O berço do futebol e o troféu que nunca voltou para casa
Imagine um país que criou as regras do futebol, organizou a primeira federação nacional, disputou o primeiro jogo internacional da história e demorou 78 anos para entrar em uma Copa do Mundo. Que ganhou seu único título mundial com um gol que análises computadorizadas modernas indicam que talvez não tenha cruzado a linha. Que carregou por décadas o trauma dos pênaltis até finalmente vencer uma disputa em 2018 e mesmo assim continuou perdendo nas fases seguintes. A Inglaterra veio para a copa de 2026 afim de mudar essa trajetória.
O início do futebol
Em 1863, a Football Association (FA) inglesa reuniu representantes de clubes de Londres e sistematizou as regras que deram forma ao futebol moderno. Nove anos depois, em 30 de novembro de 1872, Inglaterra e Escócia disputaram o que é reconhecido como a primeira partida entre seleções da história do futebol, terminando em 0x0.

Durante décadas, a Inglaterra recusou-se a entrar na FIFA, saiu da entidade em 1920, voltou em 1924, saiu de novo em 1928 por divergências sobre a definição de “amadorismo”. Por isso os ingleses não participaram das três primeiras Copas do Mundo: 1930, 1934 e 1938. O país que inventou o esporte ignorou solenemente o maior torneio do planeta por quase duas décadas.
Quando finalmente estrearam, no Brasil em 1950, a humilhação foi imediata: perderam por 1 a 0 para os Estados Unidos, numa das maiores zebras da história. Conta a lenda que os jornais ingleses recusaram a publicar o placar, achando que havia erro tipográfico. A lenda é falsa, mas o fato de ter surgido e circulado por tanto tempo diz muito sobre o nível de descrença que o resultado gerou.
O título de 1966 e o gol que talvez não tenha entrado
A Copa de 1966 é o ponto de partida e de chegada de toda narrativa sobre a seleção inglesa. Jogando em casa, sob o comando do técnico Alf Ramsey, que tinha prometido publicamente o título, a Inglaterra venceu a Alemanha Ocidental por 4 a 2 na final, no estádio de Wembley, numa prorrogação dramática.
O centroavante Geoff Hurst fez história ao marcar três gols na decisão, feito que só seria repetido por Kylian Mbappé em 2022. Mas o segundo gol de Hurst, que definiu o 3 a 2 e abriu caminho para a vitória, persiste como um dos lances mais controversos da história do esporte. A bola bateu no travessão, quicou perto da linha e foi validada pelo árbitro, após consulta ao bandeirinha soviético. Até hoje, análises computadorizadas modernas concluem que a bola provavelmente não entrou completamente. A Inglaterra é, tecnicamente, campeã mundial graças a um gol que talvez não tenha existido.

O troféu original foi roubado em 1966, meses antes do torneio, enquanto era exibido numa exposição em Londres. Foi recuperado dias depois por um cão chamado Pickles, que farejou o embrulho num jardim. Pickles virou celebridade nacional. A taça, uma réplica, foi roubada novamente em 1983 e nunca mais foi encontrada.
O trauma dos pênaltis e a coleção de quase
Se existe uma narrativa que define a seleção inglesa nas décadas seguintes ao título de 1966, é a dos pênaltis. Durante 28 anos, de 1990 a 2018, a Inglaterra perdeu quatro disputas consecutivas em Copas e Eurocopas.
A semifinal de 1990 na Itália, contra a Alemanha Ocidental, é o episódio mais doloroso. Paul Gascoigne chorou em campo quando recebeu o segundo cartão amarelo do torneio, tomando conhecimento de que estaria suspenso para uma eventual final. A cena do Gazza em lágrimas tornou-se uma das imagens mais icônicas do futebol inglês. Stuart Pearce e Chris Waddle erraram os pênaltis decisivos, a Alemanha avançou.
Em 1998, contra a Argentina nas oitavas, David Beckham foi expulso após dar um chutinho no argentino Diego Simeone, que exagerou na queda. O ato custou ao jogador meses de hostilidade da torcida inglesa e a Inglaterra perdeu mais uma vez nos pênaltis. Em 2006, contra Portugal, Wayne Rooney foi expulso em circunstância parecida, Cristiano Ronaldo fez uma piscadinha discreta para o banco português após o cartão vermelho, transformando o lance em escândalo internacional.
A “maldição” só foi quebrada nas oitavas da Copa de 2018, contra a Colômbia: 4 a 3 nas penalidades, primeira vitória inglesa num confronto desse tipo em Mundiais. A Inglaterra foi às semifinais e perdeu para a Croácia na prorrogação, sem pênaltis desta vez.
A Mão de Deus ataca contra a Inglaterra
Em 1986, no México, a Argentina de Maradona eliminou a Inglaterra nas quartas de final com dois gols em cinco minutos.
O primeiro gol foi marcado com a mão esquerda de Diego Maradona, que o árbitro não viu e validou. Após a partida, o camisa 10 argentino descreveu o lance como “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus“, frase que atravessou gerações e entrou para o vocabulário esportivo universal. O segundo gol, marcado minutos depois, ficou conhecido como o “Gol do Século”, Maradona arrancou do campo de defesa, driblou cinco jogadores ingleses e o goleiro Peter Shilton e empurrou para o gol vazio.

Campeã mundial sem título continental
A Inglaterra é a única seleção campeã mundial que nunca venceu seu principal torneio continental. Em toda a história da Eurocopa, os ingleses jamais levantaram o troféu, chegando mais perto nas finais de 2021 (Euro 2020) e 2024. O único grande título oficial do English Team segue sendo a Copa do Mundo de 1966.
Podemos constatar que o problema da seleção inglesa nunca foi a falta de craques em suas seleções, mas, simplesmente, uma maldição que faz com que várias gerações não vejam a Inglaterra levantar um título.
Com a vaga garantida para a semifinal, eles chegam com o desejo de conseguir conquistar o que muitas gerações tentaram, o sonho do bicampeonato mundial. A seleção enfrenta a Argentina, a atual campeã mundial, que vem fazendo uma boa campanha durante a edição de 2026. Com o apoio da torcida e com grandes nomes na escalação, a quebra do jejum parece cada vez mais próxima.