Produto de Conclusão de Curso

Duas Rotas até Banksy

Uma Reportagem Multimídia

PUBLICADO EM

22 DE JUNHO DE 2026

6 de Março de 2024 — Partida Nice-Ville, Paris

O trem dele partiria em poucos minutos e nós dois não dizíamos nada. A estação de Nice-Ville falava por nós por meio dos trilhos estridentes, motores em funcionamento, barulho de rodinhas sendo arrastadas pelo chão, o caixa eletrônico cuspindo dinheiro. Mas quando ele entrou no vagão, o que ficou comigo foi um som, apenas, o tilintar de um chaveiro de metal batendo numa garrafa, pendurado na mochila de um homem cujo nome eu nunca soube. Mas, naquela tarde, era só uma despedida. A segunda de três. Estávamos sempre a dois dias de distância.

Setembro de 2024 — Joinville, Brasil

Era setembro e a primavera estava prestes a começar no Brasil. Vida normal, faculdade, estágio, projetos de extensão. A história que vivi mais cedo naquele ano virou minha inspiração para o trabalho que teria de escrever para a disciplina de Reportagem do curso de Jornalismo. Me deu um estalo e comecei a levantar o que eu tinha de informações sobre  Banksy, o maior artista anônimo da atualidade, porque ele havia se tornado uma presença constante no meu roteiro de viagem. Sua arte no canal de Veneza, a série de encontros em Londres e Paris, a exposição a que eu havia ido em Portugal, então pensei em relacioná-lo com minha trajetória no voluntariado e produzir algo especial. O artista estava na minha cabeça.

Na primeira pesquisa que joguei no Google, arrisquei somente “Banksy”. Assim, entre aspas. Mas cliquei na seção de notícias em vez de olhar para os resultados gerais e fiquei em choque. A notícia saíra em agosto, publicada pelo The Guardian; um mês já havia se passado sem que eu sequer a tivesse visto.

“Terça, 6 de Agosto de 2024”
Banksy revela segunda obra de animal em Londres em menos de 24 horas“.

Abaixo da manchete, uma imagem. Duas silhuetas pretas de elefantes, um olhando o outro, as trombas quase se encostando, pintadas em estêncil dentro de molduras de janelas brancas de estilo clássico, contrastando com uma parede de tijolos em tom bege.

Aquele mesmo sentimento de não reconhecer o lugar, o tempo-espaço em que eu estava. As ideias embaralhadas, nenhuma sinapse acontecendo, conexão qualquer. Nada. Nem uma dúvida eu conseguia formular naquele momento.

Eu não tinha fotografia do chaveiro. Não tinha vídeo. Não tinha contato de Kiwi, nem nome completo, nem uma mensagem antiga que pudesse ser aberta como prova. O que eu tinha era uma foto na memória e, por isso mesmo, mais incômodo. Uma lembrança nítida, associada a um som, a uma conversa e a uma explicação que, meses depois, parecia dialogar com uma obra pública de Banksy.
Não era prova. Mas já era impossível tratar como detalhe.

                                                   —

Para entender por que uma imagem numa parede de Londres foi capaz de desarrumar tudo, é preciso voltar ao ponto em que nada daquilo ainda tinha peso. Voltar a dezembro, ao aeroporto, à mochila pronta, ao começo de uma viagem em que eu colecionava, sem saber, as peças soltas de uma história que o jornalismo só montaria muito depois.

13 de Dezembro de 2023 — de Joinville, Brasil a Paris, França

No fim de 2023, saí de casa acompanhada por uma palavra que só viria a entender mais tarde: serendipidade. Depois de um ano economizando dinheiro, trabalhando em dois turnos e também aos finais de semana, eu tinha diante de mim uma brecha: a chance de viver algo maior do que a rotina. Estava no meio da faculdade de Jornalismo, havia passado por dois estágios e sentia que aquele era o ponto exato entre o que eu devia às minhas responsabilidades e o que ainda podia conceder a mim. Sustentada por uma lógica simples — trocar algumas horas de trabalho por abrigo, convivência e imersão em outras culturas —, planejei essa jornada por quatro meses. O plano de me voluntariar em países da Europa estava se concretizando, eu já havia planejado o primeiro mês. Países, anfitriões, tarefas, pontos que desejava conhecer e a urgência de explorar. Estava tudo na mochila.

Eu não saí à procura de uma pauta. Não comprei uma passagem para caçar uma grande história. Mas embarquei com um olhar que já começava a ser moldado pela formação jornalística. Um olhar atento aos detalhes, às pessoas, aos gestos, aos silêncios, aos modos de viver que se revelam mais no canto da cena do que no centro dela. Viajar sozinha, até então, era isso, aceitar mudanças de rota, convites inesperados, comidas novas, conversas improváveis e a possibilidade de refazer o dia inteiro porque algo mais interessante apareceu no caminho. Com prudência, claro, afinal eu era uma mulher jovem viajando sozinha por uma região onde a União Europeia registraria, só em 2024, 9.678 vítimas de tráfico humanode acordo com o Eurostat. A maioria, mulheres ou meninas. Eu ainda não tinha esse número quando embarquei; ele veio depois, como uma medida fria para algo que, na partida, eu chamava apenas de cuidado. O dado não media todo o perigo, apenas os casos identificados. Ainda assim, bastava para lembrar que o improviso também exigia atenção.

Parti no dia 13 de dezembro, de Joinville, com conexão em São Paulo, Brasil e em Madri, na Espanha, com destino final Paris.

14 de dezembro de 2023 — Paris, França

Quase como uma ponte aérea, já estava na cidade dos ratos mais românticos da Europa. E sem que eu reconhecesse, vi um símbolo parisiense grafitado em uma parede da Avenue de Flandre. Era Napoleão. Ali estava o meu primeiro contato com Banksy. Foi efêmero.

18 de dezembro de 2023 — Londres, Inglaterra

Eu já estava na Inglaterra. Na Regent Street 84-86, passei por uma escultura que reproduzia uma das obras mais conhecidas de Banksy — o homem de rosto coberto lançando um buquê de flores. Era a fachada de um museu dedicado ao artista. Este foi meu segundo momento de conexão com o artista. Mais um caminho me levou a Banksy. Já na saída do metrô de King’s Cross, um ratinho — Rat with Placard — pintado por Banksy adornava a parede do antigo Camden Town Hall. Meu terceiro contato.

04 de janeiro de 2024 — Lisboa, Portugal

Ali eu iniciava minha vivência como voluntária em um hostel jovem e famoso em Lisboa, Portugal. Sant Jordi, na Rua do Forno do Tijolo 3, bairro dos Anjos foi a primeira experiência. Uma rua de pedra, íngreme e escorregadia. Cheguei de metrô com a mala pesando uns 19 quilos e uma mochila de mais oito. A entrada era por uma porta alta de madeira escura, muito pesada, dupla e ornamentada, com relevos trabalhados e ferragens; ao redor, a frente fachada de pedra clara organizada em blocos retangulares, com marcas de umidade, sugerindo antiguidade e permanência; as janelas, estreitas e verticais, apareciam protegidas por grades pretas também de ferro. Um conjunto fechado, austero e histórico, mais voltado à preservação do interior do que ao convite imediato de quem passa pela calçada. A fachada escondia a imensidão que aquele lugar era por dentro. Uma porta escura, severa, camuflava o jardim colorido e cheio de vida que conheci.

Na primeira noite no hostel, encontrei Pauline, colega voluntária parisiense, na cozinha. Ela passava pasta de amendoim em uma maçã verde.

Olhei para aquilo com a discrição possível de quem presencia um pequeno absurdo. Não disse nada, mas ela deve ter percebido minha dúvida, porque me ofereceu. Recusei com educação. A combinação, porém, ficou rondando minha cabeça.

No dia 29 de janeiro de 2024 — Lisboa, Portugal

Eu já estava há 25 dias voluntariando no Sant Jordi, em Lisboa. Era o fim do meu período em Portugal e eu começava a deixar a cidade antes mesmo de partir. As regiões próximas, que cabiam nos intervalos de dois ou três dias de folga e podiam ser alcançadas de trem, eu já havia visitado. Ao menos o que era possível visitar dentro da combinação entre tempo, dinheiro e cansaço.

Naquela manhã eu queria ocupar o dia com alguma coisa que me desse a sensação de avanço. Não me importava estar dentro de um ambiente fechado, desde que eu saísse dele com algo a mais: uma imagem, uma informação, uma pergunta nova. Em viagem, eu carregava uma espécie de obrigação íntima de aproveitar tudo. Cada cidade parecia exigir de mim uma atenção maior do que eu costumava ter em casa. Talvez porque, fora do lugar onde a vida se repete, uma escolha pequena ganhe contorno de acontecimento.

Lembrei, então, do banner que vi de relance em algum ponto da cidade. Anunciava o Museu Banksy Lisboa, instalado na Rua Viriato. Tomei café por volta das nove da manhã. Uma maçã com pasta de amendoim, uma fatia de melão, duas fatias de pão com manteiga. Vesti uma blusa térmica, uma calça confortável e as botas que havia comprado só para aquela viagem de três meses pela Europa. Elas já tinham entendido melhor do que eu o peso dos deslocamentos. Eram boas para longas caminhadas no inverno e, em Lisboa, serviam quase como equipamento de segurança para as ruas inclinadas e as calçadas escorregadia de pedra lisa.

Eram menos de dois quilômetros. Cerca de 28 minutos de caminhada, passos calmos.

O museu não era exatamente “de Banksy”. Era sobre Banksy. A diferença importa. A exposição se anunciava como uma experiência imersiva com mais de cem reproduções de suas obras e, no próprio site, assumia-se como “100% não autorizada”. Banksy, portanto, não a organizara, não a chancelara, não estava ali. O que havia era outra camada do fenômeno que cerca seu nome. A transformação de uma arte nascida na rua, muitas vezes anônima e gratuita, em percurso pago, institucionalizado e reproduzido dentro de um prédio.

Não sei se fui porque Banksy já me interessava, por essa simpatia imediata por artistas que parecem falar contra o mundo sem pedir licença, ou se a viagem já vinha deixando pistas dentro de mim. A psicologia pode ligar isso ao conceito de incubação cognitiva, ou priming: quando algo visto quase por acaso se instala no fundo da cabeça e, dias depois, reaparece não como lembrança, mas como vontade.

Cheguei por volta das 11h30.

Antes da porta, o museu já começava. A entrada ficava em uma fachada de esquina, aberta para a calçada. Havia uma placa vermelha em que se lia “Museu Banksy Lisbon” e, ao lado, um cartaz grande com a imagem do homem lançando flores, aquela mesma que vi em Londres. O corpo dele estava armado para o ataque, com pernas firmes, tronco inclinado, braço puxado para trás. Mas, no lugar de uma pedra ou de uma granada, segurava um buquê. Acima da figura, frase em letras vermelhas: “If you get tired, learn to rest, not to quit.” Se você se cansar, aprenda a descansar, não a desistir.

A entrada recuada, as colunas brancas, o piso gasto e a placa vermelha davam ao lugar um ar urbano, menos solene do que eu imaginaria para um museu. Não havia a distância fria de certos espaços de arte, aqueles que pedem silêncio antes mesmo de mostrar alguma coisa. Ali, o museu se parecia mais com uma passagem. A calçada entrava um pouco junto. A rua não ficava completamente para fora.

Do lado de dentro, a recepção ficava à esquerda. Duas moças estavam em uma cabine separada por vidro. Uma delas me vendeu o ingresso por oito euros. Esse pequeno ritual — pedir, pagar, receber autorização para entrar — pareceu curioso diante de um artista associado à imagem que aparece sem autorização, ao muro invadido, à rua como suporte. A contradição era física e intelectual: eu comprava um bilhete para ver, em ambiente controlado, imagens que nasceram justamente em lugares onde o controle falhava. Se Banksy quisesse que a entrada fosse mediada por uma catraca, talvez não tivesse escolhido primeiro os muros.

Era o quarto contato que eu tinha com Banksy.

Imagens do “Banksy Museum” em Lisboa, Portugal. Reproduções das obras originais do artista

De onde eu estava, já era possível ver uma parede grande tomada por obras. Banksy deixou de ser apenas uma referência visual que eu reconhecia de internet. Até então, eu sabia gostar dele. Sabia associá-lo a ratos, balões, policiais, stencil, crianças e flores. Sabia da existência de um artista anônimo que parecia dizer coisas graves com uma simplicidade cruel. Mas uma coisa é conhecer imagens soltas; outra é entrar em um espaço onde elas se acumulam, uma depois da outra, como se cada parede estivesse tentando corrigir a anterior.

Eu estava sozinha. Sem pressa. Fiz questão de ler os textos explicativos de cada obra. Talvez porque eu sentia que precisava provar para mim mesma que estava aproveitando tudo com atenção.

Depois da recepção, o percurso começava com a imagem do prisioneiro pendurado por uma corda de lençóis, sustentado por uma máquina de escrever. A máquina, pesada demais para ser discreta, agia como âncora e instrumento. A parede, naquele caso, era obstáculo; a escrita, talvez, a única forma possível de atravessá-la. Ao lado, a frase dizia que uma parede é uma arma muito grande. E era difícil não olhar em volta depois disso. O museu inteiro era feito de paredes.

Para uma experiência mais imersiva, ouça o áudio enquanto lê o próximo parágrafo. Pare quando quiser.

Logo adiante, a frase “If graffiti changed anything, it would be illegal” aparecia acompanhada por outro rato, que a observava com familiaridade. A frase tinha o tipo de ironia que não se esgota na primeira leitura. Atacava a lei, mas também o museu, o ingresso, a própria domesticação da desobediência. Eu estava diante de uma arte que dizia ser crime enquanto eu caminhava por ela em segurança, lendo placas.

Depois, a criança migrante. A infância, ali vinha atravessada por deslocamento, medo, água, fronteira, abandono, longe da inocência.

A menina com o balão apareceu enquadrada na parede, enquanto no teto havia outro rato de paraquedas. A imagem da menina eu já conhecia. Talvez todo mundo conheça um pouco, mesmo quem nunca parou para pensar nela. Uma criança pequena, o braço estendido, o balão vermelho em forma de coração escapando – ou chegando. Essa ambiguidade sempre foi a parte mais cruel. No museu, a imagem deixava de ser lembrança de tela e ganhava escala. O coração vermelho não parecia mais um símbolo bonito. Parecia algo leve demais para permanecer nas mãos de alguém.

Na esquina encontrei “Waiting in Vain“.

A instalação ocupava uma porta metálica fechada. Acima, um letreiro vermelho de neon dizia “Hustler Club”. A luz tingia o ambiente com um tom artificial, noturno, apesar da hora do lado de fora. Na porta, um homem de terno segurava flores. Algumas pétalas caíam no chão. O buquê não era oferecido a alguém presente, e sim a uma ausência. Era uma espera sem testemunha. Eu, parada diante dele, me tornei a testemunha que faltava.
O LED piscava, e a cena respirava em intervalos. Luz, pausa. Luz, pausa. A porta não se abria. O homem não ia embora. As flores continuavam ali, meio murchas, humilhadas pela própria delicadeza. Fiquei algum tempo olhando. Havia algo profundamente silencioso naquela imagem. A espera por uma pessoa, por uma resposta, por um amor que não chega, por uma cidade que não acolhe, por uma promessa que se atrasa até perder o sentido. Banksy não precisava desenhar a rejeição. A porta fechada fazia isso.

O grande muro do homem lançando flores veio depois com mais força do que o cartaz da entrada. Em escala maior, o corpo dele era puro ataque. A perna aberta, o tronco torcido, o braço pronto para arremessar. Tudo naquela postura prometia violência. Mas o objeto era um buquê. A contradição não se resolvia, e por isso a obra continuava funcionando. A flor não apagava a guerra; a guerra não destruía completamente a flor. Pensei em todas as vezes em que a delicadeza é obrigada a vestir a postura da raiva para ser vista.

A exposição insistia nesse método de trocar os objetos de lugar. Uma flor no lugar da bomba. Um travesseiro no lugar da arma. Uma menina no lugar do soldado. Um rato no lugar do cidadão. Um muro no lugar da página.

Fiquei no museu até perto das 14h55. Mais de três horas. Tirei fotos, li placas, voltei o olhar para algumas obras, passei mais breve por outras e depois retornei. A visita, que havia começado quase por acaso, tomou a maior parte do meu último dia em Portugal.

Quando saí, Lisboa continuava ali, indiferente à pequena mudança que tinha acontecido dentro de mim. Eu ainda caminhei pela região, a tarde já tinha outra luz. Reparei na vegetação, nos prédios altos, nas artes nas paredes, nesses sinais urbanos que antes talvez eu atravessasse sem tanta demora. Lembro apenas da vontade de contar. Algumas experiências, mesmo vividas sozinha, pedem uma testemunha depois.

Naquele dia, eu ainda não conhecia Kiwi. Não havia chaveiro, elefantes, coincidência, suspeita ou investigação. Nada daquilo existia para mim como enredo. E mesmo depois de horas no Museu Banksy, eu não saí especialista em seu traço, em sua técnica ou em seus códigos. Eu não teria como reconhecer, tecnicamente, a mão de Banksy em um desenho qualquer. O que mudou foi menos preciso e talvez mais importante para a história que eu ainda viveria: meu olhar ficou mais disponível.

A exposição não me deu respostas, mas me deu repertório. Antes de uma história começar de verdade, alguma coisa ensina a gente a olhar.

O resto do dia 29 de janeiro não teve mais muitas fortes emoções, aquilo me bastou para o peito.

30 de janeiro de 2024 — Lisboa, Portugal

Acordei já com minhas últimas roupas lavadas. Preparei a rede de internet para o celular, uma que funcionasse na Itália. Verifiquei a temperatura local: 4 unidades de graus Celsius. Estava tudo arrumado para minha ida. 

Então eu e mais dois colegas decidimos ir ao Miradouro da Senhora do Monte para assistir ao pôr do sol. Uma vista de cima de Lisboa, céu degradê amarelo, laranja e vermelho. Muitas risadas e trocas de idioma. Alternávamos sem querer entre o inglês, espanhol e português. Ficamos lá admirando e conversando até dar a hora dos meninos irem trabalhar no bar. Já estava escuro quando iniciamos a longa descida das escadas, aproximadamente 60 degraus de pedra e tijolo, extremamente escorregadios e molhados, mas com uma vista digna de pintura. Uma paisagem clássica lisboeta.

Eu saí naquela madrugada, enquanto todos dormiam.

Entre 30 de janeiro e 8 de fevereiro, estive em Milão, Lugano (na Suíça) e Lago di Como. Não foram dias vazios, mas funcionaram como intervalo antes de Schio. Segui viagem.

Os trens, por dentro, eram tão silenciosos que a dúvida entre dormir e olhar a paisagem se tornavam dilema. Ouça:

08 de fevereiro — Chegada em Schio, Itália

Meu próximo voluntariado era em Schio, na região de Veneto na Itália. Era também um local estratégico para alguém que queria aproveitar as folgas para passear em novos lugares. Na estação, comprei um salgado que descobri que era um doce. Meu italiano ainda não estava afiado. Peguei o trem saindo de Milano Centrale às 11h25. Cheguei a Schio às 15h. Descobri que, na comune de 38 mil habitantes, os ônibus não eram muito utilizados. Arrastei minha mala por cerca de uns 30 minutos até chegar na casa.

11 de fevereiro — Veneza, Itália

Às 11 da manhã eu e May, a outra voluntária, preparávamos o maior insulto italiano que aquela casa tradicional já poderia ter recebido. Não me entenda mal, havia motivo para tanta irresponsabilidade macarrônica; nem no Brasil eu cometeria tamanha atrocidade como aquela, se isso limpa um pouco a minha culpa nesse crime. Mais cedo, havíamos arrumado toda casa e compramos uma massa pré pronta no mercado mais próximo. Um macarrão farfalle pré cozido, fervido por 9 minutos e, com ele, apenas, repito, apenas molho de tomate. Molho de tomate pronto. Gelado. Ambos em um prato de vidro.

Demos a infelicidade de uma das napolitanas mais raízes da casa chegar do trabalho enquanto comíamos aquela iguaria No auge do dialeto italiano dela eu entendi apenas várias indignações atreladas ao “molho de tomate puro?!”. Eu concordei com ela, mas tentei expressar, entre o italiano, português e inglês, que aquela só foi a opção mais prática, pois estávamos com pressa de pegar o trem. Ela fingiu que compreendeu mas sua indignação ainda era certa no momento em que ligava o fogão para refogar manjericão com azeite e tomate recém colhido da horta na frigideira.

Aquilo não nos tirou a paz, eu e May partimos para a estação de trem mais próxima (a única).

Depois de 30 minutos de caminhada e a contagem de nenhum ônibus  no caminho avistamos a estação de trem de Schio, que ficava próxima a praça principal da cidade Naquela estação não havia balcão de compra de passagem com pessoas reais, havia os totens que garantiam a compra online e que, para não levar multa depois, praticamente exigia que  você gravasse um vídeo de qualquer problema que viesse a aparecer pra conseguir provar ao fiscal. Às 12h52 a passagem estava em mãos, Schio a Venezia S. Lucia, 8,70 euros a menos. No caminho, pesquisas sobre a programação de carnaval daquele dia. Verdade! Era semana de carnaval em Veneza.

Pra sair de Schio precisava sempre de uma conexão na estação de Vicenza. Lá trocamos de trem e seguimos viagem. Às 14h58, a primeira foto de máscaras e um mar de pessoas atravessando a ponte principal de Cannaregio já havia sido clicada. Devia estar perto de uns 9 graus, o som da água vibrando com os barcos nos canais, turistas conversando e alguns cliques de câmeras fotográficas.

Para uma experiência mais imersiva, coloque os fones de ouvido e dê o play enquanto lê o próximo trecho. Pause quando quiser.

Começamos a andar e nos perder nas vazias ruelas de uma cidade lotada. Como isso era possível? Andamos até a praça do Campiello Loredan, estava tendo uma peça de teatro a céu aberto do período do Renascimento. Em italiano, claro. Não nos impediu de entender que o Pantalone estava perdidamente apaixonado pela Arlequina. A cidade estava vestida de máscaras, decorações, pessoas fantasiadas de um carnaval completamente diferente daquele que estaria acontecendo no Brasil.

É claro que, voluntárias, pagando em euro, a opção mais divertida com certeza era andar a cruzar Veneza ao invés de pegar a balsa de transporte dentro da cidade.

Canais, cannolis, fantasias, uma Università Ca’ Foscari, um museu do Leonardo da Vinci, a Praça de San Marco e algumas lojas de grife na rua depois, cruzamos com uma criança. A criança era diferente das outras que por ali rodeavam. Não que houvesse um padrão das crianças ali presentes, mas claramente essa criança não se parecia com nenhuma das outras. Não estava fantasiada, não emitia um semblante comum às outras, não corria, estava parada. Parei, fixei melhor os meus olhos e então percebi que a criança não estava realmente ali. Baixa, traços do Oriente Médio, talvez do norte da África, Mediterrâneo. Estava ventando, não só notei pelo cabelo esvoaçante mas também pelo sinal de fumaça que levantava com sua mão direita. Semblante preocupado, tão cheio de sentimento que era quase vazio, não dava pra identificar ao certo para onde mirava o olhar. A fumaça saía rosa e a maré baixa do canal, às 16h09, escondiam seus pés com água e musgo. A criança estava na parede, no muro. Foi o segundo contato que eu tive com a arte da Criança Migrante / Migrant Child, desta vez era a arte original. Despretensiosa, eu a reconheci, por acaso. Naquele dia, quando saí de casa, eu não havia sequer me lembrado que em Veneza havia uma das artes originais de Banksy. Meu quinto contato com ele.

O dia já estava escurecendo. Ali não tirei fotos digitais, tirei uma foto na memória. Fiquei ali, eu e a criança, ela procurando algo para encarar e eu a observando. Nós duas paradas.

Dali seguimos o dia. Andamos, passeamos, paramos pra tomar um café e, por conta da enorme metrópole onde estávamos nos hospedando, já puxamos as escalas de trem para ver qual era o horário máximo que poderíamos ficar ali em Veneza sem precisarmos dormir a força fora de casa. 18h39 estávamos na estação Venezia S. Luzia. Na volta, a mesma jornada de 30 minutos de caminhada até nossa casa. A contagem de ônibus na região continuava sendo nula, mas a temperatura a noite era cada vez menor.

03 de março de 2024 — Gênova, Itália 

Nas últimas semanas de uma jornada de três meses pela Europa, às 13h50 de um domingo, me vi em Gênova, Itália, em um hostel que parecia carregar nas paredes as marcas de todos que já passaram por ali. A chuva caía constante, fina, cobrindo a cidade como uma névoa de umidade e melancolia. A atmosfera cinzenta, a temperatura que oscilava entre 10 e 12 graus Celsius. Tudo contribuía para a sensação de encerramento que pairava sobre essa viagem, como se aquele último pedaço de viagem fosse um ciclo se fechando.

O hostel batizado de Victoria House Hostel, incrustado em um edifício antigo, exigia que seus hóspedes, ao chegarem, interfonassem para subir uma extensa escadaria de degraus estreitos e desgastados pelo tempo. Eu carregava a mesma mala pesada, cerca de 20 quilos, e as roupas, já encharcadas de chuva, tornavam a subida ainda mais custosa. O elevador, relíquia de outra era, datada do início do século XX, era pequeno, menos de dois metros quadrados, estreito, e exigia a abertura manual sanfonada de uma grade metálica que rangia a cada movimento. A cada andar, o som dos passos ecoava nas paredes do prédio, era uma construção muito ampla e, por ser baixa temporada, havia poucas pessoas, dando espaço para o eco ressoar. Quando, enfim, cheguei ao quinto andar, fui recebida por um espaço que contrastava drasticamente com a austeridade do prédio.

Por dentro, o hostel parecia ter sido projetado por jovens artistas, uma herança familiar italiana. A cozinha, coberta por azulejos amarelos e armários etiquetados com cada tipo de item que havia dentro. Já as paredes eram repletas de reproduções das obras de Banksy, com cores vibrantes e críticas sociais. Especialmente a sala de convivência, que era onde tinha a mesa principal, alguns sofás e pufes coloridos espalhados junto a uma sacada pitoresca. Era a sexta vez que eu tinha contato com Banksy nessa viagem. 

O chão de cerâmica clara contrasta com as paredes em tons de laranja terroso, criando um ambiente acolhedor, quase caseiro, mas com a precisão de um design pensado para acolher viajantes.

Eu havia comprado alguns morangos e fui até a sala de estar para comê-los. Depois sentei nos pufes.

Ouvia uma música ao vivo, alguém estava com um violão do hostel, tocando na pequena sacada que dava para as ruelas da periferia de Gênova. Uma melodia suave, quase nostálgica, parecia preencher o ambiente nublado. Era como uma conversa íntima ao pé do ouvido, onde cada acorde parece escolhido com delicadeza. Transitando entre o blues, o rock e o folk, sua música ressoava alma e técnica. Eu, escorada em um dos pufes, até então imersa no celular, não pude deixar de prestar atenção na música. A chuva engrossou e a pessoa decidiu entrar.

Era um jovem, tinha 1,90m de altura. Ombros largos e postura firme ao passo que seus olhos eram meigos e simpáticos, quase convidativos. Os cabelos quase loiros, levemente ondulados, frequentemente desalinhados, emolduravam um rosto de traços marcantes, com uma mandíbula forte e olhos claros, azuis esverdeados. Seu andar despretensioso e o leve sorriso denunciavam o espírito tranquilo, característico de quem cresceu na delimitação do oceano Pacífico.

Um cara baixinho, com barba longa, aparentemente mais velho e com cheiro de cigarro puxou assunto com o jovem. A conversa era sobre alguns acordes musicais mas o desconforto com o cheiro do cigarro o fez terminar a conversa mais cedo.

Sempre aberta a novas conversas, bloqueei a tela do celular e me fiz disponível, a linguagem corporal fala muito mais alto que a própria voz.

Mais tarde, ou talvez pouco antes que eu entendesse qualquer coisa sobre ele, o garoto de 19 anos que rondava o hostel se dirigiu a ele como “Kiwi”. Era menos um nome do que uma origem condensada em apelido: ele havia nascido na Nova Zelândia, e, para o mundo, os neozelandeses carregam esse chamado emprestado do animal pequeno, estranho e nacional que virou símbolo do país. Não, não é sobre a fruta. Foi assim que ele ficou para mim. Sem nome próprio. Kiwi.

Dali, um papo mundano sobre o clima da cidade nos abriu para a primeira conversa. Quando me dei conta, estávamos há alguns minutos no diálogo menos inovador entre viajantes dentro de um hostel. Falávamos de curiosidades sobre a jornada de cada um, o motivo de estarem ali, os caminhos cruzados pela Europa. Mas algo além das palavras nos conectava. Havia um interesse mais evidente, não necessariamente romântico. Um interesse que cruzava a linha da curiosidade por si só, um tato sem objeto.

Dessa conversa, me flagrei vivendo uma das coincidências que nunca havia pensado encontrar fora dos livros de ficção: nós seguíamos roteiros idênticos, durante mais de duas semanas. Quase idênticos. Não fosse por dois dias de diferença.

Kiwi também tinha vindo da Inglaterra semanas antes, em fevereiro. Passou por Cinque Terre dois dias antes de mim. Depois seguiria para Nice, na França, onde ficaria no Villa Saint Exupéry Beach Hostel, o mesmo lugar em que eu também ficaria dois dias depois. Dali, partiria para Portugal, para o Sant Jordi, em Lisboa, e eu logo em seguida, mantendo a mesma distância de dois dias. Antes disso tudo, nossas rotas se cruzaram: nos encontramos em Gênova, no Victoria House Hostel, no mesmo quarto, na véspera da partida dele.

Tentei não fazer tanta cara de surpresa e notei o mesmo nele. Qual o nível de coincidência pra isso acontecer, e qual o nível de azar para estarmos sempre a dois dias de distância um do outro?

Percebi que Kiwi, assim como o amigo que já havia se retirado, também estava querendo  dormir. As outras pessoas que estavam na sala se retiraram, mas ele decidiu me fazer companhia. A conversa dali pra frente foi exponencial, trocamos algumas informações, de onde éramos, o que estávamos fazendo, estudos, trabalhos, idades. Disse ter 26 anos de idade, formado em engenharia de software e trabalhava remotamente com programação. Ele comentou que não tinha conseguido conhecer muito Gênova ainda por conta da chuva e de um projeto que tivera que entregar naquele final de semana, mas não parecia abalado.

Ainda fascinados com o roteiro idêntico em uma época fora de temporada, ele pegou seu celular, um Samsung, e me mostrou um aplicativo, o Pin Traveler, que registra o trajeto dos países que ele já tinha feito. Mostrou que já estava mochilando há 5 meses, tinha conhecido boa parte da União Europeia, Reino Unido e um trecho do continente asiático. O sotaque neozelandês era perceptível, mas não dificultava o entendimento.

Era tarde, só estávamos nós ali conversando. Essa coincidência havia me intrigado, mas segui a vida. Não partilhamos números de contato, redes sociais, nada, apenas uma conversa curiosa e a certeza de que estaríamos muito próximos dali para dois dias à frente, mas não por muito tempo, e de novo.

Fomos dormir, estávamos no mesmo quarto compartilhado, ele na beliche de cima, cama 1, logo ao lado da porta, e eu na cama de baixo, cama 5, no centro do quarto. Eu conseguia ver ele usando o celular por conta da luz. Mas eu não fiz o básico: eu não perguntei o nome dele – e nem ele o meu Virei para o lado e dormi.

04 de março Gênova, Itália

Acordei com barulho de mochilas se fechando. Levantei e fui até a cozinha tomar um copo d’água. Na volta eu cruzei com Kiwi indo embora, nos olhamos  e um leve cumprimento de cabeça foi trocado. Estava muito cedo, ninguém acordado fora o recepcionista e a chuva que havia trabalhado a noite inteira. Eram os únicos sons que eu ouvia, a chuva caindo e Kiwi cruzando o corredor. Eu o ouvia pelo tilintar do chaveiro que, a cada passo dado, batia na garrafa de metal na lateral da mochila. O sono (e a chuva) me consumiram por mais uns 40 minutos no beliche de baixo. Eu, ao acordar com a cena daquela cama vazia, senti como se algo importante estivesse prestes a acontecer. Curiosidade e expectativa. Dois dias depois, eu também chegaria a Nice, mas sabia que Kiwi já estaria partindo. A coincidência parecia estar além da compreensão racional; algo guiava aqueles encontros breves, como um filme sendo rodado ao acaso.

Cada um chama como quiser, mas o fato estava ali.

Dentre todas as possibilidades de escolhas, rotas, tempo e estadias, nós tínhamos exatamente o mesmo roteiro pelas próximas duas semanas até que eu voltasse para o Brasil. Porém, separados por dois dias. 

06 de março de 2024 — De Gênova, Itália a Nice, França

Às 10 da manhã eu via aquela manteiga italiana me acusando de baixo nível de inteligência pela terceira vez — burro, dizia o rótulo, que em italiano significa apenas manteiga. Dei um basta nisso e às 11h19 eu já estava embarcada no primeiro trem para Nice. Com minha mochila e mala que não faziam som algum, Kiwi fez barulho na minha mente. Fiz minha conexão, de Gênova desci na estação Ventimiglia e de lá entrei no trem já francês, com destino final Nice-Ville. 
A passagem, o trem, a guarda e eu já éramos todos diferentes. Às 16h07 eu já estava em solo francês, em busca de sinal de internet.

Não tirei foto alguma da estação de Nice, estava embasbacada com a beleza e, ao mesmo tempo, eu sabia que estava perto do horário que Kiwi estaria indo embora, o que me fez ficar atenta aos rostos que me cruzavam na área da estação e no caminho do hostel. Eu lembrava que ele havia dito que seria de tarde a saída dele, o check-out era ao meio-dia, mas ele ainda havia de aproveitar a luz do dia para passear antes de pegar o próximo trem. 16h06 é o horário que o mapa mostra que eu cheguei à estação de Nice-Ville. Dali então, o percurso que fiz até o hostel foi claro, a pé, com a mala rodando no piso de lajota que, na época, estava sendo reformado pelas ruas. Como esses lugares tinham escadas e mais escadas, diga-se de passagem. Devia estar uns 12 graus e eu estava com o sobretudo que havia herdado de Lisboa.

Cheguei a colocar os óculos de grau antes mesmo de sair direito da estação. Não por acreditar que ele estaria ali, mas para não deixar que um rosto familiar passasse rápido demais, ou longe demais, ou do outro lado da rua. Enquanto arrastava a mala para fora de Nice-Ville, meus olhos faziam um movimento discreto, automático. Primeiro as mochilas, depois os rostos, depois a altura. Kiwi era alto, então eu olhava um pouco acima do fluxo comum das pessoas, acima da linha dos ombros, acompanhando por alguns segundos quem atravessava a calçada, quem saía da estação, quem caminhava no sentido contrário. Um casaco visto de costas me fazia reduzir o passo. Uma mochila parecida bastava para eu sustentar o olhar um instante a mais. Mas logo a pessoa virava de perfil, seguia por outra direção, entrava numa rua lateral, e a possibilidade se desfazia sem alarde. Eu não parava. Não voltava. Não procurava de verdade. Apenas continuava andando, corrigindo em silêncio cada pequeno engano.

O caminho até o hostel tinha cerca de vinte minutos, e foi nesse intervalo que a expectativa começou a se gastar. Talvez ele ainda estivesse perto da estação. Talvez tivesse atrasado a saída. Talvez viesse de alguma rua transversal repetindo mais uma vez aquela lógica improvável de chegar quando eu chegava, partir quando eu partia. A cada esquina, a hipótese parecia abrir uma fresta e fechar logo depois. Eu olhava para quem vinha de frente, depois para quem me ultrapassava, depois para as portas, para os cruzamentos, para os movimentos possíveis de uma cidade que eu ainda não conhecia. Nada. Nice foi deixando de ser cenário de reencontro e voltando a ser uma cidade prática, com ruas em reforma, escadas, desvios e furadeiras. A mala batia no piso irregular das ruas em reforma, tapumes, desvios improvisados e o som insistente das furadeiras. Em algum ponto, eu já estava mais ocupada em não tropeçar nas obras do que em reconhecer qualquer rosto. O mapa precisava fazer sentido, a reserva no Booking precisava aparecer. Aos poucos, a chance de vê-lo foi ficando menos presente do que a necessidade de achar o hostel. Não acabou de uma vez. Só foi perdendo espaço, esquina por esquina, até quase parecer uma ideia que eu havia levado comigo desde a estação.

A cidade começou a se mostrar muito mais interessante que qualquer conhecido que eu haveria de ter encontrado no caminho. De longe eu encontrei o hostel, claro, com alguns jovens perto da entrada. Claramente era um hostel mais alternativo e com pegada divertida, com uma rede no teto, vazado e que cabia mais de dez pessoas ao mesmo tempo. Achei jovem. Entrei na recepção, tinha um rapaz na fila à minha frente, eu estava focada no celular e admirando o balanço enorme que tinha no teto do hostel. Nesse momento eu ouvi um som familiar: o tilintar de um chaveiro batendo na garrafa de metal no suporte de uma mochila. Minha visão deslizou um pouco pra baixo e ali estava o chaveiro que eu já ouvira outrora.

Me questionei se era ele mesmo, por mais que eu já soubesse da possibilidade, era muito difícil de ser real. O recepcionista agradeceu e desejou ao homem uma boa viagem, tratando-o por um sobrenome que não alcancei ouvir.

“What a coincidence, huh?”, ele exclamou. Lembro de ter ouvido a voz dele alta e clara, seguida por um aperto de mão meio estranho. “I was just leaving for a last walk in the beach”, Kiwi comentou. Eu lhe disse que estava chegando naquele momento, como se a mala de rodinhas, o passaporte na mão e a cara de cansada não entregassem a afirmação. Ele me chamou para acompanhá-lo pela Riviera Francesa. Respondi que faria meu check-in rapidamente e já voltaria, e assim o fiz. Nem troquei de roupa. É claro que o elevador estava quebrado e subi três lances de escada com minha fiel. O dia estava se esvaindo, nós tínhamos umas duas horas antes de Kiwi seguir para o próximo destino. Desci e o acompanhei. Ele havia deixado a mochila grande no armário temporário do hostel.

Andamos em direção à Ruhl Plage. Eram 17h e o sol estava no horizonte, logo iria se pôr. Mais uma vez, eu vi um novo cenário mais lindo que o que tinha visto no dia anterior, me surpreendendo um nível acima. Além do novo tom de azul que eu descobria a olho nu. Aquele azul era Gatorade. Opaco, nada translúcido, um azul com peso, de uma espessura que eu não conhecia. A massa dividida pelo volume dava uma densidade com a qual a realidade não concordava. A luz do dia se foi às 18h45 em Nice. 

Conversamos sobre os próximos passos de cada um. A cada trecho do calçadão, Kiwi me contava alguma curiosidade sobre a região, ou alguma coisa que havia notado antes de mim. Falou que as praias de Nice não eram de areia, mas de pedras (visível), os galets brancos que deixavam o litoral bonito e desconfortável ao mesmo tempo. Depois, quando um grupo de jovens passou de skate, comentou sobre a presença daquele esporte na orla, como se a Promenade não fosse apenas cartão-postal, mas também pista, ponto de encontro e território de quem morava ali.

Mais adiante, apontou para os símbolos de outro tempo, como o Negresco, hotel histórico de cúpula rosada à beira da Promenade des Anglais, os cassinos, a fachada de uma Riviera construída também para receber dinheiro, jogo e estrangeiros de inverno. Foi quando eu puxei uma comparação improvável e contei, de forma breve, a origem do jogo do bicho no Rio de Janeiro, não como aula, mas como quem tenta devolver uma curiosidade à altura. Quando perguntei sobre o azul absurdo do mar, ele não me trouxe resposta alguma. Pela primeira vez, parecia não ter uma explicação pronta. O mar continuou ali, quase artificial, sem precisar se justificar.

Perto do Jardin Albert 1er, ele apontou para um monumento na borda da Promenade e comentou que aquela cidade, que agora parecia existir apenas para o sol e para o turismo, também guardava marcas de disputa política. Era o Monument du Centenaire, erguido para lembrar a ligação de Nice com a França no período revolucionário. Não sei se ele usou exatamente a palavra “revolução” ou se fui eu que simplifiquei assim depois, tentando guardar a informação. Mas lembro do gesto: Kiwi parou diante da pedra como quem não via apenas um ponto turístico. Via uma cidade que já tinha pertencido a outros mapas.

A luz do dia se esvaía e nosso tempo também. Fomos em direção ao hostel buscar a mochila dele e, então, à estação de trem.

De novo, a cada degrau minimamente desnivelado, aquele chaveiro batia na garrafa de metal. Subimos a escada que dava na área para a entrada da estação e o barulho já era tão repetitivo que pareceu tê-lo irritado.

Ali ele pegou a garrafa de metal e tirou do suporte lateral da mochila. Abriu e tomou a água que havia dentro. Esse foi o momento em que, enfim, olhei de perto aquele desenho: dois elefantes, um olhando para o outro, com duas janelas brancas, simétricas, lado a lado. Em cada janela, a silhueta preta de um elefante pintada como se o animal estivesse parcialmente dentro do espaço interno. O elefante da esquerda aparece de perfil, com o corpo ocupando a janela e a tromba estendida para fora, atravessando o fundo em direção à outra janela. O elefante da direita repete o gesto em sentido oposto: também está parcialmente escondido pela moldura branca e estende a tromba para o centro. As duas trombas quase se encontram no espaço entre as janelas, mas há uma pequena distância entre elas. Esse intervalo cria a sensação de aproximação interrompida: os dois animais parecem tentar se tocar, se comunicar ou se reconhecer, mas permanecem separados pelas janelas. A composição é simples: o preto das silhuetas contrasta com o branco das janelas e com o tom bege do fundo pintado do chaveiro. O chaveiro era redondo, fundo de metal e coberto por um tipo de vidro — ou resina, ou acrílico — meio fajuto. As bordas já descolavam da base. O desenho era feito em um tipo de papel cartão, abrigado pela cobertura.

O barulho cessou. O chaveiro já não batia na garrafa mas, como um motivo para atrasar a despedida , perguntei sobre. Kiwi me disse que havia feito com caneta Posca em um papel derivado de um cartão-postal que recebeu de um colega francês. Quando o questionei sobre o significado, ele comentou que era uma referência à época da pandemia de 2020 a 2022, nada mais, um devaneio, aos olhos dele. Perguntei o porquê de elefantes e não pessoas e a resposta veio com uma risada sincera. “Animais são melhores que pessoas” e “ninguém quer falar sobre o elefante no meio da sala, então eu falo sobre dois deles nas janelas, separados. Eles não queriam estar na sala de um desconhecido e muito menos separados por duas janelas, creio eu. “Era assim que me sentia na pandemia. Um elefante no meio da sala de alguém, incomodando, olhando para fora da janela e vendo alguém em quem não podia encostar.” Eu respondi de imediato com “isso era óbvio mesmo, sou uma idiota”.

Dali, nós já tínhamos caminhado para dentro da estação de trem de Nice-Ville. Os últimos cinco minutos que tínhamos antes de o trem chegar foram tomados por um silêncio. Ao contrário do cenário que era muito barulhento, um fluxo alto de pessoas andando pra lá e pra cá, sons de trilhos, motores, rodinhas arrastando no chão, balcão de passagens com atendentes falando, som de dinheiro saindo da máquina de saque — e, mesmo assim, entre nós dois era silencioso. Nós sabíamos que nos encontraríamos novamente dali a dois dias. O assunto não tinha acabado, as histórias ainda existiam e algumas curiosidades ainda estavam guardadas na manga, e nós dois quietos.

O trem chegou.

Até então não tínhamos nos abraçado. Brasileira que sou, não foi por falta de vontade ou costume. Teria dado dois beijos no rosto, um abraço, um carinho, mãos dadas, e isso só para começo de história. Eu já não sabia como eram os cumprimentos de um neozelandês nômade no mundo. Afinal, ele já deveria ter aprendido a não abraçar, beijar e cruzar a bolha das pessoas depois de intensos três meses na Europa.

Nos abraçamos.

Algumas camadas de casacos, sobretudos, lã batida, alça de mochila e uma touca entre nós. Eu tive que ficar na ponta do pé mesmo com minha bota enorme de longas caminhadas. Foi um abraço bom, sincero e, de novo, silencioso.

Um nó na garganta, não sei do quê.

“Até breve!”

“Até já.”

Ele entrou, tilintando, dentro do vagão.

Voltei, refiz exatamente o mesmo caminho que havia feito horas antes daquele mesmo dia. Dessa vez sem mala, sem calcular degraus e ruas de pedras com minha fiel escudeira, e já não mais procurava por alguém, não me interessava mais nos rostos das pessoas ao redor. Eu não tinha o que procurar ali.

Segui o dia destrinchando Nice com a energia que ainda corria em mim.

08 de março de 2024 — De Nice, França a Lisboa, Portugal

Meus últimos dois dias, de fato viajando e conhecendo coisas novas estavam se esgotando. Eu já estava com meu francês quase fluente! Ninguém poderia dizer que eu não era nativa daquele lugar. Mais umas 70 fotos na minha galeria, alguns milímetros a menos da sola da minha bota e mais alguns tons de azul novos para a minha paleta pessoal.

O que eu tinha de animada eu também tinha de cansada. Já estava perdida nos países, idiomas, fusos horários, passagens entre trens e aviões, intermunicipais e internacionais. Minha mente ali começou a falhar. Mesmo.

Acordei, numa dessas manhãs, sem saber onde estava. Desespero genuíno. Quase como uma paralisia do sono. Eu não sabia que horas eram, em que país estava, em que idioma eu teria de pedir socorro, se fosse o caso. Abri os olhos e fiquei muitos minutos tentando entender o contexto ao meu redor e qual era o próximo passo que eu tinha que dar. Eu tentava entender se a mala deveria estar pronta para trem, avião, quantas horas antes eu precisava sair e que mistura de fusos havia calculado. Nada fazia sentido.

Os minutos passaram e eu me estabilizei. Entendi onde estava, que horas eram e qual era o próximo deslocamento: um trem em Nice, depois o aeroporto, depois Lisboa. A mala precisava estar pronta para isso. Eu também.

Eu estava voltando para lá pois eram meus últimos dois dias do período em que um estrangeiro pode permanecer na Europa que é de 90 dias. No momento em que comprei a passagem de ida eu já sabia que, para deixar a polícia de fronteira dos aeroportos tranquila, eu teria de apresentar também comigo uma passagem de volta ao meu país de origem. Portugal é uma das portas de entrada mais baratas da Europa, revezando-se com Madri.
 

Chovia em Lisboa. Eu só pensava nas pedras que ficariam lisas na chuva e no escorregão fácil que me esperava na subida daquela ladeira em direção ao hostel.

Minha barriga implorava por algum tipo de proteína que eu já não havia comido em alguns dias. Eu estava sonhando com minha ida ao Mercado Oriental Martim Moniz, comer o bowl de algo oriental que eu nem sabia o que era, mas já salivava. Minha mala carregando peso extra da sujeira que grudava nas minhas roupas. Eu usando o máximo de concentração e coordenação motora que ainda me restava pra não escorregar naquela ladeira. Se eu puxar bem na memória, o jovem que descia a rua na calçada ao lado chegou a cair, mas eu já estava apenas com meu instinto de sobrevivência ativado e a empatia e ajuda ao próximo completamente inativas. Notei com minha visão periférica que alguma boa alma o havia ajudado.

Em um lapso, meu instinto voltou. Eu conhecia a pessoa que tinha ajudado o jovem patinador de ladeiras portuguesas. Estava de touca, totalmente coberto de um casaco de lã batida azul-marinho que eu tinha visto dois dias antes. Meu olhar voltou à cena daqueles dois jovens se ajudando e me dei conta da realidade: eu estava chegando, dois dias depois de Kiwi ter vindo para Portugal, hospedado no mesmo hostel que eu. E se eu estava chegando, ele haveria de estar partindo. Eu já não sabia qual era o destino dele depois dali, na conversa que tivemos nossas coincidências acabavam em Lisboa e eu não havia perguntado o próximo destino dele porque o meu era Brasil, fim da viagem, portanto o dele não seria o mesmo.

Naquele momento me dei conta que também não perguntei para onde ele iria depois dali. De novo, minha mente fugiu do tempo e fiquei parada alguns segundos só raciocinando isso. 

Quando voltei a enxergar ele estava sorrindo, acenando, mas apontando para o relógio e em direção à descida da rua, direção contrária à minha. Eu acenei de volta mas não assimilei a soma dos gestos. Ele pegou na alça da mochila e, de novo, apontou para o relógio e acenou um tchauzinho com a mão. De novo, não entendi. Só conseguia sentir meu estômago colado às costas. Ele apontava com a cabeça, sim, de novo, para a descida da rua.

O bondinho chegou, amarelo, clássico lisboeta e eu li — ou acredito até hoje ter lido — na boca dele, grande, proporcional à cabeça, a frase “I wish we could speak more”. Ele se virou em uma velocidade suficiente para que eu notasse o chaveiro criando uma força centrípeta entre a superfície e a mochila. Minha mente clicou, finalmente. Era Kiwi, óbvio. Passei os segundos seguintes me insultando em pensamento, com empenho e pouca variedade. “Por que eu não atravessei?” Talvez porque, na condição em que eu estava, o bondinho certamente teria me atropelado. Ou eu teria escorregado naquele ringue de patinação inclinado. Ou um pombo teria me atingido — qualquer desfecho mais patético do que a minha lerdeza.

Eu só voltei a (tentar) caminhar depois que o bondinho virou a esquina e o perdi de vista.

Resignada, segui arrastando minha mala. Eu não acreditava no que tinha acabado de acontecer ali.

O bowl que matou o que estava tirando meus sentidos
Essa foi a última vez que eu o vi
Dia 08 de março de 2024, em Lisboa

Duas horas depois, uma árvore caiu segundos depois de eu passar por baixo dela. Quase morri. O universo queria me dizer algo? Já não sei.

07 de setembro de 2024 — Joinville, Brasil

Me assustei, não entendi. Nó. Confundia a realidade com o que eu achei não ser real. Aquela matéria que eu estava lendo não podia ser real.

A viagem já tinha acabado e essa era o nosso sétimo contato.

Quando encontrei a imagem dos dois elefantes na notícia, a primeira reação não foi formular uma hipótese. Foi perder a ordem das coisas. Eu olhava para a fotografia publicada na matéria e voltava, sem querer, para a estação de Nice: a mochila, a garrafa de metal, o chaveiro redondo, a explicação sobre a pandemia.

Não precisei comparar traço por traço para saber. O reconhecimento veio antes do raciocínio. A parede de Chelsea me devolvia, em escala pública e em estêncil, o mesmo sentimento que eu havia segurado meses antes num chaveiro barato de resina descascada, à porta de uma estação. Era semelhante demais ao desenho que eu guardava na memória. Ou, para ser mais exata: era semelhante demais ao modo como minha memória insistia em guardar aquele desenho.

Senti minha cabeça voltando a funcionar.

Os desenhos eram, na minha memória, idênticos. O chaveiro e aquela arte na parede.

Primeiro, a recusa: aquilo era impossível. Eu tinha de estar enganada.

Depois, uma raiva sem endereço.

Então, a barganha com a memória: comecei a me questionar, a duvidar, e iniciei uma busca desesperada por fotos daquele chaveiro que eu vi em março. Ao mesmo tempo em que procurava, foto por foto, eu não era capaz de enxergar nada. Por mais que achasse, não acreditaria nos meus olhos.

Tristeza de não ter conseguido falar aquela última vez com Kiwi para perguntar ao menos onde ele estava indo, qual era o próximo destino, qualquer coisa. Tristeza de não ter encontrado registro. Não havia uma foto do chaveiro, um registro em vídeo, nada. 

Me vi com tanta raiva e frustração naquele momento que não aceitei. Não aceito até hoje.

Eu não tinha contado essa história com o detalhe do chaveiro para ninguém, afinal, o chaveiro não era relevante. Eu não tinha mencionado nunca os dois elefantes, até então. Os “dois dias de diferença”, sim — esses eram o centro da história curiosa que eu tinha contado às minhas amigas. Já os elefantes pintados em um chaveiro que balançava e batia em uma garrafa de metal não eram um detalhe relevante. Até então.

Mergulhei, de novo, em toda a galeria de fotos do meu celular atrás de uma foto daquele chaveiro, de um vídeo que, por sorte de relance, tivesse registrado aquele desenho feito a mão pelo garoto que eu conheci na viagem.

Três horas se passaram na velocidade de três minutos e eu não havia encontrado nada, nenhum registro, nenhuma prova. Zero. Era nítido aquele desenho na minha mente, e eu sabia que não era falha da minha memória porque era aquele som que eu associava ao desenho, mais de uma, duas, três vezes. Eu lembrava da explicação de Kiwi sobre o desenho, eu tinha certeza do que tinha visto. O som do tilintar, no momento marcante dos nossos encontros, as despedidas de dois dias até se tornarem despedida eterna, me marcou pelo som do chaveiro e, por isso, meu olho batia naquele desenho todas as vezes, eu estava certa do que eu vi.

Ali vi que meu trabalho como jornalista poderia entrar em ação, seria a maior investigação que eu faria até então, na minha curta carreira de estudante de jornalismo. Um artista mundial que ninguém, até então, havia conseguido descobrir quem de fato era.

Reportagem viva — Investigação

Em janeiro de 2026, comecei a procurar especialistas para as entrevistas desta reportagem. A reportagem, até então, existia entre anotações, lembranças, imagens salvas e perguntas que eu ainda não sabia formular direito. Dias de pesquisa depois, montei um roteiro inicial de perguntas. Ulrich Blanché foi a primeira fonte a responder com a autoridade de quem estudava Banksy havia 20 anos. Eu queria entender o que havia ao redor do artista: os mecanismos de autenticação, os intermediários, os colaboradores possíveis, os silêncios mantidos por lealdade, contrato ou conveniência. A apuração começava por ali, ainda sem saber que, poucas semanas depois, o chão mudaria.

No dia 13 de março chegou a notificação, eu estava no trabalho. Era uma mensagem da minha orientadora, enviada poucos minutos depois da publicação:Reuters acabara de divulgar uma investigação sobre Banksy. Não era uma nota lateral, nem mais uma tentativa especulativa em torno do artista. Era uma reportagem extensa, assinada por Simon Gardner, James Pearson e Blake Morrison, que dizia ter encontrado documentos judiciais e policiais inéditos nos Estados Unidos, incluindo uma confissão manuscrita ligada a uma prisão em Nova York, e sustentava ter reunido novas evidências sobre uma das perguntas mais protegidas da arte contemporânea: quem estava por trás do nome Banksy. A notícia chegou cinco minutos depois de publicada. Antes mesmo da leitura completa, havia a sensação de ver uma história ainda em apuração mudar de lugar.
Àquela altura, esta reportagem já estava em curso. Ulrich havia respondido ao meu primeiro contato em 20 de janeiro e voltado a conversar comigo em 10 de março, três dias antes da publicação da Reuters.
Depois, responderia novamente em 1º de abril, já com a investigação da agência atravessando o contexto. Quando encontrei seu nome na reportagem, a reação foi de confirmação. Eu havia chegado, antes da publicação, a uma fonte relevante para compreender Banksy com rigor: não apenas sua obra, mas também o sistema de silêncio, mediação, autenticação e acesso que a sustenta.

A investigação da Reuters deslocava o debate público para a identidade do artista, mas também expunha a engrenagem que torna essa identidade possível. O texto mencionava a Pest Control, empresa responsável pela autenticação das obras; o mercado em torno de Banksy; os pactos de confidencialidade; e o conflito ético entre interesse público e privacidade. De um lado, a agência justificava a apuração pelo peso cultural, político e econômico do artista. De outro, o advogado de Banksy argumentava que revelar sua identidade violaria sua privacidade, afetaria sua arte e poderia colocá-lo em risco. A reportagem tratava do nome, do preço, simbólico e material, de permanecer anônimo depois de se tornar mundialmente conhecido.

O ponto que mais atingiu a minha apuração, porém, não estava no centro da tese sobre a identidade. Estava em uma informação de bastidor: segundo a Reuters, em fevereiro de 2024, Banksy realizou uma exposição secreta em Londres, em um porão de Shoreditch, em um prédio na Hanbury Street, aberta apenas a colecionadores convidados diretamente pela Pest Control.
Havia obras inéditas, fotografias feitas às escondidas, acordos de confidencialidade e restrições de revenda.

Aquilo não provava nada sobre a minha história. Mas deslocava o terreno em que ela precisava ser pensada: a exposição acontecera em Londres no mesmo recorte de meses em que eu também circulava pela Europa, depois de ter passado pela Inglaterra em dezembro e estar em Lisboa em fevereiro, e pouco antes de eu conhecer, em Gênova, Kiwi que mostrou ter passado recentemente por Londres. Eu não tinha suas datas exatas, mas ele me mostrou, no aplicativo Pin Traveler, um mapa de deslocamentos em que a Inglaterra aparecia entre seus últimos quatro destinos nos três meses anteriores: Londres em fevereiro de 2024.

A informação da Reuters acrescentava, então, uma nova camada de proximidade temporal e geográfica: Londres, fevereiro de 2024, circulação restrita de imagens, Pest Control, mercado, sigilo e um ecossistema capaz de manter obras, pessoas e informações sob controle.

Depois da Reuters, acrescentei novas perguntas a Ulrich e consegui contato com Will Ellsworth-Jones, jornalista britânico e autor de Banksy: The Man Behind the Wall, que entrava na apuração por outro caminho: o da reportagem e do entorno humano do artista.

A reportagem da agência não atrapalhou a minha apuração; abriu caminho. Reforçou que a questão central não era descobrir Banksy, mas compreender quem circula ao redor dele. A própria Reuters mencionava um círculo protetor de amigos, parceiros, colecionadores e críticos que evita expor o artista. Era nesse entorno, e não no rosto por trás do pseudônimo, que minha investigação encontrava seu ponto mais delicado. Passei a perguntar com mais precisão sobre Shoreditch, Pest Control, os possíveis helpers e a chance de alguém jovem ocupar uma posição periférica, mas próxima o bastante para ver antes, saber antes ou atravessar as bordas do sigilo.

Foi a primeira vez, durante o processo, que senti a reportagem escapar da minha mesa. Não porque eu tivesse perdido o controle da história, mas porque a história continuava acontecendo fora dela. Uma apuração não avança em linha reta. Ela é atravessada por respostas tardias, documentos inesperados, publicações de outros jornalistas e mudanças de rota. O trabalho, então, deixa de ser apenas escrever o que se descobriu. Passa a ser também reconhecer, diante do leitor, o momento exato em que a própria investigação precisou mudar de lugar.

01 de maio de 2026 — Joinville, Brasil 

Banksy voltou a aparecer em Londres. Desta vez em uma estátua instalada em Waterloo Place: um homem de terno, descendo de um pedestal, com uma bandeira cobrindo o rosto. O artista assumiu a autoria em um vídeo publicado no Instagram, no qual a peça era erguida durante a noite.

A notícia não deslocou o eixo da minha reportagem como a investigação da Reuters havia feito semanas antes. Não trazia documentos, fontes novas ou uma mudança concreta no rumo da apuração. Ainda assim, precisava entrar. Banksy surgia de novo em Londres, menos de dois meses depois de uma tentativa robusta de revelar sua identidade, e seguia operando do modo que sempre tornou sua obra difícil de separar da performance: aparecendo sem aviso. Para a minha reportagem, era mais uma confirmação discreta de que escrever sobre Banksy é acompanhar uma história em movimento: uma história que continua se moldando enquanto é narrada.

Recapitulando tudo até aqui...

O que torna Banksy possível

Depois de setembro, quando a manchete dos elefantes recolocou aquela viagem inteira sob outra luz, fui procurar quem estuda Banksy — não para descobrir um nome, mas para entender uma engrenagem. Ulrich e Will sustentaram essa apuração por caminhos diferentes. Ulrich me ajudava a olhar Banksy a partir da obra: as imagens, os lugares, a ordem em que elas aparecem, o modo como uma parede participa do sentido. Will me ajudava por outro caminho: o da reportagem, dos acessos, dos silêncios, dos intermediários e das tentativas de chegar perto de uma figura que existe justamente pela distância. Um me aproximava da linguagem visual de Banksy; o outro, do sistema humano que torna essa linguagem possível. A pergunta que levei aos dois não era “quem é ele?”, e sim “que estrutura humana, logística e simbólica permite que um artista exista como presença pública e ausência pessoal ao mesmo tempo?”.

A primeira coisa que essa estrutura tem é um sistema de proteção. Will descreve um conjunto de pessoas que regulam o acesso a Banksy: alguém que cuida da imprensa há muito tempo, managers que se sucederam ao longo dos anos e a Pest Control, empresa que autentica as obras e, ao fazê-lo, também protege o artista. O quanto esse controle é deliberado ficou claro num episódio do próprio Will: ao pedir, para seu primeiro livro, uma entrevista com Banksy, ouviu que ela só poderia ser considerada se ele mostrasse o manuscrito antes. Nem ele nem a editora aceitaram. No universo Banksy, o anonimato não é apenas a ausência de um rosto; é um sistema que filtra a aproximação e procura manter o artista protegido também no plano da narrativa. A regra de atribuição, aliás, passa por essa mesma instância. Para Ulrich, uma obra de rua pode ser datada pelo que apareceu no site do artista e, depois, no Instagram, mas a certeza definitiva vem de um lugar só:

"Se uma obra é autenticada pela Pest Control, você pode ter certeza de que é dele"
Dr. Ulrich Blanché
pesquisador de pós-doutorado em história da arte na Universidade de Heidelberg

A regra Reuters expõe uma face econômica do mesmo controle de acesso. Um círculo protetivo de amigos, parceiros, colecionadores e críticos, com a Pest Control no centro da autenticação e da operação do negócio. A exposição secreta que a agência revelou — um porão em Shoreditch aberto apenas a colecionadores convidados diretamente pela Pest Control, com acordos de confidencialidade e restrição de revenda — é a forma comercial do mesmo controle de acesso que Will descreve no plano jornalístico.

Autoria e equipe

O que essa engrenagem não dissolve é a autoria. À pergunta sobre se Banksy deve ser pensado como uma pessoa ou como alguém cercado por colaboradores, Ulrich respondeu: “Os dois. Ele é o arquiteto. A contribuição criativa é principalmente dele. Mas ele tem muitos ajudantes, sempre teve.”* Will, por outro caminho, chegou ao mesmo ponto: “as ideias são provavelmente — ou certamente — dele, e é isso que faz dele o artista”. É essa centralidade que impede que Banksy se reduza a uma marca operada por terceiros. Will compara o caso ao de Damien Hirst, que não pintou pessoalmente cada uma de suas telas de pontos sem por isso deixar de ser o autor.

A diferença é que, com Banksy, a colaboração é clandestina, variável e ajustada a cada operação. “Banksy, acho, sobe e instala as peças, mas com ajuda. Mas ele tem a ideia e está lá”, disse Will. “Não acho que ele mande equipes e fique sentado vendo como elas se saíram.” Para ele, a fórmula mais provável é “ele mais quem ele precisa naquele momento”, além de uma ou duas pessoas próximas, com quem conversa sobre ideias. Ulrich resumiu essa lógica em outra chave: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá junto”, ao mencionar um projeto coletivo ligado à trajetória recente de Banksy.

A escala dessa ajuda aparece em empreitadas grandes. Will recorda o Dismaland, o parque distópico que Banksy montou em 2015 no antigo Tropicana, em Weston-super-Mare: grande demais para a imagem do artista que age sozinho, de madrugada, diante de uma parede vazia. Ali, diz ele, Banksy “deve ter tido uma equipe trabalhando para ele”. O detalhe mais revelador estava na entrada: parte da equipe teria passado por um treinamento de atuação para parecer o mais sombria possível. Havia, segundo Will, gente “com ele no controle, suas ideias, eles colocando ideias, mudando coisas e fazendo acontecer”. A ajuda, ali, já não era apenas técnica: era parte da obra.

Mas existir equipe não significa existir intimidade. Algumas pessoas participam da operação sem nunca tocar o núcleo do mistério; outras executam tarefas pontuais por pouco tempo. A formulação mais precisa de Will veio quando recusou a palavra “imaginação”. Ao reconstruir como os ajudantes funcionam, disse, não estaríamos imaginando, mas “construindo o que é provável” — e mesmo isso, advertiu, “não particularmente baseado em evidência”. Houve vezes, lembrou, em que Banksy pintou à vista de todos, com pessoas fingindo ser operários num andaime. A inferência responsável existe, mas carrega a marca da própria insuficiência.

Uma imagem pode existir antes

Foi essa estrutura que me permitiu formular a única pergunta que a minha história autorizava: uma imagem pode existir antes de aparecer numa parede? Will respondeu pela materialidade — não se corta um stencil sem alguma visualização anterior; na exposição de Glasgow, houve indícios de esboços prévios.³  E havia uma razão técnica para isso“Você não consegue cortar esses stencils sem ver, até certo ponto, como eles vão funcionar.” A obra não nasce no instante da aparição: há processo, teste, circulação mínima, ainda que invisível. Isso impede que o caso dos elefantes seja descartado por impossibilidade técnica. A pergunta deixa de ser “isso poderia existir antes?” e passa a ser “por quais vias, e a que distância do núcleo criativo, essa existência prévia poderia circular?”.

Aqui era preciso fechar uma porta antes de abrir outra. Com base no que Ulrich afirmou e no que a Reuters documentava, Banksy não poderia ser Kiwi. Falamos de um artista de Bristol, ativo desde os anos 1990, associado a um homem nascido em 1973. Kiwi tinha 26 anos. Ele nunca seria Banksy — e essa nunca foi a questão. A questão era se aquele jovem poderia ter ocupado uma posição periférica, próxima o bastante para ver antes, saber antes, atravessar as bordas do sigilo.

A resposta de Will foi cautelosa e desfavorável à hipótese direta. Kiwi se apresentou como alguém da área de tecnologia, um nômade digital; não havia traço declarado de inserção artística. Sem isso, parecia estranho que Banksy o mobilizasse. Will o classificou como “um ajudante improvável de Banksy” — improvável, não impossível, não absurdo. E abriu a única fresta que restava: “talvez o rapaz conhecesse alguém que conhecia alguém”, talvez tivesse visto algo por aproximação indireta. Havia ainda o problema do tempo. O encontro aconteceu meses antes da obra, em outro país. Para a narrativa, isso tornava tudo mais inquietante; para a prova, mais frágil. Foi também Will quem me devolveu o método, com uma pergunta que eu ainda não tinha feito: eu havia procurado se existiam outros elefantes desenhados daquela forma, algum antecedente que explicasse a coincidência sem passar por Banksy? Ele não afirmava que existissem. Dizia que a busca precisava ser feita — porque uma boa história também procura aquilo que pode enfraquecê-la.

"Há várias rotas até Banksy"
Dr. Ulrich Blanché
pesquisador de pós-doutorado em história da arte na Universidade de Heidelberg

Os dois elefantes

Sobre a obra em si, Ulrich foi o mais preciso. Recusou ler os dois elefantes isoladamente. Para ele, aquela silhueta era a segunda parte de uma narrativa. “Leia Banksy mais como um diretor de cinema; ele dá as informações na ordem certa.”bode, primeira imagem da série, aparecera em Richmond e ainda funcionava sozinho; os elefantes, em Chelsea, “estabelecem o zoológico na história” e indicavam uma narrativa em curso, feita de animais de zoológico. E a localização nunca é neutra: “wall first, picture second” — primeiro a parede, depois a imagem. O bairro participa da ironia; o espaço completa o sentido.

A leitura não parava nos animais. A série, para Ulrich, falava de confinamento, e já estaria pronta antes de aparecer nas ruas — caberia ao artista encontrar, em Londres, lugares que funcionassem como cercados. “As pessoas estão enjauladas em todos os lugares.” Os elefantes não falavam só de elefantes: falavam de corpos separados por estruturas que parecem naturais porque já estavam ali. Um parecia ter uma presa; o outro, não. Talvez macho e fêmea, talvez velho e jovem. Foi então que ele disse a frase que me perseguiu: “Eles parecem gostar um do outro. E estão separados mesmo assim.”

Aquela leitura encostava na explicação que Kiwi havia me dado em Nice, meses antes de eu ler qualquer matéria sobre os elefantes. Para ele, o desenho era uma referência à pandemia: dois animais em janelas separadas, vendo um ao outro, sem poder tocar. Quando perguntei por que elefantes, riu — animais são melhores que pessoas — e disse que ninguém quer falar do elefante no meio da sala, então ele falava de dois, nas janelas, separados. Era assim que se sentira na pandemia. Eu não tinha como saber, então, que aquela explicação caseira de um viajante reapareceria, seis meses depois, perto demais da leitura de um historiador da arte.

Ulrich não deu a isso o peso de prova. O motivo dos elefantes, disse, era apenas uma pequena parte da obra — “não é tão importante, mas é a primeira coisa com que você se conecta”. E foi esse detalhe que me fez seguir adiante: “Ele fez você cavar mais fundo.” Na segunda troca de e-mails, porém, Ulrich foi mais duro com o elo entre Kiwi e Banksy. “Tenho receio de ainda achar que tudo isso é coincidência”. Disse não acreditar que Banksy trabalhasse com alguém que carregasse “seu esboço como chaveiro” e deslocou o peso do desenho para o gesto artístico: “o que fez disso um Banksy foi a localização, a performance; a imagem é secundária”. A frase mudava o tamanho da minha hipótese. O motivo dos elefantes aproximava as cenas; não bastava para ligá-las.

Já Will questionou a forma como o desenho havia chegado até mim. Quis saber se Kiwi o apresentara como algo especial, quase como quem oferece uma pista. Quando expliquei que não — que eu apenas ouvi o chaveiro tilintar na mochila, olhei, apontei e perguntei sobre os elefantes —, a cena perdeu, para ele, qualquer aparência de gesto calculado. Não tinha sido uma exibição. Tinha sido acaso. Ainda assim, quando ouviu a explicação de Kiwi, Will parou nela. “É uma explicação bastante interessante, não é? Porque meio que combina com os elefantes de Banksy.” E foi além: “Acho que é provavelmente assim que Banksy descreveria seus elefantes.” Para Will, portanto, o mais forte estava na leitura que Kiwi deu ao desenho. Dois corpos separados, tentando se alcançar apesar da distância. Mas essa força continuava no campo da circunstância: havia timing, memória, semelhança de sentido. Não havia prova. “É tudo muito circunstancial”, disse Will. “Não acho que, neste momento, você venceria um processo com isso.”

Um nome não é uma pessoa

Há uma pergunta que percorreu este texto por baixo, e que eu deixei de propósito para um só lugar: afinal, quem é Banksy? É a pergunta que o mundo mais faz e a que menos interessa a esta reportagem — mas ignorá-la seria desonesto, porque foi ela que, no caminho, fechou uma das portas da minha própria investigação.

Para Ulrich, há pouco mistério. “Não tenho nenhuma razão para acreditar que não tenha sido sempre a mesma pessoa”, disse. Um homem de Bristol, com obras datadas a partir de 1997. “Tenho mais razões do que outros para acreditar que a pessoa por trás de Banksy é Robin Gunningham, nascido em 28 de julho de 1973, em Bristol.” Sobre as evidências, foi lacônico: “Essa evidência existe, e eu sei quem tem essa evidência.” Ainda assim, fez a ressalva que o define: “Sempre me interessei mais pela obra. A pessoa, para mim, é secundária.”

A investigação da Reuters, a mesma que chegara no meio da minha apuração, foi a tentativa mais robusta de transformar essa convicção em documento e sustentava que o homem por trás do nome teria depois passado a usar o nome David Jones. Foi apresentada como uma das tentativas mais documentais de aproximar o pseudônimo de uma identidade civil. E foi também o que fechou, para mim, a porta mais óbvia. Se Banksy é um homem nascido em 1973, o jovem de 26 anos que cruzou meu caminho jamais poderia ser ele. Restava o entorno — e era no entorno que minha história talvez tivesse tocado alguma borda.

Mas a Reuters também reacende a pergunta ética que Will havia colocado, por e-mail, antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa. Existe um direito do público de saber quem é Banksy? Will é direto. “Não acho que exista um direito de saber a identidade de Banksy.” Isso não o faz condenar a investigação — ao contrário, achou a apuração da agência “muito interessante”, sobretudo por ter encontrado o registro policial de 2000. A diferença está no limite: uma investigação pode ser boa sem que sua descoberta vire necessidade pública. Ele lembra das reações à investigação do Daily Mail, anos antes, e de um comentário que sintetizava tudo: “Por que vocês fizeram isso?” Para Will, ali havia uma pista sobre a relação do público com o artista: “As pessoas gostam de não saber.”

E há uma distinção que ele faz e que talvez seja a coisa mais importante dita em toda a apuração: ter um nome não é ter uma pessoa. Banksy, ao contrário de Damien Hirst, não se completa em entrevistas e aparições; não se encontra o artista, nem sua família. “É muito diferente ter um nome e ter uma pessoa”, disse. “Há apenas um nome, e isso não significa muito.” Mesmo quando um nome aparece, a pessoa continua fora de alcance. A revelação, ainda assim, cobra um preço: o registro de Nova York torna mais difícil a vida de Banksy em ações futuras juridicamente sensíveis — se ele repetir algo como a intervenção no Royal Courts of Justice, a pressão sobre a polícia será outra. Will não trata isso como injustiça. “É uma pena, mas não sinto que isso não deveria ter acontecido. É um risco que ele corre.” Banksy escapou por 25 anos; a investigação não anula sua obra, mas muda as condições em que ela continua.

“Eu não acho que exista um direito de saber a identidade de Banksy.”
Will Ellsworth-Jones
jornalista e escritor britânico. autor de Banksy: The Man Behind the Wall e Banksy’s Lost Works.

Pergunta forte, não conclusão forte

Para a minha própria história, essa distinção foi a lição. Investigar não é o mesmo que reivindicar posse sobre o mistério. Há nomes que se encontram, mas nem toda descoberta resolve uma história — algumas apenas tornam visível o seu custo. O mundo passou 25 anos tentando desmascarar Banksy, e a Reuters chegou perto. Eu, diante de um chaveiro com dois elefantes, escolhi o contrário: não encerrar o enigma, mas circunscrevê-lo.

Essa história talvez nunca renda uma conclusão forte. Mas produz uma pergunta forte.

E pergunta forte, em jornalismo, não é pouca coisa.

* As entrevistas com Ulrich Blanché e Will Ellsworth-Jones foram realizadas originalmente em inglês. Para esta reportagem, os trechos citados foram traduzidos para o português, a fim de facilitar a compreensão do leitor.

especial

Reportagem produzida por estudantes do 6º período do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc durante o segundo semestre letivo de 2024 na disciplina Jornalismo Digital II, ministrada pelo professor Hendryo André.

Os conteúdos publicados não refletem necessariamente a posição da Faculdade Ielusc.

PAUTA E TEXTO

Luiza Rodrigues da Costa Gomes

áudios e vídeos

Luiza Rodrigues da Costa Gomes

INFOGRAFIA

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Primeira Pauta é o jornal-laboratório produzido pelos estudantes do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc. 

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