Ascensão de dojos e CTs para mulheres fortalece presença feminina nas artes marciais em Joinville
Impulsionadas pelo desejo de proteção e saúde mental, joinvilenses ocupam espaços de luta
Em uma cidade que registra médias superiores a 12 casos de violência contra a mulher por dia, a busca por autodefesa costuma ser o pontapé das joinvilenses para as artes marciais. No entanto, a prática se mantém pelo bem-estar e pelo senso de comunidade construídos no tatame. Essa transformação ganha força em Joinville com a ampliação de estruturas públicas, como o Centro de Lutas da Arena, e os projetos privados focados no acolhimento feminino, como o Rancho para Mulheres, no bairro Saguaçu.
O movimento reflete uma tendência nacional: levantamentos do setor apontam que 57,9% das brasileiras querem aprender lutas por segurança, enquanto mais de 60% buscam autoconfiança e qualidade de vida. Historicamente masculinos, os dojos locais se reformulam para atender a essa demanda.
Na esfera pública, a estrutura do Centro de Lutas Jeanis Cristina Colzani foi batizada em homenagem à multicampeã de Karatê e ex-atleta da Seleção Brasileira. Segundo a Secretaria de Esportes de Joinville (Sesporte), o espaço atende atualmente mais de 145 meninas e mulheres distribuídas entre escolinhas de iniciação, turmas de saúde e equipes de alto rendimento.
De acordo com o Gerente Técnico da pasta, Luis Fernando da Rosa, a maior procura adulta é no Tai Chi Chuan, com 41 inscritas, enquanto o Karatê lidera no alto rendimento.
“Oferecemos gratuidade nos programas sociais e educacionais, garantindo acesso democrático e sem custos. Para os praticantes dedicados ao esporte de rendimento, o município oferece o Programa Bolsa Desportiva. Diversas atletas femininas das modalidades de lutas são contempladas, o que viabiliza seu treino contínuo e a participação em competições estaduais e nacionais”, pontua o gestor. Apesar do incentivo, a gestão confirma que não opera turmas exclusivas para mulheres.
Fora dos dados estatísticos, a busca pelas lutas ganha rosto no dia a dia local. Após quatro anos de Muay Thai no CT Impacto, a dona de casa Jane Luzia de Medeiros Selvino, de 55 anos, relata que a decisão esteve ligada à segurança e à saúde.
“A busca foi por defesa pessoal e preocupação com a segurança mesmo, além da resistência. Como tenho asma, precisava de um treino que me ajudasse a ganhar essa resistência física”, destaca Jane, que mantém rotina de exercícios há quase duas décadas.
Ressignificar a luta e ocupar espaços
Em 2026, novos espaços privados foram inaugurados em busca de acolhimento e exclusividade para mulheres. Janaina Mezomo é fundadora do Rancho para Mulheres, no bairro Saguaçu, e tinha como propósito criar um ambiente onde as mulheres pudessem desenvolver sua defesa sem o desconforto por vezes presente em dojos mistos tradicionais.
“A principal questão não era somente o medo de treinar com homens por conta da diferença de força física. Muitas mulheres simplesmente não se sentiam totalmente confortáveis em ambientes de luta que tinham homens”, revela Janaina, que explica:
“A luta ainda é muito vista como algo masculino, como se aquele ambiente pertencesse mais aos homens. E é isso que eu quis mudar. Eu queria mostrar que a luta também pode ser feminina, que mulher pode lutar, ocupar esse espaço e se sentir confortável fazendo isso”.
Para além do aprendizado de socos e chutes, a fundadora destaca a formação de uma rede de apoio entre as alunas. “Muitas chegam sozinhas, tímidas e sem conhecer ninguém e, pouco tempo depois, já estão conversando, treinando juntas e incentivando umas às outras. Existe uma identificação muito grande porque são mulheres com histórias, idades e corpos diferentes dividindo o mesmo espaço”.
Para elevar a preparação prática, o Rancho promoveu recentemente um treino diferenciado: trouxe homens de forma orientada para servirem como base de simulação real de força.
“O objetivo foi trabalhar uma situação diferente daquela que elas encontram no dia a dia. Como nossos treinos são exclusivamente femininos, trouxemos homens para que percebessem a diferença de força e aprendessem a reagir sem travar. Foi um exercício para perder o medo de bater, colocar força nos golpes e entender que a técnica precisa funcionar mesmo diante de alguém fisicamente maior”, detalha. De acordo com a fundadora, a resposta foi imediata: “Elas gostaram bastante, até pediram mais. Perceberam a própria capacidade”.
Essa conquista física e psicológica ultrapassa os limites do dojo. “A transformação acontece aos poucos. A luta ensina a mulher a ocupar espaço, se posicionar, conhecer a própria força e entender que ela é capaz de coisas que antes acreditava não conseguir fazer”, conclui Janaina Mezomo.