Mostra Sesc de Cinema aposta na sensibilidade em noite de curtas
Obras independentes de Rafaela Narciso e Michele Diniz formaram a programação da sessão
Melancolia e maturidade foram os elementos destaques na terceira noite da IX Mostra Sesc de Cinema. Nessa sexta-feira, 16, foram exibidos os curtas-metragens “Desvios naturais”, de Rafaela Narciso, e “Gaita”, de Michele Diniz. Com abordagens e personagens distintos, os curtas exploram os processos de construção e ressignificação de identidade. O encontro ocorreu no Sesc Joinville, no bairro América.
Para a cineasta Michele Diniz, 35, a mostra é uma oportunidade importante para levar o seu filme a diferentes públicos e regiões. A obra conta a história de uma garota na véspera de seu aniversário de 13 anos. “‘Gaita’ é um curta-metragem sobre amadurecimento e de como é importante a relação com as artes nessa fase, especialmente com música. É sobre se ver eternamente buscando novos horizontes, não parar de sonhar”, relata a autora.

A estrutura da mostra é dividida em Panorama Brasil, para filmes de destaque nacional, Panorama Infanto Juvenil, para obras voltadas a crianças e jovens, e Panorama Estadual para produções locais. Todos os filmes selecionados de Santa Catarina foram produzidos por mulheres. O estado será representado nacionalmente pelo filme “Nação Hip Hop: Cultura de rua”, de Laia Orisa.
O destaque do Panorama Santa Catarina é o curta-metragem “Desvios naturais”, da diretora e roteirista Rafaela Narciso. No filme, o personagem Valério, de 65 anos, mora em uma kombi enquanto experimenta novas sensações ao mesmo tempo que voltam memórias do seu passado. “É um filme muito sensível que tem tocado as pessoas que assistiram. ‘Desvios naturais’ tem um destaque muito grande na atuação. Eu vim da área do teatro, então é algo que eu priorizo muito”, explica a diretora.
“Quando eu estava fazendo o filme, eu não imaginava que eu conseguiria alcançar esses locais, esses diferentes festivais, ou essas premiações. Essa experiência é muito gratificante”, celebra Rafaela Narciso.
Incentivo ao cinema independente
A Mostra Sesc de Cinema valoriza o cinema independente e aceita apenas produções que não foram exibidas em cinemas comerciais ou plataformas de streaming.
A premiação por meio de contrato de licenciamento dos direitos autorais é dada para os filmes selecionados para o Panorama Brasil, o destaque do Panorama Estadual e Infantojuvenil. Os valores variam de R$ 3,5 mil até R$ 7,5 mil, dependendo da duração do filme.
O técnico de cultura do Sesc Joinville Erik Cáceres, 32, reconhece os desafios do cinema independente e afirma que um dos objetivos da mostra é conectar a população local ao conteúdo audiovisual. “Nós trabalhamos tentando fazer com que as pessoas entendam que existe uma cadeia produtiva por trás do audiovisual”, explica Erik. “É um trabalho de formiga incentivar as pessoas a consumirem o audiovisual do nosso país, do nosso estado”.
Em Joinville, o evento dura até 19 de outubro. Serão exibidos seis curtas e um longa-metragem produzidos por cineastas catarinenses. Mas, os filmes do Panorama Brasil são mostrados durante todo o ano. A programação completa pode ser verificada no site oficial do Sesc.
No vídeo abaixo, Rafaela Narciso revela os bastidores de “Desvios naturais”, destaque no Panorama Santa Catarina, e reflete sobre a resistência do cinema independente.
Cinema em Joinville vai além das salas comerciais
A história do cinema em Joinville é marcada por cinemas de rua, competitividade e tragédias. Hoje, mesmo com a presença de cinemas comerciais e a popularização dos serviços de streaming, o cinema independente também encontra espaço em Joinville.
O Cineclube Outubro é uma iniciativa que busca democratizar o acesso ao cinema e à educação midiática de forma gratuita. O site da associação dispõe de 113 filmes de livre acesso. A sede está localizada no CEU Aventureiro.
A ação promove cursos e oficinas gratuitas em escolas, universidades e espaços culturais. Ela foi reconhecida pelo governo federal e integra o Mapa Brasileiro da Educação Midiática, que identifica e dá visibilidade a projetos que promovem a capacitação para o uso crítico da informação.
A diretora de programação do Cineclube Outubro, Amanda Louise, 24, comenta a proposta do movimento. “Temos como objetivo gerar o acesso a filmes de forma gratuita, fazer que filmes fora do eixo comercial possam ser assistidos e formar um público crítico, que consiga assistir um filme e relacionar com o seu cotidiano”, afirma.
“O cineclubismo é um movimento antigo e político pelo fato de dar acesso para as pessoas que não têm a possibilidade de assistir um filme na tela grande de outra forma. Por não termos fins lucrativos, temos muita liberdade do conteúdo que vamos passar e dos debates que vamos gerar com esses conteúdos”, relata Amanda Louise.
Produzir cinema independente envolve superar desafios financeiros, recursos limitados e pouca visibilidade. Ainda sim, Michele Diniz reforça a importância do cinema para ela: “Quando eu me vejo nesse lugar, com uma câmera na mão e contando uma história, é quando eu me sinto mais realizada.”
Entre mostras, cineclubes e produções, o cinema independente encontra diferentes caminhos para chegar ao público.
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