Aí para decidir o modelo específico tudo depende do investimento que a pessoa está disposta, mas o mercado de usados é uma boa opção para esses equipamentos. Muitos observadores utilizam binóculos, outros utilizam apenas uma caderneta para anotar a espécie avistada, outros utilizam aplicativos para fazer listas de espécies, e por aí vai.”
Ele afirma que a fotografia é uma grande aliada na conservação das espécies, pois hoje em dia com o alcance da internet, é possível mostrar ao mundo as belezas das espécies da fauna e flora e com isso sensibilizar as pessoas a quererem preservar as áreas verdes.
“Conheço inclusive ex-gaioleiros que foram sensibilizados com a observação de aves e hoje em dia tem o prazer de ver diversos tipos de aves livres e soltas em seus quintais”, completa.
Além disso, quando você começa a observar as aves, também percebe que não existe só “pardal e canário” ao redor. Com isso, começa a entender que determinadas espécies dependem de ambientes preservados, de um tipo de alimentação, de determinadas plantas, insetos e anfíbios. As aves dependem de uma cadeia alimentar para sobreviverem, desempenhando diferentes papéis nos ecossistemas.
Veja a seguir um guia resumido de como fotografar aves e ajudar na conservação das espécies:
Enquanto observadores de aves se reúnem para admirar a liberdade e o colorido da fauna catarinense, existe um cenário paralelo que revela a fragilidade dessa mesma vida silvestre. Por trás das lentes e binóculos do Clube de Observadores de Aves (COA), ecoam as consequências do tráfico de animais, uma prática que continua retirando milhares de pássaros do ambiente natural todos os anos.
Segundo dados do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), o estado registra cerca de 1,5 mil apreensões de aves por ano. Os números mostram não apenas a dimensão do problema, mas também o esforço constante de órgãos ambientais e forças de segurança para conter o comércio ilegal. As operações, explicam especialistas do IMA, acontecem principalmente a partir de denúncias anônimas e em parceria com instituições como Polícia Militar Ambiental, Polícia Civil, Polícia Federal, Ibama e polícias municipais.
Apesar das apreensões, o principal desafio, segundo o IMA, está na destinação das aves. Muitas chegam debilitadas, feridas ou já domesticadas, impossibilitadas de retornar à natureza. Cada gaiola apreendida simboliza uma vida interrompida, e a dificuldade em reabilitar esses animais reforça a urgência em combater o tráfico.
O tráfico de aves é crime previsto pela Lei nº 9.605/1998, que prevê até um ano de detenção e multa para quem captura, mantém ou comercializa espécies silvestres sem autorização. As penalidades são ainda mais severas quando se trata de animais ameaçados de extinção.
Nesse cenário, a participação da população é essencial. O IMA mantém um canal de denúncias online, acessível pelo site oficial do órgão, onde qualquer pessoa pode relatar casos de tráfico ou cativeiro ilegal. Cada denúncia contribui para proteger as aves que encantam os observadores e, em liberdade, mantêm o equilíbrio ecológico e a beleza natural de Santa Catarina.
Abaixo, confira as principais espécies apreendidas no estado
A observação de aves é uma prática que desperta interesse em muitas pessoas, mas que nem sempre é fácil de imaginar como funciona. Para quem tem curiosidade sobre como é uma saída em campo, reunimos uma experiência virtual conduzida pelo observador Vinícius Ferreira.
No vídeo, ele nos mostra um pouco mais da dinâmica de observação e comenta algumas características das espécies encontradas durante a saída realizada na área rural do bairro Vila Nova.
Primeira Pauta é o jornal-laboratório produzido pelos estudantes do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc.
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