
O bate-chapa na eleição presidencial do Joinville Esporte Clube após 12 anos
Duelo de ideias para o maior clube de futebol profissional de Joinville não acontecia desde 2008
Desde que Márcio Vogelsanger venceu Vilmar Steil e assumiu a gestão do clube em 2008, o Joinville Esporte Clube (JEC) não tinha duas chapas disputando o cargo de presidente. Mesmo em um ano atípico como 2020, o tricolor terá uma disputa entre Charles Fischer (JEC sustentável) e Darthanhan de Oliveira (JEC50).
Por conta da pandemia de covid-19, e pelo aumento do número de casos em Joinville, o formato do pleito também será uma novidade. Em vez de irem presencialmente até à Arena Joinville nesta quarta-feira (9) para votar, os sócios irão utilizar o modo “drive thru”. Este modo geralmente permite que as pessoas comprem lanches rápidos sem sair do carro, mas devido à importância do distanciamento social, o método será utilizado pelo clube para que a eleição ocorra ainda este ano. Os associados terão das 9h às 20h para irem com os seus respectivos veículos até o estádio e, para quem não possui carro próprio, o JEC disponibilizará um automóvel. Para poder ter acesso, as pessoas aptas a votar terão que estar munidas de documento oficial com foto, caneta e utilizar máscara.
Histórico
Nos últimos anos, o JEC tem sofrido com más gestões. Fatores que levaram o clube da maior cidade de Santa Catarina a um endividamento milionário e para a quarta, e última, divisão nacional em apenas quatro anos. Após disputar a Série A do Campeonato Brasileiro, em 2015, o JEC foi rebaixado três vezes. Os presidentes que estiveram à frente do Coelho nos rebaixamentos de 2015, 2016 e 2018 foram Nereu Martinelli (2012-2016) e Jony Stassun (2016-2018).
Nereu e Jony até tentaram colocar o time novamente no patamar mais alto do futebol. Por outro lado, acabaram errando em várias contratações de jogadores, que tinham altos salários, mas que não corresponderam em campo. Ambos colocaram o maior campeão catarinense na Série D e com uma dívida que, hoje, está em cerca de R$ 47 milhões.
Com os resultados ruins em campo, o Joinville viu o número de sócios despencar de 12 mil em 2015, para 2,8 mil em 2020. Também em 2020, o JEC disputou novamente à Série D, mas foi eliminado, pelo segundo ano consecutivo, na primeira fase da competição. Agora, antes que a próxima temporada comece, Charles Fischer e Dartanhan de Oliveira buscam o cargo mais importante do executivo para tentar fazer com que esses números se invertam e que os dias de glória voltem ao principal clube de Joinville.
Os candidatos
Charles Fischer foi o primeiro candidato a homologar a chapa e anunciar que iria concorrer na eleição presidencial. A expectativa de que houvesse uma disputa estava se esvaindo a cada dia que se passava e nenhum outro grupo anunciava a participação no pleito. O cenário se desenhava para uma única chapa inscrita. Porém, no último dia disponível para protocolar a candidatura, Dartanhan de Oliveira inscreveu uma chapa de oposição. Diante disso, o que parecia certo, mudou em poucos minutos. Assim, depois de 12 anos, a emoção de uma disputa presidencial no clube ganhou dois nomes.
Charles tem 50 anos e atualmente atua como diretor de comunicação do Coelho. O candidato da chapa JEC sustentável está no cargo desde julho de 2019 e, como o atual presidente Vilfred Schapitz não irá concorrer à reeleição, a diretoria escolheu Fischer para ser o presidente e Vanderlei Neuman para a vice. Outros nomes da atual gestão do clube também aparecem para continuar o trabalho: Fernanda Petry, diretora adminstrativa, Karpano Melo, diretor financeiro, e Luiz Fernando Bublitz para o planejamento. Além deles, aparece José Acácio Piccinini para o setor jurídico, Leonardo Roesler para o departamento de futebol, Augusto Oliveira para diretor técnico e Luís Carlos Guedes como diretor-geral (CEO).
Mesmo assumindo um cargo somente no ano passado, Charles tem uma história antiga com o Joinville. O atual candidato foi, e ainda é, radialista na maior cidade de Santa Catarina e vivenciou os momentos de glória do JEC. Em matéria para o Globo Esporte Santa Catarina em 2014, o narrador contou um pouco sobre como foi descrever os gols que carimbaram o acesso do time à Série A do Campeonato Brasileiro. Porém, nem todos os sons emitidos foram de glórias. Por conta das más gestões do Coelho, Charles também narrou todos os três rebaixamentos seguidos do tricolor – o último em 2018 para a Série D. Caso ganhe, Charles terá que deixar os microfones de lado.
Já Darthanhan de Oliveira tem 37 anos e assumiu a presidência do conselho deliberativo do Joinville em 2018. Diferentemente de Charles, Oliveira não possui tanta exposição e, para se apresentar para os torcedores que não o conheciam, gravou um vídeo contando a sua história com o clube.
Além dele, a oposição terá Alexandre Poleza, que já foi diretor financeiro em 2018 e de futebol em 2019, como vice-presidente e diretor financeiro novamente. A chapa também terá Daniel Henrique Moreira como diretor de marketing e Thiago Luis Beltrame na diretoria jurídica. Já Alexander Vicenzi comandará à diretoria social e Jonathan Cidral será diretor de patrimônio.
Propostas
Para apresentar as suas respectivas propostas para os sócios aptos a votar, os dois candidatos usaram os perfis das chapas nas redes sociais. Mesmo a chapa JEC50 protocolando a candidatura no último dia, ela foi a primeira a disponibilizar as ideias e o plano de gestão.
Por conta da dívida milionária, as contas do JEC são regularmente bloqueadas pela justiça. Na visão de Darthanhan, para que essa dívida diminua, há somente um caminho: aumentar a receita. Para conseguir isto, o candidato propõe a criação de um departamento de marketing estruturado e a venda de jogadores formados na base. “O Joinville só vai levantar recursos para diminuir suas dívidas com um trabalho focado no marketing e valorizando seus ativos.” Segundo ele, o JEC precisa sair do ciclo endêmico.
Para reconquistar o torcedor, o candidato foi direto: “Com trabalho. Nós queremos mostrar ao sócio que nós não vamos lembrar dele apenas nos momentos difíceis ou em dias de jogos.” Ele afirma também que o departamento de marketing pensará nas melhores ofertas e benefícios para os sócios.
Hoje, muitos falam que o JEC vai ser do tamanho que a cidade quiser e pedem ajuda ao sócio. O sócio e a cidade sempre ajudaram. Nós precisamos parar de transferir esta responsabilidade. O JEC será do tamanho da capacidade de gestão de quem estiver no comando. Darthanan de Oliveira
Além disso, o candidato também quer aproximar as categorias de base e o profissional. “Nós pretendemos fazer uma grande integração da base com o futebol profissional, algo absolutamente necessário. Hoje, os setores trabalham como se fossem empresas diferentes.” Para lidar com a base e o profissional, um clube necessita de um departamento de futebol forte e estruturado.
Na atual gestão, quem cuida deste departamento é Leonardo Roesler, que entrou no lugar do ex-diretor, Wilson Martins, no começo de novembro. Questionado se o atual diretor seguirá, caso a vença, Oliveira observa que isso será avaliado. “Nosso plano de gestão prevê uma transição de 100 dias, na qual vamos avaliar várias pessoas que estão lá. A ideia não é trocar tudo. No caso do atual diretor é mais complicado, pois trata-se de um cargo estatutário. Vamos avaliar com calma após a eleição.”
Outro ponto que o candidato da oposição destaca é a questão da profissionalização. O JEC, hoje, tem todos os diretores, e também o atual presidente sem remuneração, pois dividem o tempo com outras atividades além do clube. Em entrevista para à rádio 89 FM durante o período de campanha, Darthanan disse que os diretores do clube irão se manter nesse modelo, mas que irá utilizar o orçamento do clube para remunerar um gerente de futebol, um de governança e outro na parte de marketing. Além de um CEO, que ficará o tempo todo no clube.
Segundo informações da chapa, o CEO é um profissional especializado na área esportiva, mas que o seu nome não será revelado porque, no momento, este profissional possui vínculo com outra empresa. “É um profissional da nossa confiança, que será remunerado. Não acreditamos no modelo de gestão no qual voluntários, em posições estratégicas, doam seu tempo ao JEC. Apesar do grande esforço destas pessoas, o clube nunca se torna a prioridade delas”, concluiu.
Já Charles Fischer preferiu realizar uma transmissão ao vivo para apresentar suas propostas aos sócios torcedores. Atuais diretores do clube também participaram e explanaram as ideias da chapa.
Para o candidato, uns dos principais pilares para que o JEC continue crescendo é manter o trabalho de profissionalização, digitalização e o alongamento das dívidas. Além de deixar o clube mais transparente para todos. Fischer também cita mudanças no departamento de futebol, espacialmente a aproximação da base com o profissional. “A profissionalização no futebol está sendo feita. O planejamento faz com que o clube amplie a visão do clube e a forma que ele tem que trabalhar, para que o atleta saia da base e vá para o profissional com um modelo de jogo.” Charles ainda diz que a pretensão é que tenha no mínimo 30% da base inserida no time principal.
Questionado sobre as dívidas, Fischer afirma que continuará trabalhando para que elas não aumentem. Segundo ele, o alongamento de dívidas do Fundo de Garantia do Tempo de serviço (FGTS) já foi feito, além disso, foi pago um valor de R$ 700 mil e parcelado R$ 1 milhão, que é pago com o desconto do timemania. É pretendido também alongar e parcelar os impostos que o clube está devendo, que gira em torno de R$ 15 milhões. Outra negociação que a atual diretoria vem realizando é na questão dos atos trabalhistas, que atualmente são mais de 160.
A participação do sócio, neste momento de retorno do JEC para à Série C, para uma participação na Copa do Brasil e de repente uma Série B o mais breve possível, é importante demais. E vamos trabalhar em cima disso, para que o sócio entenda que ele é o fator principal para que o clube esteja, no mínimo, na segunda divisão nacional. Charles Fischer
Para fazer isto, o candidato diz que irá trabalhar na venda de atletas, no marketing do clube, no timemania, no aumento no número de sócios e também buscar novos parceiros. Fischer considera que a busca por aumentos de recursos é urgente e necessária em 2021. Além disso, o candidato quer explorar mais à Arena Joinville. Ele pretende construir lojas, galerias e serviços, salas de coworking e também o afastamento do estacionamento. “Vou lutar para que à Arena seja a casa do Joinville Esporte Clube”, finalizou.
Torcida
Para o torcedor Guilherme Luiz, de 23 anos, ter duas chapas concorrendo ao pleito é algo positivo. “Fazia muito tempo que não víamos mais de uma chapa interessada em gerir o clube. Vemos de forma muito positiva que há um debate de ideias para o clube que move a nossa cidade”, disse. Luiz também observa que com mais democracia interna, a cidade, além do JEC, ganha.
Segundo ele, é fundamental que o Joinville passe a ouvir mais o sócio, para além da eleição, e que ele possa criar iniciativas que façam com que o associado se sinta efetivamente parte do clube. O sócio, que está apto a votar, não revelou em qual chapa irá votar. Mas torce para que a chapa que tiver o melhor projeto vença, para assim transformar novamente o JEC em uma grande potência catarinense e brasileira do futebol profissional. “E que a chapa que perder não se esvazie, mas que faça uma oposição propositiva no próximo período, sempre pensando no melhor para o clube e para a cidade”, finalizou.
Além de ser sócio tricolor e ter direito ao voto nesta quarta-feira, Guilherme foi um dos mediadores do primeiro debate entre os candidatos, que aconteceu na terça-feira (1), de forma virtual por conta da pandemia de covid-19, no facebook da página “SouJEC”.
“O debate foi tranquilo, mesmo tendo começado, segundo ele, quente e com algumas ‘cutucadas’. Ele conta também que a torcida acompanhou e que houve um pico de 240 pessoas assistindo simultaneamente. De acordo com o mediador, se falou muito mais em propostas e planos do que ataques ou acusações. “No geral, foi muito bom. O saldo é positivo tanto para a democracia do clube quanto para a cultura do torcedor”, avaliou.
Durante a campanha, Dartanhan de Oliveira chegou a acusar funcionários da atual diretoria de utilizarem a lista de sócios ativos, e aptos a votar, para pedir votos para a chapa adversária no horário de trabalho. Segundo o candidato, um acordo foi feito entre ele e o Charles para que a lista não fosse utilizada para benefício próprio, mas que o acordo foi quebrado. Para responder à acusação, Charles Fischer gravou um vídeo para explicar a situação e dizer sobre qual é a “sede de poder” da chapa JEC Sustentável.
Reportagem: Bernardo Gonçalves
Vídeos: Redes sociais JEC50 e JEC Sustentável
Arte: Roger Cardoso
Conteúdo produzido para o Primeira Pauta Digital | Disciplinas de Jornal Laboratório I e Jornalismo Digital, 4ª fase/2020