Festa das Flores de Joinville destaca memória afetiva
Evento mostra como flores despertam afeto, lembranças e histórias entre gerações
A 85ª Festa das Flores de Joinville começa nesta terça-feira (18), na Expoville, reunindo visitantes atraídos pela diversidade das flores, mas também pelas lembranças que o evento desperta em diferentes gerações. A relação entre flores, afeto e memória se renova a cada edição, acompanhando mudanças de comportamento e diferentes públicos, desde os que visitam há décadas até os que chegam pela primeira vez.
Um exemplo dessa ponte entre passado e presente é a história de Geovana Gava, artesã de 48 anos. Uma fotografia feita durante a 58ª Festa das Flores, no fim dos anos 1990, mostra ela e uma amiga sentadas diante do lago da Expoville, com o antigo letreiro da festa ao fundo e flores amarelas ao redor. Hoje, Geovana retorna ao festival acompanhada da mãe e da filha, que agora tem a mesma idade que ela tinha na foto.
“Quando vi minha filha caminhando pelo mesmo espaço que eu ocupava anos atrás, foi como se o tempo fizesse um círculo”, conta Geovana. “A Clarice Lispector fala que ‘o que sinto eu não transmito, e o que transmito não é o que eu sinto’. E acho que as flores funcionam exatamente assim, no espaço entre o que a gente sente e o que consegue dizer”.
Ela segura a foto antiga antes de completar: “Eu tinha quase a idade que minha filha tem agora. A menina da foto ainda está aqui, só que agora com mais responsabilidades, mais cansada. Mas as flores sempre me acompanharam, seja no artesanato, na vida hippie, nas escolhas que fiz. Elas me lembram que o instante passa, mas não se perde”.

Foto: Arquivo Pessoal Geovana


/ Foto: Júlia Gava
Flores e memória afetiva segundo a psicologia
De acordo com a psicóloga Patrícia Gorski, flores despertam emoções rápidas porque ativam múltiplos sentidos. “O cheiro, as cores e até a textura fazem com que o cérebro acione lembranças profundas, muitas vezes guardadas sem que a pessoa perceba”, explica.
Patrícia afirma que flores funcionam como marcadores emocionais: “Elas carregam símbolos de cuidado, presença e afeto. Por isso, mesmo um gesto simples pode provocar emoções intensas”.
Sobre homens receberem flores, ela comenta que esse gesto tem se tornado mais comum com as mudanças sociais. Segundo a psicóloga, para muitos homens o ato de ganhar flores representa uma forma de reconhecimento emocional que raramente vivenciam, mas essa nova expressão de afeto vem ganhando mais espaço.
Homens também ganham flores
A presença masculina no universo das flores, seja comprando, presenteando ou recebendo, também reflete transformações de comportamento observadas na Festa das Flores.
Gustavo Macedo, 19, estudante de design, diz que receber flores foi algo que o marcou profundamente. Não é, segundo ele, um gesto comum entre homens e justamente por isso a lembrança permanece.
“Eu fiquei meio em choque, de verdade. Não é algo que a gente espera, sabe? Mas foi um choque bom, emocionante mesmo”, diz.
Para ele, a beleza do gesto está na delicadeza: “Você só dá um buquê quando realmente gosta da pessoa. Eu recebi de aniversário e senti um carinho enorme.”
Gustavo acrescenta que aprendeu a valorizar o instante, já que as flores não duram para sempre e talvez seja isso que torna tudo mais bonito. Foi justamente essa vontade de apreciar a beleza e a delicadeza das flores que o motivou a visitar o evento pela primeira vez este ano.


Por que as pessoas compram flores?
Para Kelvin Crisman, de São José dos Campos, florista há mais de 12 anos e herdeiro de uma família que trabalha no ramo desde os anos 2000, a compra de flores raramente é racional.
A flor fala o que a pessoa não consegue dizer, como amor, saudades, perdão, celebração. Ninguém compra só pela flor, mas pelo que ela vai representar
Kelvin Crisman, florista
Ele acredita que flores funcionam como gestos rápidos, mas poderosos. “Dar flores é entregar sentimento em forma de objeto. É um gesto simples, mas que marca momentos e transforma emoções em memória”.
O paulista pretende participar da Festa das Flores como expositor e diz estar ansioso para conhecer floristas e pessoas do país inteiro no evento.
Emoção que vem de dentro
A Festa das Flores também emociona quem vive a tradição por dentro. Marlene Avancini, orquidófila e associada da AJAO (associação responsável pela realização da Festa das Flores de Joinville), conta que já presenciou visitantes chorando na entrada da exposição. “Tem gente que se ajoelha e agradece a Deus por ver algo tão bonito. Isso faz parte da cultura da festa”.
Para ela, o evento cria vínculos que vão além das flores. Conversas, trocas de conhecimento e novas amizades surgem a cada edição. “A festa traz uma essência diferente. As pessoas se ajudam, compartilham o que sabem, e isso agrega muito no bem-viver”.
Marlene diz que muitos turistas voltam todos os anos, encantados com a singularidade da mostra, e que já saem querendo saber quando será a próxima edição.
Ao ouvir histórias como as de Marlene ou Geovana, fica claro que a Festa das Flores é mais do que um evento, é um sentimento compartilhado, que cada visitante carrega do seu jeito e que renasce a cada nova edição.


E qual é a sua melhor memória com uma flor?
Serviço
Quando: 18 a 23 de novembro de 2025
Onde: Expoville (R. XV de Novembro, 4315 – Glória, Joinville – SC, 89216-201)
Ingressos: http://festadasflores.eticketcenter.com.br/