Usina de recuperação energética entra em plena operação em Joinville
A primeira Usina de Recuperação Energética (URE) da América Latina, instalada no aterro sanitário de Joinville, entra em plena operação nesta segunda quinzena de novembro. Inaugurada em 29 setembro, a unidade deverá usar até 110 toneladas de resíduos por dia para a produção de energia elétrica. A quantidade é equivalente a 25% do lixo levado diariamente ao aterro.
A URE é resultado de uma parceria da Prefeitura de Joinville com a Ambiental, empresa responsável pela gestão de resíduos sólidos urbanos da cidade. Na unidade, os resíduos sólidos urbanos, que antes eram destinados ao aterro sanitário, são processados em combustível biossintético industrial (CBSI).
Segundo Everton Herzer, gerente de engenharia da Ambiental, os resultados do projeto seguem o prazo estabelecido até o momento. “As primeiras semanas de operação estão sendo essenciais para rodar o processo com eficiência, otimizar a rotina dos profissionais e preparar a unidade para a operação contínua e ininterrupta das duas linhas de produção”, explica.
Viabilizada pela tarifa da coleta de lixo dos joinvilenses, a unidade está instalada em uma área de sete mil metros quadrados, com investimento total de R$ 127 milhões.
Qual é o ciclo dentro da usina
Na unidade, os lixos são convertidos em combustível sólido, que ao ser submetido ao tratamento térmico gera calor. Esse calor é utilizado para produzir vapor (energia térmica) e, em seguida, energia elétrica. A URE de Joinville, por exemplo, funciona com o Ciclo Rankine, um método eficiente para a geração de energia. Esse processo transforma calor em energia mecânica e, posteriormente, em energia elétrica.
A usina será capaz de gerar 2.106 MWh/mês, o suficiente para abastecer mais de 7 mil residências. Além disso, contribuirá para aumentar a vida útil do aterro municipal em 25%.
Confira abaixo o passo a passo do ciclo
Multinacional do Chile busca parceria
Em outubro deste ano, a comitiva da empresa chilena AFS NextGen Energy visitou a URE para conhecer a tecnologia e a operação da unidade. O objetivo da multinacional, segundo a prefeitura, foi conhecer as particularidades da unidade, como os aspectos técnicos da implantação e o atendimento às regulamentações ambientais.
Para a CEO da AFS, Ingeborg Findel, diz que a ideia é criar uma parceria privada para levar essa tecnologia de tratamento de resíduos de forma ecológica do Brasil para o Chile.
“Ficamos encantados com a gestão integrada e sustentável dos resíduos. Queremos replicar o modelo da URE, principalmente nas comunidades mais vulneráveis e distantes, e que ainda não têm acesso à energia elétrica”, explica.
Alternativas mais seguras
Em contrapartida, mesmo com as promessas sustentáveis da URE, Therezinha Novais de Oliveira, engenheira sanitarista e ambiental, doutora em Engenharia de Produção na área de concentração pela UFSC, afirma que a compostagem e reciclagem são opções mais seguras, pois oferecem pouquíssimos riscos à saúde.
“Já as usinas de queima de resíduos com recuperação energética oferecem riscos no sistema, porque elas geram emissões. São riscos coletivos, não só para quem está atuando, mas também para aqueles que estão no entorno, por conta da poluição atmosférica que gera”, explica a professora e pesquisadora da Univille.
Além disso, a operação da usina depende de sistemas de controle capazes de reduzir os impactos do processo de queima. Entre eles está o lavador de gás, equipamento responsável por remover partículas, ácidos e compostos tóxicos liberados na combustão.
Nessa etapa, os gases passam por soluções líquidas que retêm esses poluentes antes de serem liberados na atmosfera. Apesar de essencial, o dispositivo exige monitoramento contínuo, pois também gera efluentes líquidos que precisam ter a qualidade verificada no ponto de lançamento e no entorno, evitando contaminação ambiental, de acordo com Therezinha.
A melhor alternativa, ainda segundo a especialista, é investir em outros processos de transformação que tragam mais benefícios ao meio ambiente e à população: “A incineração com geração energética é uma última alternativa que, se for necessário, pode ser utilizada, mas com todo o monitoramento. Os municípios precisam provar que eles têm um bom sistema de coleta seletiva e reciclagem.”
Demanda crescente na coleta de lixo em Joinville
Joinville tem implementado, segundo a prefeitura, ações estratégicas para expandir a capacidade da coleta seletiva e fortalecer a cadeia de reciclagem. São iniciativas que apostam, por exemplo, no aumento da eficiência operacional e também na formalização e fortalecimento das cooperativas e associações.
Nos últimos anos, houve um aumento na quantidade de cargas de material reciclável. Em 2022, foram contabilizadas 5.157 cargas de material reciclável, número que aumentou para 8.386 em 2023 e 11.482 em 2024. Neste ano, até setembro, foram mais de 9,2 mil cargas.
“A reestruturação da operação, em 2024, permitiu equilibrar o serviço com a demanda real da cidade, garantindo maior eficiência e cobertura. Como resultado direto dessa ampliação, a capacidade de coleta foi praticamente duplicada”, explica Marília Gasperin dos Santos, diretora da Unidade de Limpeza Urbana da Secretaria de Infraestrutura Urbana (Seinfra).
Como funciona a coleta seletiva em Joinville
O site oficial da Prefeitura de Joinville conta com orientações sobre como fazer o descarte correto dos resíduos orgânicos e recicláveis pela população e a localização dos Ecopontos.