Femusc 2026 celebra 21 anos com formação intensiva e estreia histórica de sua primeira ópera brasileira
O festival reúne mais de 400 alunos de 21 países, promove cerca de 200 concertos gratuitos e apresenta Onheama, obra inspirada na mitologia amazônica.
Há 21 anos, o Festival Internacional de Música de Santa Catarina (Femusc) transforma Jaraguá do Sul em um dos mais importantes polos de formação musical do país. Entre 11 e 24 de janeiro, o município recebe mais de 400 estudantes de 21 países e 18 estados brasileiros para uma imersão de 14 dias que combina aulas, ensaios, masterclasses, oficinas e centenas de apresentações ao público. Em 2026, a edição celebra os 150 anos da cidade e traz um marco simbólico: a estreia da primeira ópera brasileira da história do festival, Onheama, de João Guilherme Ripper.
O festival registrou crescimento de 20% nas inscrições, reforçando seu alcance internacional. Jovens músicos chegam do Chile, Peru, Argentina, Estados Unidos, Rússia, Macedônia do Norte, Moçambique, Austrália e outros países, somando-se a estudantes de todas as regiões do Brasil. Para a presidente do Instituto Femusc, Monika Hufenüssler Conrads, a edição é um presente para a cidade: “O Femusc conecta pessoas, forma músicos e celebra a pluralidade artística em homenagem aos 150 anos de Jaraguá do Sul.”
O FEMUSC funciona como uma escola prática: sua programação pedagógica inclui Orquestral Avançado e Intermediário, Regência, Canto e Ópera, Quartetos, Piano, Violão, FemuscJovem e Femusckinho. Além da técnica, o festival prioriza a experiência coletiva e a responsabilidade social, os concertos realizados em hospitais, casas de idosos, shoppings e praças fazem parte do currículo dos alunos, aproximando a música da comunidade.
Ampliação de vagas e sustentabilidade logística é um desafio
Apesar do crescimento e do impacto, a organização aponta desafios para manter e ampliar a capilaridade do festival. A estrutura do Femusc apoia-se fortemente em uma governança formada por voluntários e em parcerias público privadas , com grandes empresas, mas a demanda por formação supera as possibilidades logísticas e financeiras de expansão imediata. A direção busca consolidar alianças institucionais e reforçar apoio para aumentar vagas, garantir infraestrutura e dar sustentabilidade a projetos pedagógicos e sociais que já beneficiam milhares de jovens. Voluntários e equipes técnicas, presentes diariamente durante o evento, são citados pelos organizadores como peça-chave para o funcionamento, e a continuidade de apoios é vista como essencial para futuros investimentos em infraestrutura e programas de inclusão.
O diretor artístico Alex Klein ressalta o protagonismo estudantil: “O Femusc é horizontal. Quando confiamos nos jovens, eles respondem com excelência. Não é por acaso que 98% da programação é escolhida pelos próprios alunos.” Nesta edição, o repertório já soma mais de 530 obras e deve superar 750 com os concertos sociais , contemplando desde Bach, Beethoven e Brahms até Villa-Lobos, Piazzolla e autores contemporâneos. Entre as novidades, estão 39 compositores estreantes, incluindo 13 mulheres e uma forte presença latino-americana.
O destaque artístico da edição, Onheama, é dirigido por Matheus Sabbá e tem direção musical de André dos Santos. A ópera, com mais de 80 artistas em cena, parte da mitologia amazônica sobre o eclipse quando a onça celeste Xivi devora o sol e acompanha a jornada de uma jovem guerreira indígena que busca salvar sua comunidade. Sabbá vê a montagem como um gesto de afirmação cultural: “É levar a mitologia do meu povo para um público que raramente tem contato com essas narrativas.” A produção, que será apresentada nos dias 23 e 24 de janeiro no Teatro SCAR, envolve um extenso processo formativo, com cerca de 200 horas de ensaios e participação ativa de alunos em canto, regência, orquestra, técnica de cena e cenografia.
O papel formador do Femusc também pode ser medido pelas trajetórias individuais que o festival impulsiona. Ex-alunos como o violonista peruano Eduardo Rios, que passou pelo FEMUSC ainda adolescente, conquistou bolsa de estudos nos Estados Unidos e hoje integra a Filarmônica de Berlim ilustram o potencial transformador da experiência. Para os organizadores, esses casos comprovam que a formação oferecida no evento extrapola fronteiras e contribui para abrir caminhos internacionais.
Com centenas de concertos gratuitos, repertório ampliado, professores renomados e uma estreia operística de forte carga simbólica, o Femusc 2026 reafirma sua vocação educativa: formar músicos, promover inclusão cultural e construir pontes entre comunidades e países. Em sua 21ª edição, o festival reafirma que investir em música é investir em educação, memória e futuro e que a sustentabilidade desse projeto depende do fortalecimento de parcerias e da ampliação das condições logísticas que permitam atender cada vez mais jovens.