
Papel da imprensa em risco
Faca de dois gumes
As trajetórias do jornalismo e do poder político são confundidas, entrelaçadas e simultaneamente contaminadas. Dinheiro compra máquinas de escrever e computadores, câmeras fotográficas e celulares. E dá também insumos ao poder e à visibilidade, sejam de personalidades ou de pautas. A relação entre imprensa e poder político não é novidade, mas a questão é que, assim como em todo relacionamento, se há conflitos, “discutir a relação” às vezes não é suficiente.
O professor Mauro César Silveira, graduado em Jornalismo Gráfico e Audiovisual e doutor em História, contextualiza que o exercício do jornalismo nasceu nos âmbitos do poder. Política e jornalismo andaram de mãos dadas por tanto tempo que a união virou nó e suas origens tornaram-se uma só coisa. Dos trechos de diários imperiais em jornais como Diário de Pernambuco (1823) e Jornal do Comércio (1827) até ao dinheiro oficial para financiamento de jornais em escala industrial. Jornalismo precisa de insumos para noticiar, mas o meio político achou, nessa brecha, mais uma forma de controlar a produção.
No primeiro dia de 2019, jornalistas sentiram na pele os reflexos de uma briga de bastidores, ou seja, do cenário eleitoral. Mônica Bergamo e os demais profissionais presentes na cobertura da posse presidencial experimentaram “um dia de cão”. Jornalistas não tiveram acesso livre ao salão nobre do Palácio do Planalto, onde o presidente subiu a rampa, deu posse aos seus ministros e recebeu cumprimentos de autoridades internacionais. Os fotógrafos não deveriam erguer suas máquinas, pois qualquer movimento suspeito poderia levar um atirador de elite a abater o “alvo”. No sentido literal, perigoso, e numa leitura mais profunda, a evidência de uma relação declaradamente conflituosa.
Flashes de outros momentos ocuparam espaço no relato da jornalista publicado no dia primeiro de janeiro em sua coluna online na Folha de S. Paulo. Paridade que instiga quem presenciou diferentes posses e vislumbrou possibilidades de uma convivência estável ou ao menos sem ameaçar fotógrafos. “Na posse de Lula, em 2003, repórteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de Fernando Henrique Cardoso, misturando-se entre a equipe recém-empossada e a que deixava o governo. Um dos repórteres lembrava, no ônibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de segurança. A colunista chegou a entrar em salas privadas com o então vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de Dilma Rousseff, em 2014”, escreveu a jornalista.
Em poucos caracteres, Mônica evidenciava a pequena fatia de amenidade e o restante do bolo sabor autoritarismo e o mesmo comportamento indelicado permanece firme e forte. No dia 16 de maio, em uma passagem por Dallas, Bolsonaro foi homenageado como “personalidade do ano pela Câmara do Comércio Brasil – Estados Unidos”. Mas, a índole “admirável” nos negócios não é a mesma para a imprensa. Em uma coletiva ainda nesta viagem, o presidente sugeriu a uma repórter da Folha de S. Paulo para voltar a uma “faculdade que preste” e fazer “um bom jornalismo”. A profissional havia questionado o presidente sobre o perfil das universidades brasileiras mencionadas por ele como figuras importantes na pesquisa acadêmica do Brasil.
Ecos da austeridade
A rotina de insultos, agressões e ameaças que agora fazem parte do protocolo para exercício do jornalismo reverbera do centro do Planalto até nas prefeituras. O radialista Ilton Santos, que coordena o “É de Lascar”, programa da rádio comunitária Liberdade FM de Morrinhos (CE), recebe ameaças desde 2017. O programa traz reivindicações e discute temas relacionados à administração pública.
Em maio deste ano, durante a reabertura do Hospital Municipal de Morrinhos, o ex–prefeito Airton Bruno (PSDB) dirigiu as seguintes palavras ao trabalho do radialista: “Um dia eu posso topar ele no meio da rua e aí eu quero saber a chibata que vai dar. Vai dar chibata. Já não deu por causa do Carlos Bruno (filho do ex-prefeito), que pegou no braço e me disse ‘papai, não faça isso’, mas eu não estou mais suportando. Aqueles dentes dele serão substituídos. Eu estou aborrecido com esse cara. Pra mim, esse cara, eu tenho que dar um jeito nele”.
Essa não foi a primeira vez que Ilton foi ameaçado. No dia 13 de abril de 2018, enquanto noticiava os problemas decorrentes de uma enchente no município, a secretária de ação governamental, Aimee Peixoto Bruno, entrou no estúdio acompanhada de um homem. A secretária, filha do atual prefeito Carlos Bruno (PSDB), acusou Santos de estar mentindo e exigiu que os equipamentos da rádio fossem desligados. Após a recusa do radialista, ela deixou o prédio. No mesmo dia, Santos recebeu mensagens dizendo para “tomar cuidado com sua vida”.
O status de figura representativa dos políticos não é mero discurso. O comportamento hostil por parte de líderes ecoa até seguidores e/ou eleitores. No dia 6 de maio deste ano, o carro da equipe de reportagem da TV Vitória, afiliada da Rede Record, foi incendiado na Avenida Marechal Campos, na cidade de Maruípe, em Vitória. A repórter Talita Carvalho e o cinegrafista Willian Obrien estavam na Delegacia Patrimonial da Polícia Civil na Avenida Marechal Campos e o carro estava estacionado em uma rua lateral. Talita ouviu de testemunhas que três indivíduos colocaram explosivos debaixo do carro e saíram correndo e rindo. O fogo logo se espalhou e destruiu objetos pessoais e documentos.
Os fins justificam os conflitos
Em 1532, o ineditismo alcançava a ação política e a moral cristã com o livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. Benedetto Croce, filósofo, historiador e político resumiu a filosofia de Maquiavel: “a política não se faz com água-benta”. O livro evidencia duas éticas: a cristã, “útil para salvar a alma. E a política, útil para salvar o Estado (ser mal quando necessário, mentir quando a situação exigir, parecer bom e piedoso)”.*
Ainda temos vislumbres da filosofia do século XVI, em que negócios e interesses são, na maioria das vezes, subsídios para conflitos. O professor Mauro César Silveira, graduado em Jornalismo e doutor em História, confirma a relação de altos e baixos. Mauro César contextualiza que o exercício do jornalismo nasceu nos âmbitos do poder e seu primeiro ponto foi ainda na decisão em qual data comemoraria o Dia da Imprensa. No dia 10 de setembro de 1808, na primeira circulação da Gazeta do Rio de Janeiro, um periódico da corte portuguesa, se instituiu o Dia da Imprensa. Sob a proteção de D. João VI, as publicações tinham alicerces estritamente oficiais. Embora a imprensa já tivesse nascido oficialmente no Brasil no dia 13 de maio, com a criação da Imprensa Régia, seu início foi marcado pela primeira edição do periódico.
Ao publicar no dia 1º de junho, o primeiro exemplar do Correio Braziliense, Hipólito José da Costa, fundador do Correio, iniciou as publicações também em 1808, mas era um jornal clandestino. Só em 1999 foi oficialmente reconhecido esse fato, e, por meio da lei 9831/99, criada pelo deputado Nelson Marchezan e sancionada pelo governo FHC, fixou a mudança do Dia da Imprensa para 1º de junho.
O professor Mauro César destaca que ainda no período Imperial, datando entre 1821 e 1823, os jornais foram palco de disputa política. Armados com dinheiro, financiavam os veículos com o objetivo de ascender no meio oficial de poder. “A questão dessa relação é que, quando existem as oscilações entre meios de comunicação e políticos, quem sofre as consequências é o público consumidor”, reflete. Alguns nomes como José da Silva Lisboa, José Bonifácio de Andrade e Silva e João Batista de Queiroz são os que se lançaram na carreira de falsos filantropos dedicados à comunicação.
Ainda depois da independência, com partes dos diários imperiais transcritos em jornais como Diário de Pernambuco (1823) e Jornal do Comércio (1827), somadas as edições e intervenções de políticos nas publicações do periódico, a profissão do jornalismo era sentenciada às algemas do poder político. A partir desse momento, confundia-se a história do jornalismo com a do poder. Exemplo foi Francisco Otaviano, bacharel em Direito pela USP (Universidade de São Paulo) e atuava também como jornalista. Em 1847, era diretor do Jornal do Comércio e Correio Mercantil. Dividia as redações com o gabinete de secretário do Instituto da Ordem dos Advogados, cargo que exerceu por nove anos; foi também deputado geral em 1852 e senador em 1867. Como jornalista, apoiou as campanhas do Partido Liberal e tomou parte na elaboração da Lei do Ventre Livre, em 1871.
Já no século XX, os veículos de comunicação de escala industrial, os jornais de maiores tiragens tinham dificuldades técnicas, ou seja, poucos e não suficientes equipamentos. Por isso, a verba política se travestiu de apoio e comprou insumos e poder. A partir desse dinheiro oficial, os jornais cresceram, mas nas rédeas dos seus “patrocinadores”. O controle de informações e pautas ficou ainda maior nos anos 30, quando ainda se mantinha esse custeio. Porém, com um adendo: a publicidade. Os anúncios também tinham força nas redações. O jornalista e professor Mauro César afirma que na maioria dos grandes meios de comunicação, essas tradições de financiamentos permanecem até hoje, E quando há divergências do provedor e subsidiário, o sangue da luta respinga nos consumidores.
Belos, retraídos e persistentes
O ranking da RSF (Repórteres Sem Fronteiras) avalia a situação do jornalismo anualmente em 180 países e territórios. Esse acompanhamento revela as consequências da inimizade contra os jornalistas, em muitos países, propagada por lideranças políticas; todo esse ciclo resultou em atos de violência graves e frequentes. Apenas 24% dos países e territórios mapeados pela iniciativa têm uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”. No ano passado, a porcentagem era de 26%.
O Brasil ocupa atualmente a centésima quinta posição do ranking (descendo três posições em relação ao ano passado). A imprensa é alvo de hostilidade desde a campanha eleitoral. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou mais de 120 agressões a comunicadores em contextos político-partidário e eleitoral em 2018. As agressões são tanto físicas quanto em meios digitais. Foram 64 ocorrências de assédio online contra jornalistas durante a cobertura das eleições, além de 59 vítimas de atentados físicos.
Da raposa herdamos o sentido astuto, engenhoso e também a atenção ao nosso redor. E quando somos perseguidos pelos caçadores? Na realidade mais próxima, estes vestem terno, gravata, o seu reino é o Planalto e sua arma é o poder. O jornalista e doutor em Ciências da Comunicação, também presidente da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rogério Christofoletti, pondera sobre os dois lados da relação nada amistosa, destacando o trivial lembrete de que o Planalto não tem obrigação de seguir um código de ética do jornalismo, mas, poderia agir com impessoalidade, equilíbrio e sensatez. “O povo tem direito à informação, e os jornalistas são os profissionais que trabalham para satisfazer esse direito. Assim, o Planalto deveria oferecer as condições de acesso dos jornalistas às informações”, justifica.
Mesmo que a transparência seja o acesso legal às informações, assim como nas grandes utopias, essa “nitidez” não é efetiva. Para reverter esse movimento de contrariedade à clareza, o jornalista assinala que os profissionais da comunicação deveriam relatar o que acontece. “É praxe uma lua-de-mel entre a imprensa e o governo nos primeiros meses. Desta vez, não. O jornalismo deveria morder os calcanhares do poder. Felizmente, isso já vem acontecendo”, completa. Ele avalia que o tratamento aos jornalistas na posse do presidente Bolsonaro, por exemplo, foi apenas uma reduzida amostra de como o relacionamento entre o governo e repórteres não será “afável e sereno”. O cenário da caça, nesse momento, é conveniente. O jornalista analisa a postura de Jair Bolsonaro e seus parlamentares: “Era para ser uma festa e não se deve destratar ninguém numa festa, ainda mais quem vai noticiar o evento”.
Selecionamos três momentos da história brasileira em que houve tensão entre a imprensa e o poder político. Os trechos foram retirados do livro “Notícias do Planalto”, de Mario Sergio Conti e em pesquisas online:
Popularização de redes sociais produz efeito na relação entre jornalistas e público
Um estudo realizado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) mostra que entre 18 de setembro e 2 de outubro de 2018 foram postados 945,3 mil tuítes que abordaram a cobertura da imprensa em relação às eleições. Os comentários partidaristas, ideológicos, que criticam o exercício da profissão de jornalista e os de ódio – um compilado de todos esses tipos, dispostos no Twitter, Facebook e Instagram remontam o cenário de uma roda viva; mas num ambiente e contexto diferentes, onde ninguém sai íntegro e muito menos inocentado.
Rogério Christofoletti aponta que esse comportamento do público é, até certo ponto, positivo, pois os consumidores podem fazer queixas relevante ao jornalismo e aos jornalistas. Para ele, a expansão desses meios de comunicação não apenas amplia as vozes comuns, mas também permite viabilizar uma efetiva comunicação entre consumidores e jornalistas. “O público precisa ser agressivo e violento? Claro que não. A melhor forma não é essa. A melhor forma me parece ser dialogar com franqueza e respeito. Muita franqueza ajuda a apresentar os pontos de vista sem melindres, o que ajuda a lembrar que do outro lado da conversa tem gente, tem pessoas que podem estar querendo acertar, mas não andam acertando”, exemplifica.
“A criação e expansão dessas redes permite que mais gente se expresse, inclusive, que se queixem mais, que cobrem, corrijam eventuais erros e tudo o mais. Os jornalistas sempre foram cobrados por seus públicos: ora por não fazerem bem o seu trabalho, ora porque estavam fazendo seu trabalho e isso contrariava interesses particulares. Há trinta anos, as pessoas mandavam cartas aos jornais e às revistas. Telefonavam para as emissoras de rádio e TV. Elas reclamavam, mas ficavam dependentes dos próprios jornalistas de tornar públicas aquelas queixas. Se o editor de opinião de um jornal não quisesse publicar as suas cartas contra o jornal, ele não publicava, e a maioria das pessoas ficava sem saber que havia protestos. Com a criação de canais alternativos de comunicação, isso pode ser enfim contornado”.
Pela posição de combate e constante ceticismo, Rogério afirma que comprometimento com a veracidade e os direitos humanos já é um avanço na discussão. “Precisamos de coragem, tenacidade, responsabilidade e não podemos renunciar à liberdade de imprensa e ao exercício crítico. Governos passam. Podem até se estender por muito tempo, mas passam. O jornalismo precisa se manter para além dos governos porque o objetivo do jornalismo é atender ao público, ao cidadão, ao sujeito”.
O jornalista Mauro César afirma que a ideologia pode influenciar na questão no consumo. Trazendo a situação para dois tempos diferentes, o professor cita a mudança de abordagem nas pautas e textos da Veja, criada por Mino Carta em 1968 para seu atual viés. Ainda pondera que nessa relação o consumidor entra num importante lugar de avaliador e, por isso, o jornal se adequa ao que o público quer ler. “A revista era censurada naquela época, mas mudou muito ao longo do tempo. A questão é que a ideologia de quem está no poder é a mesma de quem não está no poder. O público quer vê-la estampada nos meios de comunicação”, conclui.
As vozes da resistência e experiência
Izani Mustafá, doutora em comunicação social, atuou como assessora de comunicação e trabalhou na campanha do presidente Lula e da presidente Dilma. De acordo com a jornalista, o objetivo era sempre divulgar pontos positivos mas sempre com fatos reais. “Mesmo na assessoria de comunicação, temos que produzir conteúdo ético, que tenha sido realmente realizado”. Os melhores momentos, segundo ela, aconteciam quando conseguiam fazer com que os candidatos conversassem abertamente com a imprensa e com as pessoas. A parte negativa geralmente envolvia os ataques contra os candidatos, quando, por exemplo, opositores levantam questões que não eram verdadeiras.
“Eu acredito que a relação da imprensa com o governo na gestão do PT foi bem saudável”, comenta. Apesar disso, reclama sobre as rádios de Joinville, em específico: “elas tinham apresentadores, não eram jornalistas. Eram radialistas que não tinham uma postura ética”.
Conteúdo produzido na disciplina Jornal Laboratório, 7ª Fase/2019
Reportagem: Helena Bosse