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Falta de moradia dificulta saída de mulheres de situações de violência em Joinville

 Falta de moradia dificulta saída de mulheres de situações de violência em Joinville
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Falta de moradia dificulta saída de mulheres de situações de violência em Joinville

by Éter Morais 10 de setembro de 2026

Além da proteção contra o agressor, vítimas precisam de renda, documentos, cuidado com os filhos e apoio para reconstruir a vida

A denúncia não é o fim da história. Deixar uma situação de violência pode significar abandonar a própria casa sem saber onde será a próxima noite. Para algumas mulheres, romper com o agressor envolve também proteger os filhos, encontrar uma fonte de renda, recuperar documentos e construir uma rotina longe de quem representa ameaça. Denunciar pode ser apenas o primeiro passo de uma trajetória que ainda envolve uma pergunta básica: para onde ir depois? 

Em Joinville, existe uma estrutura pública destinada ao momento de fuga quando o caso é extremo. A Casa Abrigo Viva Rosa, serviço da Secretaria de Assistência Social, oferece proteção e moradia sigilosa para mulheres em situação de violência doméstica e familiar com risco de morte, acompanhadas ou não dos filhos. A nova sede, inaugurada em julho deste ano, tem capacidade para 24 vagas e recebeu investimento de cerca de R$ 1,8 milhão.

Segundo a Prefeitura, a unidade atendeu 63 mulheres e mais de 70 crianças e adolescentes em 2025. Isso não significa que todas tenham precisado do abrigo simultaneamente, mas mostram que o serviço recebe um fluxo que vai além da sua capacidade física em um único momento.

Para a advogada Ana Paula Nunes, que atua com casos de violência contra mulheres em Joinville, romper com o agressor não significa necessariamente encontrar proteção, o julgamento social ainda é um dos obstáculos enfrentados pelas vítimas. A mulher que decide denunciar pode continuar sendo responsabilizada pela violência que sofreu, dificultando a ruptura.

Na avaliação da advogada, também falta articulação entre os diferentes serviços de proteção. Ela cita como referência a Casa da Mulher Brasileira, modelo que reúne em um mesmo espaço serviços relacionados à denúncia, documentação, atendimento médico, busca por trabalho, transferência escolar de filhos e medidas protetivas, evitando que a vítima precise reconstruir sua história diante de diferentes órgãos. “Isso é trabalhar em rede. Isso é efetivar de fato a proteção dessa mulher”, afirma.

A moradia aparece como uma das principais dificuldades. Uma mulher que deixa a casa onde sofreu violência pode não ter renda para pagar outro aluguel, precisar cuidar dos filhos e não contar com familiares capazes de recebê-la. Por isso, a especialista defende políticas que combinem proteção e autonomia, como auxílio-aluguel, acesso ao trabalho e serviços de cuidado para os filhos.

Mulheres criam casa para acolhimento de forma independente

Durante Sarau de mulheres diversos jovens se reúnem na casa de acolhimento Elvira Boni em demonstração de apoio ao movimento

Na Ocupação Elvira Boni surgiu o Movimento de Mulheres Olga Benário. A coordenadora do movimento em Santa Catarina, Luísa Scheibe Wolff, relata que as integrantes começaram a acolher mulheres vítimas de violência que não tinham para onde ir. “Eu já cheguei a acolher na minha casa uma companheira que sofreu violência. E não é seguro isso porque o homem vem atrás”, relata.

A experiência, segundo a coordenadora, ajudou a transformar situações individuais em uma reivindicação coletiva: criar um espaço onde mulheres pudessem encontrar acolhimento quando não tivessem outro lugar para ficar.

A proposta deu origem à ocupação de um imóvel da União, na Rua Aquidaban, que o movimento pretende transformar em uma Casa de Referência da Mulher Operária. A coordenadora conta que mais de cem mulheres já passaram pelo espaço desde o início das atividades e entre 25 a 30 participam diariamente da organização.

A estrutura é mantida por trabalho voluntário e doações, sem financiamento público. Enquanto o Viva Rosa é uma política pública institucionalizada, destinada a situações de risco de morte; a Elvira Boni é uma iniciativa de movimento social ainda em estruturação que procura ajudar mulheres antes que se torne um problema maior.

Disputa judicial pela casa de acolhimento

A proposta da ocupação, porém, foi esbarrada. O prédio pertence à União e a entrada do movimento levou o caso à Justiça Federal. Após uma decisão inicial de devolver a posse para o proprietário, novas negociações passaram a discutir a permanência do grupo e a destinação do espaço.

Para o Movimento Olga Benário, o imóvel estava sem utilização e poderia cumprir uma função social como espaço de acolhimento. A posição, porém, é de discussão popular e não substitui decisão judicial sobre o caso. A preocupação do grupo é o destino das mulheres que procuram o abrigo. 

As experiências relatadas pela advogada e pela coordenadora do movimento se encontram nesse ponto. Uma fala a partir da advocacia; a outra, de um grupo que passou a acolher mulheres antes mesmo de possuir uma estrutura própria.

Ambas apontam para o mesmo intervalo: a proteção não termina com a denúncia.

A reportagem questionou a Secretaria de Assistência Social sobre a capacidade da rede, o fluxo de ocupação do Viva Rosa e os encaminhamentos realizados quando o serviço não pode acolher uma mulher. Até o fechamento desta edição, não houve resposta.

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Tags: Casa Abrigo Viva Rosa Joinville Movimento de mulheres Ocupação Elvira Boni Proteção a mulheres Segurança Pública
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