Vício em apostas online chega ao debate do Setembro Amarelo
Com gastos mensais que saltaram de menos de R$ 5 bilhões para R$ 30 bilhões em três anos, as bets passaram a aparecer nas conversas sobre saúde mental. Em Joinville, uma família relata como descobriu o problema dentro de casa, e um psicólogo clínico explica mais a fundo sobre esse vicio.
O Setembro Amarelo chega a 2026 com um fator de risco que não estava no vocabulário da campanha de prevenção ao suicídio há três anos: as apostas online. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio divulgado em abril deste ano aponta que os gastos mensais dos brasileiros com bets cresceram mais de 500% em três anos, saltando de menos de R$ 5 bilhões para R$ 30 bilhões por mês. Em Santa Catarina, segundo o Procon estadual, a compulsão por apostas já é a segunda maior causa de superendividamento entre os consumidores que o órgão atende.
O poder público começou a responder. Desde julho, portarias do Ministério da Fazenda exigem advertência sanitária nos anúncios de apostas, no mesmo modelo aplicado a cigarro e bebida alcoólica, um reconhecimento oficial de que o produto oferece risco à saúde. Para quem já adoeceu, no entanto, há uma segunda parede: a rede pública de saúde mental ainda não alcança a demanda que chegou junto.
O relato de uma família e a leitura de quem trata
Foi em um Natal que Marina entendeu o que estava acontecendo dentro da própria casa. Sentiu falta, de maneira repentina, de uma quantia em sua conta. Ao questionar o marido, ouviu uma história duvidosa que a motivou a pedir o divórcio. “Ele contou tudo e pediu ajuda, pois não estava mais se reconhecendo e não conseguia parar sozinho”, Marina relata. Fazia meses que o casal enfrentava dificuldades financeiras sem causa aparente. “Demorou muito pra eu perceber. Estávamos vivendo muito mal dentro de casa por problemas financeiros, mas não imaginava que era por conta de apostas.”
Até ali, ele era o cuidadoso do casal. “Era mais seguro nas finanças e controlava, e não ficava devendo dinheiro pra ninguém”, diz ela. Não houve tragédia anterior, nem sinal que alguém pudesse ter lido. Houve apenas um aplicativo no celular.
A conta chegou em forma de móveis vendidos e de mentiras inéditas. “Tivemos que vender coisas de dentro de casa para ir quitando as dívidas. Ele chegou a desviar dinheiro da empresa do irmão, então mentiu, coisa que nunca tinha feito, pegou dinheiro com agiota.”Vieram as crises de ansiedade e a depressão. “Gerou revolta no começo, mas eu sabia que ele não era somente aquele viciado, ele também estava perdido.”
Para o psicólogo clínico André Veridiano, que atende em Joinville, histórias assim não se explicam por falta de força de vontade. “O desenho da plataforma visa prender o usuário naquela dinâmica. Não é um jogo, a bet não é um esporte. Cada detalhe, o som, o estímulo visual, desencadeia uma reação dopaminérgica de busca por prazer imediato”, afirma. As vitórias ocasionais, diz, fazem parte do projeto: “até mesmo deixando que ele ganhe em algumas situações para que tenha a falsa ideia de que pode ganhar, quando, na verdade, não pode. A plataforma vai sempre ganhar, porque esse é o negócio deles.”
Quem chega ao consultório também não corresponde ao estereótipo do jogador. “São trabalhadores, pessoas adultas, que começam a perceber a perda da própria renda e da renda da família”, descreve. Não são pessoas com tempo ocioso: “apostam durante o horário do café, no trabalho ou no ônibus indo e voltando para casa”. Segundo ele, a compulsão pode levar a pessoa a ter ideações suicidas e a entrar em sofrimento psíquico agudo e grave, o que coloca o assunto dentro do mês da prevenção.
O atendimento que não chegou
Na família de Marina, o tratamento trouxe uma nova dificuldade. Eles procuraram o CAPS e não couberam ali: o primeiro passo eram reuniões em grupo, e ele não se sentia bem nelas. Hoje o tratamento é feito com psiquiatra, terapia e medicação particulares, pagos com ajuda dos pais dele. “O tratamento sem medicação e terapia é quase impossível”, avalia ela.
A lacuna não é impressão de uma família só. Na CPI das Bets, encerrada em junho de 2025 sem aprovação do relatório final, o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria afirmou que o SUS não tem estrutura de saúde mental para dar conta do problema, enquanto o Ministério da Saúde respondeu que vem ampliando a rede.
O relatório final da comissão, rejeitado na votação, pedia o indiciamento de 16 pessoas, entre elas influenciadores digitais que promoviam plataformas de apostas. Para Veridiano, o incentivo por trás dessa divulgação explica a sua força: “Muitos influenciadores ganharam dinheiro não com a vitória dos usuários, mas com a derrota deles: quanto mais os usuários perdiam, mais o influenciador ganhava.” Ele também vê com ceticismo as medidas de contenção. “Não vejo sentido no conceito de jogo responsável, pois não há responsabilidade por parte das plataformas de bets”, diz. E aposta em outro desfecho: “até que um dia seja proibido como foi feito com o cigarro”.
Marina conta que a família hoje se estabiliza, financeira e emocionalmente. E tem um recado para quem está começando a viver isso agora:
"Se a pessoa te contou, é porque ela já não vê saída, e é necessário dar a mão."
ONDE BUSCAR AJUDA
CVV : ligue 188, gratuito e 24 horas. Chat e e-mail em cvv.org.br
CAPS AD Joinville : Rua Dr. Plácido Olímpio de Oliveira, 1489, Anita Garibaldi (47) 3423-3367
CAPS II Nossa Casa : Rua Pernambuco, 115, Anita Garibaldi (47) 3422-7161
Unidades Básicas de Saúde : são porta de entrada da rede de saúde mental do município
Jogadores Anônimos : grupo online e gratuito, contato@grupojaonline.com.br
Autoexclusão : apostadores podem solicitar bloqueio nas plataformas regulamentadas
Nota de transparência: os nomes da família foram alterados a pedido da fonte. Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas na organização do material apurado e na revisão, sob supervisão e responsabilidade editorial da autora. A apuração, as entrevistas e a checagem das informações foram feitas por jornalista. Foto retirada de banco de imagens.