Brasileiros trabalham no exterior sem sair de casa
Diferenças culturais, fuso horário e maturidade digital desafiam profissionais de marketing e tecnologia que buscam valorização da moeda estrangeira vivendo no Brasil
A internet derrubou as barreiras geográficas e permitiu que talentos locais prestem serviços para grandes economias globais sem a necessidade de visto ou mudança de endereço. No entanto, atuar no mercado internacional vai muito além de dominar o inglês. É preciso uma profunda adaptação cultural, entendimento de legislações específicas e uma leitura aguçada de comportamentos de consumo.
Profissionais que atuam em squads internacionais, como o time da V4 Company focado nos Estados Unidos, relatam que a oportunidade financeira de ganhar em dólar vivendo no Brasil é o grande atrativo, superando até mesmo o desejo de emigrar fisicamente. Contudo, a rotina impõe desafios que vão desde a logística de fuso horário até a forma como o dinheiro circula.

Estados Unidos ainda utiliza cheque de papel em 2025
Ao contrário do consumidor brasileiro, que pesquisa em diversas fontes, acessa redes sociais e busca validação social antes da compra, o cliente norte-americano é pragmático. Segundo Caike Mateus Gasparin, especialista em marketing, o americano gosta de uma “oferta forte” e direta. Um único canal de venda bem executado é suficiente para a conversão.
Entretanto, a modernidade do marketing digital americano contrasta com um sistema bancário que, aos olhos dos brasileiros, parece ter parado no tempo. Enquanto o Brasil vive a agilidade do Pix, os Estados Unidos ainda operam fortemente com cheques, cartas de correspondência e dinheiro físico.
“Eles são muito arcaicos e assusta dizer que eles estão atrás nesse sentido. É muito comum nossos clientes receberem pagamentos em cheques e cartas. O marketing de cartas lá ainda funciona muito bem”.
Matheus Azael Pazda, profissional de marketing
Essa característica exige dos profissionais brasileiros um controle de dados apurado e, muitas vezes, uma relação de confiança com o cliente para a conferência de resultados financeiros.
Onde o Brasil lidera e onde precisa aprender?
A percepção sobre a maturidade digital varia conforme a região. Daniela Cristina Alves, especialista em marketing que morou no reino unido, atua ajudando negócios brasileiros nos EUA. Ela percebe que o nível de consciência sobre a importância do digital é mais acelerado no exterior, enquanto muitos negócios no Brasil ainda dependem excessivamente do orgânico sem estratégia.
Por outro lado, Jimmy Alexander, colombiano que atua há 5 anos no mercado latino-americano, observa que o Brasil é um ponto fora da curva em comunicação digital, destacando-se pela “creator economy” e alta intensidade de uso, estando à frente de muitos países vizinhos. Ele aponta particularidades interessantes:
- México: Forte tendência para Connected TV (CTV).
- Argentina: Cultura forte de eSports e gaming.
- Brasil: Ecossistema vasto de influenciadores para gerar confiança.
Nos Estados Unidos, a disputa pela atenção é mais cara. O custo por lead (contato comercial) é significativamente mais alto do que no Brasil. Isso obriga as empresas a investirem pesado em SEO (Otimização para Motores de Busca) e na construção de autoridade orgânica, algo que, segundo Matheus Pazda, ainda é negligenciado por empresas brasileiras. “Quem atua lá terá uma vantagem futura no Brasil, pois o mercado americano é mais desenvolvido”, conclui Matheus.
Quais são os desafios de se trabalhar com clientes internacionais?
Para quem deseja ingressar nessa jornada, a fluência no idioma é apenas o primeiro passo. Daniela ressalta que os sotaques regionais e a legislação americana — que varia de estado para estado — exigem cautela extrema nos processos de venda.
A logística temporal também é um fator crítico. Caike alerta para a necessidade de alinhamento assertivo devido ao fuso horário, que pode chegar a 5 horas de diferença em relação a clientes na Costa Oeste (como Los Angeles), exigindo disponibilidade em horários não convencionais para quem está no Brasil.
Dicas para entusiastas do trabalho para o exterior remoto
Para os profissionais que vislumbram essa carreira, a recomendação é unânime: adaptabilidade. Jimmy reforça a necessidade de conhecer a cultura e hábitos locais. Já Matheus aconselha rapidez nos testes e um entendimento profundo da sazonalidade, que nos EUA é afetada drasticamente por fatores climáticos reais, como furacões e invernos rigorosos, impactando diretamente o comportamento de compra.