Mulheres representam 52,26% do eleitorado, mas ocupam quatro das 19 cadeiras da Câmara de Joinville
O número de vereadoras eleitas em Joinville dobrou entre 2020 e 2024, mas barreiras à participação feminina ainda persistem, mesmo com a legislação eleitoral que estabelece a cota de gênero.
Foram quatro vereadoras eleitas em 2024, contra duas nas eleições de 2020. Liliane Freitas Lovato (Pode), Tânia Larson (União), Vanessa Venzke Falk (Novo) e Vanessa da Rosa (PT) passaram a compor a Câmara Municipal. Apesar do avanço, as mulheres ainda ocupam apenas quatro das 19 cadeiras da Câmara Municipal, em contraste com um eleitorado formado majoritariamente por mulheres.
Em 2024, mulheres correspondiam a 52,26% do eleitorado de Joinville, com 227.258 eleitoras aptas a votar, enquanto os homens somavam 207.563. Naquele ano, 83 mulheres e 164 homens disputaram uma vaga na Câmara Municipal.
Os desafios, porém, continuam depois da eleição. Vanessa Venzke Falk, eleita em 2024, afirma que conciliar a atividade política com as responsabilidades familiares é uma das dificuldades. “A mulher ainda carrega uma cobrança silenciosa sobre seu preparo e capacidade de liderança”, diz.
A atuação no plenário também pode expor mulheres a situações diferentes das enfrentadas por homens. “No início da legislatura, percebi que alguns vereadores homens trouxeram certas provocações para o debate para testar como eu me comportaria, se manteria um posicionamento firme no plenário e como lidaria com embates diretos”, complementa a vereadora.
A falta de experiência política também pode dificultar a entrada na disputa, especialmente na captação de recursos e na construção de confiança entre apoiadores. “Quando você surge na política de forma independente, a principal barreira é provar para o apoiador que seu projeto é viável”, conta.
“Durante a campanha, percebi, sim, algumas dificuldades relacionadas ao fato de ser mulher. Existe uma cobrança muito grande sobre nós, inclusive em coisas que pouco têm a ver com a nossa capacidade: nossa aparência, nossa forma de falar, nosso jeito de nos posicionar e até a maneira como conciliamos a vida pessoal, a família e o trabalho”, explica a vereadora e ativista da causa animal, Liliane Freitas Lovato.
Em seu primeiro mandato e sem experiência anterior na política, Liliane também chegou à disputa sem uma estrutura previamente construída. “Naturalmente, dentro de uma campanha, os partidos fazem suas análises e acabam direcionando mais recursos, apoio e visibilidade para candidaturas que, naquele momento, acreditavam ter maior potencial eleitoral”, afirma.
Dentro dos partidos, a distribuição de recursos e apoio também influencia as chances das candidaturas. “Os dirigentes priorizam perfis que eles consideram mais competitivos ou já testados eleitoralmente e, em geral, esse perfil é masculino”, reforça a cientista política Cíntia Pinheiro Ribeiro de Souza, professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Barreiras começam antes das eleições

As barreiras à participação feminina começam antes da candidatura. A associação das mulheres ao espaço privado pode dificultar a formação de redes de apoio, a participação em espaços de decisão partidária e a conciliação entre a política e as responsabilidades familiares. Para Liliane, esses obstáculos podem levar mulheres que desejam participar da política a desistir da disputa: “O que me preocupa são aquelas que gostariam de participar, têm capacidade e boas ideias, mas acabam desistindo antes mesmo de tentar.”
O ambiente político é majoritariamente masculino e reproduz uma lógica que pode afastar mulheres desses espaços. “Ainda existe a ideia de que, quando uma mulher assume mais responsabilidades profissionais ou públicas, alguma outra área da vida dela necessariamente ficará prejudicada, principalmente a família e os filhos”, acrescenta Liliane.
A violência política de gênero também compõe esse cenário. Mulheres que ocupam espaços políticos podem enfrentar situações de descrédito, ameaças, assédio moral e sexual, além de ataques nas redes sociais. “Existem relatos muito fortes de todo tipo de violência sofrida por elas, independentemente de ideologia”, destaca Cintia.
Cota de gênero busca ampliar participação
A legislação eleitoral estabelece mecanismos para ampliar a participação feminina nas eleições. Desde 2009, os partidos devem preencher no mínimo 30% das candidaturas com mulheres. Também há regras para a destinação de recursos de campanha, tempo de propaganda e Fundo Partidário à promoção da participação política feminina.
Apesar das regras, ainda há casos de candidaturas fictícias, usadas apenas para cumprir a quota de gênero. Em 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou a Súmula 73, que estabelece critérios para identificar possíveis fraudes, como votação muito baixa, ausência de movimentação financeira e falta de atos efetivos de campanha. O Ministério Público Eleitoral fiscaliza o cumprimento da cota e pode pedir a responsabilização dos partidos em caso de fraude.
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